entrevista de Izabela Costa
Um disco de contemplação das miudezas da vida. Canções criadas enquanto fuga do amor romântico. A música colorida pelo verdinho característico do agreste pernambucano. Essas são algumas das possibilidades de leituras dadas por Phylipe Nunes Araújo a respeito de seu primeiro álbum de estúdio, homônimo, lançado em outubro de 2025, nas plataformas digitais e em disco de vinil e CD com distribuição global via Far Out Recordings (Reino Unido).
Alguém que carrega o interior como origem, mas não como limite, Phylipe é natural de Santa Cruz do Capibaribe, agreste de Pernambuco, mas já viveu em Maceió (AL), Olinda (PE) e Santo Amaro (BA). Desde 2025 reside em São Paulo (SP), onde vem criando seu espaço na cena autoral paulistana, com shows já realizados em palcos como a Casa de Francisca e o Freak Estúdio.
Operário musical desde a adolescência, quando tocava em festas de casamento e aniversários de 15 anos, passando depois pelos bares de música ao vivo, foi em 2015, ao se mudar para Maceió, que começou a se forjar com mais afinco como artista autoral. Foi ali, na capital alagoana, que Phylipe estabeleceu laços importantes com artistas como Bruno Berle e Batata Boy, produtores de seu debut.
Essa parceria, inclusive, é parte do que faz de Phylipe Nunes Araújo “um disco matuto”, com músicas menos pop, “numa linguagem mais puxada para as nossas coisas”, como explica o próprio Phylipe para, logo em seguida, se contradizer. “Mas depois eu me liguei que, talvez por eu estar morando em Santa Cruz naquele momento, talvez eu não estivesse tão na onda da matutice também não, por isso tem um quezinho meio pop”, ele revela a respeito do processo criativo que concebeu numa só tacada o disco e seu lançamento anterior, o EP “Lajeiro” (2024), financiado via Funcultura/PE.
Em uma entrevista feita exclusivamente para o Scream & Yell, no final de 2025, por vídeochamada, comigo em São Paulo e Phylipe no Recife, o artista contou de modo mais aprofundado sua relação familiar com a música, as andadas que marcaram sua vida até aqui, a entrada para um selo gringo e o agreste como centro e ponto de partida.
“Quando penso que estou neste lugar de artista nordestino, quero quebrar a expectativa das pessoas não nordestinas sobre o que elas acham que um artista nordestino é. A experiência urbana para mim, no interior de Pernambuco, é tão comum quanto para quem viveu a vida inteira em São Paulo”, ele completa. “Estereotipar é mais jogar contra do que qualquer outra coisa e eu tenho medo de me tornar uma caricatura de nordestino.”
Uma das memórias mais marcantes que tenho a seu respeito, Phylipe, aconteceu em outubro de 2024, em Maceió, no Carambola Lab, quando você realizou o show de lançamento do EP “Lajeiro”, lançado naquele mesmo ano. O que era para ser uma passagem de som acabou virando uma primeira sessão e depois, no horário divulgado oficialmente para o show, você fez uma segunda sessão. Lembro que essa pequena confusão, na verdade, foi um momento muito massa, porque você se apresentou com a mesma energia nas duas vezes. Naquele dia você poderia ter feito apenas um show, mas fez dois e com a mesma alegria a noite toda. De onde vem essa energia? Como é que a música bate na sua vida?
Mas, para responder, tenho que voltar algumas casas. A minha relação com a música começa quase como uma obrigação: comecei a estudar música sob uma projeção da minha mãe. Ela não conseguiu estudar violão, nunca teve tempo de aprender a tocar e aí, pensou: “ah, vou colocar meu menino para fazer aula”. Minha mãe trabalha com aluguel de roupas para festas juninas, casamentos, então, quando eu passo a ter algum repertório em MPB, ela me coloca para tocar em eventos. Desde meus 11, 12 anos de idade, eu tocava muito em casamentos, batizados, festas de 15 anos, tudo, tudo. Mas era sempre uma obrigação, num lugar de “trabalho” mesmo. Só percebi que eu queria seguir com isso quando percebi que podia criar minhas próprias músicas. E aí fazer música virou a diversão da minha vida. Provavelmente você me viu sorrindo nas duas sessões por isso. Eu estava me divertindo tocando aquelas músicas. E acho que talvez eu tenha até sugerido a parada de fazer duas sessões por essa coisa de não ter frescura de tocar. Já toquei em todo tipo de lugar que você possa imaginar, todo tipo de som em todas as situações mais pitorescas possíveis. Além disso, era especial voltar a Maceió, já morei lá por um tempo. Eu estava revendo alguns amigos, revendo um lugar onde fui muito feliz. Eu nunca tinha visto o bairro do Jaraguá tão movimentado à noite, antes da pandemia não era assim. Então foi isso mesmo: estava vivendo uma situação muito boa, num lugar muito legal.
