Conexão Brasil/Portugal: Unsafe Space Garden apresenta “O Melhor e o Pior da Música Biológica”

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Para o grupo vimaranense Unsafe Space Garden, a música nunca foi apenas som, é um lugar. Um lugar onde se pode falhar, sentir, crescer e, sobretudo, partilhar. Inspirado por uma ideia forte de comunidade, o grupo cria canções que nascem das suas próprias experiências, procurando transformá-las em algo que possa acompanhar os outros, quase como um amigo que aparece no momento certo, de forma terapêutica, mas que não afirma saber mais do que ninguém. “Nós gostamos da ideia de que a música seja algo que transforma e galvaniza o mundo. Por isso, o nosso pensamento é trazer música que seja combativa e disruptiva, mas também haja um abraço e seja inclusiva”, diz Alexandra Saldanha (voz e sintetizadores) numa entrevista realizada por Zoom, representando um coletivo do qual fazem parte os músicos Nuno Duarte (voz e guitarra), Filipe Louro (baixo e voz), Diogo Costa (sintetizadores e samples), José Vale (guitarra) e João Cardita (bateria).

Desde o seu primeiro trabalho, o EP “Bubble Burst”, de 2019, a banda de Guimarães, no norte de Portugal, a cerca de uma hora do Porto, apostou numa sonoridade enérgica onde confluem diferentes gêneros musicais, experimentalismo, uma lírica humorada (por vezes surreal) e um componente artístico e teatral acentuado. O quarto disco do grupo, “O Melhor e o Pior da Música Biológica” (2026), editado a 4 de março pelo selo gig.ROCKS!, conta já com dois singles, o contundente e dançável “FKNKU (aka faca no cu)” e a cantiga de esperança e consolo “Mais Uma Voltinha” (que tem a participação nos coros dos Alunos de Música da Universidade Sénior de Moreira de Cónegos). Tematicamente, o novo trabalho reflete a procura do sexteto por expressar o melhor e o pior da experiência humana no atual momento conturbado do planeta. Como antídoto contra o que assola a humanidade, os Unsafe Space Garden propõem no disco a união, o sentido de comunidade e a alegria. A base musical do álbum é o pop dançável, a música de tradição portuguesa, o psicodelismo e o prog e a sua lírica assenta no sarcasmo e no habitual humor da banda. No geral, “O Melhor e o Pior da Música Biológica” retrata o melhor da música do sexteto: um espírito livre, idealista, irreverente e que busca a inovação.

O caráter enérgico dos shows dos Unsafe Space Garden (em vésperas da apresentação do novo disco em Lisboa e Porto e de participação em diversos festivais como o South by Southwest (EUA) ou The Great Escape (Reino Unido), entre outros) é um dos tópicos que abordamos. Alexandra Saldanha assume que a banda tenta sempre que o seu espetáculo “seja uma experiência em que o público sinta, nem que seja por momentos, que está num local onde se canta, dança e celebra”. No entanto, há um aspecto das atuações a que a artista e compositora atribui uma importância fulcral para o grupo. “O que nos deixa mesmo contentes é quando fazemos o público rir com algum momento teatral ou musical em concertos. A nossa expectativa é provocar um instante de alegria que as pessoas possam levar com elas e as encha de esperança. Tentamos que o espetáculo não seja um momento isolado no qual tudo parece possível na altura e depois já não é mais. Esperamos que seja uma mensagem aplicável na vida de cada um”, explica.

Relativamente à música brasileira, Alexandra Saldanha exprime sem rodeios a atração que ela exerce na banda: “Nós somos fanáticos pelo quão fascinante e mágico é a música brasileira. Eles têm trejeitos de tocar que parecem totalmente irreplicáveis”. A artista vimaranense declara também a sua predileção pelo álbum “A Tábua de Esmeralda”, de Jorge Ben Jor, que a acompanha em várias fases da vida. “É um disco que eu ponho a tocar em qualquer ocasião, seja para receber amigos em casa ou porque estou triste ou feliz”, diz. A influência do álbum estende-se igualmente à banda desenhada (histórias em quadrinhos), da qual Alexandra é autora. Num dos livros que escreveu, e que conta com várias versões, a personagem principal é Magnólia, numa referência à figura feminina do clássico de Jorge Ben Jor. Quanto à possibilidade dos Unsafe Space Garden colaborarem com músicos brasileiros no futuro, Alexandra não tem dúvidas. “Seria um privilégio para nós trabalhar com pessoal do Brasil”, conclui.

