entrevista de Alexandre Lopes
No fim dos anos 1990, antes de qualquer algoritmo em streaming recomendar músicas, uma banda inglesa de rock alternativo encontrou um caminho improvável até os quartos de adolescentes do mundo todo. A porta de entrada não foi a MTV nem rádios: foi um anime sombrio e existencialista sobre tecnologia, solidão e identidades borradas chamado “Serial Experiments Lain”. Na abertura da série, em meio a ruídos eletrônicos e imagens fragmentadas, surgia “Duvet”, uma balada melancólica e bonita demais para ser apenas trilha de fundo, assinada por uma banda não japonesa, o Bôa, formado em Londres em 1993.
A combinação era visualmente marcante: uma trama que antecipava ansiedades sobre como a internet nos conecta (para o bem e para o mal) e uma canção de delicadeza cortante, que soava ao mesmo tempo íntima e deslocada naquele cenário. A partir dali, o Bôa passou a habitar um espaço estranho: para muita gente, era “a banda de Lain”; para outros, um segredo bem guardado encontrado em CDs importados, em fóruns de anime, em MP3s baixadas com nome errado. Entre o álbum de estreia “The Race of a Thousand Camels” (reeditado em 2001 como “Twilight”), o posterior “Get There” (2005) e EPs como “Duvet” (1998) e “Tall Snake” (1999), a banda misturava uma herança funk/jazz com guitarras alternando momentos suaves e pesados e um senso de fragilidade que já apontava para temas de identidade e vulnerabilidade que mais tarde ganhariam novos contornos na sociedade.
Depois da metade dos anos 2000, no entanto, o Bôa praticamente desapareceu. Houve descobertas póstumas – como o ainda oficialmente inédito “The Farm”, álbum encontrado no site do ex-tecladista Paul Turrell após sua morte, em 2017 – e uma circulação contínua em nichos: fãs trocavam links, recortavam trechos de “Lain”, faziam fan-arts, montavam remixes. A banda estava em hiato, mas a música seguia viva em camadas subterrâneas de fandoms da internet.
E foi justamente esse subsolo digital que acabou puxando o grupo de volta à superfície. Em 2021, “Duvet” entrava na lógica da cultura de recortes do TikTok, reaparecendo em edits que retomavam a vibe depressiva/tecnológica da série. E assim a faixa teve uma ressurgência massiva, alcançou o Independent Singles Breakers Chart no Reino Unido, ganhou clipe novo e, de repente, catapultou o Bôa de banda adormecida a entidade intergeracional. Gente que tinha descoberto o grupo por CD nos anos 2000 se viu dividindo timelines com adolescentes que seguiram aquele refrão arrastado, recortado em vídeos de desabafo, montagens e colagens sobre saúde mental.
Pouco depois, veio o convite da Nettwerk Music Group para que a banda lançasse material antigo ainda inédito ou um álbum novo. E foi assim que Jasmine Rodgers (vocais), Alex Caird (baixo) e Lee Sullivan (bateria, teclados) se reuniram novamente para gravar “Whiplash”, o registro da volta do Bôa, lançado em 2024 (com uma edição deluxe recheada de faixas bonus agendada para janeiro de 2026).
Não deixa de ser curioso lembrar que Jasmine e o irmão Steve (um dos fundadores do Bôa) são filhos de Paul Rodgers, ex-vocalista de bandas como Free e do Bad Company – uma linhagem rock que poderia facilmente empurrá-la para o clichê da herança clássica, mas que a conduziu para um outro lugar: o de alguém que usa suas canção para falar de identidades fraturadas e de pessoas tentando se entender em meio ao ruído da sobrevivência.
A trajetória da banda sempre esteve atravessada por temas de identidade e fragilidade, e “Whiplash” assume isso de forma frontal. O próprio tema do disco serve de confissão: “Términos de relacionamento, crises, divórcios e toda a falta de saúde mental que existe entre eles”, de acordo com o grupo em entrevistas anteriores. Estar em contato com a própria fragilidade e defeitos sempre foram os temas gerais das letras do Bôa ao longo dos anos. “Tivemos 27 anos de pessoas escrevendo pra nós, mandando e-mails, mensagens, DMs sobre o que sentem em relação à nossa música e como a gente se conecta com elas”, explica Jasmine. “Então eu não estava escrevendo só sobre mim, eu estava escrevendo sobre todos nós. Algumas das minhas letras são respostas a pessoas que escreveram pra gente sobre suas dificuldades com a própria identidade e como a nossa música deu algo a elas. Essas letras eram uma mensagem para essas pessoas; para que elas também continuem seguindo em frente: eu estou aqui, nós estamos aqui”.