Inclusive foi em Maceió também que soube mais ou menos como se deu a sua entrada no selo Far Out. A história – fofoca, risos – que soube, foi: você tinha uma gama de canções, o selo escolheu algumas para um disco e deixou as outras para você trabalhar como quisesse – no caso, o EP “Lajeiro”. Essa informação procede?
O “Lajeiro” foi financiado pelo Funcultura [Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura]. Treze músicas foram gravadas para este projeto. Metade delas, voz e violão. E as outras, eu vinha acompanhado de banda. A ideia era essa: uma metade mais vazia e a outra mais cheiona. Só que o processo se arrastou um bocado e nesse meio tempo, quando a gente estava quase finalizando o projeto, a Far Out apareceu. E aí a fofoca que você recebeu foi: a Far Out queria uma boa parte das músicas feitas com banda e o “Lajeiro” ficaria só voz e violão praticamente. Da forma que a gente gravou, ficaria muito mais vazio do que parece. Não é por exemplo que nem o disco de agora [“Phylipe Nunes Araújo”, de 2025], que a instrumentação é um pouco mais contida, mais tímida. Tem menos instrumentos, quase não tem bateria. Ao mesmo tempo, a Far Out queria muito que o meu primeiro disco fosse com eles – mercadologicamente era muito interessante para eles isso. Então para equilibrar as coisas, remanejei algumas canções do “Lajeiro”, que seria um disco, para o álbum que soltamos com a Far Out. Por isso que o “Lajeiro” virou EP (ouça abaixo). Explicamos tudo para o Funcultura e ficou tudo bem também. Em geral, está sendo bem legal o meu primeiro disco sair pela Far Out, traz um certificado para o trabalho.
E como eles [equipe Far Out] chegaram até você?
Foi através de Bruno [Berle]. Não sei se você sabe dessa história, mas o Bruno chegou na Far Out através da Orquestra de Tambores de Alagoas, que já lançou um disco pelo selo também [“Bantus e Caetés”, de 2010]. O Bruno iria lançar por outro selo, mas um dos integrantes da Orquestra falou pra ele: “Manda seus arquivos pro pessoal da Far Out”. Bruno mandou e bom, o resto é história. Tem duas músicas minhas no primeiro álbum que Bruno lançou com eles – “No Reino dos Afetos” (2022) – e uma no seguinte – “No Reino dos Afetos 2” (2024). Então, desde antes de fazer o “Lajeiro” eu já achava massa que tinham músicas minhas lá [no catálogo da Far Out], por causa dos discos de Bruno. E pensava: “vai que um dia…”.
Queria mesmo te perguntar sobre isso. Separando em dois eixos, – EP e disco -, qual a sua leitura em relação às estéticas e temas trabalhados em cada um deles?
O “Lajeiro” tem uma coisa de estar num lugar isolado, olhando o mundo de cima, tem muito essa onda. Ele foi gravado em 2022, eu estava morando em Santa Cruz do Capibaribe. Decidi fazer um disco matuto mesmo, pegar umas músicas menos popzinhas, mais estrainhas, numa linguagem mais puxada para as nossas coisas. Mas depois eu me liguei que, talvez por eu estar morando em Santa Cruz naquele momento, talvez eu não estivesse tão na onda da matutice também não, por isso tem um quezinho meio pop também. É meio misturado. Acho que “Estrela” é que mais foge disso, vai mais pra um pop rock assim, uma coisa mais psicodélica. Mas é isso mesmo, uma coisa que vai mais de música feita no agreste, mas com uma experimentaçãozinha, uma coisa com banda. Apesar de eu sair um pouco dessa rota, de como eu entendo e sinto essa coisa de “música do agreste” nas coisas que faço, tudo está muito ligado a isso. O disco é um complemento desse universo, só que mais pop. E é um produto feito para uma gravadora gringa, tem que pensar nisso também. O “Lajeiro” foi feito para o Funcultura e a gente tinha que circular com ele por Pernambuco. Apesar de rolar, não tinha essa pretensão de projetar algo para fora. Nesse outro ele já tem isso, né? Sonoridade, escolha de repertório também… Mas os dois trabalhos tem muito do agreste. E o que eu venho fazendo de novo eu acho que tem ainda mais.
