texto de Marcelo Costa
fotos de Douglas Mosh
No calendário, esse que segue um dia após o outro nos aprisionando, “Never Mind the Bollocks Here’s the Sex Pistols”, o disco marco do punk rock, vai completar 50 anos em 2027. Porém, no tempo da cultura pop, alguns milênios (e dezenas de movimentos musicais e culturais) nos separam de 1977. John Lydon não apenas estava lá como fez questão de implodir o punk olhando além dele, para o pós. Com o PIL, Joãozinho passou uma vida inteira dançando e escarrando não apenas sobre o túmulo do (punk) rock, mas sobre todo o ideário, buscando sempre o desconforto, o incomodo e o contrário. Virou personagem de si mesmo, mas… ele estava lá. E continua aqui.
Diante de um Cine Joia lotado, John Lydon trouxe a enésima formação do PIL ao Brasil mais de 30 anos após seu primeiro show no país (ele voltaria com o Sex Pistols na turnê do lucro sujo nos anos 90, mas isso é outra história), e fez uma apresentação poderosa para uma plateia cuja media de idade estava acima dos 50 anos num nítido Baile da Saudade (Pós) Punk, em que Lydon continua (fingindo que está) escarrando sobre o rock. Se o teatrinho é tipicamente adolescente (com direito a cabelo espetadinho, suspensório, cara de poucos amigos e palavrões), a música é impressionantemente adulta, um mix tribal e irresistível de funk de branco de guitarra que vez ou outra envereda para a disco music pesada.

Acompanhado por Lu Edmonds (que tocou no The Damned nos anos 1970), na guitarra, teclados e (em quase todo o show) bouzouki, Scott Firth no baixo e o recém chegado Mark Roberts na bateria, John Lydon dá a partida de sua “This Is Not the Last Tour” em São Paulo com “Home”, faixa clássica de “Album” (1986) numa versão mais esparsa que a original, mas não menos empolgante. Duas canções de “What the World Needs Now…” (2015) vem na sequência e surpreendem: “Know Now” soa como um choque elétrico e “Corporate” traz uma letra que o John Lydon das entrevistas e opiniões “polêmicas” provavelmente não aprovaria, e o fato dele mesmo tê-la escrito dá um certo nó na cabeça do fã – tanto quanto ele, um ferrenho apoiador do cada vez mais nazista Donald Trump, mandar uma nazista se foder e abaixar o braço esticado em meio a execução de “Shoom” no Cine Joia.

O primeiro grande momento da noite é outra provocação: em 1984, Afrika Bambaataa (ainda surfando na onda de seu revolucionário hino “Planet Rock”) decidiu diversificar seus lançamentos e, para tanto, criou um novo projeto, o Time Zone, cujo primeiro single trazia um feat com James Brown. Para o single seguinte, que trazia uma letra de teor político, o convidado foi John Lydon, que gostou tanto da experiência que tomou “World Destruction” para o PIL, inserindo-a nas turnês oitentistas da banda, e resgatando-a para esta nova turnê em 2025/2026: é dificil ficar parado quanto o batidão de Bambaataa ecoa no ambiente falando sobre… terceira guerra mundial. Em que anos estamos mesmo?

Inicia-se, então, uma sequência de hits para fãs do PIL não colocarem defeito: “This Is Not a Love Song”, “Poptones”, “Death Disco” e “Flowers of Romance” surgem intensas e cantadas em coro pelos presentes, que ainda festejam “Warrior” e encorpam os vocais de “Shoom” (“Fuck you, fuck off, fuck sex is bollocks. All sex is bollocks”). Para encerrar a primeira parte do set, a música mais deslocada do batidão branquelo da noite: “Public Image”, a canção, com seu riff de guitarra matador e baixo e bateria galopantes que influenciaram metade do rock nacional (Titãs e Legião seriam outras bandas se o PIL não existisse – o próprio Dado Villa-Lobos confessa isso no livro de José Emilio Rondeau). Aliás, de velhos punks (Ariel, da Restos de Nada) a “novos” punks (Juninho Sangiorgio, baixista do Ratos de Porão) passando por punks de boutique (Supla), a ala roqueira bateu ponto no Cine Joia contando ainda com Gabriel Thomaz, BNegão, Apollo Nove, Lucinha Turnbull e Thunderbird, entre outros (a ala jornalística também: além de André Barcinski, um dos responsáveis por trazer o PIL ao Brasil em 2026, estavam no recinto André Forastieri, Lucio Ribeiro, José Norberto Flesch e Sérgio Martins)…

Quem queria rock, porém, teve de aceitar uma versão estupenda de “Open Up”, de Leftfield, outro batidão que fará muito idoso acordar com o lombo dolorido em plena quinta-feira. Tudo bem, pois quem queria cantar também ganhou seu momento: “Rise” – a canção que diz que “raiva é energia” – foi o número mais celebrado e filmado da noite, abrindo caminho para o trecho final do set, que trazia outro hino da primeira edição do PIL, “Annalisa”, para desespero da voz de Lydon (e dos fãs), nitidamente sofrendo para canta-la. Encaixotadas no mesmo arranjo, “Attack” e “Chant” encerraram o show após 95 minutos de apresentação.

Com 50 anos de carreira nas costas (e 70 na certidão de nascimento), John Lydon é o (pós-)punk que todos amam odiar. Ele não colabora, muito pelo contrário, riscando fósforo sobre tanques de gasolina enquanto tenta mais confundir do que explicar. Ao vivo em São Paulo, porém, Lydon permitiu vislumbrar, mais uma vez, que quem ainda o admira como Johnny Rotten não percebeu o quanto ele estava à frente de seus pares com o PIL já no ano seguinte, em 1978. Quase cinco décadas depois, John Lydon é um sobrevivente (do punk, dos punks e de si mesmo), e o PIL uma bandaça que soa tão fresca ao vivo quanto era no século passado, oferecendo um impecável Baile da Saudade (Pós)Punk para senhores e senhorinhas de meia-idade. This is your religion.
– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

