entrevista de Leonardo Vinhas
Sabe aquele som indie de guitarras, meio ensimesmado, vocal enterrado na mixagem, algumas eventuais explosões? Mesmo que sua resposta seja “sei”, as referências serão bem diferentes dependendo da sua idade. Os mais veteranos vão pensar no My Bloody Valentine e seus filhotes, os mais jovens vão pensar nesse revival shoegaze… e é com ambos que o aferhourless quer falar.
Projeto de um homem só do multiinstrumentista curitibano Rafael Panke, o afterhourless lança agora seu EP de estreia, “No Friends at Dusk” (2025), em meio a muitas “retomadas” do seu criador. Também integrante do ruído/mm, um dos maiores nomes do post-rock brasileiro, Panke retornou aos palcos com sua banda depois de um hiato de quase sete anos, se enfurnou no estúdio caseiro para registrar todos os instrumentos, e ainda assumiu a frente do selo Spleen Teen, que articulou um lançamento conjunto do EP na Inglaterra com o selo local Shore Dive Records, vinil incluído.
Crise de meia-idade? “Tipo isso, só que sem o conversível”, brinca Panke, nessa entrevista ao Scream & Yell. Também poderíamos chamar de “coceira na alma”, ou o bom e velho “fogo no rabo”, que aparece quando pessoas criativas se dão conta que estão há tempos demais sem criar, e que diabo, depois de uma certa idade a gente já não tem mais aquela pressão interna para agradar ninguém, e deveria ficar à vontade para fazer a doideira sã que pintar na cabeça.
Talvez seja tudo isso junto. Fato é: “No Friends at Dusk” é uma delícia de disquinho. Curto, funciona na medida para nosso foco de carpa dos dias atuais, mas também mostra uma bela autocrítica, com o autor lançando o que tinha de melhor, e trabalhando muito bem cada uma das faixas. Uma prova disso é que as quatro faixas operam num crescendo, melhorando da primeira à última sem que a anterior fique em demérito. OK, a preferida do autor dessas linhas é a rápida e grave “Glass Barricade / Silica Blues”, segundo tema do EP, mas entre “Coriolis, Centrifugal Love” e “Unused Space”, a coisa só melhora em termos de esmero e riqueza harmônica.
Panke recebeu as perguntas por e-mail, e alguns detalhes foram burilados posteriormente. O resultado – sucinto e direto, como o EP – está nas linhas a seguir.
Você estava bem afastado dos lançamentos musicais, e agora volta solo e com o ruído/mm. Foi uma pausa necessária?
Acho que o apocalipse exigiu uma pausa de todos aqueles com coração. Um período de recuperação complicado, mas necessário: o Eremita sai da caverna percebendo algo que não percebia ao entrar.
E o que fez você pegar e já fazer um primeiro EP totalmente totalmente solo, da execução a todos os níveis de produção? Foi custo, expressão pessoal ou zero paciência para interferências externas? (risos)
Tipo isso… bem doido da cabeça, né? (risos) Foi uma questão de expressão individual antes de tudo. E, em decorrência disso, a incompatibilidade com palpites externos e concessões. A sonoridade e as palavras são absolutamente pessoais e vêm da minha memória afetiva, de sentimentos que precisavam de transmutação, de coisas que precisavam ser ditas, de limites individuais que precisavam ser superados.E eu também queria fazer algo mais direto. Com o ruído/mm, a poiesis é outra: o tempo é mais dilatado, o esforço despendido coletivamente vai atrás do universal, de uma paralaxe perfeita que enquadre nossas diferentes perspectivas. Além disso, há os desafios mais mundanos, a sincronização de ritmos e expectativas, a conciliação de agendas. Com o afterhourless, só preciso lidar com a minha própria disponibilidade emocional – o que já não é assim tão fácil, diga-se de passagem. (risos)
“No Friends at Dusk” é um disco com influências de um indie de guitarras que andava sumido, e que agora tem voltado. Há até mesmo uma geração de novas bandas inspiradas pelo shoegaze. Você tem acompanhado essa movimentação?
