entrevista de Fabio Machado
Ao refletir sobre os eventos recentes envolvendo os 40 anos de história do Dream Theater, James LaBrie aparenta tranquilidade, mas também um certo cuidado ao escolher as palavras. Faz sentido. O canadense é testemunha de uma fase auspiciosa do conjunto por uma série de fatores: turnês mundiais, novos trabalhos de estúdio e especialmente o comentado retorno de Mike Portnoy – baterista e co-autor de trabalhos como “Images and Words” (1992), “Awake” (1994) e “Metropolis Pt 2: Scenes From a Memory” (1999), que os consolidaram como sinônimos de uma subdivisão singular da música pesada, o prog metal. “Criamos algo que é conhecido e renomado em todo o mundo”, resume Labrie, vocalista da banda desde 1991.
O cuidado ao abordar a própria história também tem relação com a própria volta de Portnoy, uma vez que o baterista norte-americano não saiu no melhor dos termos com os colegas. Cada lado seguiu seu rumo: o Dream Theater com Mike Mangini (Extreme, Steve Vai) nas baquetas por mais 13 anos enquanto Mike Portnoy participou de uma série de projetos diferentes, inclusive aparecendo de surpresa em alguns festivais brasileiros como baterista de bandas como Avenged Sevenfold e Stone Sour. Mas com a volta da formação consagrada pelo público, qualquer animosidade parece ter ficado no passado, de acordo com Labrie: “Quando você volta, percebe que mesmo passando por alguns maus bocados juntos, vocês ainda são irmãos”.
É com o espírito de fraternidade renovado que o Dream Theater se prepara para uma nova incursão ao Brasil, dois anos depois da última passagem por aqui. A nova turnê passa por seis estados diferentes durante o mês de maio: 03/05 em Porto Alegre/RS, Auditório Araújo Vianna; 05/05 em Curitiba/PR, Live Curitiba; 07/05 em Brasília/DF; Dois Ipês (antigo Opera Hall); 09/05 em São Paulo/SP, Vibra São Paulo; 10/05 no Rio de Janeiro/RJ, Vivo Rio; e 12/05 em Belo Horizonte/MG, BeFly Hall (Informações de ingressos nos sites Fastix e Clube do Ingresso).
Dessa vez, o destaque é a execução na íntegra não apenas do trabalho mais recente, “Parasomnia” (2025), mas também do EP “A Change of Seasons”, uma espécie de trabalho de transição lançado em 1995 que tem a sua faixa-título de 23 minutos como principal destaque. Para dar conta de tamanho repertório, o conjunto fará apresentações com aproximadamente três horas de duração (e alguns intervalos), o que exige um grau de preparação semelhante ao de um atleta ou jogador de futebol que precisa fazer uma partida impecável.
A diferença, no caso, é que a banda precisa fazer partidas impecáveis durante toda a duração da turnê, com cinco a seis shows semanais por meses seguidos. E claro que, dentro das quatro linhas do metal progressivo, cada execução de solo, virada de bateria, linha de baixo e melodia vocal executada com exímia precisão equivale a um gol, para manter a analogia esportiva.
É esse cuidado com a preparação que garante que Labrie e os demais integrantes continuem com a mesma habilidade que os consagrou nos anos 1990 e 2000: “Estou cantando 95% (do repertório) do jeito como cantei originalmente.” Em conversa por chamada de vídeo para o Scream & Yell, o responsável pela voz do Dream Theater deu mais detalhes sobre as similaridades entre esportistas e músicos, o clima atual na banda e as diferentes pressões e expectativas diante de um repertório tão desafiador. Confira a conversa a seguir.
Bom, para começar: vocês vão vir mais uma vez para o Brasil. Sei que vocês já vieram várias vezes desde 1997, certo? A última vez, acredito que tenha sido em 2024. Naquele período havia muita expectativa rolando, já que Mike Portnoy havia retornado recentemente para a banda. Pensando nisso, quais são as principais diferenças entre como vocês estão se sentindo agora em comparação com aquela época? Há menos pressão?
