Crítica: Nem o charme exalado por Glen Powell e Margaret Qualley salva “Manual Prático da Vingança Lucrativa”

texto de Leandro Luz

Nem o charme exalado por estrelas do momento como o ator Glen Powell e a atriz Margaret Qualley é capaz de maquiar a dificuldade com a qual John Patton Ford, diretor e roteirista de “Manual Prático da Vingança Lucrativa” (“How to Make a Killing, 2026), enfrenta para manter de pé a sua incursão satírica – e por vezes aborrecida – pelo mundo dos ricos e inescrupulosos. O filme é inspirado na comédia “As Oito Vítimas” (“Kind Hearts and Coronets”, 1949), dirigida por Robert Hamer – que por sua vez era inspirada em um romance escrito por Roy Horniman na primeira década do século XX – e oriunda das produções da Ealing Studios, empresa baseada em Londres e responsável pelo que posteriormente ficaram conhecidas as “Ealing comedies”: em suma, obras produzidas pelo estúdio de 1947 a 1957 que evidenciam o ambiente britânico daquele pós-guerra.

Mais do que uma simples inspiração, o filme de Ford é basicamente uma releitura da obra-prima de 1949, que tinha um ótimo Dennis Price como protagonista – um homem obstinado a reivindicar a fortuna de sua família, negada em função da deserção de sua mãe – e um brilhante Alec Guinness interpretando não menos do que oito personagens (as “oito vítimas” do título). O filme de Hamer é marcante por muitas razões, sendo a primeira delas a maneira como é conduzido com maestria a partir da lógica do cinema clássico. Assista e compare, por exemplo, com o “Cidadão Kane” (“Citzen Kane”, 1941) de Orson Welles, sobretudo em virtude do uso da profundidade de campo, da precisão nas composições e nos enquadramentos, da montagem inteligente e da narrativa construída em flashbacks.

 

Outro fator que faz de “As Oito Vítimas” uma obra digna de constar em diversas listas que elencam os maiores filmes britânicos de todos os tempos é como o diretor consegue encontrar o tom certo para apresentar, desenvolver e concluir a trajetória de uma personagem ambígua: o pobre menino que decide, quase por acaso, assassinar toda a família para herdar o que ele considera que lhe é de direito. Para que tal empreitada seja bem sucedida, é necessário que o cineasta entenda a necessidade de plantar sentimentos também ambíguos na cabeça do espectador. É imprescindível algumas doses de simpatia, mas sem exageros. Afinal de contas, se trata de um crime, que mesmo lido sob uma chave cômica detém o seu quinhão de imoralidade.

Se o início deste texto se debruça excessivamente nas origens de “Manual Prático da Vingança Lucrativa”, é porque a nova versão pouco faz jus a sua maior inspiração. Aqui, Glen Powell interpreta Becket, criado pela mãe viúva em Nova Jersey, que se torna adulto e leva uma vida humilde, trabalhadora, enquanto a família Redfellow, cuja mansão se encontra no coração de Nova York, se refestela em virtude de sua riqueza. Becket foi ensinado pela própria mãe que o conforto e a tranquilidade proporcionados pelo dinheiro foram ceifados de suas suas vidas pelo patriarca da família, Whitelaw Redfellow / Ed Harris. Durante a infância, Beckett conhece Julia / Margeret Qualley, menina rica que imediatamente inspira uma forte e duradoura paixão platônica, simbolizada por um tufo dos cabelos dela mantidos em uma medalha que ele carrega para tudo quanto é lado, como se fosse um lembrete de que só o dinheiro é capaz de fazê-lo conquistar qualquer coisa de relevante na vida. Um erro crasso que o filme se exime de debater até o fim.

É a partir de um encontro inesperado com Julia – e de uma sugestão despropositada da moça -, já na vida adulta, que Beckett começará a arquitetar uma série de planos mirabolantes para assassinar os membros de sua família, incluindo alguns primos hedonistas e outros tios e tias inescrupulosos. Ruth / Jessica Henwick, namorada de um dos primos, entrará em sua vida para trazer algum grau de complexidade à trama por meio da consciência de Beckett, mas o filme pouco aproveita essa oportunidade. Ao invés disso, Ford se concentra em filmar os assassinatos um por um (nenhum deles memorável o suficiente), auxiliado por uma montagem veloz e uma trilha sonora genérica (não as composições originais assinadas por Emile Mosseri, que são interessantes, mas as canções selecionadas – à exceção da ótima “Take Me Back to Piauí”, de Juca Chaves, que surge bem no finalzinho do filme).

Powell confia demais em seu carisma e repete os mesmos cacoetes de sempre: o sorrisinho maroto e a maneira sedutora com a qual emoldura praticamente todas as suas falas. Se na parceria com Richard Linklater em “Assassino por Acaso” (“Hit Man”, 2023) a sua persona encaixava muito bem e trazia frescor e consistência para uma narrativa despretensiosa, aqui fica evidente que a sua escolha para o papel do protagonista tem mais a ver com o seu nome do que com o seu talento. E a mesma coisa serve para Margaret Qualley, que parece relacionada a esse projeto apenas por estar na crista da onda de Hollywood, incapaz de trazer alguma nuance para a sua personagem – sexy, interesseira e só.

Nada contra clichês, sobretudo em filmes desse tipo, feitos sob medida para conquistar o público por meio de suas estrelas e de uma narrativa ágil e fácil de acompanhar, mas bem que “Manual Prático da Vingança Lucrativa”, além de carecer de um título melhor em português, poderia exalar um pouquinho menos o cheiro de comida requentada. E a maior contradição de todas, claro: ao mesmo tempo que incita desprezo aos ricos, o filme de John Patton Ford afirma o tempo todo que a única solução é se tornar um deles. Vai entender.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É BrasilPlano-Sequência e 1 disco, 1 filme.



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