texto de Leandro Luz
Luiz Carlos dos Santos nasceu no dia 7 de janeiro de 1951. Casou-se com Jane Reis, mulher com quem dividiu toda uma vida – e teve um filho, Mahal Reis – até o seu falecimento, aos 66 anos, em decorrência de complicações de um câncer que ataca a medula óssea. As informações biográficas mais óbvias, que podem ser encontradas facilmente em qualquer buscador online, não são de franco interesse da diretora Alessandra Dorgan, nem de Patrícia Palumbo e Joaquim Castro, roteiristas que trabalharam com ela na feitura de “Luiz Melodia – No Coração do Brasil” (2024). O documentário, entretanto, se interessa mesmo é pela imagem do artista, pelo brilho que emana de seus poros e de sua voz incansável. Devota-se a tentar compreender e reverenciar a força inesgotável de Luiz Melodia, o que por si só já é um excelente ponto de partida para um filme.
Durante pelo menos uma década, sediado no morro de São Carlos, no Estácio, onde nasceu, Luiz Melodia correu atrás do sonho de viver de música sem muito sucesso. Quando estava prestes a desistir, Wally Salomão e Torquato Neto entram em cena e provocam uma revolução em sua vida. O ano é 1970, tropicália e ditadura, um jovem músico preto e pobre circula pela praça. É justamente a partir do encontro de Melodia com o universo além-muros do Estácio – e, portanto, além do samba e de todas as suas significantes – que ele irá se libertar de uma certa ideia de criação artística e se colocará pela primeira vez diante do abismo, ação que ele repetirá algumas vezes mais ao longo de sua carreira, impulsionada por uma espécie de incompreensão por parte da mídia e do establishment diante de um trabalho movido a base do risco.
Guiado por um rico acervo sonoro, fotográfico e audiovisual em torno do artista e, compreensível e inesperadamente, da cidade do Rio de Janeiro, “Luiz Melodia – No Coração do Brasil” propõe um mergulho profundo em paisagens, ruas e palcos ao longo de várias décadas nas quais Melodia foi adorado, ovacionado, incompreendido, preterido, esquecido, recuperado e redimido. A narrativa parte, claro, de “Pérola Negra” (1973), seu primeiro disco lançado e até hoje o mais lembrado e cultuado de sua trajetória profissional, passando pela dificuldade na manutenção de uma carreira intermitente em virtude, sobretudo, da caretice das gravadoras, até chegar às suas turnês de grande sucesso a partir do final dos anos 1990, bem representadas pelos discos “Acústico Ao Vivo” (1999) e “Luiz Melodia Convida Ao Vivo” (2002).
Um dos principais temas abordados pelo documentário é o do gênio inquieto e incompreendido. No início dos anos 1970, após sair do Estácio para viver na companhia dos tropicalistas na zona sul do Rio de Janeiro, ter suas músicas imortalizadas nas vozes de Gal Costa e Maria Bethânia e colocar no mundo o imenso “Pérola Negra”, Melodia se viu mais uma vez em um beco sem saída. Pressionado pela gravadora a fazer “outro” disco de samba (como se a obra-prima de 1973 se limitasse ao gênero), Melodia recusa imediatamente e acaba levando três anos para lançar um segundo trabalho, “Maravilhas Contemporâneas” (1976), não mais na Philips, agora na Som Livre. Este impasse é tratado com muito zelo por Alessandra Dorgan e seu montador, Joaquim Castro, que ressaltam, por meio da seleção das imagens de arquivo e da articulação de montagem, inclusive o racismo sofrido por Melodia. “Por que um artista negro, oriundo da favela, só poderia fazer sucesso com um disco de samba?”, se perguntava o próprio artista, colocando abertamente a questão em pauta por meio de comentários na mídia, que insistia – ainda que subliminarmente, alguns poderiam defender – em colocá-lo no campo minado da marginalidade.

