Com relançamento caprichado, “Grace Under Pressure” cristaliza década brilhante do Rush

texto de Davi Caro

Uma década é tempo suficiente para transformar por completo as ambições e dinâmicas de qualquer banda. Ou não: basta observar catálogos de grupos de extensa carreira para ver que, via de regra, as mudanças quase sempre são acima de tudo simbólicas. Tal é o caso do Iron Maiden, que fechou o ciclo de seus primeiros dez anos com um disco que defendia, abertamente, um pretenso “retorno às origens” (o subestimado “No Prayer for the Dying”, de 1990), ou dos Ramones, que completaram período semelhante incorporando influências do hardcore que haviam ajudado a parir (no irregular “Animal Boy”, de 1986). Parece uma regra velada que permeia agremiações de músicos desde que o mundo é mundo: ou um grupo implode como visionário, ou ele permanece junto por tempo o suficiente para se tornar auto referente, refém do próprio legado.

De fato, dez anos é muita coisa. Tal é o período que separa “Rush” (1974), debute discográfico do trio de hard/prog canadense formado por Geddy Lee (baixo/vocais/teclados), Alex Lifeson (guitarra) e John Rutsey (bateria) de “Grace Under Pressure” (1984), décimo álbum de estúdio da banda. Claro que, em se tratando do Rush, o tempo é apenas um mero detalhe frente à metamorfose musical e criativa que se impôs sobre a banda durante o referido intervalo. A saída de Rutsey, que abriria caminho para a mitológica e definitiva entrada de Neil Peart no grupo; o primeiro grande vôo criativo, com “2112” (1976); a expansão de sua sonoridade e a exploração de novas temáticas (sobretudo com “Hemispheres”, de 1977); e o estouro comercial de “Moving Pictures” (1981) – todos acabaram contribuindo para o patamar que o Rush alcançaria ao concluir sua primeira década de atividade. E escutar “Grace Under Pressure” em retrospecto – em especial agora, com uma caprichadíssima reedição comemorativa que pega carona no ainda bestificante retorno da banda – é um atestado da genialidade sempre presente por trás da musicalidade de Lee, Lifeson e Peart. E também funciona como um dos principais pilares de uma era tão celebrada (hoje em dia) quanto controversa (então).

Um dos outros pilares, inclusive, é o trabalho que antecedeu diretamente “Grace Under Pressure”: lançado em 1982, “Signals” surfou a onda de popularidade gerada pelo sucesso radiofônico de “Tom Sawyer” no ano anterior, apesar de ter ido além. Como que dando sequência às sonoridades sintetizadas aludidas antes, e sob a batuta firme de Lee, o Rush investiu pesado na incorporações de teclados, elementos eletrônicos e sons fortemente processados para a época. O álbum seguinte traria pelo menos duas grandes mudanças, no entanto. Se, por um lado, “Grace Under Pressure” se tornaria o primeiro LP da banda sem contar com o aliado de longa data Terry Brown na produção – substituído por Peter Henderson, que vinha de três trabalhos em sequencia com o Supertramp, incluindo o multiplatinado “Breakfast in America”, de 1979 – o disco sanaria o maior dilema enfrentado pelo Rush na preparação de seu trabalho anterior: as tensões entre seus fundadores, que exerciam seus respectivos poderes de influência para favorecer a maior incorporação de teclados e sonoridades sintéticas (no caso de Geddy, que tinha Peart a seu lado) ou se mostravam firmes em favor de uma proposta mais guitarrística (no que diz respeito a Lifeson). Embora nunca tenham voltado a trabalhar com seu produtor original, a abordagem musical explorada aqui definitivamente tinha mais a ver com a química mostrada pelo trio em seus primeiros trabalhos (principalmente em comparação com seu álbum mais recente).

Desde a primeira faixa do lado A, a influência de reggae, filtrada através da new wave que então dominava o mainstream, já se mostra inegável. Mas “Distant Early Warning” fica longe de ser apenas um pastiche do som que o Police havia popularizado; a canção parece, ao invés disso, uma reafirmação da química instrumental que os três músicos haviam desenvolvido até aquele momento. O mesmo se pode dizer de “Afterimage”, canção mais agitada e típica do Rush – canção esta composta em homenagem ao falecido colaborador Robbie Whelan, que trabalhava no complexo LeStudio, em Quebec, onde a banda gravava seu material já havia algum tempo.

Já “Red Sector A” é o principal destaque do set. Além de conter um dos melhores instrumentais do Rush em sua fase mais divisiva, a canção ainda é um dos mais notáveis momentos de Neil Peart como letrista, em uma faixa que discorre sobre a vida de um sobrevivente em um campo de concentração não especificado. Uma vez que se leva em consideração o fato de que a mãe de Geddy Lee era, por si só, uma sobrevivente de uma circunstância parecida durante a Segunda Guerra, “Red Sector A” acaba tomando para si um significado ainda maior dentro do extenso songbook da banda. E a faixa seguinte não fica atrás: “The Enemy Within” – para muitos, a melhor canção de “Grace Under Pressure” – já foi descrita como a primeira parte retroativa (e última a ser lançada) da chamada “Trilogia do Medo”, composta também por “Witch Hunt” (de “Moving Pictures”) e “The Weapon” (de “Signals”). E a atmosfera densa, com as guitarras de Alex Lifeson brilhando como nunca, realmente não deixam dúvidas sobre a relação entre a canção e suas predecessoras conceituais.

