Entrevista: Steve Von Till fala sobre a volta do Neurosis com o disco mais inesperado e importante de 2026

entrevista de Luiz Mazetto

No último dia 20 de março, uma notícia que chegou de forma totalmente inesperada – e até um pouco confusa, pela quantidade de informações envolvidas – mexeu com o mundo do metal underground como não acontecia há muito tempo. Após sete anos longe dos palcos, o Neurosis anunciou um show de retorno, ao lado de nomes como Baroness, YOB, Old Man Gloom, Enslaved, Borknagar e Full of Hell, no festival Fire in the Mountains, nos EUA. Mas não era apenas isso: a banda de pós-metal/metal psicodélico da Califórnia também revelou que estava lançando naquele mesmo dia um disco inédito, sobre o qual ninguém sabia nada até então, e com uma nova formação, trazendo agora Aaron Turner nos vocais e guitarras, ao lado de Steve Von Till (guitarra e voz), Dave Edwardson (baixo e backing vocal), Noah Landis (teclado/sintetizadores e backing vocals) e Jason Roeder (bateria).

Conhecido por seu trabalho com outro nome essencial do pós-metal, o Isis, além de projetos como Old Man Gloom e Sumac, Turner entrou no lugar de Scott Kelly, um dos fundadores do Neurosis, nos anos 1980, que foi expulso da banda após revelar em 2022 ter cometido uma série de abusos contra a sua própria família – os integrantes disseram na ocasião que, na verdade, Scott não fazia mais parte da banda desde 2019, quando ficaram sabendo dos seus atos, mas que não tinham revelado a informação antes em respeito à privacidade da família do músico. Na época, a notícia parecia sinalizar que a banda poderia deixar de existir, apesar de nunca terem anunciado o fim oficialmente.

Eis que quatro anos depois, após passar por um turbilhão e ver sua história e legado quase desaparecerem, o Neurosis volta com “An Undying Love for a Burning World” (2026, Neurot), seu primeiro trabalho em uma década (o último tinha sido o mediano “Fires Within Fires”, de 2016) e provavelmente o disco ao mesmo tempo mais pesado e bonito já feito pela banda. E estamos falando de um grupo cuja marca registrada está justamente nessa alternância entre momentos de calmaria e caos sonoro e que possui no currículos obras quase inigualáveis nesses dois lados, como “Enemy of the Sun” (1994) e “Through Silver in Blood” (1996) e “A Sun That Never Sets” (2001) e “Eye of Every Storm” (2004).

Mais ainda, tanto o disco quanto a escolha de Aaron Turner levaram a algo muito raro hoje em dia: fazer algumas milhares de pessoas concordarem sobre algo na Internet. Nesse caso, o quanto estavam felizes com a volta da banda, o quanto o disco era bom e significativo para elas, ainda mais no momento atual do mundo, e como Turner era a melhor – e talvez até a única – escolha possível para esse verdadeiro renascimento.

Na entrevista abaixo, feita por videochamada alguns dias após o mundo conhecer a nova fase do Neurosis, o vocalista e guitarrista Steve Von Till falou sobre o significado desse disco para a banda, como foi gravar e manter tudo em segredo, o que realmente deu o pontapé necessário para o grupo avançar com essa volta, a dinâmica de tocar com Aaron e como o álbum possui uma relação (inconsciente) com “Blackstar”, derradeiro trabalho de David Bowie, que completa 10 anos em 2026. Confira a seguir!