Mesmo após uma bonita passagem pelo Brasil com um show lotado no Cine Joia, em Sâo Paulo, em que recebeu, ainda, o “Play de Safira” da Associação Brasileira da Música Independente, certificado entregue pelos 32 milhões de streams do single “Duvet” no Brasil, a cantora é cautelosa. A banda já tem datas marcadas para o ano que vem, mas ela evita prometer demais. “Sinceramente, ainda não tenho certeza”, admite. “Eu perdi a minha mãe há dois meses, então depois da turnê eu só quero voltar pra casa e descansar. Mas tenho certeza de que provavelmente vai surgir alguma coisa criativa. Sendo bem honesta, é neste ponto que eu estou agora. E acho que a coisa maravilhosa sobre o que temos é justamente poder fazer tudo no nosso tempo”, comenta, controlando as expectativas.
Mas ela também fala que os tempos recentes foram “muito inspiradores” e deixa escapar que as coisas já começaram a borbulhar. É o tipo de frase que dita por qualquer outra banda soaria vaga demais, mas no caso do Bôa, carrega um peso particular. Para um grupo que já experimentou sumir do mapa, atravessar luto, divórcios e, ainda assim, reencontrar o caminho de volta para reescrever a si mesmo, talvez essa história ainda esteja longe de terminar. Confira a entrevista completa de Jasmine com o Scream Yell abaixo.

Eu sei que vocês provavelmente devem receber sempre essa pergunta, mas depois de ficarem tanto tempo afastados como banda, como foi a sensação da primeira vez em que vocês voltaram a ficar na mesma sala fazendo música juntos?
Bem, a gente decidiu que, para o 21º aniversário de “Lain”, faríamos uma coisinha especial. Então eu, o Alex e o Lee nos juntamos na minha casa e nos gravamos tocando. Acho que isso foi em 2018, algo assim. E começamos a fazer um jam em cima de “Duvet”, então percebemos que ainda tínhamos uma certa química tocando juntos. Aí, quando a Nettwerk Music Group [gravadora atual do Bôa] nos convidou para trabalhar com eles, nos perguntaram: “Vocês gostariam de lançar um álbum novo ou material antigo?” e imediatamente nós dissemos: “Vamos fazer um álbum novo”, porque já sabíamos que ainda tinha algo ali entre nós. Então foi uma sensação fantástica ter essa oportunidade.
Nesse período em que a banda esteve em hiato, você seguiu uma carreira solo e gravou algumas coisas. Quando você voltou a escrever para esta banda, o que sentiu de diferente imediatamente em relação a escrever para a sua carreira solo?
É mais que um gênero diferente, eu acho. Minha música solo sempre foi bem folk, leve e suave. Com o Bôa eu posso ser mais pesada, então é mais divertido desse jeito. Mas também tem o fato de você estar trabalhando com outras pessoas. O Alex chegou com muitas ideias já prontas e eu também levei algumas ideias. Então a gente já começou fundindo coisas, em vez de ser só eu, sabe o que quero dizer? Quando você colabora mais, você acaba se organizando mais para conseguir acomodar melhor uns aos outros. Então talvez tenha sido algo mais impulsionado justamente porque éramos mais pessoas, sabe? Se sou só eu, sentada no meu quarto, pode levar muito tempo para escrever uma música.
E em comparação aos primeiros discos, como foi o processo de composição no último álbum, “Whiplash”? Você acha que foi muito diferente de antes ou foi quase a mesma coisa, mesmo vocês não sendo exatamente a mesma banda?
Bom, no primeiro álbum todos nós ainda estávamos nos encontrando. A gente começou fazendo jazz-funk, então meio que estávamos nos “rebelando” contra nós mesmos ao fazer rock. E isso veio simplesmente de fazer jams e pensamos: “Isso é divertido, vamos fazer isso”. E então, pouco a pouco, começamos a compor de fato. Então, em algumas músicas, você consegue ouvir essa mistura de vários tipos de gêneros. Era algo meio livre, o que era bem divertido, e tinha muitas ideias que surgiam de jams. Depois, quando chegamos ao “Get There”, já havia muito mais ideias de músicas sendo levadas prontas, ou arranjos sendo apresentados. E nesse sentido foi meio parecido com o que aconteceu no álbum novo. Ao final do primeiro disco, já tínhamos chegado a um ponto em que conhecemos muito bem uns aos outros, porque já estávamos na banda há bastante tempo desde quando o primeiro álbum saiu. Então já tínhamos uma ideia de como trabalhávamos juntos. Isso acabou se tornando algo bem automático no terceiro disco.
Li que o disco mais recente nasceu de términos, colapsos, divórcios e coisas relacionadas à saúde mental. Em que momento você percebeu que o álbum seria baseado nesse tipo de tema? Foi uma música específica que desbloqueou essa ideia ou você simplesmente percebeu no final que as letras estavam conectadas por isso?