Se o primeiro lado do disco é todo do duo Lee/Lifeson, então, é no lado B que Neil Peart faz jus ao apodo “o Professor”: “The Body Electric” pode enganar os incautos, mas é, no fundo, uma das pérolas oitentistas definitivas do Rush. Embora o mesmo não se possa dizer da dobradinha “Kid Gloves”/”Red Lenses” – a primeira é mais genérica, enquanto a segunda dificilmente seria tão memorável mesmo para os fãs die hard da banda – o comentário é certamente válido para a derradeira canção em “Grace Under Pressure”, “Between the Wheels”. Trazendo alguns dos mais impressionantes momentos baterísticos do álbum (e certamente induzindo muitos “air drummers” a moverem os braços furiosamente no ar), a faixa também é a mais longa do disco, e, junto das anteriores “Red Sector A” e “The Enemy Within”, é bastante lembrada entre os destaques retrospectivos do grupo nesta década.

Falando em retrospectiva: como não poderia deixar de ser para uma reedição deste tipo, a versão 2026 de “Grace Under Pressure” tem sua cota de atrativos: a começar pela capa, que se distancia da pintura abstrata de Hugh Syme (colaborador de longa data da banda) que adornava o vinil original; em seu lugar, uma arte mais simétrica, e reminiscente dos conceitos descartados do lançamento de 1984, acabou sendo escolhida – e, com o perdão dos fãs puristas, a escolha foi um baita acerto. O mesmo se pode dizer do primoroso trabalho de remasterização do tracklist original, que esbanja respeito aos arranjos originais ao mesmo tempo em que realça aspectos mais idiossincráticos do mix oitentista (como os “ecos” de Geddy Lee em “Distant Early Warning”, ou as fenomenais guitarras processadas de Alex Lifeson em “The Body Electric”).

Os diferenciais aqui, entretanto, vão além de serem meros extras: para começar, o disco completo, trabalhado pelo mesmo Terry Brown que havia sido dispensado antes da produção começar de fato. E, embora o nível de qualidade de outrora permanecesse o mesmo – é particularmente impressionante escutar “The Enemy Within” e imaginar a canção integrando o tracklist de “Moving Pictures”, por exemplo – fica nítido o motivo pelo qual o Rush optou por seguir com outra pessoa por trás da mesa de som; a visão sonora de Peter Henderson, por outro lado, acaba fazendo com que a sonoridade de “Grace Under Pressure” acabe soando datada em determinados momentos (ainda que nunca perca em qualidade, mesmo após várias audições).

O outro grande adicional não é exatamente inédito – mas bem que poderia ser, tamanha a melhoria: lançado originalmente em 1986 como parte de um box set em VHS, e apenas disponibilizado individualmente em CD em um distante 2009, “Grace Under Pressure Tour” é um registro ao vivo da turnê que compila uma apresentação do trio na arena Maple Leaf Gardens de Toronto, em Setembro de 1984. A edição em compact disc já era de se espantar; o trabalho de remasterização que acompanha o relançamento, além de trazer o show completo também em vídeo, é um documento incontestável do poder de fogo do Rush nos palcos: em que pese os figurinos e penteados naturalmente risíveis (as escolhas estéticas de Geddy e Neil, por si só, já mereceriam livros inteiros para serem dissecadas), os grandes clássicos estão todos lá – incluindo sete (!) das oito faixas do então recém-lançado “Grace Under Pressure” (somente “Afterimage” ficou de fora). O disco ao vivo também documenta a única turnê na qual a já citada “Trilogia do Medo” foi executada na íntegra, e só por causa disso já valeria a audição. Mas é claro que ouvir “Closer to The Heart”, “YYZ”, “The Spirit Of Radio” e “Vital Signs” sempre é uma excelente pedida.

“Grace Under Pressure”, claro, não seria o último capítulo da aventura sintetizada do Rush, que retornaria a um som mais tipicamente roqueiro logo na década de 90. Porém, embora “Power Windows” (1985) e “Hold Your Fire” (1987) rendam ótimos momentos – sem contar o fantástico álbum ao vivo “A Show of Hands” (1989) – a proposta já havia se tornado um pouco formulaica então; ou, pelo menos, desprovida de qualquer sensação de risco, ou de descobrimento. Algo atípico, assim, para uma banda que sempre se mostrou disposta a conhecer e descobrir novas fronteiras para seu próprio som. É difícil afirmar com certeza que o Rush, agora reunido sem Neil Peart (e com a jovem Annika Niles nas baquetas) vá revisitar o material de sua época mais divisiva em detrimento de seu material mais conhecido e/ou celebrado. Fica a esperança, então, de ver Geddy e Alex rememorando as canções de um disco que, agora reeditado e celebrado da maneira devida, mostra uma das grandes bandas da história em um de seus momentos mais ricos, e mais aventureiros.

 Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.



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