entrevista de Leonardo Vinhas
“O som da banda é legal no disco, mas ao vivo é muito melhor”. Essa frase, aplicável para muitas bandas, foi muito ouvida por Luana Batista e Hugo Ubaldo, os integrantes do 43duo. E de tanto ouvirem – e reconhecerem que havia uma grande diferença entre a experiência do estúdio e a dos palcos –, decidiram agir de acordo, e transportar o peso e a intensidade das suas apresentações para seu terceiro álbum.
O resultado, “Sã Verdade” (2025, ouça aqui), honrou não só a premissa, transpondo adequadamente para o disco a sonoridade dos shows, como também fez jus ao próprio talento da banda, que encontra caminhos interessantes para explorar uma espécie de psicodelia punk que, até então, soava demasiadamente derivada da sonoridade consagrada por Kevin Parker. Aliás, sejamos honestos: o que mais tem na tal “cena psicodélica” atual é banda bebendo na fonte do Tame Impala, a maioria de forma derivativa e pouco inspirada.
Com “Sã Verdade”, o 43duo fica bem distante desse rol, e consegue adentrar na linhagem da chapaceira à brasileira, que é ampla o suficiente para embarcar do folk agreste de Zé Ramalho aos excessos progressivos do Casa das Máquinas. Foi um ingresso parte intuitivo, parte consciente – afinal, entre as sete faixas há uma excelente versão para “Navio de Sonhos”, do Gralha Azul, agremiação setentista que se originou na mesma Paranavaí que serve de base para o 43duo.
Seja como for, o resultado é um disco que caminha com pernas próprias, e se destaca pela qualidade compositiva, pelo ataque sonoro e pela busca de uma identidade pessoa que não sacrificasse o aspecto melódico das canções. Afinal, psicodelia não precisa ser sinônimo de impenetrabilidade, né?
Vale dizer que a banda tem excursionando pra valer para divulgar esse disco. Enquanto bandas falam de “turnês” que têm, quando muito, quatro datas, o 43duo passará por (pelo menos) 27 cidades em quatro meses, nas regiões Norte, Nordeste, Sudeste e Sul – só o Centro-Oeste ficou de fora.
De Porto Velho, em Rondônia, aonde se apresentaria no Festival Casarão, a banda conversou com o Scream & Yell para explicar como consegue fazer essa mobilização, como chegou à sua “sã verdade” – e como ela representa a consolidação de tudo que vinham buscando desde o início da banda – e sobre essa eterna diferença entre palco e estúdio.
Ouça as sete faixas do disco no play abaixo
Vamos começar pelo conceito do álbum, que levou vocês da “pós-verdade” à “Sã Verdade”. Que jornada foi essa?
Hugo Ubaldo: Quando a gente fez a primeira triagem das canções para iniciar a pré-produção, a gente foi tentando pensar em algo que pudesse amarrar algumas delas em um bloco – um conceito teórico, filosófico, qualquer coisa assim. Várias delas tinham um pouco desse brilho e dessa ideia de enxergar a realidade tal como ela está. A gente tem a nossa parte psicodélica, e a ideia é justamente essa: entendemos que enxergar a realidade como ela é também é um estado alterado de consciência. A partir daí, a gente cogitou por algum tempo usar a pós-verdade como o tema do álbum, como título até. Só que aí a gente sentiu que era uma coisa já muito falada, daí a gente pensou numa contraposição a esse processo da pós-verdade, e numa viagem para um show, nos chegou essa ideia da “sã verdade”.
Interessante você falar isso da psicodelia para a partir do real. Quando entrevistei André Prando, do Espírito Santo, ele falou da psicodelia do Zé Ramalho, que para ele é um cara que delira a partir do real. Por mais que o Zé traga misticismo, questões cósmicas e tal, o delírio dele é sempre a partir da realidade. O Prando dizia se inspirar nisso, e vocês sempre se colocaram como uma banda psicodélica. Uma psicodelia não para escapar da realidade, e sim para encará-la maior consciência. É isso?
