Entrevista: Manu Joker (Uganga) revela livro sobre cena do Triângulo Mineiro, fala sobre “Ganeshu” e 40 anos de barulho

entrevista de Alexandre Lopes

Ativo na música pesada desde os anos 80, o músico Manu Joker é um dos nomes ligados à formação da cena de sons extremos no Brasil. No underground de Minas Gerais, ele passou por bandas importantes como o Angel Butcher e o Sarcófago, com quem gravou o EP “Rotting” (1989), um registro que se tornaria referência para inúmeras bandas ao redor do mundo.

Mas é com o Uganga, banda que fundou em 1993, que Manu consolidou sua identidade artística. O grupo nasceu como um projeto paralelo – já que seus integrantes também participavam de outras bandas -, mas aos poucos se tornou a prioridade do músico. Misturando thrash metal, hardcore e outras vertentes mais agressivas do rock, o Uganga passou por mudanças de formação, lançou uma sequência sólida de álbuns e construiu uma trajetória que inclui turnês pelo Brasil e pela Europa, além do registro ao vivo “Eurocaos ao Vivo” (2013), gravado durante uma dessas passagens pelo continente.

O trabalho mais recente é “Ganeshu” (2025), oitavo álbum de estúdio do Uganga. No disco, a banda amplia seu repertório ao incorporar elementos pouco usuais ao metal – como dub e drum’n’bass – além de referências espirituais e culturais diversas. O próprio título reflete essa proposta: uma fusão entre “Ganesha”, da tradição hindu, e “Exu”, das religiões afro-brasileiras, símbolos ligados à abertura de caminhos.

Gravado no estúdio Rocklab, em Anápolis (GO), e produzido por Manu Joker ao lado de Gustavo Vazquez, o álbum equilibra peso direto e experimentação, reforçando a identidade de uma banda que nunca se prendeu muito a rótulos rígidos dentro da música pesada. A arte de capa, assinada por Artur Fontenelle, reforça essa ideia ao representar uma figura que funde simbolicamente essas duas entidades espirituais.

Ao longo da entrevista com o Scream & Yell a seguir, Manu fala sobre a concepção de “Ganeshu”, sobre a mistura de referências da banda, que vai de Black Sabbath a Bob Marley, de Public Enemy ao Clube da Esquina, e sobre a trajetória do Uganga como uma banda que nunca se encaixou completamente em uma única cena. O vocalista também revela que está preparando um livro em dois volumes sobre a cena musical do Triângulo Mineiro, compreendendo quatro décadas. Confira a entrevista completa abaixo.

Estava lendo as infos do “Ganeshu” e havia uma perspectiva dele sair em formato físico em fevereiro. Como está isso?
Tivemos um pequeno atraso, que é até uma coisa meio esperada se tratando de underground (risos). Mas está para sair. Estamos lançando em parceria com vários selos independentes para viabilizar a cota física. A gente acredita muito nesse formato ainda e consegue vender bem pegando estrada. Quanto mais a gente pega estrada, mais vende e tem a loja também. Sempre existe uma demanda por material físico e com esse álbum não seria diferente. A previsão é final de fevereiro ou começo de março ter a prensagem em CD. Estamos trabalhando para viabilizar o vinil também.

Então os formatos físicos seriam CD e vinil?
O CD já é certeza, já está tudo feito: arte gráfica fechada, selos definidos, só finalizando detalhes para mandar para a fábrica. Em paralelo a isso, estamos tentando viabilizar o vinil, que é mais complicado, porque está muito caro no Brasil. Estamos vendo possibilidade via edital e também com selos. Na Europa existe uma chance mais concreta de sair uma prensagem em vinil vermelho. Mas são várias correrias que estamos vendo ao mesmo tempo e o mais certo mesmo agora é o CD em março. Vamos fazer em digipack ou em acrílico com slipcase.