Vi que vocês fizeram um post nas redes sociais agradecendo e dizendo que ficaram comovidos com a resposta do público ao novo disco. Vocês tinham algum tipo de expectativa quando decidiram voltar com a banda e lançar o disco dessa forma, de surpresa?
A ética com que trabalhamos geralmente é de dar tudo o que você tem sem esperar nada em troca. Porque expectativas costumam levar à decepção. E isso é difícil quando você já está tão envolvido nisso, e especialmente do jeito que nos afastamos há um tempo. E estávamos bem cientes da quantidade de bagagem que o nosso retorno carregaria. Por isso, era importante para nós fazer disso uma experiência de álbum, em vez de algo focado em uma música ou uma divulgação. Parecia que fazer o lançamento de surpresa era a única maneira de fazer isso direito, de fazer justiça à música. No sentido de não permitir que… A mente das pessoas faz muitas coisas interessantes – e todos nós fazemos isso. Você julga um disco pelo primeiro single, por uma música “de trabalho”, ou seja lá o que for. E com uma banda como a nossa, você não pode julgar um disco com base em uma única parte, porque todas as partes têm diferentes formas de fluir, diferentes energias e diferentes emoções. Então, parecia que a única maneira de fazer isso era sem aviso prévio.

Além disso, nós não queríamos falar nada até que o disco estivesse pronto. Não queríamos prometer algo que poderia não se concretizar, ainda mais voltando de algo que parecia bastante frágil. E foi apenas mais para o fim do ano passado, por volta de setembro, em que, por meio de conversas com meus amigos Firekeeper Alliance, que se juntaram ao Fire in the Mountains Festival, que é um festival de música pesada que se uniu com a Blackfeet Nation, com foco em reduzir os suicídios entre jovens indígenas. E tendo estado lá, feito parte do conselho da Firekeeper Alliance e trabalhado com essas pessoas, escutado as histórias e as conversas no festival do ano passado sobre meio que reforçar o que nós sempre falamos na nossa carreira, que essa música nos salva.

Essa música, a comunidade que encontramos no underground e a catarse que sentimos ao deixar essas energias passarem por nós é a única maneira que temos de achar algum sentido nessa porra de mundo louco em que vivemos. E saber que há profissionais de saúde mental que reconhecem isso, do tipo “Vamos utilizar isso”, isso é real, e que podemos ser escolhidos como uma banda para representar essa missão, foi a chama que precisávamos para acelerar o nosso até então lento renascimento – estávamos muito devagar e tateando ainda até aquele momento, sem saber para onde aquilo iria nos levar.

As músicas estavam vindo, a música era interessante e muito boa. Mas nós apenas não tínhamos um plano, uma linha do tempo para seguir, não tínhamos nada. Tudo era abstrato. E então falamos “Ok, até quando vocês podem esperar pela gente para anunciar esse show?”. E eles falaram mais ou menos até o meio de março. Então dissemos que íamos gravar um disco e ter ele pronto até lá porque não íamos anunciar um show sem um disco novo. Não queríamos fazer algo do tipo um show de reunião da banda para voltar a tocar. Então precisávamos ter um disco novo para anunciar nosso primeiro show. Era apenas como tinha de acontecer. E fizemos isso logo em seguida, agendamos o estúdio no dia seguinte. Gravamos em três finais de semana, um terço do disco a cada fim de semana, com um ensaio no meio. E isso nos deu o foco e a chama que precisávamos para realmente aumentar a energia e finalizar o álbum.

E vocês tiveram a chance de tocar juntos com a banda toda antes de entrar no estúdio com o Scott (Evans, produtor e guitarrista/vocalista do Kowloon Walled City)?
Sim, nós estávamos ensaiando. Sempre vamos preparados para gravar. Acho que chamamos o Aaron para entrar na banda por volta de maio de 2024. Mas, por conta das nossas agendas, acho que só conseguimos nos reunir umas três vezes naquele ano. E mais algumas vezes no início de 2025. A música veio bem rápido até nós e começamos a ver, tipo “Temos um disco aqui”. Mas não foi até pensarmos, realmente olharmos para isso em agosto/setembro do ano passado e pensarmos em como poder fazer isso acontecer, tipo “Se realmente nos dedicarmos, se focarmos em um terço do disco, podemos terminar de compor e reescrever um terço do disco em um fim de semana e então gravar duas semanas depois. Moramos muito longe um dos outros, então tudo exige aviões, barcos e longas horas na estrada. Então nós íamos ensaiar um terço do disco para gravá-lo duas semanas depois. E aí duas semanas depois disso, ensaiávamos o segundo terço para gravar duas semanas depois. Então nós tocamos essas músicas juntos, já tínhamos trabalhado nelas, mas nós tínhamos esqueletos dessas faixas. Então passamos um fim de semana focados em cada terço do disco para trabalhar nisso. E nos reuníamos online toda semana, uma noite por semana, apenas para falar sobre coisas e ouvir a gravação dos ensaios.