Hugo: Totalmente, amigo. Desde o começo dessa turnê, em que a gente está apresentando o disco e as pessoas estão tendo a possibilidade de ver a capa, a foto, pegar um livreto que uma artista da nossa cidade (Kemmy Fukita) fez e tal, temos visto a galera fazer uma associação com o trabalho de bandas brasileiras mais antigas, umas que a gente nem conhecia muito bem, como Casa das Máquinas, O Terço… E isso é muito legal, porque antes falavam de Tame Impala, Pink Floyd, e agora nos veem como parte dessa linhagem da psicodelia tupiniquim, essa que o André Prando falou. E isso pode ter a ver com a produção, também. Um amigo nosso falou: “Nossa, parece que é a ‘sã verdade’ de vocês, sem toda aquela produção cheia, gorda, com muitas camadas, com instrumentos dobrados e tal”. Ela tem o que precisa: é uma guitarra, se tem loop é o que a gente já usa, o que o próprio synth faz ao vivo…
Luana Batista (empolgada): Nossa, eu não sei se a gente tinha falado sobre isso antes!
Hugo (rindo): Não, não tinha.
Luana: E agora você levantando essa questão, fez muito sentido mesmo! Porque a gente acredita muito na simbologia das coisas, no inconsciente coletivo, nessas coisas que ninguém explica direito, mas que a gente sente quando se abre. Por isso que a gente fez questão de gravar ele ao vivo, do jeito que a gente toca no palco. Como somos em dois, fica aquela limitação sonora, só que, ao mesmo tempo, as pessoas comentavam que o nosso show era mais impactante pelo preenchimento do som que a dinâmica do palco exige, e que no álbum não era transportada de forma adequada. Esse disco é o 43duo nu e cru, e isso faz sentido também com o título. Eu não tinha feito essa reflexão ainda (risos).
Então vem aí uma pergunta em duas partes. A primeira é: por que vocês acham que os primeiros registros eram tão diferentes do que vocês apresentavam ao vivo? E a segunda é: como vocês conseguiram daí trazer essa força do ao vivo para essa gravação atual?
Hugo: Acho que, nos primeiros discos, a gente tinha sido picado por aquele “bichinho da produção”, que leva pra aquele mundo de: “poxa, essa guitarra aqui está nesse lugar X, mas se a gente fizer em linha e depois usar um processo eletrônico para fazer a versão, vai gerar menos ruído, vai ter menos sobra”. Esse tipo de coisa, sabe? Eu entendo todo esse processo. Somos nós mesmos que produzimos nossas demos e nossas prés, para chegar no estúdio já com tudo pronto. Então, no primeiro disco a gente caiu um pouco nesse processo de produção que acaba retirando todos os elementos que geram o som ao vivo. Aí você vai lá e pega os discos do Neil Young – de quem sou um puta fã – e cara, tem sujeira, é ao vivaço, tem hora em que o tempo degringola… E quando você vai escutar no show, está igual! Isso é muito foda! Mas entramos nessa coisa de achar que, por sermos do nicho da psicodelia, precisamos produzir pra caramba, sabe? No segundo, a gente também entrou nesse lugar, fomos colocando coisas, uma em cima da outra… Não me lembro quem escreveu uma matéria falando que a gente, ao vivo, soava como punk rock combinado com todas as nossas referências (nota: provavelmente Bruno Capelas aqui no Scream & Yell). E quando a gente leu, falamos: “caramba, é isso mesmo!” (risos). Ao vivo, a Lu impressiona pela potência, pela pegada, e a matéria falava disso, da pressão. Só que, no estúdio, a gente ia limpando e limpando e limpando… Nesse último, nossos parâmetros foram principalmente o primeiro e o segundo do Tame Impala (“Innerspeaker”, 2010, e “Lonerism”, de 2012). A gente estava bem convicto de que ia tocar as músicas como elas estavam sendo feitas, com os timbres, captando no cubo, com ruído mesmo.