Não tenho certeza, porque “Strange Few” foi provavelmente a primeira que a gente escreveu quando estávamos meio que… [hesita]. Eu criei o riff justamente quando os caras da banda estavam chegando na sala de ensaio, e eles se sentaram e imediatamente começaram a tocar. Foi muito lindo, porque foi tipo: “Ah, sim, estamos de volta”. Inicialmente, as letras (de “Whiplash”) eram um pouco mais políticas e filosóficas; não eram românticas nem nada assim, e talvez tenham seguido mais a linha do meu trabalho solo, pelo menos liricamente. Mas aí eu terminei um relacionamento, então isso meio que inevitavelmente mudou tudo. Liricamente eu estou sempre olhando para identidade e eu pareço estar sempre usando isso como tema principal. Então isso sempre esteve ali. O que foi diferente é que tivemos 27 anos de pessoas escrevendo pra nós, mandando e-mails, mensagens, DMs sobre o que sentiam em relação à nossa música e como a gente se conecta com elas. Então, dessa vez, eu não estava escrevendo só sobre mim ou sobre a banda, eu estava escrevendo sobre todos nós. Algumas das minhas letras são respostas a pessoas que escreveram pra gente sobre suas dificuldades com a própria identidade e como a nossa música deu algo a elas. Então, às vezes, essas letras eram uma mensagem para essas pessoas: mostrar que, em todos os momentos em que eu realmente sofri quando era mais jovem, no primeiro e segundo discos, eu me mantive seguindo em frente. E talvez para que elas também continuem seguindo em frente: eu estou aqui, nós estamos aqui. Nós meio que tentamos fazer dessa forma.
E você acha que esse tipo de fragilidade, sentimentos e letras vulneráveis ressoam com o público mais jovem de um jeito especial nesses tempos caóticos em que estamos vivendo agora?
Eu acho que todo mundo está sempre em busca de identidade e sempre avaliando quem é, onde está, então talvez isso se conecte, especialmente quando você é mais jovem, quando está justamente descobrindo sua identidade. Mas isso não quer dizer que não possa te atingir em qualquer momento. Tenho certeza de que você entende: todos nós passamos por fases em que pensamos: “Meu Deus, quem sou eu? O que eu sou e por que estou aqui? É aqui que eu quero estar? Consigo mudar isso ou devo ficar onde estou?” Sabe como é… (risos).
Nessa turnê atual, vocês já tocaram no México, Peru, Chile e recentemente em Buenos Aires, na Argentina. Como tem sido essa experiência? É a primeira vez que vocês vêm para cá? Eu sei que vocês não tocaram aqui antes, mas algum de vocês já tinha vindo a esse lado da América?
Acho que alguns dos caras [da banda] já tinham vindo. Meu parceiro de muito tempo atrás é da Colômbia, então eu estive lá várias vezes, mas nunca tinha ido a nenhum outro lugar daqui. E foi maravilhoso. E não só foi maravilhoso, como o Corona Capital [Festival, no México] foi incrível. A gente conseguiu ver Queens of the Stone Age, Foo Fighters, Lucy Dacus e Garbage, e também visitar algumas das pirâmides locais. Depois fomos para o Peru, para Lima, vimos mais algumas pirâmides e museus. Foi bem legal.
Mas falando sobre o público, como você acha que ele é diferente aqui?
Desculpa, você não estava falando de eu ser turista! (risos)
Não, sem problema! Saber tanto sua percepção de turista como de musicista é muito bom! (risos)
Ah, o público é incrível! Todos sempre têm muita energia. É absolutamente incrível!
A banda meio que já viveu em duas realidades bem diferentes: os fãs que descobriram vocês na década de 90 pelos CDs e pela abertura do anime “Serial Experiments Lain”, e os que conheceram vocês pelo TikTok. O que você sente que melhorou com essa nova cultura de fandom e do que você sente falta daqueles tempos antigos?
Bem, todo mundo é muito gentil e muito atencioso. Temos um público muito inteligente, que está em sua própria jornada e a gente acaba estando junto com eles nela, o que é lindo. Você não é tratado como um deus, eles simplesmente se conectam com a música e isso é bonito. É tudo muito pé no chão, o que é legal. Algumas pessoas nos conheceram pelo anime, outras pela própria música, outras pelo TikTok, seja lá como for. Mas não sei se conseguiria dizer o que é diferente. Não tenho certeza, porque naquela época eu os encontrava quando era mais jovem, então não sei, não consigo responder isso de uma forma muito útil, receio que não dá (risos). Tudo o que posso dizer é que somos muito honrados por ter todo mundo, qualquer pessoa, ouvindo nossa música. É legal. Eles são o tipo de gente que nós gostamos, sabe? São muito inclusivos, parecem o tipo de pessoa com quem você pode sentar para tomar um café tranquilamente.
Eu sei que vocês já têm alguns shows marcados para o ano que vem, mas depois dessa turnê, quais são os planos? Vocês pretendem escrever músicas novas, gravar juntos… O que vem por aí?
Sinceramente, ainda não tenho certeza. Eu perdi a minha mãe há dois meses, então depois da turnê eu só quero voltar pra casa e descansar. Mas tenho certeza de que provavelmente vai surgir alguma coisa criativa. Sendo bem honesta, é neste ponto que eu estou agora. E acho que a coisa maravilhosa sobre o que temos é justamente poder fazer tudo no nosso tempo. Mas sabe, é inevitável. Tem sido um ano e meio, dois anos, muito inspiradores. Tem sido incrível, e as coisas já começaram a borbulhar. Então vamos ver.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.