E houve alguma coisa específica que fez com que vocês falassem “É isso, vamos voltar com a banda”? Acho que há uns dois anos o Jason fez um post, após ser dispensado do Sleep, dizendo que não faria mais shows e que não sabia como seria o futuro do Neurosis. Houve algum momento em que você chegou a duvidar se iam voltar a tocar como uma banda de novo?
Em primeiro lugar, nós nunca terminamos a banda oficialmente. As pessoas passam por momentos difíceis e coisas pesadas. E nós não iríamos fazer isso (voltar com a banda) sem ele (Jason). Não posso falar sobre a situação dele em especial, porque é algo privado e a Internet infelizmente “fez a festa” com isso. Apenas ficamos felizes que ele teve a força para continuar colocando um pé na frente do outro e seguir pelo processo porque a forma dele tocar é única, inigualável e absolutamente o coração do que fazemos. Mas sempre houve uma dúvida ao longo desses anos, se íamos conseguir fazer isso. Tinha de acontecer do jeito certo e tinha de parecer certo. Era algo com o qual tínhamos de nos sentir bem e que fosse uma evolução, no sentido de levarmos a nossa música para um novo nível. Quando o Aaron entrou para a banda, nós definitivamente vimos que essa era a direção musical que queríamos, tipo “Essa é a forma formação que pode fazer isso funcionar”. Então tivemos de superar as dificuldades da vida e da realidade. E foi realmente o convite, feito pelos meus irmãos e irmãs da Firekeeper Alliance, que perguntaram “Há alguma chance de vocês virem (ao festival) e serem os representantes da nossa mensagem, serem a banda que representa o que apoiamos?”. E penso que precisávamos de algo mais importante do que os nossos egos e do que nós mesmos. Algo para realmente nos mostrar que isso era maior do que nós enquanto pessoas. E que talvez existisse até uma responsabilidade, no sentido de que se você tem a habilidade de criar algo que pode levantar as pessoas, ajudar elas a compreender algo, a fazer com que não se sintam sozinhas ou até apoiar elas a enfrentarem algo com o qual estão lidando. Porque essa é a razão pela qual fizemos isso. E, mais uma vez, não alegamos enquanto indivíduos que somos talentosos o suficiente para fazer isso. Penso que somos apenas sortudos o bastante para tocar nisso. E então pareceu que realmente existia essa responsabilidade. O meu amigo Robert Hall, da Blackfeet Nation, falou algo no ano passado, que era como “Quando as pessoas te chamam pelo seu dom, você tem uma responsabilidade te atender o chamado”. E penso que foi isso que aconteceu, penso que sentimos “Ok, essa é a chama que precisávamos para finalizar esse disco e fazer isso do jeito certo”. Se nós iríamos voltar em algum momento, teria que ser por esse motivo, neste momento e por esse propósito. Com essa música e com essa formação.