E isso é massa. É seu centro, seu ponto de partida, né?
Estou curtindo fazer isso, porque em nenhum momento estou sentindo que estou caindo num lugar de caricatura, entendeu? Isso é o que me instiga a continuar fazendo essa parada. Não estou forçando uma barra de nordestino, não estou forçando o sotaque… Tem uma naturalidade porque estou me divertindo fazendo. E aí tem essa onda também: eu tenho um EP de 2015 que eu gravei moleque, do quarto de casa. Uma coisa meio MPB com umas guitarras, umas viagens adolescentes. E um álbum demo que nunca foi lançado, esse aí é mais de “love songs”. Ali por 2018 até o começo da pandemia eu fiquei encucado que eu só sabia fazer música de amor, aí eu fiquei: “Vou parar com isso e escrever outras coisas”. Passei uns anos com essa pira e eu aprendi a fazer isso com “Lajeiro”, que reúne músicas que não estão nesse contexto de amor romântico.. Tipo “Brasil”, sabe?
“Brasil” é uma das minhas favoritas do EP, aliás!
Também gosto muito dela, adoro tocar ao vivo. É uma música que o refrão tem uma palavra só, as pessoas começam a cantar junto ali, é muito legal. E foi isso: com “Lajeiro” aprendi a fazer músicas que não falam de amor. Tem “Revoada”, “Peixe”, canções com outros contextos, outros assuntos. E isso também se complementa no disco, ele traz outras gamas de assunto. Tem músicas de amor no disco, mas que não necessariamente são músicas de amor romântico. Por exemplo, “Temperim”, que é uma música que eu fiz com a minha companheira, Raisa Feitosa, as pessoas já me falaram que lembram da mãe ou da avó. Porque fala do afeto em cozinhar para alguém. Um afeto que pode ser familiar, de amizade. Eu me sinto muito satisfeito de ter chegado nisso, de não ficar nessas só de amor romântico. Já me comentaram sobre isso: “gostei do seu disco, ele é repleto de assuntos!”. Isso é uma parada massa também, é um disco curto, ele tem 23 minutos. As músicas são curtas, mas elas vão para vários lugares, então não se tem a impressão de ser um disco curto, dá a impressão de que tem muita coisa ali dentro dele. E de fato é o que acontece, tem muita coisa contida ali. Essa pesquisa se intensificou quando passei a gravar mais, estou chegando em lugares da composição que ainda não havia chegado antes.
Phylipe, tanto o disco, quanto o EP, são breves, feitos de músicas curtas, que fazem dos dois lançamentos, dois projetos de se ouvir rápido. Ao mesmo tempo, estamos nesse contexto de metamorfose de consumo musical via plataformas digitais, onde ouvir um disco ganhou diferentes dimensões. Como você enxerga seus trabalhos como resposta à essa lógica vigente no momento?
É uma onda pensar nisso, visse? Eu nunca pensei conscientemente em fazer músicas curtas para me adaptar a essas novas formas de consumo. É mais uma coisa que eu faço há muito tempo. Muito tempo mesmo. Uma das primeiras músicas que eu fiz é uma música super curta, se chama “Pequena”. Ela inclusive quase saiu no “Lajeiro”, o Nyron [Higor] toca ela às vezes nos shows dele. É uma música bem curta, de um minuto e meio. Dez anos atrás não tinha tiktok e tal. Não estou dizendo que estou inventando nada não, pelo amor de Deus, muito pelo contrário. Talvez seja mais uma coisa de “preguiça do compositor”, no sentido de que, tipo assim: tem ali um A, um refrão e um B. Se sinto que já está legal, mas tive a ideia de um C que parece outra coisa, muito provavelmente eu vou começar a fazer outra música. Eu não vou prolongar aquela se ela já está legal, com 2 minutos. E aí é uma onda também porque isso terminou virando um traço do meu trabalho – as músicas um pouco curtas. É massa porque às vezes dá pra repetir a música, ao vivo isso funciona muito legal. Dá para fazer versões mais estendidas, suprir um pouco dessa expectativa do público. Mas nunca ouvi nenhuma reclamação a respeito disso. Já ouvi coisa do tipo: “A música é curta e quando acaba eu boto pra ouvir de novo”. E aí acaba entrando nessa lógica de novo consumo, que ao invés de ouvir uma vez, a pessoa ouve duas, né? Nunca foi algo que me incomodou e nem que reclamaram. Talvez porque eu tenha sabido usar isso como uma ferramenta mesmo.
