Entrevista: Stuart Braithwaite (Mogwai) fala sobre “The Bad Fire”, ativismo, humor e o gosto por coisas esquisitas

entrevista de Alexandre Lopes

Aos 30 anos de estrada, o Mogwai já poderia habitar uma espécie Olimpo em que bandas seletas viram estátuas intocáveis, excessivamente reverenciadas e um pouco distantes da humanidade. O guitarrista Stuart Braithwaite, porém, fala como quem não combina em nada com essa aura de monumento: é acessível, ri facilmente, desarma qualquer solenidade em poucas frases e parece não levar a própria obra tão a sério quanto o resto do mundo leva.

Braithwaite fala de coisas pesadas com a mesma naturalidade com que ri da expressão escocesa que batizou “The Bad Fire”, o álbum mais recente de sua banda (e, segundo a Kalporz, parceira do Scream & Yell, “um paraíso para os ouvidos“). É um título que, ao mesmo tempo, soa quase cômico para quem cresceu ouvindo isso como sinônimo de “inferno”, mas carrega o peso de anos recentes marcados por doença (a jovem filha do tecladista Barry Burns foi diagnosticada com anemia aplástica e teve que passar por um transplante de medula óssea e sessões de quimioterapia), turnês remendadas e um mundo em colapso.

Na verdade, “The Bad Fire” foi o segundo disco que o grupo gravou em meio a turbulências, considerando que o anterior, “As the Love Continues” (2021), que colocou o Mogwai no topo das paradas de sucesso, foi gestado em plena pandemia. Ainda assim, o significado de gravar um álbum nestas condições é, acima de tudo, um alívio de simplesmente voltar a estar juntos numa sala, com amplificadores ligados e ideias circulando coletivamente.

Após uma rápida passagem pelo Brasil para tocar (baixo) no Índigo Festival em São Paulo, Stuart conversou um pouco com o Scream & Yell, antes de rumar para o Rio de Janeiro para tocar no Circo Voador. Alternando entre um humor seco e uma franqueza desarmada ao olhar para esse momento delicado da banda, ele admite que depois de tantos anos e onze discos, é difícil soar como qualquer coisa que não seja “Mogwai”.

Entre lembranças de sessões com Steve Albini (que, aqui no Scream & Yell, os definiu como “caras muito engraçados”), a certeza de que erros e “acidentes felizes” ainda são o coração da sua maneira de tocar e a defesa explícita da Palestina em um palco de festival, Stuart fala sobre vulnerabilidade, política e a alegria estranha de ver fãs reinterpretando canções como “Take Me Somewhere Nice” em vídeos, tatuagens e micro-narrativas espalhadas pela internet. A seguir, ele comenta o peso e a leveza por trás de “The Bad Fire”, o lugar do Mogwai num mundo “fodido” e por que, mesmo assim, vale continuar fazendo barulho.

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Sei que “Bad Fire” significa “inferno”. Você diria que o título reflete alguns problemas pessoais e de saúde que a banda estava enfrentando, ou talvez também algo maior, como o estado louco do mundo agora?
Sendo totalmente honesto, acho que a gente só achou o título meio engraçado (risos). Mas sim, passamos por um período difícil, especialmente o Barry, cuja filhinha estava muito doente. E sim, o mundo está fodido. Então eu suponho que o título funciona em vários níveis diferentes. Mas também é apenas uma expressão escocesa antiga para descrever o inferno, “você vai para o fogo ruim”. Então, acho que sim, acabou fazendo sentido mesmo.

Um amigo me disse que quando ouviu o disco, teve a sensação de que vocês estavam meio que revisitando a carreira da banda, porque algumas músicas lembram “Rock Action”, outras “Young Team” ou até coisas do “Mr. Beast”, quase como se estivessem fazendo uma auto-referência. Isso foi de propósito?
Não exatamente… Acho que a gente só está há tanto tempo fazendo isso que é difícil soar como qualquer outra coisa além de nós mesmos. Mas sim, eu entendo a relação com “Rock Action”, porque foi o primeiro álbum em que começamos a usar o vocoder e há bastante vocoder neste último disco. Acho que cada álbum é um tipo de progressão, então é um pouco diferente, mas claro, também acho que naturalmente acabamos remetendo a como a banda começou.

Como você disse, eu sei que a filha do Barry teve alguns problemas de saúde. Como ela está agora?
Ela está bem, está ótima! É uma criança saudável. Ela só teve um ano, um ano e meio bem assustador, porque passou muito tempo no hospital. Mas sim, agora ela está bem.

Que bom saber disso. E como toda essa experiência influenciou o clima do álbum?
Bem, isso dificultou o início das gravações, porque o Barry teve que ficar isolado do resto da banda. Eles precisaram meio que viver em uma bolha como família, já que a filha dele estava muito doente. Então fizemos uma turnê sem ele e fomos para a Austrália, o que não acontecia desde que ele entrou na banda. Foi algo diferente para nós, nem um pouco ideal. Mas quando as coisas se acalmaram e voltamos a tocar juntos, foi muito bom simplesmente estar fazendo música de novo e fazendo o que normalmente fazemos. É estranho, porque esse é o segundo álbum em situações complicadas – o anterior a gente fez durante a pandemia – então são dois discos seguidos feitos em circunstâncias caóticas e difíceis. Mas nos dois casos, quando finalmente conseguimos entrar no estúdio, foi uma experiência ótima, porque estávamos apenas felizes por estar lá fazendo isso.