De Guimarães para o Brasil, Alexandra Saldanha conversou com o Scream & Yell sobre o Unsafe Space Garden. Confira:

Vocês fazem uma música desconcertante, humorada, eclética, experimentalista, com um lado teatral e uma lírica sarcástica. Isso adveio das vossas origens e influências musicais ou tratou-se de uma sonoridade e de um universo lírico que sempre quiseram trilhar?
Na realidade, quem compõe as músicas desde o nosso primeiro LP, “Guilty Measures” (2020), somos eu o Nuno Duarte (voz e guitarra). Por isso, o resto da banda entra mais na parte de traduzir o que compusemos para algo que funcione em disco. Eles estudaram os seus instrumentos e cada um entende a forma como há de tocar e é isso que trazem. Mas, de base, sou eu e o Nuno que fazemos as músicas. Esta tendência para ser uma coisa muito teatral e humorística e de boa disposição, mas brincalhona vem muito da nossa personalidade. Acho que a forma como desenvolvemos uma maneira de estar no planeta foi muito de rir para não chorar. Perante tragédias pessoais e mundiais e num mundo demasiado estranho, embora uma pessoa não se possa queixar que existem muitas vantagens de viver neste preciso momento da história da humanidade, também há aspectos um pouco bizarros e difíceis de digerir. A nossa forma de os entender e expressar é muito através do humor. Usamos imenso o sarcasmo para apontar coisas que são estranhas, mas também para tentar que isso não pareça arrogante, porque temos a plena noção que não somos nem sabemos mais do que ninguém. O humor acaba por ser uma forma de conseguir dizer aquilo que notámos e reparámos que está mal e também de nos colocarmos numa posição de aprendizagem. Pretendemos encontrar formas mais saudáveis de entender o mundo.

O vosso novo disco, “O Melhor e o Pior da Música Biológica” (2026), foi totalmente cantado em português. Porque tomaram essa decisão depois de terem editado um EP e três álbuns cantados em inglês?
Acho que não foi propriamente uma decisão, no entanto acabam por ser decisões decorrentes do processo. Mas, as músicas em português já tinham surgido em 2019. Ainda não tínhamos lançado o primeiro EP e eu e o Nuno já tínhamos composto em português. Isso aconteceu porque, na altura, estávamos a começar a trabalhar em projetos de criação com a comunidade, ou seja, trabalhávamos com coros num portal que foi aberto pelo nosso amigo Rui Sousa. Acho que foi aí que tivemos o primeiro contato com a música portuguesa. O Nuno, tal como eu, cresceu a ouvir a MTV e a comer Chocapic (cereal) e a minha mãe nasceu na França e a cultura que havia lá em casa era ligada à música americana e francesa. Por isso, nunca tivemos muita proximidade com a música portuguesa e muito menos com a música da tradição oral. Nessa altura, em 2019, descobrimos os músicos de intervenção como José Mário Branco e Zeca Afonso e a música da tradição oral e do campo. Foi aí que percebemos que a música portuguesa era fantástica. É muito triste que tenha sido tão tarde, mas foi assim que nos aconteceu. Nessa época, começámos a compor algumas músicas com as influências que descobrimos e depois isso parou no tempo, porque estávamos a fazê-las em inglês. Mas, posteriormente, o nosso baixista Filipe Louro, que acaba por ser o arquiteto de todas as estruturas funcionais nos Unsafe Space Garden, insistiu muito que essas músicas não podiam ficar suspensas e devíamos voltar a elas. Em 2024, depois de lançarmos o disco “Where’s The Ground?” (2023), eu e o Nuno tínhamos algum tempo livre e decidimos que em vez de estarmos a fazer discos seguidos, devíamos recuar e perceber o que tínhamos no computador. Resolvemos então recolher essas músicas, trabalhámo-las e empolgou-nos cada vez mais a ideia de não termos de estar presos a uma língua. Porque se o nosso objetivo é salvar o mundo, não tem de ser só em inglês ou português. Até podemos ir para o espanhol, francês, alemão ou qualquer idioma que faça sentido. Nesse momento pareceu-nos plausível pegar nas músicas em português e a banda acabou por adorar essas composições e agora sentimos que era uma excelente altura para lançar o disco. Como somos portugueses e Portugal tem nos recebido com muito carinho, mesmo cantando em inglês, acabou por ser uma forma de agradecer o fato de abraçarem o nosso trabalho anterior e agora há uma maior intimidade com o público ao cantar em português.

