por Homero Pivotto Jr.
Passou o Carnaval, começou o ano – dizem por aí. A verdade é que a correria nunca para, embora às vezes isso não seja visivelmente aparente. Porém, a impressão é de que, a partir de março, as demandas da vida (principalmente profissionais e/ou culturais) tendem a fluir com mais facilidade. No universo da música, por exemplo, os lançamentos voltam a ganhar mais frequência e velocidade, e o público retoma o interesse que talvez tenha sido preterido pela época do ano (com festas, praia, férias, estafa, calor…).
Nesta nossa tradicional coluna do Novo Rock Gaúcho no Scream & Yell, como de costume, destacamos novidades recentes da produção autoral de sons do estado mais ao sul do Brasil.
– “Saudade”, de Marinas Found – A Marinas Found lançou seu terceiro álbum de estúdio, “Saudade“, que conta com a participação especial de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish, em um encontro que simboliza a conexão entre diferentes gerações do hardcore melódico brasileiro. Concebido durante a pandemia, o trabalho reflete sobre experiências de transição, angústia, conflitos, alegrias, memórias e amadurecimento em um caldeirão que pretende mirar um futuro otimista para jovens adultos em passagem para fases mais maduras da vida.
Marca registrada do quarteto de Pelotas (região Sul do RS), o contraste entre sonoridade pesada e estética vibrante ganha ainda mais força em “Saudade”. O registro equilibra vulnerabilidade e crítica, honestidade e sensibilidade, sem abrir mão da intensidade. Essa abordagem confere ao hardcore melódico do grupo uma dimensão única, na qual intensidade e emoção coexistem, abrindo espaço para influências do punk, do rock, do alternativo, do pop e do emo. O álbum conta com 12 faixas e conduz o ouvinte por uma jornada que vai do chão ao céu, reforçando o caráter emocional e narrativo do trabalho.
Sobre o título da obra, o vocalista Pedro Soler elucida: “‘Saudade’ surgiu ainda durante a pandemia, num momento em que a banda, hoje entre os 20 e 30 anos, começou a perceber que algumas coisas iam ficando para trás. A rotina, os compromissos e o próprio passar do tempo foram criando distâncias inevitáveis. A música reflete a saudade de um tempo mais ingênuo e espontâneo, não necessariamente ligado à juventude, mas a uma forma mais leve de estar no mundo. Mais do que algo que paralisa ou entristece, “Saudade” aparece como uma tentativa de reconciliação com o que foi esquecido ao longo do caminho, uma força feliz e criativa, capaz de gerar algo novo tão bonito quanto aquilo que já existiu”.
– “Os Desencontros”, Rooster – Quarteto punk rock de Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre, a Rooster liberou “Os Desencontros”, primeiro single da banda em 2026. A faixa foi gravada Hill Valley Studio com produção é de Davi Pacote (Os Torto).
– “Pra Domingo”, Vá – Formada em Canoas, região metropolitana de Porto Alegre, a Vá é uma banda de indie rock, com influências de progressivo de malandro (aquele com intenção de colocar swing e malemolência na técnica) e MPB. Os caras disponibilizaram um registro audiovisual apresentando quatro músicas gravadas ao vivo em 2024 no Estúdio Trilha em Sapucaia do Sul.
“Pra domingo” transmite uma experiência imersiva, coletiva e orgânica a partir da música, artes visuais e performance, explorando a intersecção entre som e imagem por meio de uma instalação cenográfica abstrata e fragmentada.
Sarah Escanhuella, artista visual, transformou o estúdio em uma paisagem onírica, a parede virou uma instalação, uma escultura feita de cartolina, espuma, papéis, tecidos, TNT e luzes e projeções que pulsam e alternam as cores conforme o clima de cada canção. Além de assinar como cenógrafa, Sarah também foi responsável pela direção do projeto, direção de arte, roteiro e projeto gráfico.
A produção executiva é de Wender Zanon. Já a captação de vídeo, direção de cena e edição do material é de Bianca Ventorini. Vinícius Angeli é o fotógrafo responsável pelo material promocional e fotos de bastidores. A gravação rolou com todos os instrumentos tocados ao mesmo tempo em um take só. A captação, mix e master são assinadas por Rodrigo Rsydyk.
– “All that’s Left”, Demure – O primeiro álbum de estúdio da Demure, trio pop punk de Rio Grande (sul do RS), reúne 10 faixas que mergulham em temas como nostalgia, amores de verão, amizades perdidas e memórias que insistem em sobreviver ao tempo. De acordo com o vocalista e baixista, Guilherme “Guiga” Alonso, o disco funciona como uma cápsula do tempo emocional. Segundo o grupo, as composições dialogam entre o pop punk 2000 e o garage rock noventista.
