Três perguntas: Ex-Cidade Negra, Da Ghama revisita Jorge Vercillo em novo clipe

entrevista de Diego Albuquerque

O reggae da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, desembarcou na Baixada Santista, em São Paulo: Da Ghama, fundador e ex-guitarrista da banda Cidade Negra, agora seguindo carreira solo, canta, compõe e produz grande parte de seu repertório em Itanhaém, litoral de São Paulo, cidade onde escolheu viver há cinco anos.

Separadas por três décadas, duas versões de uma mesma canção refletem diferentes momentos do Brasil. Lançada em 1996 no álbum “Em Tudo Que É Belo”, do cantor e compositor Jorge Vercillo, “Fácil de Entender” surgiu em um período marcado pela consolidação do pop-MPB e pela expansão do reggae no país. A música atravessou gerações com sua sonoridade influenciada pelo ritmo jamaicano incorporado pelas participações dos cantores Aleh Ferreira e Da Ghama.

Trinta anos depois, a balada ganha releitura na voz de Da Ghama, que lança um videoclipe da faixa, conectando a narrativa romântica aos debates contemporâneos sobre diversidade, respeito e combate ao preconceito. A releitura, presente no álbum “Sinal de Paz” (2025), reforça a essência reggae da música e dá uma interpretação contemporânea à mensagem, transformando o hit em um convite à reflexão sobre liberdade emocional e o direito de amar sem medo, independente da orientação sexual.

Dirigido por Louzi Baptista, o videoclipe gravado em Itanhaém reuniu um elenco formado por artistas da cena LGBTQIAPN+ e contou ainda com a participação especial do cantor Edu Ribeiro. Para entender esse novo momento de Da Ghama, o artista responde a três perguntas para o Scream & Yell.

Como foi o processo de transformar uma música já conhecida em algo com a sua identidade?
A ideia é ressignificar essa mensagem no sentido do que hoje a gente defende a questão da diversidade embora seja um tema antigo. Toda forma de amor sempre será bem vinda. Quando Jorge Vercillo escreveu essa letra com certeza não falava intencionalmente, acredito eu, sobre a relação homoafetiva. E através dessa releitura trago esse vídeoclipe evidenciando a mensagem. Eu apenas queria me esconder, mas eu sei que ferir foi calar, as pessoas tem medo de se abrir e acabarem se machucando. No meu olhar, (essa canção) fala sobre de você não poder ser você.

O reggae continua sendo sua base, mas você sente que está expandindo para outros caminhos nessa fase?
Sim!!! Apesar de o reggae ser a minha base, eu venho buscando cada vez mais as minhas raízes da MPB nos meus trabalhos. Regravar Jorge Vercillo é um grande exemplo, além de Hyldon (“Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”), Tunai e Sérgio Natureza (“Frisson”), Gilberto Gil (“Não Chores Mais”) e Djavan (“Cair em Si”).

Essa nova fase tem muito de ressignificar clássicos e também alimentar a nostalgia. Isso é intencional ou natural? Como essa bagagem influencia suas releituras hoje?
Acredito que seja uma bagagem bem natural, e tudo acaba em reggae como vem dizendo a banda Maneva. E é fato. Venho de uma geração da grande qualidade da MPB e percebo que até os artistas mais jovens estão revisitando os anos 70 e 80. Então é mais que justo poder transitar por esses caminhos da música brasileira que foi a minha escola na minha versão reggae music.

– Diego Albuquerque é o criador do blog Hominis Canidae, um dos maiores repositórios de discos brasileiros da última década. O blog foi criado em 2009, no Recife, e divulga novos artistas e nomes indies da música brasileira, de norte a sul do país.



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