Luana: E foi uma necessidade mesmo, porque a gente se empolgava nas produções dos álbuns, querendo por mil coisas, mas nunca conseguia reproduzir no palco o que estava ali. E tudo bem, só que a gente queria muito que aquilo que estivesse no álbum fôssemos nós de verdade. Eu sei que álbum é uma coisa e ao vivo é outra, mas tenho pra mim que a essência do artista está no ao vivo. Por isso, quando chegou esse terceiro álbum, sentimos a necessidade. Poxa, a gente recebe tanta elogio do nosso show e sempre a frase é essa: “Nossa, eu ouvi, achei legal, mas ao vivo é muito foda, muito muito mais legal”. E como a gente tem esse espírito mais roqueirinho, a gente entrou nessa bem decidido, usando só os instrumentos que a gente usa no palco, que são o sintetizador, a guitarra e bateria. Claro, isso tudo porque esse é um momento em que estamos bem seguros do nosso som. Porque tem isso: o 43duo começou na pandemia em 2020, começou já gravando música… O Hugo era baterista, tinha acabado de ir para a guitarra e eu também ainda não tocava o sintetizador, ele só veio depois. Então, tudo foi um processo até chegar nesse terceiro disco, que acho é o nosso auge até agora, ou pelo menos a consolidação do nosso som, da segurança no palco, de como a gente quer transmitir as nossas ideias.

Você se dividir entre a bateria e o synth acaba constituindo um elemento cênico muito forte. Imagino que foi algo meio involuntário, que nasceu da necessidade, mas não tem como negar que chama muito a atenção no palco. Além disso, tem o fato de vocês serem um casal: duas pessoas, parceiros, dois gêneros distintos, com uma relação afetiva que mexe no imaginário das pessoas. Por mais que tudo isso tenha nascido de forma circunstancial, eu queria saber se de alguma maneira vocês aproveitam essas circunstâncias para trabalhar em cima, capitalizar…
Luana: Na verdade, foi meio que… Como é a expressão? “Matar dois coelhos com… “ (hesita) Preciso de uma expressão menos violenta (risos). Teve isso de a gente ter um elemento sonoro a mais, e também um diferencial visual. Porque teve uma época que a gente ficava pensando muito sobre existirem tantos duos, sempre guitarra e batera com a guitarra splitada, dobrando o sinal, mandando sinal para o cubo… A gente começou a pensar como podia ser diferente, até porque você quer chamar atenção quando está começando. Por isso a gente fez questão de montar o palco de um jeito diferente: sempre que dá, a gente coloca a bateria à frente, ou então de lado, com um de frente um para o outro… Tudo justamente para trazer a atenção para o sintetizador e a bateria, que estão sendo tocados ao mesmo tempo, e que é algo que sempre choca as pessoas, porque elas acreditam que é um negócio complexo. Nem é tão complexo assim, só que a gente comprou a ideia (risos). E no fim, gera uma sonoridade única, porque o chimbal não é tocado junto com a caixa, é tocado um de cada vez, os pratos são tocados com uma mão só…
Hugo: Essa parte cênica é um negócio que impacta e sempre é incrível. A galera ter contato com uma mulher fazendo isso, né?
Luana: Então! É sempre bom esfregar na cara dos macho (risos).
Hugo: E vira um negócio… Tem hora que eu olho do palco e estou vendo uns três ratinhos de pedal comigo ali, o resto está todo mundo assim, olhando pra Luana (arregala os olhos): “o que está acontecendo?” No primeiro disco, teve músicas que a gente escolheu gravar com as duas mãos, no segundo teve umas também, a gente se deixou levar. Mas nesse está tudo exatamente como é ao vivo.