E isso tudo influenciou de alguma maneira as letras do novo disco? Não sei se vocês já tinham as letras finalizadas, mas esse me soa um disco ainda mais cru e urgente do Neurosis, desde a faixa de abertura com você gritando as mesmas frases repetidamente. Todos os discos do Neurosis têm essa característica de falar com as pessoas de diferentes formas, mas minha percepção é que esse é mais direto do que os anteriores nesse sentido.
Sim, essa introdução é muito, muito direta. Honestamente, aquelas palavras são o que eu penso todas as manhãs há anos. E quando olho para as letras do passado, enquanto estou meio que revisitando músicas antigas, nós estivemos cantando essa música o tempo todo. Essa é a música que temos cantado. Temos cantado uma única música, e é essa música de raiva e tristeza e saudade e uma busca por algo significativo, uma busca por algo real. E se isso é mais urgente agora do que antes, acho que depende de para quem você pergunta e qual é a situação dessa pessoa. Acho que a forma como estamos consumindo informação e notícias sobre eventos mundiais hoje em dia faz com que tudo pareça amplificado e acelerado e não acho que nossos cérebros estejam evoluindo rápido o suficiente para lidar com esse nível de informação e possibilidades catastróficas. Então acho que isso está deixando todo mundo desnorteado – e penso que todos nós sentimos o mesmo. Alguns dias você tem esperança, outros dias parece que não há nenhuma. E, no fim das contas, de qualquer forma, precisamos colocar nossos corações e mentes no lugar certo. Mesmo que a gente acabe sendo derrubado lutando pelo que é certo.

Queria saber da sua perspectiva como guitarrista, como foi a sua conexão com o Aaron? Foi algo que aconteceu logo de cara? Ao longo do disco, podemos ouvir os seus estilos próprios em diferentes momentos, mas no geral tudo soa de forma muito coesa. Como foi para você, desse ponto de vista, o processo de compor e pensar a guitarra junto com ele?
Sim, boa pergunta. No geral foi bem natural, como acontece com muita coisa, mas há certos pontos em que nós dois tivemos que nos ajustar — ele teve que entender de onde eu vinha, meio que o meu ritmo interno, e eu tive que entender o ritmo interno dele. Estamos acostumados a tocar com o Jason, que toca bem atrás do tempo, mais no “lado de trás” da batida. E ele está acostumado a tocar com bateristas que ficam mais à frente, mais no “lado da frente” da batida. Então encontrar esse ponto de encaixe foi um desafio, tanto para ele quanto para mim, enquanto eu tentava entender os tempos dele. Ele tem muitos tempos meio estranhos nos riffs e várias coisas que, para mim — eu sou alguém que simplifica tudo. Eu não tenho… eu tenho meu próprio estilo porque passei toda a minha vida adulta no Neurosis, e não preciso descobrir como tocar músicas de outros (risos). Eu consigo fazer muita coisa com uma única nota. Mas eu gosto muito de texturas — sou um músico de texturas, de atmosfera, sabe — e tenho um senso de ritmo bem forte, enquanto o dele é diferente. Foi interessante ver como a gente se encaixou; tivemos que nos adaptar, encontrar um meio-termo e nos entender. Mas foi empolgante, e acho que isso deu energia e inspiração para nós dois encontrarmos novas formas de compor com outro guitarrista. Ele não tocava com outro guitarrista há muito, muito tempo, então isso foi interessante para ele. E eu sempre fui meio que o guitarrista “estranho” na forma como fazíamos as coisas, fazendo partes mais incomuns para criar as texturas que precisávamos. E ele também é esse tipo de guitarrista. Então agora a gente simplesmente se reveza fazendo coisas estranhas que você não vai encontrar, acho, em muitos discos pesados. Não há muitos clichês genéricos de heavy metal acontecendo aqui, isso é certo.

Essa gravação foi diferente para vocês em termos de composição e o processo de pensar as músicas? Porque temos obviamente você e o Aaron nos vocais principais, mas o Dave também voltou a cantar depois de muito tempo e até o Noah, não me lembro se ele já tinha cantado antes na banda, apesar de ter lançado há alguns anos um ótimo disco como vocal principal do Tension Span. Isso foi algo consciente, tipo, desde o começo vocês queriam que todo mundo mostrasse literalmente sua voz neste álbum?
Essa era a esperança. Mas, no fim das contas, independente da ideia que você tenha na sua cabeça, é preciso dar espaço para qual a ideia da música. A música te diz o que ela precisa. Então você não pode forçar uma voz que não pertence em um determinado trecho. Nós todos temos timbres únicos, ritmos únicos, mesmo com as nossas vozes. Temos maneiras rítmicas diferentes para cantar. E eu e o Aaron também tivemos de nos alinhar as nossas vozes. E o Dave e o Aaron também, quando eles cantam juntos, do tipo “Como você segura o som? Em que palavra você segura mais o som?”. É parecido com o que fizemos com as guitarras, de nos encontrarmos no meio do caminho. Acho que queríamos expressar o que quer fosse, quando parecesse correto usar a voz que mais fazia sentido em cada parte das músicas. E o Noah já fez alguns vocais antes sim, acho que no “Through Silver in Blood” (1996) e também alguns no “Times of Grace” (1999).

