Entrevista: “Nunca me canso de tocar ‘Two Princes’”, diz Aaron Comess (Spin Doctors)

entrevista de Bruno Capelas

Todos os dias, bilhões de pessoas repetem tarefas em seus trabalhos – preparar refeições, limpar o chão, preencher planilhas, fazer relatórios que ninguém vai ler. É o tipo de coisa que frustra muita gente pelo mundo afora. Baterista do Spin Doctors, Aaron Comess também faz uma mesma tarefa constantemente: abre a contagem, faz uma virada de bateria e dá a senha para que o vocalista Chris Barron cante os versos que levam multidões para uma máquina do tempo: “If you wanna call me baby, just go ahead now”. Mas, ao contrário de trabalhadores frustrados, o operário da canção Comess não se importa em tocar “Two Princes” todas as noites em que sobe ao palco.

“Nunca me canso de tocar essa música, nem ‘Little Miss Can’t Be Wrong’”, diz o baterista, em referência ao outro hit do grupo noventista. “Sabe, essas canções nos mantiveram vivos. Eu não voltaria ao Brasil trinta anos depois se não fosse por elas. Além de tudo, somos uma banda de improvisação, o que ajuda a manter as coisas sempre frescas.” Em abril, os brasileiros poderão conferir se o hit dos anos 1990 ainda soa como novo ou virou um sapo: após abrir os shows dos Rolling Stones em 1995, os americanos retornam depois de 31 anos para uma turnê por diversas capitais.

Juntos, Comess, Barron, o baixista Jack Daley e o guitarrista Eric Schenkman farão quatro paradas por aqui: no Rio (22/4, Fundição Progresso) e em Belo Horizonte (30/4, Befly Hall), eles tocarão ao lado dos amigos do Smash Mouth. Já em São Paulo (25/4, Arena Anhembi) e Curitiba (26/4, Expotrade Pinhais), as duas bandas farão parte da programação do Somos Rock Festival, que terá ainda o Candlebox, o Echo and the Bunnymen e uma porção de grupos do rock nacional. A expectativa de Comess? Que os shows sejam melhores que o da primeira passagem do grupo pelo Brasil.

“Um dos shows que nós tivemos aí [com os Stones] foi muito difícil. Estava chovendo muito, muito mesmo. Lembro que as pessoas atiravam garrafas em nós, lembro do Chris desviando do que estavam atirando na gente. Felizmente, eu estava mais seguro lá no fundo, atrás da bateria”, comenta o baterista, que diz não ter nenhum ressentimento. “Quando você abre para uma banda como os Stones, você precisa saber lidar com as coisas. Lembro de passar ótimos dias no Brasil: as pessoas eram legais, a comida era ótima e a música era incrível”, complementa ele, que quer muito fazer jams com músicos locais.

Além dos hits dos anos 1990, o Spin Doctors também traz na mala as canções do mais recente trabalho “Face Full of Cake”. Lançado em 2025, o disco encerrou 12 anos de hiato e trouxe uma nova formação para o grupo, com a chegada do baixista Jack Daley substituindo o membro original Mark White – ativista de extrema-direita, White disse ter sido demitido da banda por se recusar a ser vacinado contra a covid-19. Comess contemporiza o tema, dizendo que segue em contato com o amigo, mas prefere ressaltar as qualidades do substituto. “Temos muita sorte: Jack tocou com o Lenny Kravitz por mais de quinze anos e fez muita coisa bacana nas últimas décadas”, diz.

Ao Scream & Yell, Comess conta mais sobre o trabalho recente, gestado durante a pandemia, ao mesmo tempo em que revela histórias dos anos 1990 sobre a convivência com Keith Richards e Ron Wood na “sala de afinação” dos Stones. “Preciso dizer que não vi ninguém afinando nada por lá”, brinca. Ele também elege seus bateristas favoritos da vida, elogia o Geese e dá um conselho aos músicos iniciantes. “A cena de música ao vivo nunca esteve tão forte. Você precisa sair de casa e fazer turnês”, diz. Ou seja: “just go ahead now!”

Para começar, Aaron, queria lembrar da primeira vez que o Spin Doctors veio ao Brasil. Foi em 1995, quando vocês abriram para os Rolling Stones no Rio e em São Paulo. O que você lembra daquela viagem?
Foi incrível, cara. Antes de tudo, abrir para os Stones, sabe? Foi uma experiência incrível. E lembro de passar ótimos dias aí no Brasil. As pessoas eram muito legais e bonitas, a comida era ótima, a música era incrível. Como baterista, fiquei impressionado como todo mundo aí tem ritmo. Parece que é algo de sangue, é impressionante. E ainda tive tempo de tocar com alguns músicos locais, foi excelente.