Sim, acho que agora nós meio que estamos num ritmo legal, sabe? Nesse momento, estamos fazendo isso que temos feito por tantos anos e estamos nos divertindo muito. Então, acho que agora o foco é chegar todas as noites, fazer um show espetacular, interagir com nossos fãs e ter uma noite memorável.
Então, é nisso que estamos concentrados no momento. Claro que, quando nós começamos essa turnê mundial, tudo girava em torno da reunião com o line-up original [nota do redator: embora James use o termo, a formação original contava com o vocalista Charlie Dominici, que gravou o disco de estréia “When Day and Dream Unite”, de 1989]. Então, era isso que deixava todo mundo empolgado.
Nós estávamos juntos novamente, unidos, com um novo disco, “Parasomnia”. Então é isso, havia muita empolgação. Tinha muita expectativa por parte dos fãs e da banda. Agora, é mais como: ei, estamos aqui nos divertindo muito e curtindo cada minuto disso.
Sim, com certeza. O que você pode me dizer sobre o relacionamento entre vocês com Mike voltando e as dinâmicas que rolavam na época que ele saiu. Certamente as coisas mudaram. Quando ele retornou, como vocês lidam com a situação? Entendo que todos estão mais velhos agora e com uma mentalidade diferente, certo? Mas como as coisas estão rolando?
Bem, sabe de uma coisa? Acho que o que nós sabíamos, antes mesmo de todo mundo entrar junto na mesma sala, é que as coisas são diferentes agora. A banda, nós seguimos por uns 13 anos com (o baterista) Mike Mangini.
Então, era algo diferente no sentido de que estávamos num ambiente diferente, com protocolos diferentes. Todos estavam bastante tranquilos e relaxados. Todo mundo se tratou de forma respeitosa. E todos amadurecem com o passar do tempo. E você percebe que a vida é sempre sobre provações e tribulações, certo?
Dessa forma, durante essa jornada, nós percebemos algumas coisas que fizemos que não são tão atraentes e nem são tão legais. Mas nós também nos damos conta das coisas que abraçamos e que criamos que são incríveis. E aí eu penso que isso é o principal: saber que nós, como um conjunto, realmente deixamos a nossa marca, que temos uma história rica. Criamos algo que é conhecido e renomado em todo o mundo.
E sabe, acho que quando você volta, percebe que mesmo passando por alguns maus bocados juntos, vocês ainda são irmãos. Vocês ainda se amam. Existe algo muito profundo nisso, no que cada um representa para o outro, que é quase indescritível.
Então você meio que se apega nisso e foca nesses aspectos positivos. E penso que é onde todos nós estávamos desde o primeiro dia quando Mike Portnoy voltou para a banda. Foi um negócio desconhecido entre todos nós, sabe? Ou como um reconhecimento silencioso, melhor dizendo; tenho que me corrigir, foi um reconhecimento silencioso de quem e o quê nós somos, e onde nós estamos. E isso é exatamente o que nós éramos, e é exatamente como tem sido desde o retorno do Mike.
Legal saber disso. E eu sei que vocês vão tocar o álbum “Parasomnia” na íntegra, certo? Queria saber se vocês já fizeram isso antes, e como tem sido a resposta da audiência ao ouvir o disco sendo executado.
Sim, isso. Nós temos tocado (o álbum) durante toda a turnê norte-americana, que nós encerramos no final do outono [nota: equivalente à primavera no Hemisfério Sul]. Tem sido incrível. Quer dizer, esse é o formato que o disco foi pensado para ser apreciado.
Como uma experiência completa, é isso?
Sim, exatamente. Sabe, é dessa forma que esse trabalho foi escrito. É uma jornada. É algo épico, cinematográfico, de certa forma. Então, acho que apresentá-lo do jeito como foi concebido, do início ao fim, é simplesmente onde nós sentimos que recebeu toda a atenção devida. Estamos dando o devido respeito ao disco.