E quem canta na última música? É a Faith Coloccia ou a Chelsea Wolfe, por acaso?
Sou eu mesmo.

Mas tem um vocal feminino na música.
Sou eu.

É você?
Sou eu. Não há nenhuma vocalista nessa música. Depois da parada, quando eu canto sobre os sintetizadores. Na verdade, esse é um trecho que eu peguei de uma música que seria para a minha carreira solo. Na verdade, eu gravei esses vocais aqui nessa sala mesmo. Eu canto em falsete em três harmonias diferentes, harmonizando comigo mesmo.

Isso é incrível. Tem um tópico apenas sobre os vocais do disco novo no Reddit. E as pessoas estavam tentando advinhar quem era a vocalista misteriosa, que não aparecia nos créditos?
Bom, você pode ir lá contar para as pessoas que sou eu (risos). Sou apenas eu cantando em falsete, sem truques de estúdio. Sem harmonias com pitch ou algo assim. Sou apenas cantando até conseguir acertar, brincando com as harmonias. Na verdade, eu estava mixando essa parte no estúdio, para o meu último disco solo, e então virei para o Randall (Dunn), com quem estava mixando o álbum, e falei “Quer saber? Vamos parar. Essa música não pertence a esse disco. Mesmo que a gente não esteja trabalhando em nada, acho que é uma parte para o Neurosis, para uma música do Neurosis. Então não vou deixar nesse disco”. E então trouxe essa gravação como estava, nos livramos da bateria, do baixo, guitarras e tudo mais. Aí o Noah adicionou a mágica dele em cima dos sintetizadores que já estavam lá. Mas deixamos os meus vocais. E eu queria ter mixado as harmonias em um tom mais baixo, mas os caras adoraram e queriam que ficassem mais altas. Então é engraçado que as pessoas estejam discutindo sobre quem cantou essa parte e quem seria a vocalista secreta. Acho que é o meu lado feminino.

E essa (“Last Light”) é uma música incrível para fechar o disco, meio que contando uma história, te levando por uma jornada. Além de ser algo um pouco raro hoje em dia, ter uma música de 17 minutos para fechar um disco dessa forma.
Obrigado. Eu gosto que ela se move, porque, às vezes, no nosso estilo de música, no metal de forma geral, você pode ter uma música longa apenas para ser longa. E os riffs são arrastados por muito tempo e ficam chatos. Ou é apenas algo mais sludge repetitivo. Eu adoro música repetitiva que te leva a um estado de transe quando é algo como Swans ou Godspeed You! Black Emperor. Ou até música trance tradicional, música percussiva, música indiana clássica ou percussão do norte da África. Mas se você está apenas reciclando um riff do Sabbath por 20 minutos, então não é tão interessante. Mas essa música realmente parece com uma jornada que fecha um ciclo. Começando com tipo uma bateria eletrônica com sons estranhos até a banda entrando e tocando em harmonia com isso. E então se transforma em alguns dos riffs mais bonitos que já escrevemos, apenas essas partes de guitarra realmente muito bonitas. Então depois vai para aquela parte que já falamos e depois de volta para um riff avassalador antes de terminar onde começamos. Realmente pareceu uma jornada muito boa.