Vocês já têm experiência com lançamentos anteriores via edital?
Sim. Já escrevemos e aprovamos projetos municipais, estaduais e também fomos contemplados pela Wacken Foundation, no lançamento do [álbum] “Servus” [2019]. Nunca dependemos disso para a banda existir ou dar seus passos, conseguimos manter uma certa regularidade de lançamentos desde o início. Mas ao mesmo tempo, fomos aprendendo a trabalhar com editais porque é uma ajuda tremenda. Como temos um currículo razoável, vez ou outra conseguimos esse tipo de apoio.

Ao longo de todos esses anos de correria no underground, com certeza você sabe de boas histórias para um livro sobre a cena do Triângulo Mineiro. Já pensou sobre isso?
Acho que é a primeira vez que falo isso publicamente: estou preparando um livro. Eu escrevia uma coluna chamada “O Som do Bico da Galinha” num fanzine daqui da região que era do meu irmão, Marco. Esse fanzine durou sete anos, teve várias edições. Era um fanzine de bolso com entrevistas, resenhas, coberturas de shows. E tinha essa coluna na qual eu escrevia a minha visão sobre a cena do Triângulo Mineiro. Começou ali pelo início dos anos 2000 e durou uns sete anos. Minha ideia seria fazer uma revisão e atualização desses textos, com imagens de memorabília que tenho e depoimentos da galera numa estética similar ao “Mate-me Por Favor” [seminal livro de Gillian McCain e Legs McNeil sobre o início do movimento punk]. A ideia é ter meus textos e complementar com as impressões de alguém que era da cena, passou por aqui ou de alguma forma estivesse envolvida com o tema. Estou pensando em dividir em volumes, e o volume 1 contemplaria de 1982 a 2002, quando saiu o primeiro álbum do Uganga. Aí teria muita coisa, como Sarcófago, Angel Butcher, inúmeros festivais e bandas… Eu optei por não ficar falando só do meu corre e sim de tudo que estava rolando. Sempre documentei e guardei muita coisa. Quero deixar a parte textual pronta ainda esse ano e espero lançar até 2027.

Que massa! O livro já tem título?
Talvez o título da minha coluna mesmo, que era “O Som do Bico da Galinha”, uma alusão a “o som do Triângulo Mineiro”. Não sei se vou manter esse nome ou mudar, mas talvez incluindo um subtítulo mais explicativo. Ainda estou decidindo se mantenho esse nome estranho e esquisito (risos).

E você já tem alguma editora interessada? Já apresentou o projeto do livro para alguém?
Ainda não. Inscrevemos em edital, mas se não aprovar, vamos buscar parceiros independentes, como fazemos com os discos. Mas acho que tem boas chances de ser aprovado por ser realmente um documento que teria sobre a cena em formato de texto mesmo. Tem um outro livro que cataloga bandas, que é feito por um amigo meu daqui e tem tanto o Uganga quanto o Sarcófago, Angel Butcher e tal, mas do jeito que eu estou fazendo com cronologia, falando de datas e de shows importantes e tudo, ainda não tem. Então acho que vai ser um produto interessante para quem for estudar a música independente do Triângulo Mineiro, porque não é focado só em metal: tem hardcore também, eu falo da cena de rap, indie… Enfim, eu venho circulando por um rolê mais amplo desde o começo. Então trato de toda essa galera. Acredito que existe demanda para ser aprovado, mas se não for, aí a gente vai falar com selos independentes e encontrar parceiros. Acho realmente que vai ficar um trabalho bem interessante, porque tenho um armário que é tipo um sarcófago mesmo (risos), que tem flyer desde 1984, fanzines e fotografias daquela época. Então estou recorrendo muito a ele para escrever e como tem muito material legal, a gente vai inserir também as fotos dessa memorabilia para ficarem registradas.

