Entrevista: “Tento ir diretamente ao ponto, mesmo que seja torto, estranho ou inacessível”, diz Gautier Serre, do Igorrr

entrevista de Bruno Lisboa

Surgido no final dos anos 2000 pelas mãos do compositor e produtor francês Gautier Serre, o projeto Igorrr nasceu como uma experimentação radical misturando breakcore, música barroca, death metal e ruídos eletrônicos. Desde os primeiros lançamentos — “Poisson Soluble” (2006), “Moisissure” (2008) e, mais tarde, “Hallelujah” (2012) — Serre construiu um universo sonoro marcado por virtuosismo, caos meticuloso e contrastes extremos.

Com “Amen” (2025), seu mais recente álbum, Igorrr aponta para novos caminhos. O disco funciona como um laboratório onde barroco, metal, eletrônica e noise coexistem. É também uma novidade na carreira do artista francês pela presença de colaborações marcantes, como as de Scott Ian (Anthrax) e Trey Spruance (Mr. Bungle), que adicionam novos contornos sem desviar o projeto de sua essência criativa.

“A energia que me impulsiona a fazer música continua a mesma — apenas me leva mais fundo e mais preciso a cada álbum”, diz Serre, em conversa por e-mail, situando “Amen” como um capítulo que dialoga tanto com o seu passado quanto expande as possibilidades de sua musicalidade. “Deixei minha zona de conforto para buscar novos sons, novas cores, novos temperos — e os encontrei”, acredita o músico, que salienta: “O ruído nunca é tão alto quanto depois do silêncio — e o silêncio nunca é tão silencioso quanto depois do ruído”. Ouça “Amen” na integra abaixo e leia a entrevista.

Seu trabalho sempre pareceu um desafio aberto às fronteiras da música — um lugar onde barroco, metal, eletrônica e noise coexistem. O que o impulsiona rumo a esse choque de mundos e como você decide o que pertence a uma composição do Igorrr?
Sempre foi natural para mim misturar esses gêneros. Honestamente, não sei por quê — simplesmente tive o instinto de combiná-los. Sempre amei tanto metal quanto música barroca, mas sentia que cada um deles tinha algo faltando. O metal é brutal, sombrio, poderoso, mas às vezes carece de delicadeza e sutileza. A música barroca é incrivelmente rica em elegância e poesia, mas não tem aquela energia primal, quase física, que o metal traz. Então fez todo sentido manter o que eu mais amo de ambos os mundos e uni-los, para criar algo que soe como a minha própria música “completa”.

“Amen” parece ao mesmo tempo um culminar e um novo começo. Qual foi o impulso criativo por trás desse disco? Você o vê como uma continuação do seu caminho ou como uma espécie de reinvenção?
Um álbum do Igorrr é sempre um processo longo e muito intenso de composição e design de som. “Amen” não foi exceção. A força motriz foi expressar minha visão da minha música perfeita, com o máximo de honestidade, transparência e precisão possível. Se eu tivesse que escolher entre “continuação” e “reinvenção”, provavelmente escolheria reinvenção, porque muitos aspectos da minha abordagem evoluíram. Saí da minha zona de conforto em busca de novos sons, novas cores, novos temperos — e os encontrei. De muitas maneiras, o álbum está cheio de descobertas e invenções.

Como é o seu processo criativo? Como suas músicas geralmente ganham forma?
Posso começar por qualquer coisa, realmente. Não existe um elemento específico que eu sempre use — pode começar pelo ritmo, como em “ADHD” ou “Very Noise”, pode começar com um loop, como em “Hollow Tree” ou “Ancient Sun”, ou com um som de guitarra ou uma melodia que surgiu na minha cabeça. Pode começar por qualquer coisa. Geralmente, tenho a imagem global na mente, e uso qualquer “peça do quebra-cabeça” que se encaixe no que imagino para começar a construir a faixa. Do conceito à música final, meu trabalho é encontrar o melhor caminho possível para alcançar aquilo que imagino, respeitando o máximo possível a ideia original. Às vezes há um abismo entre a teoria — como imagino que soaria — e a realidade — como realmente soa — então às vezes eu adapto as partes.

Você colaborou com figuras como Scott Ian e Trey Spruance, artistas que também habitam as fronteiras entre gêneros. Como essas colaborações aconteceram e o que elas trouxeram ao universo de “Amen”?
Trabalhar com essas lendas foi um verdadeiro prazer e uma honra. Fiquei sinceramente surpreso com o quão natural e fácil foi. Eles são músicos incríveis e, além disso, seres humanos excepcionais. Tanto Scott quanto Trey trouxeram sua própria personalidade e cor à música, respeitando as composições que enviei. Terminamos com o melhor dos dois mundos: a autenticidade da faixa original e o toque único e lendário deles.