E, à medida que estou ficando mais velho, acho que essa tecnologia está meio que me causando um problema de déficit de atenção induzido culturalmente, em que eu já não tenho a mesma capacidade de concentração que tinha quando era mais jovem. Eu mesmo tenho preferido discos mais curtos na maior parte do tempo, mas, quando você está fazendo um disco, precisa ouvi-lo mais vezes do que jamais gostaria. E, normalmente, quando terminamos e recebemos a master final, eu já estou de saco cheio, sabe? Mas esses 64 minutos ainda passam muito rápido para mim — seja quando estou mostrando o disco para um amigo ou para alguém da minha família, ou mesmo quando estava conferindo as prensagens de teste para garantir que soavam bem. Não sei, sinto que ele passa por muitos lugares, nunca para de se mover e nunca para de mudar.

Sim, eu concordo. Penso até que esse é provavelmente o disco mais dinâmico e pesado da banda. Por isso, queria saber se vocês tinham algo em mente quando foram para o estúdio com o Scott (Evans)? E também, como foi trabalhar com ele no estúdio depois de tantos discos com o Steve Albini?
Nós sabíamos que o Scott era o mesmo tipo de engenheiro porque nós sempre fomos esse tipo de banda. Nós montamos nosso equipamento — é o nosso equipamento. Sabemos como ele soa. Passamos muito tempo fazendo com que os nossos sons fossem nossos. A gente se instala em um espaço e toca junto. E é isso que são os discos. A gente não fica enrolando, a gente não… No máximo, a gente entra pra corrigir um erro ou algo assim, ou fazer uma edição se gostarmos do começo de um take e do final de outro — antigamente você cortaria a fita. Mas, na maior parte do tempo, é simplesmente uma performance ao vivo. Depois colocamos os vocais por cima, corrigimos o que precisa ser corrigido e seguimos em frente.

E ele é esse mesmo tipo de engenheiro, que passa muito tempo garantindo que conhece o som de uma sala, que sabe quais microfones funcionam em cada lugar e qual posicionamento usar. Que enfia a cabeça no gabinete do amplificador de guitarra e descobre qual microfone vai funcionar ali. E nós amamos o som dos discos do Kowloon Walled City – obviamente, já que lançamos esses álbuns pela nossa gravadora (Neurot). E também sabíamos que ele era um cara gente boa, com quem poderíamos nos dar bem, alguém em quem poderíamos confiar nossos segredos, e que seria tudo direto ao ponto, sabe? A gente poderia simplesmente fazer o trabalho. E ele foi perfeito. Foi ótimo. Ele realmente correspondeu à ocasião. Acho que ele entendeu o quanto aquilo significava para nós. Entendeu que não era o Steve Albini e que não tentaria ser, mas que honraria a nossa forma de trabalhar, de apenas capturar o som natural. Essa era a filosofia do Steve Albini: “vou simplesmente tentar não estragar o seu disco”. Então acho que ele é assim também, ele realmente faz o melhor que pode, sabe o que está fazendo, é um ótimo engenheiro e nos deu tempo e atenção. E nós fizemos — não tão rápido quanto nos discos anteriores, porque tivemos que gravar nesses fins de semana separados por causa da vida — mas foram seis dias de gravação e dois dias e meio de mixagem. Ainda assim, tudo se juntou de forma muito natural, do jeito que já fazemos há bastante tempo.

