Entrevista: Atração do Lollapalooza Brasil, Jonabug fala sobre grungegaze e a edição em vinil de “Três Tigres Tristes”

entrevista de Alexandre Lopes

Há algo de curioso – e até poético – no fato de jovens nascidos após o colapso do rock como força cultural dominante se voltarem para um gênero que perdeu sua disputa com o grunge americano pelo mainstream do início dos anos 90. Surgido no Reino Unido em meados da década de 80, o shoegaze parecia uma anomalia: bandas com integrantes de cabeças baixas, vozes soterradas e emoções escondidas sob camadas de distorção, fuzz e reverb, enquanto o cenário exigia atitude, gritos claros e líderes com algum nível de carisma. Empurrado para a margem, o shoegaze sobreviveu como música de nicho.

Agora, o shoegaze reaparece como ferramenta emocional para uma nova geração. Para músicos e ouvintes em um ambiente de ansiedade difusa, exposição constante e um mundo acelerado e performático, o gênero não oferece refrões com slogans ou canções com explicações fáceis, mas ambiguidade, vocais enterrados na mixagem, guitarras que borram riffs, letras que não pedem interpretação imediata. Um espaço onde a emoção pode existir sem virar espetáculo, onde é possível se esconder à vista de todos.

E é exatamente nesse vácuo emocional que a Jonabug está inserida. Vinda de Marília, no interior de São Paulo, a banda não atua apenas como revivalista do gênero, mas como intérprete desse idioma para a geração Z. Ao cruzar o shoegaze com o grunge e o rock alternativo, o grupo aponta seu repertório para uma experiência afinada com ouvintes que orbitam fora dos mecanismos tradicionais de legitimação cultural. Suas canções tratam de relações afetivas, ansiedade e amadurecimento com uma linguagem simples como uma conversa, e não um manifesto.

“Três Tigres Tristes”, disco de estreia da Jonabug

Antes de assumir o nome atual, a banda atuava como Yellow Guava e flertava com o pop punk. A saturação desse formato por parte de seus membros levou, a partir de 2021, a uma pesquisa sonora cuidadosa, marcada por timbres mais sujos, melodias melancólicas e estruturas menos previsíveis. O EP “Big Ego, No Self Esteem” (2023) consolidou essa direção e preparou o terreno para o álbum de estreia “Três Tigres Tristes”, lançado em junho de 2025 e gravado por Marília Jonas (vocal e guitarra/baixo), Dennis Felipe (baixo/guitarra e vocal) e Samuel Berardo (bateria).

No disco, a Jonabug aprofundou seu repertório musical e emocional ao tratar de relacionamentos, angústias cotidianas e fragilidades íntimas. Faixas como “Sua Voz É O Motivo da Minha Insônia” tratam o desconforto em versos diretos, enquanto “You Cut My Wings” traz um aborrecimento grunge sustentado por riffs arrastados e atmosferas densas. O resultado dialoga com o shoegaze sem se limitar aos clichês etéreos, incorporando dedilhados de midwest emo – o que também explica a associação com a cena “emo caipira” do interior paulista.

Embora a própria banda prefira o termo “grungegaze” para definir seu próprio som, o rótulo é o que menos importa: o fato é que a Jonabug já ultrapassou 9 mil ouvintes mensais no Spotify, impulsionada por canções como “Além da Dor”, “Look At Me” e “Blood of My Blood”, além de ser anunciada como uma das atrações do domingo no Lollapalooza Brasil 2026, dividindo o line-up com nomes como Tyler, The Creator, Lorde e Turnstyle.

Esse momento de ascensão ganha novos contornos com o lançamento do álbum “Três Tigres Tristes” em vinil pelos selos Black Dog Alternative, Midwest Records e Undershows BR. Além da tracklist original, a edição física traz músicas bônus e simboliza um marco importante para uma banda independente que, até pouco tempo atrás, tocava longe dos grandes centros. Nesta entrevista ao Scream & Yell, o baterista Samuel Berardo fala sobre a trajetória da banda, o abandono do pop punk, as tensões entre rótulo e identidade estética, o impacto de cantar em português, a entrada de Thales Leite como segundo guitarrista e a ansiedade de se preparar para tocar em um dos maiores festivais do país sem perder o vínculo com a cena local.

