texto por Nelson Oliveira
fotos de Giro Conecta
Como já ensinava Vinicius de Moraes, “a vida é a arte do encontro” – e foi sob essa chave que o Giro Conecta se afirmou em Salvador. Realizado entre 15 e 18 de janeiro, o festival mostrou, ao longo de quatro noites, que sua força não reside apenas na presença conjunta de artistas brasileiros, africanos e latino-americanos, mas sobretudo na fluidez com que esses diálogos se estabeleceram, longe da rigidez dos feats protocolares ou da lógica da participação decorativa. O evento se construiu a partir do intercâmbio e da circulação viva de repertórios, estéticas e experiências compartilhadas. Mesmo flutuando por gêneros e levadas bem distintas entre si mesmas, a proposta se manteve coesa ao fazer da música um território de passagem entre Bahia, Brasil, África e América Latina, privilegiando vínculos artísticos em vez do impacto imediato de atrações isoladas.
Em sua edição mais recente, o festival reuniu nomes consolidados e emergentes da música brasileira, como Chico César, Tássia Reis, Larissa Luz, Jota.Pê, Aguidavi do Jêje e Magary Lord, em diálogo direto com artistas africanos e latino-americanos, entre eles Mayra Andrade e Mário Lúcio, de Cabo Verde, o angolano Yuri da Cunha e a colombiana Goyo, e acabou encontrando no espaço escolhido uma surpresa feliz. O pátio do Palácio da Aclamação, erguido no início do século XX e por décadas ligado ao poder político baiano como residência oficial de governadores, atravessa hoje um processo de recuperação que o projeta para outro destino, como futura sede do CCBB Salvador.
Mesmo sem ter sido concebido como espaço para shows, o átrio se revelou funcional e acolhedor, com boa acústica e a vantagem de permitir projeções de vídeo diretamente na fachada neoclássica do casarão, incorporada à experiência do público. O local ganhou novo significado ao ser ativado pela música e se apresentou como um forte candidato a futuro queridinho do circuito cultural – afinal, além disso, fica na região do Campo Grande, próximo ao metrô e a outros equipamentos que reforçam sua vocação.

O primeiro dia aconteceu sob um contexto peculiar: as atenções de centenas de milhares de moradores de Salvador estavam concentradas na Lavagem do Bonfim, o que se refletiu em um público menor no Palácio da Aclamação. Ainda assim, a noite teve um caráter simbólico especial, justamente por dialogar com a ideia de festa de largo – território em que a música popular baiana sempre encontrou seu lugar mais orgânico.
Coube a Magary Lord abrir os trabalhos com um show que reafirmou seu potencial ainda pouco explorado no circuito nacional. Apostando no black semba, uma fusão de black music com semba angolano criada por ele mesmo, o soteropolitano apresentou um repertório fortemente ancorado em composições que marcaram sua participação no álbum “Baile à la Baiana”, de Seu Jorge, além de hits de “Inventando Moda”, seu álbum de estreia, que fez grande sucesso na Salvador dos anos 2010 – ele chegou a concorrer ao Troféu Bahia Folia, que elege a melhor música do carnaval, com duas canções, vencendo a disputa com “Circulou”. Os versos de “Pegada de Dodô”, “Joelho” e da faixa-título seguem na boca dos locais.
Canções como “Amor de Canudinho”, “Shock”, “Lasqueira” e “Mudança” (as primeiras, presentes em “Baile à la Baiana”; a última, nos dois álbuns citados) se destacaram também por esse caráter popular imediato: músicas que pedem dança, criam coreografias espontâneas e funcionam como trilha perfeita para uma cidade em clima de celebração religiosa e profana ao mesmo tempo. Acompanhado por uma banda grande e afiada, com destaque para o clarinetista Ivan Sacerdote, Magary mostrou domínio de palco e carisma, mostrando que, com melhores escolhas artísticas no passado, poderia ter se consolidado como grande nome da música para além das fronteiras baianas – o que pode vir a acontecer tardiamente.