Ao longo dos anos, seu som se tornou ao mesmo tempo mais complexo e mais emocional. Você sente alguma necessidade de simplificar — de depurar — ou o excesso e a densidade fazem parte da essência do que você faz?
Provavelmente estou tão dentro da minha própria cabeça que não tenho tanto distanciamento sobre meu trabalho, mas, com a experiência, tento ir mais diretamente ao ponto — mesmo que esse ponto seja torto, estranho ou inacessível para alguns ouvintes. Ao longo dos anos explorei muitos caminhos e experimentei muitos gêneros, então talvez hoje eu saiba melhor onde procurar quando tenho uma ideia, e o resultado pode ser mais compreensível. Acho que quero que a música seja mais forte, então coloco mais energia em desenvolver uma ideia do que em dispersá-la em experimentações infinitas.

A música do Igorrr frequentemente soa como um diálogo entre caos e estrutura, beleza e brutalidade. Há alguma ideia filosófica por trás dessa dualidade — algo que reflita sua visão de arte ou da condição humana?
Sim, muitas vezes eu construo minha música em torno de um som e de seu oposto. O ruído nunca parece tão alto quanto quando vem depois do silêncio, e o silêncio nunca parece tão silencioso quanto quando segue um grande ruído. Gosto de usar contrastes para intensificar a emoção. O barroco e o death metal são quase simbólicos dessa ideia dentro do Igorrr.

O lado visual do Igorrr é tão marcante quanto a música. Seus videoclipes parecem extensões das canções — surreais, cinematográficos e profundamente atmosféricos. Como você aborda a criação dessas imagens e que papel elas têm na expansão do universo da sua música?
É incrivelmente divertido criar imagens a serviço da música.Também é um grande desafio, porque o Igorrr tem muitas faces, então escolho trabalhar com pessoas diferentes para abraçar esse espectro completo.Às vezes surgem vídeos em live-action, como “Daemoni”, com músicos tocando, e às vezes surge um nonsense total, como “Very Noise”. Quero que a paleta visual seja tão ampla quanto a musical.

Igorrr

Quando vemos vídeos de suas performances é visível que a experiência ao vivo do Igorrr é tão intensa quanto os discos. Como você enfrenta o desafio de traduzir uma música tão intrincada e cheia de camadas para o palco, mantendo energia e precisão?
É sempre um desafio tocar essa música ao vivo, é muito intenso. “Blastbeat Falafel” me vem à mente agora, e também o final de “Pure Disproportionate Black and White Nihilism” — essas são as que exigem mais concentração. Quando componho, foco 100% em como soa e se a música é boa — não em se ela é tocável. Então, quando chega a hora de tocar, no estúdio ou ao vivo, sempre vem aquele momento de facepalm: “No que fui me meter desta vez?”, especialmente quando preciso tocá-las todas as noites em turnê.

Seu público é notavelmente global, reunindo pessoas de culturas muito diferentes. Você percebe diferenças na forma como ouvintes de vários países reagem ou se conectam ao seu trabalho?
Também fico surpreso, e na verdade muito feliz. Vejo avós no público — não porque vieram com os netos, mas porque realmente gostam da música. Vejo jovens, metaleiros, entusiastas do barroco… todos juntos pela mesma coisa. Isso é lindo.

O Brasil tem uma forte tradição de misturar estilos e abraçar o inesperado — do Tropicalismo às cenas experimentais atuais. A música ou o ritmo brasileiros já chamaram sua atenção ou influenciaram seu pensamento artístico?
Não conheço música brasileira o suficiente para saber se alguma parte dela pode inspirar meu caminho musical ou não, mas adoraria ir ao Brasil um dia e descobrir a cultura! Há uma exceção, porém: sou um grande admirador de Yamandu Costa.

Numa era em que as plataformas digitais podem amplificar ou sufocar a criatividade, como você equilibra a liberdade artística com as pressões e algoritmos do mundo do streaming?
Como não faço música para algoritmos, mas para mim mesmo, sinto-me um pouco desconectado disso. Seja qual for o funcionamento do algoritmo, isso não vai mudar a forma como faço música.

Depois de “Amen”, quais direções você sente vontade de explorar? Há novas colaborações ou experimentos sonoros surgindo?
É cedo demais para dizer. Acabei de finalizar “Amen”, que foi uma montanha colossal a escalar. Sinto como se tivesse acabado de voltar do Everest. Ainda não tenho uma visão das próximas composições.

Olhando de suas primeiras gravações até agora, o que permanece no coração do Igorrr — o sentimento ou ideia que o guiou por todas as transformações?
Sinto que o núcleo do Igorrr permaneceu 100% intacto e puro ao longo dos anos, e fico muito feliz com isso. A energia que me impulsiona a fazer música continua a mesma — apenas me leva mais fundo e com mais precisão a cada álbum. “Amen é um exemplo forte disso. Vejo-o como uma homenagem profunda às origens do Igorrr — um gesto muito afetuoso ao passado.

–  Bruno Lisboa  escreve no Scream & Yell desde 2014. 

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