Reparei sim, achei demais ver uma rapaziada GenZ botando o pedal de delay na frente do de distorção, tacando reverb na voz pra lá dos níveis seguros, cultivando microfonias como se fossem trepadeiras, indo na contracorrente do mar de lo fi beats e vocoders. Esse resgate tardio da cena me fez pôr algumas coisas em perspectiva. Por exemplo: lembro que quando o “OK Computer” era o som mais incrivelmente inovador e “do futuro” possível, o rock clássico tipo Led Zeppelin levava o epíteto de som de tiozão – com uma diferença de uns vinte e poucos anos entre os dois. Mas entre hoje e o lançamento do ‘Loveless” já tem 35 anos! Ou seja, é tanto tempo quanto havia entre o “Loveless” e o primeiro disco do Elvis (!). Me sinto uma múmia… é tipo uma crise da meia-idade, só que sem o conversível. (risos)

Imagino que, até por conta da sonoridade, as letras vieram em inglês. Você chegou a arriscar alguma coisa em português?
Na minha primeira banda autoral – numa vibe meio post punk/gothic rock, chamada Zero Caos, que montei com meu parça Ozz em 1996 – ambos assinávamos as letras, em português. Inclusive, conversando com ele esses dias, decidimos gravar composições da época que não foram registradas, uma delas baseada em um soneto meu. Logo mais sai. O Delta Cockers – projeto de electro rock/indie pop que eu tinha com o Marcell Boareto – também era em português. Mas quando comecei a compor para o afterhourless, minha memória afetiva veio em inglês. E também porque se no mundo anglo-saxão esse já é um som de nicho, imagina no Brasil. O fato de que o primeiro selo que se interessou em fazer o lançamento era britânico, não brasileiro, ilustra bem isso. Aliás, aqui entra a Spleen Teen, projeto que estou cravado com unhas e dentes, e que vale um papo outro dia.
Sonoridade guitarreira, referências sonoras mais fortes vindas de sub vertentes do rock alternativo, letras em inglês… Imagino que não exista a pretensão de viralizar em redes sociais (risos). Nos últimos tempos, conversei com muitos músicos que têm projetos engavetados, e que dizem que preferem não lançar porque a lógica algorítmica e as regras do mercado musical hoje provavelmente vão fazer com que o disco se perca. Não é o seu caso. Com que mentalidade você está entrando nesse universo que, por mais que você já esteja na música há anos, é praticamente novo para você?
Viralizar? (risos) Zero pretensão. Foco no conceito, não no marketing. Entendo que pro pessoal que vive de música correr atrás de números seja fundamental hoje em dia, mas não é o caso aqui. O momento em que essas canções fazem sentido pra mim é agora, mesmo que o destino delas seja ficar soterradas entre as 100.000 faixas subidas ao Spotify diariamente.
Considero a divulgação a parte mais maçante do processo. A ansiedade que ela gera se contrapõe ao progresso terapêutico feito durante a criação. Mas é preciso disponibilizar o trabalho de alguma forma, e a mais abrangente que existe hoje em dia é esse mind fuck algorítmico. Sendo bem sincero, chego a crinjar com a ideia toda de ter que implorar publicamente por atenção. Adoraria poder pagar uma equipe de RP que tirasse isso das minhas costas, mas né.
A questão da arte estar sujeita ao mercado é um ponto de dor para os artistas há sei lá quanto tempo. Sempre há a figura de um “homem prático” fazendo a intermediação entre a obra de arte e o público – seja um mecenas, um empresário, uma gravadora, um gatekeeper, um patrocinador, um algoritmo. Heine já falava do “filisteu da cultura” – o cara que usa o mesmo raciocínio para tratar das riquezas mundanas e das culturais, “pesando, na sua balança de queijos, o próprio gênio, a chama e o imponderável”. Adoro essa descrição dos fatos desde que a ouvi pela primeira vez numa aula de filosofia do segundo grau sobre Nietzsche. Mais atual que nunca.
Agora, pra não dizer que não falei das flores, o espírito da “scene that celebrates itself” segue firme e forte, hoje obviamente não se limitando mais à Londres. O pessoal é realmente entusiasta e fica por dentro de tudo que é lançado! Tive plays em umas quantas rádios online ao redor do mundo e convites para feats em blogs e podcasts especializados, cujos apresentadores me acharam por conta, já na semana do lançamento. Encontrar essa cena super ativa, paralela às redes sociais, foi uma surpresa deveras agradável! Sem falar nos jornalistas culturais nacionais que permanecem firmes na arte de fazer as coisas por afinidade, com um senso de relevância imune ao instinto de manada. Heróis da resistência e sonhadores do ideal: tamo junto!

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“. A foto que abre o texto é de Renata Peterlini