Vocês estavam abrindo os shows dos Stones em toda a turnê da época, não apenas no Brasil. Como surgiu esse convite?
Bem, eles são conhecidos por escolher bandas populares para tocar com eles. Fizemos uma série de shows na turnê Voodoo Lounge nos EUA e no Canadá, bem como aí na América do Sul. Um dia recebemos uma ligação do nosso agente e ele disse que o agente dos Stones perguntou se queríamos abrir alguns shows. Por que não, né? (risos). Eles foram muito legais conosco. Eram caras muito acessíveis, muito tranquilos. E para nós foi uma onda e tanto. Caramba, cara, são os Rolling Stones, uma das minhas bandas favoritas da vida. Foi uma grande honra.

Imagino que você tenha histórias boas pra contar pros netos.
Só de conhecê-los já foi incrível. Sabe, eu pude conhecer o Charlie Watts, um cara de muita classe. Ele estava sempre de terno! Lembro que o encontrei no lobby do hotel em São Paulo e ele adorava sair para fazer compras, sempre comprando um terno novo. Outra coisa que me lembro bem é que já tínhamos feito uns dois ou três shows com eles nos EUA, mas sempre acabávamos de tocar e íamos pro nosso camarim. Aí o produtor do Keith Richards chegou para nós e disse: “o Keith queria conhecer vocês”. Ele nos levou até à chamada “sala de afinação”, onde ele e Ron Wood passavam um tempão. Havia um bar e muitas, muitas guitarras. Era onde eles se concentravam antes dos shows, tinha uma vibe legal. Cheguei lá e Keith perguntou se eu queria uma Guinness, uma vodka com laranja ou algo assim. Foi um sonho que virou realidade, sabe.

Já ouvi dizer que a sala de afinação não é usada para as guitarras…
É, preciso dizer que não vi ninguém afinando nada por lá. (risos)

Lendo os jornais da época sobre a vinda de vocês, encontrei uma reportagem sobre vocês terem feito uma jam com músicos brasileiros. Como foi?
Foi demais! Espero que tenhamos tempo de fazer isso de novo. Não lembro exatamente como aconteceu, mas acho que alguém me levou até uma casa de shows, pudemos tocar com alguns músicos brasileiros. E lembro também de participar do show de uma banda em algumas músicas. Sabe, eu sempre quero aprender mais sobre qualquer estilo de música que eu possa conhecer – e eu adoro música brasileira. Espero que me levem de novo para fazer algo assim.

(Nota da redação: de acordo com reportagem de Marcel Plasse na Folha de S. Paulo, Comess e o guitarrista Anthony Crizan tocaram com membros dos grupos Heartbreakers, Mistura e Manda e Barão Vermelho no finado Blen Blen, em Pinheiros, numa jam que durou quase três horas. O repertório incluiu “temas de Raul de Barros, de Dorival Caymmi, João Donato e Maurício Einhorn, além de improvisos de salsa, funk e jazz”, segundo Plasse).

Espero que te levem também para tomar algumas caipirinhas.
Caipirinha? O que é isso?

É uma bebida brasileira, feita com limão e cachaça.
Aaaah, claro! Com certeza! (risos)

Também nessa pesquisa de jornais da época, vi várias resenhas falando que o público dos Stones não recebeu os Spin Doctors muito bem. É verdade?
Um dos shows que nós tivemos aí foi muito difícil. Foi um dos maiores públicos da história dentro de um estádio, acho até que foi parar no Guinness Book. Era uma noite em que estava chovendo muito, muito mesmo. Lembro que as pessoas atiravam garrafas em nós, lembro do Chris [Barron] desviando do que estavam atirando na gente. Felizmente, eu estava mais seguro lá no fundo, atrás da bateria. É difícil. Na maior parte dos dias, os shows como os Stones foram muito bem, as pessoas foram muito receptivas. Mas lembro que nesse show resolveram tacar tudo na gente, não sei porquê. Ok, sei que sempre pode ter alguém que não queria ver a gente…

Algum ressentimento?
Claro que não, cara. Claro que não. Quando você abre para uma banda como os Stones, você precisa saber lidar com as coisas – especialmente no estrangeiro. Nos EUA, é mais fácil, acho que o cenário era um pouco mais familiar para nós. A maioria dos shows no Brasil foram legais, mas esse… não foi nada bom. E acho que foi sobre esse show que você leu a cobertura.

Imagino que tenha sido o primeiro show de vocês aqui – e também o dos Stones, então as pessoas estavam ansiosas. Meus pais estavam na plateia, mas acho que eles não jogaram garrafas…
Espero que não. Faz parte!