Você mencionou sobre confiar o segredo ao Scott. Quão difícil foi para vocês manter tudo isso em segredo? Eu vi uma publicação do Nate Newton, do Converge, nas redes sociais quando o disco foi lançado, e ele disse algo como: “Uau, não acredito nisso, que incrível. Aaron, que vergonha você ter escondido isso de mim por tanto tempo” (risos). O quão difícil foi estar perto desses colegas e amigos, conversando com as pessoas, e ter que ficar o tempo todo de boca fechada, mesmo quando o assunto surgia?
Para ser honesto, foi meio divertido. Alguns dos nossos amigos sabiam que estávamos tentando nos reunir e fazer algo acontecer, mas não íamos anunciar nada até que fosse algo real. Mas quando percebemos que tínhamos essa oportunidade de fazer isso dessa forma, sentimos que tinha que ser assim. Assim que a coisa ficou séria, vamos dizer, nós ficamos em silêncio e simplesmente paramos de falar sobre isso. Tipo, até alguns dos nossos familiares não tinham ideia, era só algo como “Vou sair com os amigos no fim de semana”. E sim, definitivamente havia aquele medo de alguém descobrir e dizer algo. E conforme fomos chegando mais perto da data de lançamento, o círculo teve que crescer, porque precisávamos de pessoas, engenheiros de masterização, fábricas de prensagem de discos, distribuidores e nossa equipe de assessoria de imprensa preparados para quando aquele dia chegasse. E as pessoas da equipe do Fire in the Mountains. Mas todas as pessoas fora da banda, esse tipo de círculo estendido, sabiam o quanto isso era importante e guardaram esse segredo como algo sagrado, quase de forma religiosa, como “não seremos nós que vamos estragar isso”. E isso foi lindo, acho que essa energia alimentou tudo isso, toda essa energia de manter esse belo segredo foi adicionada a isso. Todas as peças se juntaram de uma forma que pareceu muito alinhada cosmicamente, devo dizer.

E também tem o fato que o disco saiu cerca de 10 anos depois do “Blackstar” (2016), do David Bowie, que também foi um disco lançado de forma surpresa, mas com um propósito diferente. Ele queria ressignificar, dar um novo sentido à própria morte. E vocês estavam dando um significado diferente ao renascimento de vocês, de certa forma.
Sim, mas nesse sentido espero que não seja o nosso “Blackstar”. Embora o nosso disco também tenha uma estrela preta na capa (Nota: Cuja arte foi feita por Aaron Turner). É, agora que você mencionou isso. Eu acho que isso não foi consciente, mas é uma ótima comparação no sentido de que eu sempre penso muito nesse disco (“Blackstar”) quando estou conversando com outros nerds de música sobre o quanto aquilo foi perfeito. Tipo, se você pudesse planejar a sua saída, você vai estar deixando o planeta, especialmente sendo um artista tão icônico como ele, sair com algo assim, com uma profundidade e um peso e uma ressonância, foi lindo. E tudo o que estávamos tentando fazer era criar o melhor disco possível neste momento de nossas vidas e fazer justiça ao resgatar o nosso legado e recuperar uma parte das nossas vidas. E não poderíamos ter previsto como outras pessoas o abraçariam, o sentiriam e falariam sobre o disco com as palavras emocionalmente intensas com que falam. Foi algo bastante avassalador, que nos fez enxergar tudo com muita humildade. Estamos falando sobre legado.

E vocês já pensaram em quais músicas vão tocar nesse show de retorno? Talvez tocar o disco novo na íntegra?
Ah, ainda estamos pensando nisso neste momento. Provavelmente vamos misturar, como sempre gostamos de fazer. Provavelmente vamos dar uma misturada. A gente não toca há muito tempo (nota: o último show da banda foi em 2019). E acho que também precisamos recuperar o ritmo, pegar o jeito de novo. Ou como os marinheiros dizem, recuperar nossas “pernas de mar”. Então, tenho certeza de que vai ter bastante coisa do disco novo, provavelmente não ele inteiro, mas acho que uma boa parte. E misturar isso com músicas antigas que queremos trazer de volta.

E vocês estão abertos a fazer mais shows no futuro próximo, incluindo turnês nos EUA, Europa e quem sabe na América do Sul de novo?
Agora estamos só tentando chegar ao nosso primeiro show, tentando dar esse primeiro passo. E queremos que as pessoas vão até lá – pessoas que vivem naquela terra há mais de 15.000 anos nos convidaram para ir ter esse momento. Então é nisso que estamos focados agora. Mas tenho certeza de que nós vamos, conforme for possível. A vida é diferente para nós. Todo mundo realmente tem compromissos e somos sortudos quando nossas agendas coincidem com trabalhos e tudo mais, como outras pessoas da classe trabalhadora. Mas tenho certeza de que depois desse show a gente vai acender uma chama e vamos querer sair por aí querendo derreter rostos onde for possível.

–  Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud! 



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