Cinema: “Babygirl” apresenta diversos assuntos importantes com exagerado desequílibrio

texto de Leandro Luz

Se “Babygirl” (Halina Reijn, 2024) fosse uma obra madura, algo que rapidamente desconfiamos não ser o caso, poderíamos testemunhar mais ou menos dois ou três caminhos possíveis para a sua trama. Romy (Nicole Kidman), CEO de uma empresa genérica que acaba de criar um novo produto sem importância cuja mecânica automatizada pouco se explora, vive uma vida de princesa com a sua família até que conhece Samuel (Harris Dickinson), o novo estagiário que logo fareja os seus desejos reprimidos e propõe um jogo erótico e periculoso capaz de impactá-la para sempre. Diante do affaire iminente, a aventura que se vislumbra para a protagonista não é marcada pelo sarcasmo, nem pelo pastiche e muito menos pelo risco. Romy é uma personagem complexa, mas que a roteirista, diretora e produtora Halina Reijn pena até mesmo para arranhar a superfície. O seu filme, ao contrário do que sugerem os promissores quinze minutos iniciais, mal consegue manter-se de pé esgotada a curiosidade introdutória do tema central e não se decide pelo tom que irá nortear o restante de suas quase duas horas de duração.

Toda a campanha de marketing que circundou o longa-metragem desde o seu lançamento no Festival de Veneza esteve focada no erotismo supostamente atrevido e na coragem demonstrada pela sua principal estrela para interpretar uma mulher com desejos sexuais que fugiriam à norma social. O futuro do pretérito utilizado para conjugar o verbo “fugir” cabe aqui porque há um abismo entre a maneira como é vendido e como de fato as suas peças são conduzidas narrativamente – curiosamente, vale lembrar de como um dos trailers de “50 Tons de Cinza” (Sam Taylor-Johnson, 2015) apresentava uma voz sedutora que reiterava, na narração, o fato de ser “rated r” (ou seja, proibido para menores de 17 anos nos Estados Unidos), não como um aviso para os menores incautos e os pais zelosos, e sim como um chamariz para o lado “picante” de sua abordagem.

Leitores, não interpretem mal: não cabe, neste texto, uma comparação entre os dois filmes, sobretudo porque “Babygirl” passa longe da breguice manhosa das obras baseadas nos romances eróticos de E. L. James. Muito pelo contrário, a produção tem toda a pompa de um típico exemplar da A24, distribuidora e produtora estadunidense que acumula sucesso atrás de sucesso desde o seu surgimento no início da década de 2010, e se leva tão a sério que este, com efeito, acaba sendo o seu maior problema. Apesar de haver, sim, humor, sobretudo nas brincadeiras de sedução entre Romy e Samuel, a diretora e sua equipe ainda assim carregam a sua narrativa com as mãos pesadas demais para que a proposta funcione.

De fato, fazendo jus ao prêmio de melhor atriz em Veneza, Nicole Kidman parece bem confortável no papel da executiva poderosa cujas fragilidades são expostas a partir da relação que estabelece com um amante muito mais jovem. Como ela mesmo vem afirmando em entrevistas, não se trata de um papel arriscado, mas sim de uma grande oportunidade: aos 57 anos de idade, Kidman não se opõe a mostrar o seu corpo, e Reijn a filma com detalhes, de diversos ângulos e com certa frequência em momentos de extrema intimidade – há o corpo nu, os seios, a bunda, mas há principalmente o rosto de Kidman em close, os seus inesquecíveis olhos azuis, as rugas que sobrevivem às intervenções estéticas; para a atriz, que já atuou em diversos filmes ditos “sexuais” – sendo “De Olhos Bem Fechados” (Stanley Kubrick, 1999) o mais notório deles -, trabalhar com Reijn foi diferente, pois, segundo ela, ambas podiam “compartilhar tudo uma com a outra”. Não neguemos o quanto essa experiência pode ter sido enriquecedora para a atriz (e é ótimo ter mais mulheres produzindo obras desse tipo no mundo), entretanto, o que vemos em tela é menos intrigante do que o discurso anuncia.