Então não foi tão circunstancial assim (risos). E qual é a do nome da banda?
Hugo: As pessoas pensam que é por causa do DDD, em Londrina até perguntaram se a gente era de lá (risos). Mas Paranavaí é 44.
Luana: O nome é um lance de simbologia mesmo, de números. O quatro como uma energia feminina, mas não necessariamente a figura da mulher, e o três é uma figura masculina.
Hugo: Depois me dei conta que o Jack White usava o número três em um monte de coisa, justamente por isso.
Luana: Quando a banda começou, a gente estava nessa pira de psicologia, de Jung, simbologia das coisas, daí a gente pensou: “Nossa, os números não existem, né? Tipo assim, é uma convenção social, não é algo físico”. Era tudo essa coisa de dualidade, um homem e uma mulher, e a gente escolheu o número 43 e adicionou o duo ali para ficar mais óbvio, e para facilitar a questão de pesquisa nas redes e tal.
Mas a questão geográfica é importante também. E vocês são uma banda de Paranavaí, interior do Paraná, um estado que por si só não aparece tanto no mapa do underground brasileiro há muito tempo, e vocês estão agora fazendo turnê por uma região (Norte) que tem uma baita movimentação, mas que também não ganha projeção nacional. Então, como vocês veem essa coisa de encontrar espaços para a banda poder existir nos palcos?
Hugo: A gente participou de uma mesa aqui, e viu o pessoal de Rondônia trocando ideia sobre a cena da música autoral por ali. Cara, Porto Velho é uma mega capital, mas você escuta o pessoal falando e vê que tem bastante coisa atrasada, assim como tem no Sudeste, no Sul. E para eles, tem a questão da distância, que também pega para nós. A gente nasceu na pandemia e não passamos por nenhum processo de tocar com a banda antes de ela gravar, todo o trabalho de divulgação tinha sido feito no Instagram. Por isso, a gente tinha seguidores do Ceará, do Rio Grande do Norte, de Pernambuco, lugares que sempre o pessoal falava assim: “Caramba, quando vocês vão me tocar no Nordeste?” E agora vamos fazer uns 12, 13 shows no Nordeste, estamos no Norte agora… A gente foi entendendo como fazer isso, mas rola porque a Lu tem uma parte gerencial muito aguçada, ela é contadora também, cuida de projetos culturais. Por isso, o 43duo é uma banda que tem uma saúde financeira muito boa. Fica uma composição de banda muito boa: eu tenho esse lado de experimentação, de iniciar as composições com os riffs, com as letras, e aí a Lu entra depois com a bateria, com baixo, e com essa parte do gerenciamento. Eu acho que a gente conseguiu pegar esse ponto: fizemos turnê de carro pela Argentina, pelo Uruguai, em São Paulo. A distância que a gente percorre para ir tocar em São Paulo, fazer shows em São Paulo ou no Rio Grande do Sul, a gente consegue fazer quinta, sexta, sábado, domingo, segunda-feira, a gente viaja o dia todo e está em casa, sabe? Então acho que, geograficamente, Paranavaí está numa posição legal. A distância até São Paulo é praticamente a mesma que até Montevidéu, saca? A gente está usando tudo que a gente tem ao nosso favor, inclusive trazendo os artistas de outros lugares para Paranavaí também. A cidade não é muito grande, também não é muito pequena, e tem uma cena cultural bem legal, a Fundação Cultural e as políticas públicas como a lei Aldir Blanc, e tudo isso permite que a gente consiga criar projetos de festivais para trazer bandas para cá, igual a gente está aqui em Porto Velho. A gente está se pondo muito nesse local de ir para os lugares como artistas do interior do Paraná, mas também de colocar Paranavaí no radar da agenda das pessoas.
– Leonardo Vinhas (@leovinhas) é produtor e autor do livro “O Evangelho Segundo Odair: Censura, Igreja e O Filho de José e Maria“.