introdução por Diego Albuquerque e Marcelo Costa
Faixa a faixa por Gustavo Kaly
Ao longo dos últimos anos, dois artistas do extremo sul do mundo e do Brasil deram início a um projeto sem relógio, sem pressa, sem nenhum desses prazos que tentam domar o mistério da criação. Gustavo Kaly e Wander Wildner fizeram como quem ergue as velas e deixa o vento decidir o caminho: devagar, cruzando mares bravios, confiando no tempo.
Wander e Kaly já têm uma longa trajetória juntos. Por volta de 2006, Wander pescou do repertório da Stuart, banda de Kaly, a joia “Um Bom Motivo” (do refrão “então me dê um motivo pra não chorar, me dê um motivo pra não cheirar cola essa noite”), e a registrou numa comovente versão voz e violão (num arranjo ainda mais emocional que o registrado oficialmente no álbum “La Canción Inesperada”, de 2008).
Wander, então, passou a registrar canções de Kaly em seus álbuns – “Boas Notícias”, “Meio Bauhaus, Meio Inverno”, “Pensando em Ratos”, “Coração em Pólvora”, “Thomas Edison”, “Canivetes, Corações e Despedidas”, entre outras -, integrou, ao lado de Kaly, Os Últimos Românticos da Rua Augusta e, depois, lançaram juntos um EP, “Delírios dos Sul do Mundo em um Pub Irlandês” (2016).
Para “Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas” (2025), a ideia era simples: um disco de dez canções. Temas destilados gota a gota, maturados como uísque antigo, burilados pela sensibilidade de dois cancioneiros que já carregam a própria história na voz. Wander, com sua interpretação inconfundível, dá forma à crueza literária, intensa e luminosa de Gustavo Kaly que, claro, também canta (inclusive temas solo, seus). Esse seria o coração pulsante da empreitada.
Para organizar o caos criativo chamaram Gabriel Guedes, que trouxe consigo a Pata de Elefante, que entrou na cozinha para condimentar ainda mais esse banquete sonoro, como uma janta subversiva, fumegante, tão cheia de sabor quanto de risco. Assim nasceu um álbum de canções que sela, enfim, décadas de parceria entre Kaly e Wander. Um corte aberto no final dos anos 90 que agora encontra sua cicatriz transformada em obra.
Produzido por Gabriel Guedes e Gustavo Kaly, “Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas” apresenta 10 canções que abrangem um mundo particular de letras, melodias e interpretações. Dessa dezena de histórias, nove são compostas por Kaly em diferentes momentos e fases. Ao lado delas, “Deixa isso pra lá”, uma releitura da poesia de David Tottersal, do grupo inglês The Wave Pictures. A parte gráfica ficou com Koti — o Chucrobillyman, homem-banda e artista.
Lançado nos streamings no segundo semestre de 2025, “Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas” está sendo lançado agora em vinil, com direito a uma turnê por parte do Brasil – para ficar ligado nas datas, vale seguir Gustavo Kaly no insta! Para entender um pouco mais o trabalho, Gustavo comenta o disco faixa a faixa. De play no seu streaming preferido e leia abaixo:
01) “Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas” – Essa é a primeira faixa do disco na versão para streaming. No vinil, foi deixada para o final. É um texto narrado na voz potente de Wander Wildner. Além de crooner, Wander também é ator. Essa experiência contribuiu muito na atuação. Foi gravada “a capela” em Barcelona em um quarto alugado no centro histórico. Depois acrescentei um piano e microfonias para trazer dramaturgia e tensão. Dá título ao disco e foi extraída do primeiro parágrafo de meu primeiro livro “Com os Dentes de Chet Baker em meu bolso”, inédito, ainda em fase de edição. É um texto narrado e pouco musical, mas era a peça que faltava para completar a obra como um todo.