E penso que quando fizemos isso na íntegra – e fizemos isso por sete semanas seguidas – a resposta dos fãs foi excelente porque eles são tomados por esse negócio, como se fosse um vórtice. E algo que te suga. E de repente se torna o seu mundo. E isso se torna o centro das atenções. É isso, tem sido fabuloso. Sendo honesto com vocês, (a recepção) não teria como ser melhor.
Bom saber disso. E essa turnê mantém o formato “An Evening with Dream Theater”, que pelo que sei chega a quase três horas de duração, é isso? Com um ou dois intervalos, creio eu. Quais são os desafios envolvidos nesse formato em especial? Estou imaginando que seja algo que exige muito de vocês, não? Porque um show tradicional já é algo desgastante, não só para você sendo o vocalista, mas para todos os integrantes.
Sim, para todo mundo. Quando você está nesse negócio por tanto tempo quanto nós estamos, é quase como se você fosse um atleta – não importa se você é um jogador de hóquei, futebol, beisebol, rúgbi, seja lá o que você fizer, você consegue se acostumar, se aclimatar.
Você fica acostumado com o que precisa fazer, sabe, e fica preparado. Você sabe que vai ser uma coisa que vai rolar praticamente todas as noites. Quer dizer, nós fazemos tipo, quatro ou cinco shows por semana, às vezes seis.
Então é como se você fosse um esportista, como eu disse. Você simplesmente se torna alguém muito, muito preparado. E você passa a fazer todos os rituais, as coisas que precisa fazer antes de ir ao palco, no nosso caso, ou no caso de um atleta ir para o campo e jogar, sabe? Quer dizer, estou fazendo uma analogia com o futebol (que chamamos de soccer, mas vocês chamam de futebol). Todas essas coisas que você precisa fazer para estar preparado, se aquecer adequadamente.
Eu, por exemplo, obviamente aqueço minha voz. Eu faço alongamentos. Eu faço as coisas para fazer meu coração bater mais rápido e fazer o sangue circular, ficar relaxado, e entrar naquele estado mental para saber que aquelas músicas estão por vir. Então, é tudo questão de preparação.
E com essa preparação, quando chega a hora de subir ao palco você já está pronto para tudo isso. Mas é como eu disse, uma vez que você já faz isso por tanto tempo, você sabe exatamente o que precisa fazer para estar preparado. E aí, de repente, isso se torna algo natural. Quando você está lá, sabe as coisas que vai precisar fazer para ser capaz de se apresentar 100%. A não ser que você esteja doente. E se você estiver doente, bom, aí você está ferrado (risos).
Ninguém deveria ir ao palco quando está doente, claro. Gosto dessa comparação com esportes e ser um atleta, porque me parece mesmo bem similar. Não só por conta desses rituais e aquecimentos que envolvem a prática, mas porque também existe uma expectativa em torno de um atleta quando ele envelhece. Aquela coisa de “ah, será que ele vai conseguir fazer a mesma coisa de quando ele tinha vinte e poucos anos?” Especialmente aqui com o futebol, rola isso o tempo todo. Quando um jogador chega aos 30, já está quase sendo considerado velho, sabe? Vocês sentem uma pressão semelhante, seja dos fãs ou do mundo exterior?
Pois é, sabe de uma coisa? O negócio é que, a realidade é que nós sabemos que estamos mais velhos. Eu sei, claro que eu sei, é somente parte da vida. Mas acho que nós também fazemos coisas para combater isso. Tentamos ficar na melhor forma que podemos em nossos respectivos instrumentos, para que dessa forma, ainda possamos nos apresentar da mesma forma que fazíamos há 20, 30 ou até mesmo 40 anos.
Sabe, como vocalista, vai ter algumas canções onde eu mudo a melodia, porque não, eu não vou cantar da mesma forma que eu cantava quando eu tinha 28 anos. Então, eu preciso ajustar algumas melodias para que fiquem de acordo com como estou nesse momento particular da minha carreira e da vida. Mas dito isso, eu estou cantando 95% (do repertório) do jeito como cantei originalmente.