Dei uma pesquisada e já vi a Jonabug ser chamada de “emo caipira”. O que esse rótulo significa para vocês?
Cara, eu acho que na verdade o movimento emo caipira surgiu com a nova leva de bandas da região [do interior de SP], como Chococorn, Glover, Império… Enfim, essas bandas se encaixam mais nesse estilo do que a Jonabug em si. Acredito que a Jonabug está inserida nesse tipo de estilo mais porque a gente é um pouco contemporânea. A nossa sonoridade não é exatamente o emo caipira, que na verdade é uma versão brasileira do midwest emo (subgênero da música emo que surgiu no meio-oste dos Estados Unidos durante a década de 1990 capitaneado por bandas como American Football, Braid e Mineral, entre outras).. Esse termo (“emo caipira”), inclusive, acho que foi criado pelo Alê, da Chococorn, se não me engano. O estilo da Jonabug, na verdade, a gente considera algo entre o shoegaze e o rock alternativo. A gente gosta de fazer shoegaze, mas não chega a ser aquele clássico, com voz totalmente etérea e tudo mais, apesar de ter algumas referências disso. A gente também gosta de colocar um pouco mais de agressividade do grunge. Acredito que o estilo que melhor se encaixa na Jonabug é o grungegaze.

Mas esse rótulo de emo caipira te incomoda?
Não me incomoda não. Pra gente não é um problema. Foge um pouco do que a gente segue, porque o emo caipira e o Midwest Emo têm características muito específicas, principalmente nas guitarras, né? E a gente não faz tanto esse estilo, apesar de ter uma música ou outra com alguma referência disso. Mas pra gente não tem problema nenhum. Só que, se tiver que falar qual é o estilo da Jonabug, acho que seria mais o grungegaze mesmo.

Antes da Jonabug vocês tinham outra banda, a Yellow Guava, né?
Isso. A gente começou a tocar junto no final de 2021. Era a Yellow Guava, que a tradução ao pé da letra seria “goiaba amarela”. Era uma banda com estilo mais pop punk. E aí a gente tocou junto até o final de 2022. Era a mesma formação, basicamente, só que no final de 2022 a Marília teve a ideia de fazer músicas em um estilo diferente. Acho que todo mundo da banda já estava um pouco saturado do pop punk e resolvemos fazer todo mundo junto. E é aí que surge a Jonabug, que era para ser uma proposta diferente da Yellow Guava. A gente abandonou algumas músicas e manteve outras que tinham um estilo mais próximo dessa nova sonoridade, começamos a pensar em timbres diferentes, em outros estilos de composição. Aí que surgem também as primeiras composições em português e teve uma virada de chave. O que eu vejo no contexto geral da Jonabug foi um amadurecimento musical, que a gente começou a fazer coisas mais bem elaboradas do que fazíamos na Yellow Guava.

Por curiosidade: qual a idade de vocês?
Eu e a Marília temos 23, o Denis tem 24 e o Thales tem 21.

Certo. Queria parabenizar vocês pelo disco, tem coisas muito legais. É engraçado ver uma banda com pessoas tão jovens como vocês tocando esse som influenciado por shoegaze, um estilo que começou a despontar no início dos anos 90, mas que foi eclipsado pelo estouro do grunge. Então é meio estranho que depois desse tempo todo o shoegaze esteja fazendo sentido para jovens hoje em dia…
Acho que esse negócio que você falou do nosso som foi tudo uma construção, porque depois do nosso primeiro EP, começamos a tocar em outras cidades, conhecer outras pessoas e elas indicaram músicas pra gente, passamos a ouvir e conhecer outras bandas, outros tipos de som. Foi um ciclo que a gente conseguiu pegar essas coisas e aproveitar esses momentos, puxar uma referência daqui e dali, transpondo nas nossas criações. A gente está procurando sempre evoluir, tanto musicalmente quanto como pessoa também. Todas as experiências, mesmo que boas ou ruins, são necessárias. De uma experiência merda pode ser que nasça uma música boa, então a gente tenta sempre tirar proveito de tudo que acontece. E a gente começou a tocar fora de Marília e fez amizade em todos os lugares que a gente tocou, basicamente. Foi muito importante para o amadurecimento da banda. Eu, Denis e Marília já nos conhecemos desde 2019. A gente na verdade se conheceu quando tinha de 16 para 17 anos de idade, se não me engano. E cara, é muito doido pensar onde a gente está agora, não só no que a gente ouve, mas no que a gente compõe. Realmente acredito que a gente teve um amadurecimento muito legal.