02) “Olhar Veludo” – Abre o vinil. Potente e direta. Pedi para Gabriel Guedes buscar inspiração em algo que lembrasse uma escala oriental no solo que inicia a música. Algo meio japonês. Já nas guitarras posteriores, queria algo mais psicodélico. Camadas invertidas. Meio Júpiter Maçã, meio Syd Barrett. A letra é bastante antiga, a canção foi ganhando forma a partir da gravação do instrumental. A versão original é bem mais longa. A Pata de Elefante, que gravou toda a parte de cordas e bateria, estendeu o solo por muitos e muitos minutos. A ideia principal era, ou deixar longa, com um solo quase inacabável ou ir baixando a música como se fazia antigamente. No final consegui um ponto médio para um corte sem prejudicar a essência.

03) “Antes do Café da Manhã” – Música bastante antiga que foi mudando com o tempo, tanto em letra quanto em ritmo. Já havia uma gravação anterior, mas eu não estava 100% convencido dela. A Pata pegou a música já em andamento, baterias gravadas e Guedes trabalhou um bom tempo até chegarmos nesse resultado. Antes se chamava “Ataque de ‘Romancismo’”, uma palavra que nem existe, mas insistimos nela por um tempo. Depois decidimos mudá-la. Adoro a parte que entra o Wander, tem dramaticidade. A letra é uma das minhas preferidas. Fala de uma relação antiga que tive. Também dialoga com o livro citado antes. Foi legal homenagear Paulo Leminski, escritor que gostamos muito.
04) “Depois Que a Guerra Terminou” – Uma música que foi feita literalmente em dez minutos. Poucas notas, letra constante e direta. Inspirada em “Rain Dogs”, disco do Tom Waits que está no meu top 10 de melhores discos feitos na história. “Rain Dogs” tem significado duo em sua expressão. Refere-se tanto a pessoas marginalizadas, desabrigadas ou “perdidas” que vagam pelas ruas, especialmente em condições difíceis como a chuva, mas também tem uma conotação mais literal. Fala dos cachorros que se afastam da casa por curiosidade ou desorientação e a chuva apaga o rastro do faro que os guiaria de volta a sua zona de conforto. “Sai pra comprar cigarros e não voltei mais. E a tempestade apagou meus rastros / os sapatos gastos de quem não voltou pra casa, depois que a guerra terminou”. No final eles se perdem, viram cachorros de rua, ou como a própria música de Tom Waits revela: cachorros de chuva. Usei um relógio antigo, desses despertadores redondos velhos, para guiar a música e criar uma percussão que lembrasse o tempo gasto para encontrar o destino. Um relógio pulsante, que marca esse desprendimento.
05) “Brasas Quentes” – Uma referência direta ao Brasil. Uma das explicações que sugerem o nome “Brasil” vem do Pau-Brasil, uma árvore abundante na costa brasileira cuja madeira avermelhada, usada para tingir tecidos, lembrava brasas de fogo. “Brasas quentes”. Tive um problema “legal” em um passado distante, ainda quando vivia em Blumenau. Quase fui parar em cana. Precisei de advogado e tive audiências com juiz, estresse que acabou em música, como tantas outras. Meu pai arranjou um advogado de defesa, conseguimos ganhar tempo e o caso expirou. A letra é sobre um possível plano de fuga. Alfineta um pouco as injustiças desse país que amamos tanto. Uma versão perfumada e cinematográfica da realidade. Assim como deve ser. Eu queria um ambiente western, meio Ennio Morricone, mas que poderia estar em um filme do Tarantino. Objetivo cumprido com sucesso pela banda Pata de Elefante.
06) “O Segundo Lado do Disco” – Uma leitura sobre a experiência ganhada pela idade, pela vida. Pensamentos sobre finitude e morte. Sobre cancelamentos, profundezas da pós-modernidade classe média. Filosofia em meio ao caos. Uma pequena homenagem ao poeta inglês Thomas Gray, “Where ignorance is bliss, ‘tis folly to be wise” (“Onde a ignorância é uma bênção, é tolice ser sábio”) Tempero da inexistência. É a resposta para a pergunta “O que é vida?”. Melhor não saber, afinal de contas, ignorância é alegria! Melhor tocar o foda-se e seguir sem se importar com isso. Foda-se. Quanto tempo vivemos? Se fossemos um disco de vinil já estaríamos no segundo lado? Se fossemos uma partida de futebol já estaríamos no segundo tempo? Somos a sequência de um filme ruim? Deprimidos em uma segunda-feira útil? Essa foi gravada no meu quarto, sozinho, e ganhou um clipe interessante gravado na Galícia, Espanha. No museu de arte moderna de Santiago de Compostela e nas Ruas de Vigo.