A conexão com a África se materializou de forma direta com a entrada de Yuri da Cunha, que carregou consigo uma verdadeira caravana angolana. Bandeiras de Angola tremulando, coreografias criativas e um clima permanente de festa marcaram o show, que manteve a pista em movimento constante. “Makumba” e “Sanzala” foram pontos altos, e o próprio Yuri fez questão de destacar, em tom emocionado, que muitas vezes são os baianos que ajudam a preservar e reinventar a cultura angolana fora de seu território de origem. O ápice veio quando ele e Magary, acompanhados por duas fãs que subiram ao palco, dividiram “Joelho”, selando um encontro que aproximou as margens do Atlântico.
O segundo dia teve um clima mais intimista, mas não menos significativo. Jota.pê surgiu como um anfitrião afetuoso, transformando o show em uma conversa tête-a-tête. Simpático e atuando como contador de histórias, ele conduziu o público por um repertório que espelha sua ascensão recente, catalisada pelo sucesso do projeto “Dominguinho”, ao lado de Mestrinho e João Gomes. Ao trazer faixas como “Beija-Flor”, o paulista evidenciou como esse trabalho ajudou a ampliar seu alcance, conectando a canção brasileira a um público mais amplo sem diluir sua identidade.
Na banda, a presença de Kainã do Jêje e Chibatinha, do ÀTTØØXXÁ, acrescentou tradição percussiva e riffs malemolentes à MPB contemporânea trabalhada por Jota.pê. Canções como “Garoa”, “A Ordem Natural das Coisas” e “Uns Cafuné à Domicílio” mostraram um compositor seguro, que sabe equilibrar lirismo e simplicidade sem cair na obviedade.

Às 20h, o palco ganhou outra atmosfera com a entrada de Mayra Andrade. A cantora cabo-verdiana iniciou sua participação com “Afeto”, e rapidamente ficou claro que não se tratava de uma simples participação especial. Amigos de longa data, Mayra e Jota.pê dividiram o palco com naturalidade, passando por “Manga”. “Tá Aê” e escolhendo “Milagres do Povo”, de Caetano Veloso, como eixo de um encontro atravessado pela ancestralidade.
Não foi casual: ao cantar na Bahia, a artista que tanto transitou pelo mundo costuma evocar essasensação de reconhecimento, de alinhamento entre corpo, memória e território, utilizando a canção como ativadora desse pertencimento. Após cerca de meia hora, Mayra Andrade deixou o palco, mas retornou no bis, encerrando a noite com delicadeza e reforçando o caráter afetivo do dia: menos dança, mais escuta; menos impacto imediato, mais permanência.
O terceiro dia foi, sem dúvida, o mais intenso em termos de experimentação estética. A abertura com “Zé do Caroço” numa versão eletrificada já indicava que a noite seria de deslocamentos. No palco, RDD, Tássia Reis e Larissa Luz dividiram protagonismo em um show conjunto que funcionou como laboratório criativo ao vivo. O idealizador do ÀTTØØXXÁ, que já colaborara anteriormente com a rapper paulistana e produzira um álbum e um EP da baiana, imprimiu peso e precisão aos beats, construindo bases densas e pulsantes que deram sustentação e fôlego às performances, mantendo a energia do palco sempre em alta.

“TUTUTU”, “Hipnose” e “Gira” estabeleceram o clima da noite, antes de Tássia assumir o centro em “Rude”. O diálogo entre as duas artistas ficou ainda mais evidente numa releitura de “Você Me Vira a Cabeça (Me Tira do Sério)”, de Alcione, reinterpretada num arrocha. Logo após “Sonho Meu”, a entrada de Goyo transformou o momento em algo maior: a colombiana trouxe rimas que costuraram o hip hop, tão caro à pailistana, a reggaeton e afrobeats, criando uma ponte direta com Larissa Luz, cuja estética sempre flertou com esses territórios sonoros.
Goyo apresentou “San Antonio”, canção folclórica tradicional da Colômbia, geralmente cantada em festas religiosas, numa releitura em formato mais contemporâneo. “Na Na Na” e “Otra Noche” reforçaram seu carisma e sua capacidade de dialogar com públicos diversos, apresentando seu trabalho a um público novo sem perder identidade.
Após a saída de Goyo, Larissa Luz – que era a mestre de cerimônias do trio – voltou ao centro com o hit “Cupido Erê”. Como sempre, sua presença, vocal e corporal, deu outro peso ao espetáculo, ao melhor estilo “Ritual Baile”, transcendente, com enormes descargas de energia. Na reta final, outro momento interessante veio com Tássia Reis, que trouxe “Dollar Euro” em um arranjo pesado de eletropagodão feito por RDD.

