Literatura: Em “Debaixo da nossa pele”, Joaquim Arena entrelaça reportagem, ficção, relato de viagem e ensaio

texto de Gabriel Pinheiro

Uma conferência em Lisboa, centrada no quadro quinhentista “Chafariz d’el Rei”, leva o escritor cabo-verdiano Joaquim Arena a partir numa viagem tanto física quanto simbólica pela geografia e pela história portuguesa. Uma história marcada pela presença negra na constituição de uma identidade nacional que atravessa séculos, dos primeiros homens e mulheres que desembarcaram ali presos a grilhões nos pés, aos intensos fluxos migratórios que atravessaram o século XX e seguem na contemporaneidade.

O quadro, uma bucólica cena de rua, chama atenção pela grande quantidade de figuras negras retratadas, homens e mulheres numa Lisboa entre 1570 e 1580, resultando em uma obra “com um valor documental inigualável, contendo gestos e os passos de um povo (in)visível transpostos para a posteridade”. “Debaixo da nossa pele” é o novo livro do autor cabo-verdiano Joaquim Arena publicado no Brasil pela Gryphus Editora.

Partindo de uma profunda pesquisa histórica e uma viagem pelo interior de Portugal, “Debaixo da nossa pele” resgata figuras e acontecimentos esquecidos por certa história oficial, não só em solo português, mas no continente europeu e seu histórico colonialista. Assim, uma série de personagens históricos ganham corpo na prosa de Joaquim Arena. “O manto do esquecimento levantado pelo milagre da literatura”, ele diz em certo momento do texto, numa definição cristalina daquilo o que o seu trabalho alcança nesse livro especialíssimo.

“Debaixo da nossa pele” toma parte de diferentes gêneros e estilos para sua construção textual. Joaquim Arena entrelaça a reportagem jornalística à ficção, o relato de viagem ao ensaio. E, ainda, um forte gesto autobiográfico, resgatando uma história familiar – sobretudo na figura do padrasto – em diálogo com os diferentes personagens históricos que povoam a narrativa.

Uma verdadeira viagem literária, que atravessa séculos em direção ao presente, “Debaixo da nossa pele” promove uma cartografia afetiva e memorial da cultura e da presença negra num país, num continente e numa História – com H maiúsculo – que insiste em negá-la. Nas entrelinhas da história, há um mundo a ser (re)descoberto. “E na pena do escritor transformam-se no sublime ato revolucionário da literatura que é o de perturbar a realidade, refazendo-a, pois no íntimo ninguém dúvida em como esta está inquinada de erros grosseiros e paradoxais”.

– Gabriel Pinheiro é jornalista. Escreve sobre suas leituras também no Instagram: @tgpgabriel



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