07) “Deixa Isso Pra Lá” – Uma versão de “If you leave it alone”, da banda inglesa The Wave Pictures. Os conheci em um festival na Europa e logo me apaixonei. Músicas simples, letras inspiradas, David Tattersall é um grande letrista. Dividimos bastante nossas influências. Não é uma tradução direta, mas sim uma adaptação, para dar mais significado à essência. Depois de muito tempo como fã e os seguindo em shows, os conheci em uma noite embriagada. Após uma de suas apresentações em Barcelona eles precisavam de alguém para guiá-los até o hotel. A van era inglesa, com o volante na direita. Era complicado dirigir na Espanha. Acabamos na minha casa bebendo cerveja que eu fabricava no quintal. A essa altura já tinha uma versão da música gravada. Gravação caseira. Mostrei pro John, baterista da banda e o menos embriagado naquela noite: “I wish I could speak portuguese”, respondeu. Na mesma época que gravamos o texto de “Emaranhados em Gambiarras Mal Ajustadas”, com Wander de férias na cidade, no meu pequeno quarto, também gravamos as vozes dessa versão final. Fizemos um clipe filmado em bares clássicos da capital catalã. Uma boa obra em preto e branco. Gosto muito da edição final.
08) “Sempre Que Eu Posso Eu Fujo do Inverno” – O Wander soltou essa frase em uma de nossas conversas filosóficas. Falávamos de estrada, de viagens, de viver em lugares diferentes em cada temporada. Temos essa inquietude em comum. Ele estava começando a planejar o disco “A Vida é Uma Toalha Pendurada no Varal” (2016), seu nono disco e um de meus preferidos de sua discografia. Foi quase uma música por encomenda. Assim como foi “Boas Notícias”. Entreguei pronta, letra e melodia. Saiu originalmente nesse disco, uma versão hardcore com guitarras limpas e vocal mais gritado. Um tempo depois a regravamos, intercalando vozes na versão para o “Emaranhados”. A ideia de ser mais glam rock, mais David Bowie, foi do Gabriel Guedes. Mais um belo resultado, mais uma vez orquestrada com luxúria pela Pata de Elefante. Por muito tempo foi a mais escutada nos streamings de meu perfil.
09) “Tristeza a Moda Antiga” – Bastante pessoal. Gravada sozinho no quarto. Mais um fim de relacionamento conturbado, mais uma história para contar. Que venham outros conflitos, que venham outras canções. Samba punk. Cru e direto. Solo em fuzz 210 volts. Batida sampleada, baixo no sintetizador. Voz quase radiofônica. Música pouco maturada. Pensada, escrita e gravada em três dias. Pronto, foi pro disco. Amém!
10) “Teus Pés Por Aqui” – Essa é a segunda versão dessa canção. Originalmente cantada em espanhol, ela foi gravada no disco de confinamento “Fake Freedom as a Placebo”. Durante a pandemia. História de amizade. De alguém esperando a visita inesperada de um amigo distante e muito querido. “Tus pies en este pueblo” é o nome original. Uma música que tinha pouca importância, guardada na caixinha junto com tantas outras. Foi ganhando peso emocional. No final da versão original tem uma mensagem de um amigo querido, gravada por telefone, perguntando onde eu estava, por onde eu andava, quando nos encontraríamos, quando iríamos dar aquele rolê de bicicleta pela cidade. Achei bonito, combinava com a temática. Botei a mensagem do WhatsApp no final da música. Um tempo depois perdi esse amigo, infarto fulminante. 50 anos. Grande parceiro e um dos melhores fotógrafos de shows que conheci. Resolvi regravar a música, dessa vez em português, com a Pata de Elefante fazendo o instrumental. No fim, não tive coragem de pôr a gravação de sua voz como na versão original. Muita carga emocional envolvida. Mas lancei a música assim mesmo substituindo a parte citada por um solo de guitarra.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.