E como isso se configura nos shows?
Eu tenho uma penca de músicas. Coisas que já gravei, coisas que ainda vou gravar… Aquele show no Carambola Lab foi um experimento para mim também. Me pediram um repertório de uma hora e vinte e eu fiquei: “uou, uma hora e vinte, caramba, minhas músicas são curtas, vamos ver no que vai dar!”. Naquelas sessões eu toquei umas 20 ou 22 músicas diferentes. Isso é massa, não enjoa, principalmente quando é voz e violão, saca? Quando é voz e violão, acho enfadonho quando é sempre a mesma harmonia, muitas vezes me distraio. Essa coisa de repetir música também me lembra meu tempo de bar, que eu tocava a mesma música duas ou três vezes, todo mundo bêbado, não tinha como perceber. Só que é aquela coisa, fica um negócio morgado. Pelo bem da performance, tenho preferido fazer isso. De três em três minutos vai vir outra ideia, outra harmonia, outra melodia, outro assunto, estou bem nessa onda.
Para terminar, amplio um poucos os cenários, Phylipe. Você vem do agreste pernambucano, mas já morou em Maceió, teve uma experiência no interior da Bahia, e agora está vivendo em São Paulo, indo e voltando de Recife. Nisso tudo, você lançou um EP e disco, este com aporte de um selo internacional. Nessas movimentações todas, você acha que está conseguindo passar o seu trabalho de um jeito que você considera saudável ou sente que ainda lida com alguns entraves e leitura reducionistas?
Olha só, até agora rolaram mais coisas estranhas sobre mim na imprensa brasileira do que na gringa. Disseram que eu era do sertão, um erro geográfico crasso. Mas no geral, tem sido bem tranquilo. E eu também não abro para ninguém tão fácil assim essa coisa da minha identidade. Não me intimida de forma alguma que alguém faça uma leitura reducionista sobre mim, sobre meu sotaque, seja na minha frente ou não. Até agora não encontrei nenhum entrave – até por ser meio desbocado também. Algumas coisas que vejo só dou risada mesmo.
Tipo o que?
Algumas críticas publicadas na Europa e no Japão, por exemplo, saíram com alguns detalhes que eu acho pitorescas. No Japão o disco tem sido vendido como “folk psicodélico” [risadas]. Pô, se é isso que vai fazer a galera lá se interessar, vamo que vamo. Mas, apesar disso, todas as matérias que vi na gringa, o pessoal sempre acerta o nome da cidade [Santa Cruz do Capibaribe], acertam que é no Nordeste… Eu dei uma entrevista para o pessoal da Far Out que eles utilizaram no press release e foi massa também, porque venho recebendo algumas perguntas da galera de fora muito engraçadas. Tem um trecho no press release do selo onde eu digo que nem toda vez que alguém do Brasil toca um violão de nylon vai ser bossa nova e pra uma galera isso foi um choque de ler. “Como assim não é bossa nova?”. Todas as entrevistas que dei pro pessoal de fora eles perguntam dessa citação, de onde ela vem.
Talvez pelo violão de nylon, né?
Sim, a minha música traz uma estética muito galgada no violão de nylon, mas também tem muito forró, inspirações interioranas e urbanas. Porque o agreste tem isso. Caruaru, por exemplo: você está na cidade, mas saindo dali, não muito longe, você já está numa fazenda de onde nem dá mais pra ver o centro da cidade. Enfim, não tenho me incomodado muito com essas coisas não. Em São Paulo mesmo, eu ando muito com nordestinos. Sulistas e sudestinos eu escolho a dedo. Mas no geral é isso: lancei um trabalho e agora estou vendo como isso está chegando nas pessoas. E é massa perceber que é um disco muito nordestino – em linguagem, acento, musicalidade, instrumentação, arranjos e tals. Ao mesmo tempo, ninguém tem levado isso para um lado de fetichização não. Não é uma caricatura. Esse disco coloca uma peça que faltava no quebra cabeça.

Em que sentido, Phylipe?
