texto de Jorge Wagner
Quando a crítica do The New Yorker carimbou na testa de Sally Rooney o slogan de marketing de “Salinger da geração Snapchat”, pecha que acabou sendo seguida por outras reducionistas e midiáticas como “voz da geração millennial” e semelhantes, o que estava em pauta não era exatamente o talento da autora em contar histórias, mas sim seu dom em dar voz a anseios e dúvidas de seus contemporâneos. Não se tratava exatamente do seu talento para o o quê, senão para o de que modo.
Sejamos francos: as histórias de Rooney, o “sobre o quê” são seus livros podem ser resumidos em 140 caracteres, como um bom e velho tuíte dos tempos áureos: “casal de amigas e ex-namoradas conhecem um casal mais velho e uma delas vira amante do cara”, “um casal de adolescentes de classe social diferente se envolve no sigilo e tem idas e vindas ao longo dos anos” etc. E é isso, nada muito além disso. Exceto pelo fato da autora conseguir entrar na cabeça de seus personagens com uma clareza ímpar, de traduzir anseios e ansiedades destes, e também de seus leitores, em meio a fluxos de consciência, ausência de aspas, reflexões sobre consciência de classe, desesperança para com o futuro, a fé ou a falta dela, as formas atuais de relacionamento interpessoais e mais. Sob suas teclas, suas personagens são para os nascidos neste recorte geracional o que Holden Caulfield foi para os primeiros a acordarem para o conceito de juventude.
Holly Brickley não é Sally Rooney. Não importa que a contracapa de “Lado B” (originalmente “Deep Cuts”, seu romance de estreia, lançado em 2025 e editado no Brasil pela Rocco com tradução de Marcela Isensee) inclua declarações como “o medley perfeito de ‘Alta Fidelidade’, Sally Rooney e ‘Amanhã, Amanhã e Outro Amanhã'” para emplacar. E, ainda que insista bastante, também não é Nick Hornby. Não que se trate de um livro ruim, muito pelo contrário. “Lado B” é sem dúvida uma leitura divertida, principalmente para quem já estava por aqui quando Interpol lançava seu disco de estréia, quando Decemberists começava a despontar, quando Beach House… Bem, você entendeu.
De Sally, Holly traz muito de seu ponto mais fraco – histórias que são um fiapo e vão do nada a lugar algum – e pouco de seu principal talento. Diferente de Marianne Sheridan, Connell Waldron ou Frances, as dúvidas e questionamentos de Percy Marks só a tornam pedante e insegura, sem conseguir conectar suas questões com algo maior – geracional, que seja. Joe Morrow, seu parceiro de composições/interesse romântico é apenas um músico de talento mediano também pelo qual é difícil simpatizar – nem mesmo com aquela simpatia meio torta que sentimos por Rob Fleming – ou Rob Gordon, caso você prefira o filme – em “Alta Fidelidade“.
Mas voltemos brevemente à história: Percy e Joe se conhecem na faculdade, ela colabora com algumas das composições dele, o que dá início a uma parceria de anos em paralelo a um relacionamento mal concretizado e repleto de mágoas bobas. Para contar esse enredo, Brickley passa aproximadamente 350 páginas enfileirando referências, como uma extensa nota de rodapés de algum verbete na Wikipedia. De folk, de hip-hop, de britpop e, principalmente, do vasto e prolífico meio Indie, com todas as suas vertentes, do começo dos anos 2000.
Como exercício nostálgico, vale, mas já tivemos contato com algo muito mais fluido e menos verborrágico quando André Takeda lançou seu “Clube dos Corações Solitários“.
É bom ler alguém falando sobre quando The Shins surgiu discretamente antes de fazer algum barulho, ou de como só se falava em “Turn On the Bright Lights” em 2002, ou de como Strokes já soavam ultrapassados na metade da primeira década. Mas quando isso é feito de modo a fazer pensar em um Nick Hornby sob efeitos de anfetaminas tentando lembrar de todas as músicas e bandas que ouviu entre 2000 e 2010, a diversão dá lugar à preguiça.
A boa notícia é que a obra ganhará uma adaptação para o cinema, com Cailee Spaeny e Drew Starkey no elenco, e é pouco provável que gastem tanto tempo em tela apenas citando tudo o que Percy ouvia, assistia ao vivo e pensava a respeito. Sem os excessos, talvez as qualidades sejam reforçadas e a obra se torne menos cansativa que em seu formato original.

– Jorge Wagner é jornalista, sambista e produtor do tributo “Ainda Somos os Mesmos”, ao álbum “Alucinação”, de Belchior, lançado pelo Scream & Yell.