No que me diz respeito, isso ainda é um ótimo número. E você sabe, para mim, ser capaz de cantar “Pull Me Under” como eu fiz lá atrás, em 1992 – e eu ainda estou cantando exatamente do jeito que cantei naquela época -, isso diz muito. O fato de ainda estar cantando “Octavarium” como eu cantava em 2005, isso também diz muito. Então, tem algumas coisas que fizemos para nos certificar, ou pelo menos permitir que nós consigamos executar essas músicas como as fizemos ao longo de toda a nossa carreira.
Sim. Devo dizer que ouvi o álbum ao vivo gravado na França (“Quarantième: Live à Paris”, lançado em 2025) e tanto as melodias como as performances em geral são bem consistentes. Então acho que é como você falou, no sentido de que vocês seguiram fazendo isso até que se tornasse algo natural.
Sim, com certeza. É exatamente isso, sabe. O engraçado é que você pode estar lá no palco se apresentando e, do nada, fica paralisado. É quase como se outro poder ou outra força tivesse tomado conta, e você quase pode flutuar. Como se estivesse planando acima do seu corpo enquanto está cantando, porque é um sentimento tão natural a essa altura que, a partir do momento que você sabe as músicas e elas estão totalmente assimiladas e tudo está exatamente onde a banda sabe que precisa estar. É quase como se você estivesse em uma água cristalina como vidro, e você está só deslizando em cima dela. É uma sensação muito legal, sabe. Muito legal.
Também queria falar um pouco sobre o EP “A Change of Seasons”, claro, já que vocês pretendem tocá-lo juntamente com “Parasomnia”. Além de saber suas impressões sobre esse disco, também estou curioso para saber se os covers que vocês fizerem naquela época (de diferentes artistas como Elton John, Deep Purple, Led Zeppelin, entre outros) serão apresentados no show. Ou vocês vão se concentrar apenas na suíte que dá título ao EP?
Sim, será somente a suíte “A Change of Seasons”. É isso que vamos fazer, não estamos fazendo nenhum desses covers. Quer dizer, foi algo que fizemos naquela época e foi legal. Foi empolgante. Mas acho que foi algo que teve seu momento e propósito, certo?
Então, nosso foco é nessa faixa épica que também é uma favorita dos fãs, sabe, então tudo gira em torno de apresentar “A Change of Seasons” e é maravilhoso poder tocar essa música novamente como já fizemos anteriormente, juntos como uma banda, e ela tem sido muito bem recebida. Tipo, a audiência fica absolutamente em êxtase com ela. É um momento muito legal em todas as noites em que a tocamos.
Eu tenho uma última pergunta, James. Sei que você já teve projetos solo ao longo dos anos e também colaborou com outros artistas. Queria saber se você tem alguma coisa nesse sentido planejada para o futuro próximo, ou o foco é apenas o Dream Theater no momento?
No momento, eu estou bastante focado no DT. Nós sairemos em turnê em algumas semanas, começamos em Dubai e vamos direto para Ásia, Austrália, essas coisas. Então, nesse momento, o foco é realmente o restante dessa turnê atual, e estaremos viajando com ela até o meio de maio.
E eu estou meio que brincando com a ideia de que, sim, vou me lançar a escrever outro álbum solo. Tenho um monte de material que está pronto para sair, em termos de idéias melódicas, riffs, sabe, letras, tudo isso. Então, está tudo lá. E talvez eu trabalhe de novo com Paul Logue (músico que participou do último trabalho solo de Labrie, “Beautiful Shade of Gray”, lançado em 2022) e faça uma sequência.
Então, tem um monte de coisas por aí. É só uma questão de achar o tempo para fazê-las e aí, se comprometer com isso. Você sabe, se dedicar 100%. Mas nesse momento, eu acho que vou, mas não posso dizer com total certeza. Mas acredito que vá fazer outro disco solo em algum ponto. Só não tenho certeza se será imediatamente após essa turnê mundial. Mas manterei todo mundo avisado, pode ter certeza.

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.