São mais de trinta anos entre essa primeira turnê e os shows que vocês vão fazer agora em São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Curitiba. Qual é a expectativa? E como o tempo mudou o Spin Doctors?
Nossa expectativa é que os shows sejam realmente bons. Sabe, faz trinta anos, então estamos animados para voltar. Ainda mais porque teremos shows em festivais, ao lado de amigos como o Smash Mouth. É interessante: nós tocamos muito aqui nos EUA nos últimos anos. Notamos que há um novo interesse pela nossa banda, por muitas bandas dos anos 1990. Há uma geração toda de pessoas mais novas que conhecem nossa música e acabam indo nos ver. Espero que o mesmo aconteça no Brasil, acho que teremos uma boa diversidade etária. E estou com os dedos cruzados para que os shows sejam bons! O que sei é que estamos soando como nunca antes. Lançamos um disco no ano passado (“Face Full Of Cake”), que é bem bom, mas claro que não deixaremos de tocar as antigas. Espero que todos gostem!

Sei que você é o responsável por criar os setlists do Spin Doctors. Como lidar com essa tarefa?
Antes de tudo, é preciso saber quanto tempo vamos tocar. Se é nosso show solo ou se somos os headliners, tocamos entre 90 e 120 minutos. Se é um festival com várias bandas, talvez tenhamos uma hora – o que deve ser o caso aí no Brasil. Nesse cenário, eu crio um setlist em que obviamente tocamos os hits. Nós vamos tocar as músicas que as pessoas esperam que toquemos. Mas no meio disso, vamos temperar o repertório com algumas músicas novas e outras canções de “Pocket Full of Kryptonite” que não foram hits. Sempre tentamos fazer algo diferente toda noite, para agradar quem vai a mais de um show. Mas sempre vamos tocar “Jimmy Olsen’s Blues”, “Little Miss Can’t Be Wrong” e, claro, “Two Princes”. Outra coisa que começamos a fazer é tocar alguns covers – e provavelmente vamos tocar “Purple Rain”, do Prince. É uma canção incrível, tão icônica. Nós começamos a tocá-la depois de participar de um canal no YouTube que dá algumas horas para uma banda recriar um hit. Nosso desafio foi fazer essa música – e foi muito difícil. Acho que nunca escolheríamos “Purple Rain” de partida, mas não queríamos estragar a música. Acabou dando tão certo que começamos a tocá-la ao vivo.

Como é tocar “Two Princes” e “Little Miss Can’t Be Wrong” em praticamente todas as noites que você está no palco?
Eu adoro. Sabe, essas canções nos mantiveram vivos. Eu não voltaria ao Brasil trinta anos depois se não fosse por essas músicas. São grandes músicas e adoramos tocá-las, sempre é divertido. Claro: nós respeitamos a música, mas somos uma banda de improvisação, o que ajuda a manter as coisas sempre frescas. Nunca me canso de tocar essas músicas. Só quero que elas soem melhores a cada noite. E é muito bom ouvir as pessoas cantando!

Vamos falar de “Face Full of Cake”, o disco mais recente do Spin Doctors. Quais são as diferenças entre ele e “Pocket Full of Kryptonite”. O que motivou vocês a gravar um disco depois de 12 anos sem inéditas?
É verdade: fazia um tempo que não lançávamos algo novo. Nós adoramos escrever músicas – isso é o que as bandas fazem! Começamos a escrever na pandemia, porque não estávamos em turnê. Estávamos bem aborrecidos, para falar a verdade, e começamos a testar ideias. Em algum tempo, conseguimos reunir um conjunto de músicas bacanas. Nesse ínterim, as coisas já tinham melhorado um pouco e nós conseguimos voltar para a estrada. Era muito difícil: havia testes, havia máscaras, havia lugares em que não se podia ir. Quando finalmente conseguimos nos juntar, resolvemos começar a fazer algumas demos, sem pressão. Fomos para o estúdio do Jack [Daley], nosso baixista que tem um estúdio incrível em Asbury Park, em Nova Jersey. E as coisas começaram a dar certo. É engraçado: com os Spin Doctors, já aprendi que, se colocarmos muita pressão, tudo pode ir por água abaixo. Nossos melhores momentos acontecem de forma bem tranquila, orgânica. Em algumas semanas, percebemos que tínhamos mais que demos, tínhamos um disco. É um disco que amamos. Nesse ponto da minha carreira e nessa fase da indústria fonográfica, não acho que dê para dizer que um disco seja bem-sucedido baseado nas vendas. É diferente: ninguém compra mais discos, é só streaming ou algo assim. Mas sei que temos um bom disco porque temos três ou quatro músicas que funcionam bem no nosso repertório. Duas delas praticamente não saem do nosso setlist: “Still a Gorilla” e “Rock’n Roll Heaven”. Sei que elas nos deram uma nova vida e que vamos tocá-las no Brasil.