O single “FKNKU” (aka faca no cu) combina a provocação com o convite à dança. De onde provém a sua ironia e que papel desempenha a faixa no âmbito do disco?
Essa música fala muito sobre auto-sabotagem. Acaba por ser uma das formas em que ao fazermo-nos mal ressentimo-nos e depois criamos a possibilidade de também estar mal com o outro. É uma faca de dois gumes. Prejudica-nos, e às pessoas ao nosso redor, que nos querem ver bem, porque se estivermos assim vamos criar um mau estar adicional. A ideia de auto-sabotagem traduziu-se um bocado como o conceito de uma faca que nos é espetada nas costas, mas quem nos atraiçoa somos nós próprios. Daí descambou até ser uma faca no cu, que é uma facada que nos apunhala e somos nós que o fazemos. A ideia de ser no traseiro tem muita piada e de algum modo ameniza um pouco esse conceito. Relativamente à música, no contexto do disco, ela é uma das expressões do pior da música biológica. Porque se formos o nosso pior inimigo e não o enfrentarmos não vamos conseguir enfrentar o inimigo mor que é uma entidade qualquer que está a tentar entorpecer a população mundial.

Na parte derradeira do disco, depois de vocês exibirem o vosso vasto caldeirão musical canta-se “Viver é o que eu irei sempre escolher” no pop de “Ode À Vida”. É esse o vosso lema existencial em 2026 ou uma síntese do álbum?
Essa música e a última faixa do disco (“A Vida Não É Uma Merda”) acabam por representar a nossa intenção principal e o desenlace do trabalho. Porque é cada vez mais claro que o fato de nos sentirmos derrotados e desolados pelo que se passa à nossa volta, nos impede completamente de resistir e combater o que se está a passar. A escolha por viver não significa necessariamente que a decisão oposta seria optar por morrer. É mais decidir não viver dentro da própria vida, deixarmo-nos entorpecer e apoderarmo-nos de um derrotismo qualquer que nos impede de mudar o que está à nossa volta. Acho que Portugal ainda vive numa democracia e grande parte dos países também se declaram democráticos e isso implica que o povo tenha o poder nas suas mãos. Estamos a precisar de um lembrete existencial que nos recorde que temos essa possibilidade e que podemos mudar alguma coisa. Embora não seja culpa nossa, à partida chegámos a este ponto. A faixa que você mencionou acaba por falar muito nisso e a frase “Viver é o que eu irei sempre escolher” resume muito a nossa intenção com o disco.

“O Melhor e o Pior da Música Biológica” centra-se nos aspetos positivos e negativos da experiência humana atual e sucede a “Where’s The Ground?” (2023) que era um álbum de sentido comunitário, mas também versava a vida adulta e a necessidade de ter um ponto de apoio emocional. Sentem que no novo trabalho conseguiram apontar um rumo benéfico para a humanidade?
A um nível conceitual, o disco procura isso. O álbum anterior, “Where’s The Ground?” (2023), também e acaba por apontar que começa tudo a partir do chão comum. Falámos muitas vezes do chão comum e eu sei que sou definitivamente a mais idealista e otimista da banda e a primeira a dizer que há sempre esperança. Por isso, gosto de acreditar que é um disco que conseguiu cumprir a proposta com a qual começa. Isso chega para salvar o mundo? Não. Mas, eu tenciono ter muitos anos na minha vida para continuar a tentar que o nosso trabalho assim o faça. Acho que o álbum está na direção do que eu julgo ser uma contribuição muito bela para um sítio melhor na humanidade.

Tem alguma mensagem que gostaria de transmitir aos leitores do Scream & Yell?
Gostava de dizer que é estranho estar vivo atualmente, porque o mundo está cheio de aspectos bizarros e distópicos a acontecer. Sei que o Brasil tem das coisas mais belas para oferecer, mas também está igualmente a passar um momento muito estranho. Adorariamos um dia poder ir ao Brasil cantar para celebrar com toda a gente de lá, que nos gostasse de ouvir, tudo o que há de mais bonito no que temos em comum na nossa experiência humana. Se escutarem a música dos Unsafe Space Garden espero que a audição vos traga muito alento, imensa alegria e acima de tudo vou continuar a lutar para que as coisas sejam melhores.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui. A foto que abre o texto é do estúdio tsunami.alert



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