Literatura: “Frankito em chamas”, de Matheus Borges, é um romance reflexivo

texto de Gabriel Pinheiro

Um roteirista se vê num país estrangeiro, acompanhando o set de filmagem do filme que escreveu. De antemão, não há um papel mais prático para a sua presença ali, além de observar, vivenciar mesmo os bastidores da obra. “Aves migrantes” é um filme que, segundo define uma das integrantes da produção em certo ponto da narrativa, “se tratava de um homem solitário que, não sabendo mais onde ficava seu verdadeiro lar, voltava-se para o lugar de origem e suas memórias”.

Entre o quarto de hotel no litoral uruguaio e a agenda de filmagem, Felipe desenvolve diferentes laços, ora frágeis, ora mais substanciais, com certa miríade de personagens. Atores, técnicos, produtores, o diretor, um dublê – Frankito, uma verdadeira figura, nos múltiplos sentidos que essa palavra pode carregar. Se um roteiro é filmado frente às câmeras, outro parece se descortinar nos bastidores – e o roteirista se vê cada vez mais imerso tanto em um, quanto no outro.

É preciso falar sobre Frankito, uma figura interessantíssima, um dublê simpático e enigmático que se joga de alturas inimagináveis, para, na sequência, retornar ao ponto inicial e saltar novamente. “Quando se esborrachou da segunda vez, não foi recebido com silêncio e pavor, mas com uma efusiva saraivada de aplausos”. Quanto mais Felipe observa Frankito, mas hipnotizado fica.

Frankito em chamas” (2025), segundo romance de Matheus Borges, é um romance reflexivo. A passagem do tempo, os relacionamentos contemporâneos, a solidão e o amadurecimento são alguns dos temas com os quais o texto de Matheus Borges lida. Se um filme é produzido dentro da narrativa, esse não é colocado como mero espelhamento do romance – saberemos pouco mais sobre “Aves migrantes” do que aquela breve descrição no início deste texto. Matheus Borges foge de espelhamentos óbvios, brincando de maneira original com certos reflexos – distorcidos, fraturados.

Se parece manter certa cadência da narrativa ao longo da leitura – mais contemplativo, mas com o senso de humor característico de Borges – “Frankito em chamas” altera a rota de seu terço final. Num crescente que não hesita em abraçar o estranho, o inexplicável, o bizarro – Matheus escreve aqui uma das cenas mais deliciosamente gore em que tropecei na literatura brasileira contemporânea – e, por que não, a completa incerteza. E talvez esteja justamente nessa falta de certeza o segredo. E não digo isso apenas sobre o romance. “Existem respostas certas e existem respostas erradas. Existem respostas erradas que parecem acertos e existem respostas certas que revelam o erro.”

– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel

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