Depois, com a volta da colombiana ao palco, fecharam com “You Don’t Love Me (No, No, No)”, de Dawn Penn, retrabalhada em uma pegada samba-reggae que reuniu todas as vozes femininas da noite. Um momento de comunhão, potência e afirmação, no qual artistas do Sul Global se encontraram sem hierarquia, ratificando afinidades históricas e estéticas que dispensam tradução e reafirmam a música, através de suas fusões, como linguagem compartilhada de resistência e pertencimento.
O último dia do Giro Conecta foi o mais instigante. Chico César, Aguidavi do Jêje e Mário Lúcio dividiram o palco em um encontro que fugiu completamente da lógica tradicional de festival. Não houve sucessão de shows, mas um diálogo constante, orgânico, quase ritualístico. Uma construção coletiva, com seus intervalos, sim, mas bastante coesa.
Após uma abertura de caminho (“Ibaô-Ogum”) com os tambores e baquetas originários do Terreiro do Bogum, o mais antigo do candomblé de nação jêje no país, Chico César entrou com “Béradêro”, que ganhou um peso completamente diferente acompanhada pelos atabaques do o grupo percussivo liderado por Luizinho do Jêje – que conta também com Kainã do Jêje e Ícaro Sá, do BaianaSystem. O paraibano batizou o espetáculo de “Aguidavivos”, em referência aos 30 anos de lançamento do álbum “Aos Vivos”, de 1995, que guiou boa parte do seu repertório. Em suas falas, Chico deixou claro que aquele encontro não era circunstancial: já existia na ancestralidade, e só foi materializado neste fim de semana.

“Alma Não Tem Cor” e “Dúvida Cruel”, parceria com Itamar Assumpção, prepararam o terreno para a entrada de Mário Lúcio, que é parceiro de longa data de Chico César – curiosamente, ambos ocuparam cargos públicos administrativos; o brasileiro foi Secretário de Cultura da Paraíba; o cabo-verdiano foi Ministro da Cultura de seu país. Juntos, eles saudaram o continente africano com “Mama Africa”. “À Primeira Vista” hit do paraibano que ganhou tração em Salvador, na voz de Daniela Mercury, veio na sequência – em paralelo, os percussionistas do Aguidavi do Jêje deixaram o palco temporariamente.
Depois, houve espaço para canções autorais do cabo-verdiano, em formato mais econômico, apenas em voz e violão. “M’Afrika”, interpolada com “Lambada de Serpente”, de Djavan, e “Ilha de Santiago” criaram um breve momento de contemplação, que foi quebrado de forma abrupta quando o Aguidavi do Jêje voltou com força total em “Violão de Cabaça”, uma de suas principais composições.
A partir dali, o show voltou a transitar num terreno que é próprio do Aguidavi do Jêje. “Xirê” evidenciou aquilo que define o grupo: um conjunto percussivo e um violão de timbre e função muito específicos, um desenho sonoro que não se encontra em outro lugar e que se organiza fora de qualquer lógica cartesiana. Os compassos fogem do habitual, os tempos se deslocam, os contratempos conduzem a música por caminhos irregulares e imprevisíveis, criando um corpo rítmico único, profundamente ritualístico. Entre batidas assimétricas e vocalizações que evocavam a mata, o território simbólico de Oxóssi, o grupo reafirmou uma estética própria, construída para existir nos seus próprios termos.

Já na reta final da apresentação, a trupe baiana e o paraibano passaram a alternar canções, reforçando a ideia de partilha que atravessou todo o espetáculo – e que foi ratificada com o retorno de Mário Lúcio ao palco em “Estado de Poesia”. O cabo-verdiano ainda contribuiu de forma virtuosa no violão em “Chico Melabenguê”, uma das canções mais potentes do Aguidavi do Jêje. O fechamento, porém, ficou a cargo de Chico César: “Deus Me Proteja” abriu caminho para o encerramento com “Pedrada”, cuja levada e refrão explícito, conclamando fogo aos fascistas, ganharam peso adicional com os atabaques do Bogum e selaram, com força e coesão, um domingo que terminava à altura do percurso do festival.
Ao longo de quatro dias, o Giro Conecta deixou evidente que sua proposta ultrapassa a simples soma de shows. O festival se afirmou como um exercício contínuo de escuta, partilha e deslocamento, promovendo reconhecimento mútuo entre culturas atravessadas por histórias comuns de colonização, resistência e reinvenção. Nem todas as noites tiveram o mesmo impacto, nem todas as parcerias alcançaram igual intensidade, mas o conjunto revelou algo pouco frequente no circuito de festivais: a escolha consciente de apostar no processo – e no sentido que emerge dele – em vez de recorrer a fórmulas prontas ou se apoiar apenas no resultado imediato. Essa opção exigiu uma curadoria disposta a assumir riscos, qualidade rara em um cenário cada vez mais orientado pela previsibilidade. E, se a vida é mesmo a arte do encontro, tal atitude exige flanar, aceitar eventuais desencontros e, sobretudo, estar aberto a saborear o que o caminho oferece.

– Nelson Oliveira é jornalista e fotógrafo residente em Salvador. É diretor da Calciopédia, foi correspondente de esportes do Terra na Bahia e colaborou com UOL, VICE e Trivela.