Vocês costumam ouvir os próprios discos depois que terminam? Qual é a relação de vocês com eles depois que o trabalho está concluído?
A gente precisa ouvi-los bastante enquanto está fazendo e também para decidir em que ordem as músicas vão entrar, na mixagem e masterização, essas coisas. Então, depois que o álbum fica pronto, você realmente não quer ouvi-lo muito. Mas às vezes, anos depois, se decidimos tocar uma música antiga, precisamos escutá-la novamente para estudar e lembrar como ela é. Então é isso, eu não coloco nossos próprios discos para ouvir com muita frequência não.

E o que você acha de tocar em grandes festivais? Você prefere shows solo ou festivais, como o de ontem?
Acho que os dois podem ser ótimos, ou os dois podem ser ruins, depende. Eu gostei do de ontem; foi divertido, o público estava realmente muito legal. A gente não fez muitos festivais este ano, fizemos principalmente shows nossos, então teve uma sensação diferente. Mas ficamos felizes por sermos convidados para tocar aqui novamente.

Eu vi imagens do show de ontem e vocês estavam com a bandeira da Palestina no palco. Eu sei que vocês apoiam o Scottish Refugee Council. Quão importante para a banda é esse tipo de envolvimento com ativismo?
Acho que há muitas ideias perigosas sendo difundidas no mundo agora, muito racismo. E na Palestina está acontecendo um genocídio. Esse tipo de ato no palco pode não ser algo muito grandioso, mas se pudermos fazer algo para que aquelas pessoas saibam que existem outros pensando nelas, achamos que é algo importante de se fazer.

Você uma vez disse que haveria uma edição deluxe de “Rock Action”, mas ela ainda não saiu. Quando o Steve Albini foi entrevistado por um amigo meu, ele disse que gravou “uma ou duas músicas” com o Mogwai, mas apenas “My Father, My King” foi lançada. Isso está certo?
Não, acho que não! Foi só uma…

Você sabe se existe outra faixa em algum lugar? Talvez uma fita perdida ou algo assim?
Não, acho que o Steve pode ter se confundido. Acho que ele estava falando sobre as duas metades da mesma música, porque nós juntamos dois takes. É uma pena que ele não esteja mais aqui para confirmar isso, mas sim, era apenas uma música. Uma faixa muito longa, mas apenas uma.

Eu li que os títulos das músicas de vocês não têm muito significado, mas são sempre engraçados e inteligentes. Como vocês criam esses nomes? Vocês partem de uma frase e escrevem a música a partir dela, ou os títulos vêm depois?
Nada disso, a gente só anota coisas bobas ou engraçadas. Normalmente temos mais títulos de músicas do que músicas prontas. Por exemplo, já temos títulos para várias faixas do próximo álbum e ainda não escrevemos nenhuma delas. Apenas guardamos uma grande lista de coisas que achamos engraçadas ou interessantes.

Vocês já fizeram algumas trilhas sonoras, e o Barry uma vez brincou dizendo que ninguém nunca chamou vocês para fazer a trilha de uma comédia. Vocês gostariam disso? Como você acha que soaria?
Seria terrível! Uma péssima ideia! (risos) Eu preferiria fazer isso do que não fazer nada, mas não acho que vá acontecer tão cedo. (risos)

Você conhece Kids in the Hall, aquele programa de comédia dos anos 90?
O programa de TV canadense? Ah, sim, lembro dele!

Alguns esquetes são bem tristes, outros hilários. Eu pensei que talvez uma trilha de comédia feita pelo Mogwai pudesse soar como essa mistura.
É, talvez! A gente gosta de muita coisa engraçada nesse tipo, então vai saber. Talvez seja esse o caminho que poderíamos seguir. (risos)

Você já disse que é meio “anti-perfeccionista” e que gosta de “acidentes felizes”. Eles ainda têm um papel importante na sua música hoje em dia?
Ah, com certeza! Eu gosto de erros. Algumas das minhas partes favoritas das nossas músicas surgiram depois de erros enquanto tocávamos. Sou um anti-perfeccionista. Talvez até demais…

Minha última pergunta: existe aquele vídeo feito por fãs de “Take Me Somewhere Nice” no YouTube, com a garota e o aquário com o peixinho dourado, e outro de “The Sun Smells Too Loud” que minha companheira me mostrou. O que você acha desses vídeos feitos por fãs e de como as pessoas reinterpretam as músicas de vocês online?
Acho que é legal! É uma das boas coisas do mundo atual em que vivemos: as pessoas podem fazer o que quiserem com música e arte, criar algo engraçado ou até mesmo sério. Com “Take Me Somewhere Nice” aconteceu uma coisa curiosa: eu vi alguém com uma tatuagem dessa imagem e ela achava que aquilo era a capa do nosso disco. Acho isso incrível, porque é a forma como essa pessoa se conectou com a música. Na verdade, eu cheguei a trocar mensagens com o artista que fez essa imagem, porque as pessoas também acham que a pintura dele é relacionada à música. Mas é engraçado, eu gosto desse tipo de coisa. Gosto quando acontecem essas coisas esquisitas!

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br

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