Maldito à revelia, como geralmente acontece, Melodia (cujo sobrenome artístico, o filme nos conta, vem do pai, que também era músico) acaba trilhando um caminho tortuoso e precisou adotar uma postura ferina diante da vida, coisa que as inúmeras entrevistas reproduzidas no documentário dão conta de mostrar. A insatisfação do artista com a incompreensão de seu trabalho o colocou em sintonia justamente com um dos cantores e compositores brasileiros que mais sofreram pelo exato mesmo motivo: Sérgio Sampaio, nascido em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo e responsável por uma carreira de poucos, mas grandiosos discos – incluindo, claro, “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, lançado no mesmo ano do “Pérola”. A amizade entre Melodia e Sampaio, no entanto, é retratada com brevidade pelo documentário, e talvez tenha recebido pouco tempo de tela pela falta de material que apontasse nesse sentido. Outra pessoa importante na vida de Melodia foi Renato Piau, guitarrista espantoso que tocou inclusive no “Bloco” de Sampaio, sem contar na sua parceria com Tim Maia. Piau é daqueles instrumentistas que unem técnica e coração como poucos, algo que pode ser averiguado tanto nos discos em que participou quanto nos registros ao vivo abundantemente presentes no filme.
Aliás, aproveitando a conversa entre amigos, uma pausa no texto para um poema: Perinho Albuquerque, Arthur Verocai, Dominguinhos, Luiz Alves, Robertinho Silva, Hyldon, Rildo Hora, Oberdan Magalhães, Chico Batera, Severino Araújo, João Donato, Marcio Montarroyos, Elza Soares, Itamar Assumpção; todos esses nomes, ao lado de Renato Piau e alguns outros, foram colaboradores de Luiz Melodia ao longo de sua carreira, seja na gravação dos seus discos, seja nas apresentações ao vivo. Como canta Sampaio em “Doce Melodia”, canção-homenagem presente no álbum “Sinceramente” (1982), “Quem pode, pode, quem tem medo chupa cana / Quem não tem, come banana / Que o sutil do Melodia já pintou / Dizendo tudo que o malandro não se espanta”.
Capricorniano nato, Melodia conduziu a sua vida profissional com uma segurança e uma integridade raras, principalmente se levarmos em consideração as tantas adversidades pelo caminho. Dorgan abre o documentário com o seu personagem se apresentando ao vivo, iluminação baixa, uma silhueta magra flutuando pelo palco, os cabelos negros compridos e trançados. Ele fala diretamente com o público presente no show. Logo, na maneira inteligente como a cena é montada e apresentada, se direciona também a nós, espectadores do filme. Melodia disserta a respeito da importância da dança, de como ela é fundamental para que uma pessoa possa alcançar a liberdade. Um discurso agudo e mordaz que se dirigia ao pensamento retrógrado de muitos à época. Nesse ínterim, Melodia dança. E o filme também. Ao final do documentário, Dorgan retorna ao mesmo assunto, espelhando o seu início, e revela um homem – desta vez mais velho, ancorado em outro contexto político de país (e de vida) – reflexivo, meditando sobre o próprio ato de dançar, sobre como em sua família há a presença inusitada de muitos bailarinos, como ele sempre gostou de se comportar como um showman nos palcos. Uma passagem brilhante que dá conta de reverberar a imaginação de um grande artista.
“Sou um morto que viveu / Corpo humano que venceu”. Em “Luiz Melodia – No Coração do Brasil”, nos deparamos com um personagem inesgotável, retratado mediante uma operação acertada de deixar que a sua própria voz fale por si só. Não temos aqui entrevistas caretas com dinossauros – no bom e no mal sentido da palavra – da música brasileira. Os causos e os eventos são contados pelo próprio artista a partir de um arquivo rico, recortado para fazer sentido ora de maneira cronológica, ora mexidos na linha temporal para que determinadas histórias e recortes sejam valorizados. Nessa belíssima colcha de retalhos escancaram-se algumas limitações do documentário que, ironicamente, tornam a narrativa possível, palpável. Para compreender, basta que vejamos e ouçamos atentamente.
– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.