Pra dar uma margem assim, mostrar um nordeste real, nada que caia na caricatura. Eu acho que às vezes o artista nordestino cai nesse lugar de caricatura porque no eixo Rio-São Paulo é uma parada que vende. Talvez seja por isso que meu disco esteja rolando mais para fora do Brasil do que pra cá. É um trabalho sério, pensado, mas que não é caricatura. Lá fora abraçam mais do que aqui. Talvez se eu forçasse mais o meu sotaque. Ou até mesmo a minha imagem, a roupa que visto, passasse a vestir mais coisas de algodão cru… Talvez vendesse mais. O fundamento da música é o agreste, mas com outras influências estéticas também, sabe? Por exemplo: no clipe de “Bixin” foi uma escolha estética gravá-lo no interior. Eu poderia pegar qualquer lugar com mato em São Paulo e fazer isso. Mas não é assim, sabe? Ao mesmo tempo que ali a gente não fez nenhuma caricatura em relação à imagem. Só estava ali, num lugar bonito, verdinho. “Nordeste tem que ser seco, bota um filtro sépia aí”, sabe? Não, não. Estávamos saindo do inverno ali, estava tudo lindo. Serve também para as pessoas saberem dessa relação, que a experiência urbana para mim, no interior de Pernambuco, é tão comum quanto para quem viveu a vida inteira em São Paulo. Obviamente não na mesma proporção e com outras referências, mas essa é a onda.
E isso também dialoga muito com os seus próprios processos migratórios, né? Dentro do Nordeste e atualmente fora dele também.
Sim, isso também é fruto das migrações todas que venho fazendo. Passei a entender melhor de onde venho depois que saí de Santa Cruz. Entendi que não preciso ficar preso a este universo estético. Ser um “artista do coco”, ser um “artista do forró”, isso meio que prende. E ao mesmo tempo, está tudo ali, na música. O maracatu está ali. O forró de Caruaru também. Eu não preciso mostrar o chão rachado, sabe? Brincar com essas referências me permitiu expandir mais. E tem também as coautorias, que compõem uma parte muito forte deste trabalho. A primeira parte inteira do disco são canções feitas em coautorias. Tem alagoanos, uma sergipana, baianos e pernambucanos, uma miscelânea que agregou demais. Todos trouxeram experiências de suas moradas. É um disco com muitas perspectivas, que viaja por vários lugares e fala de um agreste cosmopolita. Sim, sou do interior de Pernambuco, mas com acesso ao mundo todo. E tem um viés cinematográfico na música também, uma preocupação imagética que me fez trazer coisas que os nordestinos vão reconhecer nas entrelinhas, mas que não vai ficar uma coisa forçada e que também não deixa de ser universal, sabe?
Uma coisa que todo mundo entende e compartilha, independente de onde vem ou está vivendo, né?
Isso! Por exemplo: desde o lançamento do disco, “Temperim” foi uma música que cresceu muito. E é uma música que véi, ela foi escrita toda em “nordestinês”, é toda informalzona. E tem muita gente entendendo a parada e se reconhecendo nela. Ao mesmo tempo, quem investiu em mim vem de fora e não do Brasil. Fico pensando nisso às vezes. Será que faltava ser um pouco mais clichê pra rolar aqui? Talvez se as coisas tivessem sido mais calculadas, elas teriam caído em outro lugar. Tem alguns errinhos no disco, mas eles são tão honestos, que eu já vi as pessoas dizendo que sentiram “erros na execução do disco”, mas que esses errinhos tornam o trabalho muito humano. E é isso mesmo, tem essa parada. É um trabalho que não vem com muitos processos de manipulação polidos, tem coisas que eu desafino mesmo, ele soa como se fosse ao vivo. Estereotipar é mais jogar contra do que qualquer outra coisa e eu tenho medo de me tornar uma caricatura de nordestino. Então, esteticamente, vou pra outros cantos. Tento não forçar uma imagem do Nordeste que é o que as pessoas já conhecem, com as vestimentas que as pessoas já esperam. Quando penso que estou neste lugar de artista nordestino, quero quebrar a expectativa das pessoas não nordestinas sobre o que elas acham que um artista nordestino é. E isso é muito legal! Porque elas passam a reconhecer as coisas em outros termos, por outra narrativa, uma outra visão de Nordeste. Não tô interessado em falar que aqui faz calor, que é quente a maior parte do ano. Não, não. Vamos mostrar o verdinho do agreste, sabe? Tranquilo, tudo certo. Vamo só fazer da forma mais especial possível.
.
Izabela Costa é jornalista, assessora de imprensa e produtora cultural. Desde 2017 atua de maneira autônoma por meio de sua própria agência de comunicação, a @assessoriza. Atualmente vive em situação nômade entre os estados de São Paulo, Pernambuco e Alagoas.


