texto de Anna Vitória Rocha
fotos de Fernando Yokota
“A vibe aqui está totalmente diferente do show de ontem!”
A frase acima foi uma das primeiras coisas que Kacey Musgraves disse ao público em sua apresentação na Audio, em São Paulo, após ouvir uma plateia apaixonada cantar todos os versos das três músicas que abriram a apresentação no último domingo, 28 de setembro. A declaração carregava um peso evidente: depois de estrear no Brasil diante de uma plateia hostil no Jaguariúna Rodeo Festival, a cantora texana encontrou na capital um público que – enfim! – parecia feito sob medida para ela: apaixonado, afinado e pronto para transformar aquela noite em algo histórico.
Gritos de “Kacey, eu te amo” foram alternados por exclamações de “Gostosa! Gostosa!” repetidos diversas vezes pelo público. Mas a manifestação que mais chamou atenção foi quando, ainda no início, pode-se ouvir uma exaltação das diferentes identidades ali presentes: “Gays! Bis! Trans!”. As vaias ficaram restritas à heterossexualidade, como uma resposta involuntária do público paulistano para o pessoal do interior.
Na véspera, a recepção tinha sido bem diferente. Escalada como atração internacional de um dos maiores rodeios do país, Kacey dividiu a noite de encerramento do festival com Zé Neto & Cristiano, Nattan e DJ Dennis. No papel, a escolha parecia lógica: afinal, a cantora é um dos maiores nomes do country-pop da última década, dona de oito Grammys – incluindo Álbum do Ano em 2019 com “Golden Hour”. No Brasil, a faixa “Giver/Taker”, de seu disco mais recente, “Deeper Well” (2024), chegou ao topo das paradas do iTunes em setembro.
Para completar o suposto acerto de curadoria, em Jaguariúna, o nome de Kacey Musgraves aparecia no line-up ao lado de fenômenos como Ana Castela e Lauana Prado. Com as três estrelas na agenda, o festival se posicionou de maneira interessante ao abrir espaço para nomes femininos em um evento dedicado a esse gênero historicamente povoado por homens que é o sertanejo.

No entanto, Kacey Musgraves não é apenas mais uma estrela do country. Honrando o legado de Dolly Parton, ela é uma mulher que subverte as expectativas dos gêneros (country e feminino) ao escrever sobre drogas, sexo casual, divórcio e hipocrisia religiosa, enquanto expõe as contradições da vida no interior dos Estados Unidos, que tem lá suas semelhanças com o Brasil do agro.
Mais do que isso, é uma artista que abraça a comunidade LGBTQIAPN+, um gesto raro em um meio tradicionalmente conservador. Colocá-la entre duplas sertanejas e DJs foi quase um experimento social de mau gosto. O resultado: vaias, silêncio, comentários debochados nas redes do festival, do naipe “Próximo show da Kacey me avisem pra eu faltar kkkk” e “A comemoração sincera da galera quando ela disse bye”.
Fãs que toparam gastar a sola da bota só para vê-la em Jaguariúna sentiram-se deslocados. “Nunca vi tanto hétero na minha vida. Ninguém tinha tatuagem, nenhuma sobrancelha descolorida”, contou uma delas à reportagem. Quem estivesse em busca de um objeto de pesquisa para compreender melhor a suposta polarização em curso no país iria se refestelar com a colisão de mundos que Kacey Musgraves presenciou sem querer.
Não é difícil entender, portanto, a emoção da artista ao se ver, enfim, diante dos seus. Ao subir no palco da Audio com quase meia hora de atraso, o que Kacey Musgraves encontrou foi uma plateia formada por gays e garotas (mas, principalmente, homens gays, com lenços no pescoço e chapéus brilhantes adornados de plumas) que esperavam por aquele momento desde 2013, ano de lançamento de seu primeiro álbum, “Same Trailer Different Park”.
Kacey Musgraves honrou a longa espera com um setlist de 26 músicas, bem mais generoso do que vinha apresentando ao longo da turnê. Atendeu ainda a pedidos da plateia, incluindo “Cherry Blossom” e “Fine” no repertório, na base do improviso. Esta última foi responsável por um dos momentos mais bonitos da noite: conduzida por dois violões e um banjo, a balada soou ainda mais pungente ao revelar, em arranjos de corda delicados, o lamento de uma mulher que finge estar bem enquanto seu amado está longe.
A banda merece menção especial. São oito músicos competentes, que dão corpo às melodias com a mesma riqueza de camadas que Kacey imprime às letras com sua voz cristalina e pena afiada. Os instantes mais inspirados surgem quando as notas parecem refletir as imagens presentes nos versos, como o farfalhar das asas de um inseto em “Butterflies”, o giro hipnótico de “Merry Go ‘Round”, a floresta psicodélica de texturas que colore “Jade Green”. Há também espaço para momentos mais intimistas, com luzes baixas e arranjos acústicos, que permitem que composições carregadas de sutileza e vulnerabilidade tenham espaço para brilhar. O destaque aqui vai para o belo solo de pedal-steel em “It Is What It Is”, que arrancou aplausos da plateia.

