My Chemical Romance cumpre promessa e ilumina uma geração em São Paulo

texto de Paulo Pontes
fotos de @bmaisca

Quando o My Chemical Romance anunciou seu retorno, no fim de 2019, parecia que uma porta que estava fechada há tempo finalmente tinha sido destrancada. Depois de anos de hiato, o simples fato de a banda voltar à ativa já fazia o fã brasileiro voltar a sonhar com algo que, até então, parecia improvável: ver a banda novamente por aqui, pela primeira vez desde 2008.

Mas pouco tempo depois veio a pandemia e, com ela, o freio brusco em qualquer plano de turnê, interrompendo o mundo e empurrando o retorno do My Chemical Romance para um futuro indefinido. Na época, Mikey Way, baixista da banda, falou com a BBC sobre isso e, sem tentar romantizar nada, resumiu o que todo mundo sentiu: todo mundo tinha um plano. Bandas, diretores, gente no varejo, jardineiros. Todo mundo estava prestes a fazer alguma coisa. E tudo foi interrompido.

Mas ele disse também outra coisa que, olhando agora, parece quase profética: que a música ao vivo não ia a lugar nenhum. Que era só uma pausa. E que o retorno seria uma espécie de luz no fim do túnel. O primeiro show do My Chemical Romance em São Paulo em 2026 foi exatamente isso: uma luz que demorou mais do que deveria, mas que quando acendeu, iluminou uma geração inteira.

Na quinta-feira (5/02), no Allianz Parque, a cena já começava antes do primeiro acorde. O público chegou estampado no figurino. Muita gente vestida como se tivesse saído diretamente dos clipes da banda. Gravatas vermelhas por todos os lados, como em “Helena”. Meninas e mulheres reproduzindo o visual clássico da era “Three Cheers for Sweet Revenge”. Gente maquiada, delineador pesado, cabelo propositalmente bagunçado, camisa preta, drama estético e (muito) orgulho de tudo disso.

Era como se uma estética inteira tivesse sido desenterrada. O tipo de coisa que só acontece com banda que virou mais do que banda: virou código cultural. E o mais interessante é que não era só “gente que viveu a época”. Tinha muita gente nova. Uma geração que talvez nem tenha acompanhado o auge do My Chemical Romance em tempo real, mas que absorveu tudo aquilo como se tivesse vivido.

Um detalhe, no entanto, chamou atenção: as arquibancadas estavam lotadas, mas na pista havia espaços visíveis. E isso ficou ainda mais evidente na pista premium (local onde este redator acompanhou o show a convite do Santander, dono de um camarote no local, com acesso liberado à pista premium).

A pista estava cheia, claro, mas não no nível de esmagamento absoluto que se espera de um evento anunciado como “ingressos esgotados”. Era possível circular, respirar, e enxergar alguns vazios pontuais que contradizem a ideia de lotação total. O que levanta a dúvida: talvez duas noites com bom público sejam mais interessantes para a produtora do que uma noite genuinamente esgotada.

The Hives

Antes do My Chemical Romance entrar em cena, o The Hives entregou um daqueles shows que servem como lembrete do que significa uma banda ao vivo. Com Pelle Almqvist no comando, o grupo sueco foi explosivo, engraçado, debochado, elétrico e totalmente consciente de como dominar um estádio. Não houve tentativa de soar “grandioso”.

O The Hives foi direto no nervo, com o tipo de energia que parece agressiva de tão eficiente. A sensação era simples: se o Allianz estivesse morno, ele não ficaria. E não ficou.

O My Chemical Romance subiu ao palco com uma proposta clara: não era um show qualquer. Era uma apresentação. E essa diferença importa. A banda escolheu tocar “The Black Parade” (que completa 20 anos) na íntegra logo de cara, o que por si só já muda o peso do espetáculo. Uma obra sendo executada como se fosse peça teatral, com estrutura, narrativa e atmosfera. E sabe por que funciona? Porque “The Black Parade” é uma experiência que marcou gente demais pra ser tratada como simples sequência de músicas.

Gerard Way apareceu inicialmente mais contido, menos “frontman falastrão”, mais personagem (o cara é um baita intérprete). E isso fez sentido, já que a primeira parte do show foi pensada como encenação. Já Ray Toro parecia em outra frequência: sorridente, visivelmente confortável, curtindo cada segundo. Em muitos momentos, era ele quem transmitia a sensação mais humana no palco, como se estivesse ali reconhecendo o privilégio de tocar aquelas músicas diante de um público que esperou tempo demais por aquilo.

My Chemical Romance

Mas o que realmente definiu a noite não foi o palco. Foi o público. A plateia cantou todas as músicas com uma intensidade absurda. Em vários momentos, a voz de Gerard Way simplesmente desaparecia no meio do coro, não por falha técnica, mas porque o Allianz inteiro parecia decidido a cantar por ele. Era quase como se as pessoas estivessem tomando posse daquelas músicas.

E isso diz muito sobre o que o My Chemical Romance representa: uma trilha sonora emocional. Quase que um abrigo identitário pra quem cresceu ouvindo essas letras como se fossem diários pessoais. Como se dissesse: “a gente esperou, e agora vocês vão ouvir o que isso significou pra gente”.

Se existe um momento em que o show pareceu se transformar em algo maior, foi quando começou “Welcome to the Black Parade” (pode parecer exagero, mas, dadas as devidas proporções – e elas têm diferenças gritantes, entenda –, essa música é como uma “Bohemian Rhapsody” de sua geração). O público cantou com uma força tão esmagadora que parecia impossível alguém ficar parado.

“Teenagers” foi o momento em que a tensão dramática deu lugar ao impulso adolescente mais cru, enquanto “Famous Last Words” funcionou como clímax absoluto: uma catarse coletiva que parecia mais cantada pela arquibancada do que pelo palco. Tudo era grande demais para caber apenas na banda.

My Chemical Romance

A segunda parte do show, livre da rigidez narrativa de “The Black Parade”, revelou uma banda mais solta e um Gerard Way visivelmente mais comunicativo. “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)” abriu essa nova fase com energia explosiva, funcionando como um chute na porta após o peso dramático do álbum. Vieram então “Skylines and Turnstiles” e “Heaven Help Us”, resgatando diferentes camadas da trajetória do grupo, antes da estreia de “The World Is Ugly” na turnê, recebida com surpresa e emoção genuína.

O set seguiu alternando intensidade e nostalgia com precisão cirúrgica. “I’m Not Okay (I Promise)” foi cantada do início ao fim pelo público, reafirmando seu status de hino geracional. “Cemetery Drive”, outra estreia na turnê, trouxe um dos momentos mais sombrios e intensos da noite. “Headfirst for Halos” e “Thank You for the Venom” mantiveram o ritmo alto até que “Helena” surgisse como encerramento inevitável.

A música que virou assinatura da banda, que virou estética, que virou figurino, que virou gravata vermelha, que virou clipe icônico, que virou porta de entrada pra muita gente, foi a escolhida para encerrar. E encerrou do jeito que tinha que ser: com o Allianz cantando tão alto que parecia não caber dentro do estádio.

O My Chemical Romance cumpriu uma promessa que começou lá atrás, foi interrompida pela pandemia, atravessou anos de espera e finalmente chegou no Brasil como algo que parecia improvável tempo demais.

E talvez seja por isso que a sensação final seja tão clara: não dá pra tratar esse retorno como revival. Não dá pra tratar nem como nostalgia. Porque nostalgia pressupõe algo que ficou para trás. E o que público no Allianz Parque mostrou é que o My Chemical Romance ainda não teve tempo de partir.

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My Chemical Romance

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

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