Dá pra perceber esse amadurecimento comparando o primeiro EP com o disco. No álbum, vocês têm músicas em inglês e em português. O que muda emocionalmente quando vocês escrevem em português?
Essa é uma resposta muito específica da Marília, mas como já ouvi ela responder algumas vezes, vou passar um pouco da visão dela e também a minha. O português é a nossa língua materna. Mesmo falando inglês, o sentimento que o português passa é diferente. O português é uma língua muito completa pra demonstrar sentimentos. Não que o inglês não seja, mas o português tem nuances muito fortes. Como a gente toca no Brasil, o público sente diferente quando ouve uma música em português. Só que, ao mesmo tempo, isso pode deixar a gente mais exposto. Às vezes você quer expressar um sentimento na música, mas não quer que ele fique tão explícito e pode ficar um pouco acuado. A Marília costuma dizer que, para ela, em inglês é mais fácil encaixar palavras e formular ideias sem deixar tudo tão claro quanto ficaria em português. Então existe essa dificuldade de se desamarrar emocionalmente no português. Hoje, a Marília está escrevendo mais em português, mesmo mantendo músicas em inglês. Dá pra perceber que, com o tempo, as letras da Marília estão ficando mais profundas. Talvez nem ela perceba isso ainda, mas eu percebo. As últimas composições que vi têm uma carga emocional muito grande e acho que isso é uma evolução natural desse nosso amadurecimento.

Vocês estão com um quarto integrante agora, o Thales, como segundo guitarrista. Já estão compondo com ele?
A gente até chegou a brincar com algumas ideias, mas nada completo ainda. O foco agora é ensaiar pro Lollapalooza, então a composição não está sendo prioridade. A ênfase é essa responsabilidade de ensaiar pro Lolla. Mas já rolou de alguém chegar com um riff no ensaio e a gente começar a desenvolver alguma coisa.

O Thales entrou quando exatamente? No fim do ano passado?
Na verdade, ele entrou primeiro como músico de apoio pra turnê. Depois da turnê, acabou ficando oficialmente na banda. Acho que foi mais ou menos em setembro. Sou péssimo com datas, cara [risos].

Vocês são de Marília, uma cidade do interior paulista, e já estão com 200 mil streams no Spotify. Como é equilibrar essa expansão sem perder o vínculo com a cena local?
Cara, a gente toca muito mais fora de Marília do que na nossa cidade. Aqui não temos um público tão grande. Às vezes, tocamos pra pouquíssimas pessoas aqui, enquanto em São Paulo tocamos pra um monte de gente. Mesmo assim, a gente tenta tocar em Marília sempre que surge oportunidade. Tem a galera e os amigos daqui que gostam da gente. Mas também espaçamos as datas de shows em Marília pra não saturar, porque o público aqui não é tão grande. Se tocar toda semana, vira algo rotineiro e perde o impacto.

Além do Lolla, vocês estão lançando o primeiro disco em vinil. De onde veio essa ideia?
Para bandas independentes como nós, lançar vinil é algo muito distante, porque exige muito investimento e não tem garantia de retorno. A ideia veio de selos daqui de Marília que enxergaram potencial na banda: a Midwest Discos, a Black Dog Alternativa e a Undershows. Pra gente foi ótimo, porque queríamos muito fazer material físico. A gente percebe que as mídias físicas estão voltando a ser procuradas, e mesmo quem não tem vitrola gosta de ter o vinil como recordação também. Como marco de carreira, isso é muito importante. Se não fosse por esses selos, a gente não faria isso tão cedo.

E como está a preparação pro Lollapalooza? Alguma banda que querem muito ver?
A gente tá ensaiando bastante e quer fazer um show especial, único, não um show padrão nosso. Vamos adicionar alguns elementos e deixar tudo bem calculado pra não ter problema na hora. A dor de cabeça tem que ser agora nos ensaios; no show, a gente quer se divertir (risos). Tá rolando até um certo estresse entre a gente, aquele climão de “tem que fazer isso, tem que fazer aquilo”, mas vai dar tudo certo (risos). Sobre quem a gente quer ver: eu queria muito ver Varanda e Cidade Dormitório, sou fã das duas. Das gringas, Deftones, Interpol… sou pirado em Interpol! E Turnstile, que toca no mesmo dia que a gente. Inclusive, a gente tocou uma música do Turnstile no setlist esses dias. É muito bizarro estar no mesmo dia que eles. Nenhum de nós nunca foi ao Lolla como público, então vai ser bem especial por isso também. Pra gente do interior, é caro ir: deslocamento, hospedagem, tudo. Então ir pela primeira vez pra tocar é muito doido. A ficha ainda não caiu. Tô ansioso para ver muitos artistas.

E depois do Lollapalooza, o que vem?
Depois do Lolla, a ideia é retomar o álbum e fazer uma nova turnê. A gente também pensa em lançar um EP depois e tocar esse material do álbum e do EP numa turnê. A gente já tem muitas ideias, muitos rascunhos, demos gravadas no celular, mas não teve tempo de finalizar por causa desse momento intenso de ensaios. A ideia é gravar umas quatro ou cinco músicas para um EP e seguir tocando. Não parar. A gente entende que essa oportunidade [de tocar no Lollapalooza] é única, mas não acha que vai mudar tudo da noite pro dia. Quem faz isso acontecer é a gente e queremos continuar compondo e tocando por aí.

 

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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