Ao longo de pouco mais de duas horas, o show flui com naturalidade por diferentes ritmos, e a intensidade chega a seu máximo com a pegada disco de “High Horse”, quando bolas infláveis invadem a plateia e abrem a porteira para um espetáculo pop. Logo na sequência, a festa é tomada pelas notas do piano de “Rainbow”, responsável por fungadas audíveis de uma plateia em lágrimas, em bonita comunhão.
Em mais uma de suas conversas com o público, a texana usou a tese para explicar de onde veio sua crença inabalável de que aquelas canções encontrariam seu público, à despeito dos protestos da gravadora e dos boicotes das rádios de country. “Somos pessoas muito diferentes, mas nossos sentimentos são universais”, disse Kacey Musgraves.
A teoria pode não ter colado em Jaguariúna, mas numa cidade com mais de 10 milhões de habitantes Kacey encontrou algumas milhares de pessoas para se juntar à sua turma. Basta lembrar da força e emoção com que o refrão de “Follow Your Arrow” (“Make lots of noise / kiss lots of boys / kiss lots of girls if that’s something you’re into”), um dos seus primeiros hits, foi entoado. Se tem um público que parecia conhecer bem a gramática da diferença que separa os dois territórios para além dos 200km da Rodovia dos Bandeirantes, certamente era aquele povo animado da plateia de São Paulo.
Não podemos nos esquecer que estamos em uma capital que recebe todos os dias pessoas vindas do país todo em busca não só de oportunidades de trabalho, mas também de um lugar mais livre e receptivo às diferenças, onde é possível ostentar um chapéu cowboy com plumas e amar do seu jeito com menos de temor e julgamento. “Quem aí também veio de uma cidade pequena?”, perguntou Kacey em determinado momento, e várias mãos se ergueram no ar.
Se ainda havia alguma dúvida de que aquela apresentação era especial não só para o público, mas também para a artista, Kacey Musgraves retornou ao palco de surpresa para mais duas músicas: “Breadwinner” e “Love Is a Wild Thing”. O bis não costuma fazer parte de seus shows e, sabendo disso, uma parcela do público já se dispersava pelo local quando a banda surgiu novamente, ainda com as luzes baixas. Poucos segundos depois, todos já corriam novamente rumo ao gargarejo, igualmente dispostos a não deixar aquela noite acabar.
Se por um lado a escolha das canções estragou um pouco do fechamento bem azeitado do set original, a potência de “Love Is a Wild Thing” cantada em uníssono serviu para mostrar que o country pode não só ser subversivo e inclusivo, mas também capaz de construir pontes entre mundos aparentemente distintos.

– Anna Vitória Rocha é jornalista, trabalha com estratégia de conteúdo e também escreve na newsletter No Recreio.
– Fernando Yokota é fotógrafo de shows e de rua. Conheça seu trabalho: http://fernandoyokota.com.br/