A complexidade sugerida pela protagonista poderia ser digna de materiais do nível de trabalhos de cineastas como Catherine Breillat e David Cronenberg, para ficar em dois exemplos relativamente distantes do “cinemão hollywoodiano” de obras frequentemente citadas como “Atração Fatal” (Adrian Lyne, 1987) e “Instinto Selvagem” (Paul Verhoeven, 1992), por exemplo. No entanto, a cineasta insiste em se manter presa nas discussões rasas acerca das dissidências sexuais apresentadas e acaba por retratar de forma quase adolescente as aventuras de uma mulher rica com o seu estagiário. A maneira como o fotógrafo Jasper Wolf filma praticamente todas as cenas com a mesma profundidade de campo reduzida ou como o montador Matthew Hannam escolhe picotar as sequências com ansiedade aprisionam tudo no próprio registro paranoico da protagonista, ganhando em concentração, mas deixando de lado quaisquer nuances que porventura poderiam ser articuladas pelo ritmo interno dos planos.

É comum nos deparamos, tanto na vida real quanto na ficção, com casos de homens que seduzem mulheres mais jovens e ingênuas no ambiente corporativo. A inversão de papéis é interessante porque não óbvia, uma vez que Samuel é quem parece estar no comando da situação – Dickinson, aliás, é um ator cheio de carisma e faz um bom trabalho, mesmo com uma distância grande do talento de Kidman. Ainda assim, Reijn não consegue aproveitar desse descompasso para fazer de “Babygirl” um filme menos previsível e superficial. A própria onipresença distraída da personagem do marido, Jacob, interpretado por Antonio Banderas é um exemplo nítido disso. Se, por um lado, é fascinante termos um ator como o Banderas representando esse homem belo, maduro e viril incapaz de satisfazer sexualmente a sua mulher (a discussão é menos sobre performance e mais sobre o quanto ambos estão em total desconexão quanto ao que cada um entende por tesão), por outro a sua presença ilustre irrita em virtude do vazio da personagem. Para que pudéssemos mergulhar no drama de Romy, tão ligado à maneira como ela lida com o sexo, o seu casamento de 19 anos deveria ser muito melhor trabalhado do que a frase “eu nunca gozei com você” permite resumir. A sequência de Jacob confrontando essa incompatibilidade, já no terço final da trama, é tão constrangedoramente filmada e atuada que faz de seu casting algo ainda mais incompreensível.

Voltando ao aspecto mais crítico de “Babygirl”, a sua dificuldade em se decidir pela simplicidade das polêmicas que causa ou pela sisudez na qual retrata o sofrimento de Romy, uma comparação mais imediata poderia ser feita com “A Substância” (Coralie Fargeat, 2024), que apesar de não ser o trabalho mais profundo do mundo e de ter as suas doses de didatismo e de superficialidade, pelo menos parece ter a exata consciência disso, optando, ao contrário do filme de Reijn, por um escalada cada vez mais bagaceira em busca da diversão, do choque e do absurdo.

Esta é a segunda parceria de Halina Reijn com a A24. Anteriormente, a diretora lançou “Morte, morte, morte” (2022), com Rachel “Shiva Baby” Sennott no elenco, um thriller adolescente que tem a sua dose de interesse, ainda que tão frívolo quanto esta nova empreitada. A diferença entre os filmes, na verdade, é que enquanto o anterior era protagonizado por jovens adultos e tinha a ambição moderada de uma fita indie, “Babygirl”, ao contrário, surge com outro tamanho, estrelado por dois grandes atores veteranos, cotado para o Oscar e propondo questões muito mais profundas. Apesar de trazer à baila diversos assuntos importantes, sendo o principal deles uma bem-vinda contracorrente à maneira como o prazer das mulheres costuma ser socialmente negado e interditado, há exagerado desequilíbrio entre a rima de orgasmos – entre a tragédia e a farsa – que abre e fecha a obra.

– Leandro Luz (@leandro_luz) escreve e pesquisa sobre cinema desde 2010. Coordena os projetos de audiovisual do Sesc RJ desde 2019 e exerce atividades de crítica nos podcasts Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

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