“A ideia desse trabalho nasceu do desejo de revisitar e dar vida para composições antigas que estavam guardadas. Músicas escritas ao longo dos últimos anos que permaneciam engavetadas ganharam novo significado dentro de um conceito maior. Daí o título, que em português poderia ser traduzido para ‘tudo que sobrou’. São músicas que falam sobre tudo aquilo que resta quando ciclos se encerram”, destaca o músico.
– “Engenharia Reversa da Desgraça”, Troll – Quarteto de metal groovado porto-alegrense, a Troll entrou 2026 com o pé na porta ao lançar seu primeiro álbum “Engenharia Reversa da Desgraça”. O trabalho aborda as falhas humanas e suas consequências diretas, estabelecendo uma crítica à exploração excessiva da natureza em nome do dinheiro e do lucro. O conceito do disco parte da ideia de que o ser humano não está separado do meio natural, mas é parte integrante dele — e que o desequilíbrio dessa relação cobra seu preço.
Sonoramente, o trabalho se sustenta em riffs pesados, grooves marcantes e uma estética crua, mesclando influências de industrial metal, hardcore e metal brasileiro, resultando em um som denso, direto e visceral, cantado integralmente em português. As composições foram desenvolvidas entre janeiro e fevereiro de 2025. As gravações de baterias e vocais aconteceram em junho de 2025 no estúdio FromHellCords, sob produção do produtor gaúcho Henrique Fioravante. Em agosto de 2025, o processo de gravação das cordas foi finalizado por Bodão Arte Nula, guitarrista da banda. Em novembro de 2025, o álbum foi editado, mixado e masterizado por Bodão Arte Nula, concluindo um trabalho totalmente independente e autoral.
– “A Volta dos que Não Foram”, Onda Sul – Primeiro EP do trio Onda Sul, de Santa Maria. Lançado em fevereiro deste ano, o trabalho foi gravado em dezembro de 2025 e traz cinco músicas.
A captação da bateria foi realizada com o André Correa (guitarrista da Rampantes, Making of etc.) Já baixo, guitarras e vocais foram registrados no estúdio da própria Onda Sul com captação de Enrique Bauer. A edição das músicas ficou por conta de André Correa. Pra finalizar, a mixagem e masterização é assinada por Lucas Guerra (ex-vocalista da banda Pense HC, atual frontman da Bullet Bane e Colid). A capa do EP ficou por conta do Zeca. A banda está com a pré-produção pronta do futuro álbum com 14 músicas que deve sair até o meio do ano.
– “Perante o Sol”, Mamute – “Através de um véu de distorção e grooves hipnóticos que a Mamute Stoner, trio de Santa Maria (centro do RS) formado em 2024, convoca os ouvintes a uma cerimônia positivamente ruidosa em seu disco de estreia, ‘Perante o Sol‘”, avalia o comunicador Edson Kah da Rádio Armazém.
Mais do que um conjunto de oito faixas que se desdobram em quase 50 minutos de música, o álbum é um organismo vivo, que expele energia e inquietude. Produzido por Maurício Torres no Fantom Estúdio, o álbum impõe sua presença, massiva e imponente, desde os primeiros acordes. O lançamento ocorreu em 2025.
A genealogia musical da Mamute soa clara, mas não limitadora. É possível ouvir o andar pesado e lento do stoner rock ao estilo do Sleep, riffs de hard rock clássico, blues sujo e a atmosfera expansiva do metal. Porém, o grupo essas influências em um caldeirão próprio até extrair um som que lhes é visceralmente único.
O estilo narrativo de “Perante o Sol”, com letras densas e introspectivas, carregadas de um lirismo cru. E a produção merece elogios por capturar uma dinâmica entre a sujeira nítida e o peso tátil, com cada instrumento respirando neste organismo vivo.Há momentos de pura catarse, onde o volume parece a única resposta possível para o mundo, e outros de uma beleza artística mais íntima, que surgem como miragens no deserto de distorção.
– “Longe Pacas”, Claudio Heinz – Esse é o quarto single solo do guitarrista e fundador do lendário grupo gaúcho de punk rock Os Replicantes. Lançada em fevereiro pelo selo Marquise 51, a canção de sua autoria, gravada originalmente em 2004 pelos Replicantes, ganhou nova versão com uma interpretação ligada diretamente ao sentimento e à ideia original do autor. A faixa conta a história de um músico que toca nos bares de Tramandaí (famosa praia do RS), mas precisa viajar muito para ver a namorada que mora longe de seu trabalho.
A música tem Claudio Heinz (voz e guitarra), Helio Cordeiro (bateria e vocais) e Lucas Hanke (baixo e produção), e foi gravada e finalizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 por Lucas Hanke no estúdio Marquise 51.

– Homero Pivotto Jr. é jornalista, vocalista da Diokane e responsável pelo videocast O Ben Para Todo Mal.