 

Uma das novas músicas se chama “I Liked You Better When Your Butt Was Big” (“eu gostava mais de você quando sua bunda era grande”, em tradução literal). Como… surgiu essa música?
É uma boa música! Foi uma das primeiras letras que Chris escreveu para esse disco novo. Ele é um letrista sério, às vezes meio sarcástico, mas ele também não tem medo de escrever letras bobas como essa. Nós gostamos de músicas sobre bundas grandes, temos uma outra chamada “Big Fat Funky Booty”. Somos totalmente a favor de bundas grandes.

Tal como Sir Mix-A-Lot, vocês gostam de bundas grandes e não mentem sobre isso.
Exatamente! (risos). É uma música que devíamos tocar! Bem, Chris tinha essa letra e sabíamos que precisávamos usá-la. Eu, ele e Eric estávamos fazendo uma jam, começamos um groove e quando vimos, tínhamos a canção feita em cinco minutos.

O novo disco também conta com um novo baixista, Jack Daley. Ele entrou depois da saída de Mark White, que estava com vocês desde o começo. Por que Mark saiu?
As coisas acontecem, cara. As pessoas entram e saem das bandas. O Eric saiu em 1994, o Mark chegou a sair da banda em 1999. Depois, os dois voltaram, agora o Mark saiu de novo. Mas estamos bem, não brigamos, nos mantemos em contato. E temos sorte: Jack Daley é um baixista incrível. Ele tocou com o Lenny Kravitz nos anos 1990 e 2000, fez muita coisa bacana nas últimas décadas. Tocamos com ele várias vezes e ele foi uma escolha óbvia. Acho que, no fim das contas, tudo funcionou bem.

Achei interessante o que você falou sobre a sua percepção de sucesso. “Pocket Full of Kryptonite” não foi um sucesso instantâneo. Foi um disco que demorou para ganhar tração, seja com o rádio ou com a MTV. Uma história dessas seria possível hoje? Como você vê a indústria fonográfica hoje em dia?
Acho que seria totalmente possível. Sabe, há uma multidão de artistas que vieram do nada como nós e chegam ao sucesso. Ao mesmo tempo, é totalmente diferente agora. Os anos 1990 eram ótimos para ter uma banda: por mais que fosse difícil, havia rádios, havia a MTV, o rock estava na moda. Ou seja, as rádios queriam saber de nós e a MTV garantia uma grande exposição. Nós tivemos sorte de pegar aquela onda. Acho que as coisas estão mais difíceis para as bandas de rock, mas há uma multidão de gente interessada em música no mundo – e a cena de música ao vivo nunca foi tão forte. Ou seja: como sempre, você precisa sair de casa e fazer turnês. É o que nós fizemos. Nós tínhamos de convencer a gravadora a fazer qualquer coisa por nós, mas tocando por aí conseguimos conquistar uma base de fãs antes mesmo de estarmos no rádio. É claro que as redes sociais podem ajudar, elas são válidas, mas não há nada como se conectar com as pessoas ao vivo. É fácil ser pessimista, mas acho que vivemos uma boa era para a música.

O que você está ouvindo agora?
Eu normalmente escuto música mais antiga, para ser sincero. Sou um grande fã de jazz, amo Miles Davis, Coltrane e todas essas coisas. Também passo bastante tempo ouvindo Stones, Zeppelin, The Band. Acho que eu não conseguiria te dar uma lista de coisas novas para ouvir agora, mas estou sempre expandindo meus horizontes. Vi recentemente um vídeo do Geese, fiquei bem entusiasmado com eles. São caras super criativos, eles fazem música de verdade. E eles mostram algo bom da nossa era: antigamente, a menos que você fosse super cult, era preciso ter um hit [para tocar na TV]. Hoje, não: é possível ver uma banda como o Geese tocando essa música cool, meio obscura, em um programa como o “Saturday Night Live”. Para mim, isso é super encorajador!

Nosso tempo está acabando, mas antes preciso fazer uma última pergunta. Quais são os seus cinco bateristas favoritos de todos os tempos?
Hmmm, me deixe pensar. John Bonham, Tony Williams, Bernard Purdie, Elvin Jones e Steve Gadd. Tenho uma longa lista, mas definitivamente acho que esses são os principais.

Para fechar, alguma mensagem para os brasileiros?
Mal posso esperar para tocar aí de novo. Por favor, venham ao show. E vamos tocar! Quero muito fazer uma jam por aí.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista. Apresenta o Programa de Indie e escreve a newsletter Meus Discos, Meus Drinks e Nada Mais. Colabora com o Scream & Yell desde 2010.



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