Voltando ao “Ganeshu”: o disco é bem pesado, mas tem momentos experimentais, como em “Psicoraio Dub”. No faixa a faixa do álbum, você disse que considera doom e dub como primos e o drum’n’bass como o sobrinho. Como assim?
Cara, eu sempre falei isso na banda, e a gente já deu muita risada disso. Mas é porque, se você for pensar, o dub e o doom, e aí o doom/stoner, que é o que veio muito do Sabbath… a gente está falando de um lado da Jamaica e do outro basicamente do Black Sabbath. Mas ambos são lentos, têm uma “gordura”. Tem um peso extra, uma dose boa de psicodelia. Então eu vejo muito essas conexões. Tem conexões bem chapadas, digamos assim, entre os dois estilos. Aquela coisa hipnótica, e ao mesmo tempo o peso muito presente em ambos. E a gente usa isso. Em músicas como, por exemplo, “Couro Cru”, a gente começa parecendo que está tocando um doom mesmo, mas você sente um feeling meio Jamaica ali, que faz parte das nossas referências.

Em 1989 eu estava no Sarcófago, mas já tava ligado em ragga, em rap também. Então são estilos que venho pesquisando há muito tempo e, por sorte, outros integrantes do Uganga também curtem. A galera não é só do metal ou do hardcore, apesar de ser a nossa base primária. Mas é aquilo: gostamos muito do dub, do doom, da drum’n’bass, na parte rítmica. O rap em algumas levadas, a própria música mineira… artistas tipo o pessoal do Clube da Esquina, 14 Bis… tudo isso influencia a gente, porque faz parte de uma formação musical que vem da nossa gênese. Então é inevitável. Concordo que o “Ganeshu” tem uma dose experimental bem latente, mas diria que toda a nossa discografia teve faixas que vão mais pra esses lados. Se você pegar o primeiro álbum, tem músicas tipo “Ouro de Júlio” que já têm coisas de drum, de sample… e a própria “Couro Cru”, que também é do primeiro álbum. Então a gente vive nesse caldeirão aí que mistura Black Sabbath, Bob Marley, Augustus Pablo, Kraftwerk, Lô Borges… a gente é muito influenciado por essas coisas loucas. Mistura tudo isso num liquidificador profano com muita da essência do metal extremo mineiro dos anos 80, do punk rock… principalmente o punk nacional e o europeu dos anos 80 também. Falo mais a respeito do meu background, né? Porque hoje em dia toco com caras de gerações diferentes. Então é inevitável que eles também tragam as vivências e as referências deles. Isso também é uma característica do Uganga. A nossa fórmula é ampla justamente porque o nosso processo é democrático. Então o que a gente aprendeu foi manter essa democracia de uma maneira que não descaracterize a essência. Diria que hoje a gente tem uma sonoridade que, quem está mais familiarizado com a banda, escuta e sabe que é nós. A gente tem uma certa assinatura. E ela vem de aprender a misturar, mas com um senso comum do que é a sonoridade do Uganga, independente das influências diversas.

Como é tocar com integrantes mais jovens, sendo que você está nesse rolê desde os anos 80?
Cara, é uma loucura. Comecei na cena em 1985, quando o Angel Butcher foi formado. Em 1986 a gente lançou a primeira demo. E desde então nunca parei. De 1985 pra cá, se fiquei seis meses na minha vida sem ter uma banda, foi muito. É muito tempo no Uganga, né? Mais um período no Sarcófago, Angel Butcher e vários outros projetos também que fui desenvolvendo junto com outras atividades. Sou arquiteto e sempre trabalhei, mas me mantive sempre envolvido com a cena. E é muito louco, porque quando o Uganga foi formado, em 1993, eu era um dos mais jovens, mas hoje sou o ancião da banda (risos). Muito engraçado! A galera vai saindo, as coisas vão mudando… e eu optei por ficar. Acredito que isso é grande parte de quem eu sou. O nosso baterista tem a idade da banda, e o baixista e o guitarrista são mais jovens do que o Uganga. Olha que maluco! O nosso guitarrista, Vinícius Luz, aprendeu a tocar guitarra na pandemia, saiu do videogame pra guitarra. Isso mostra o quanto essa geração é precoce, porque o cara toca pra caralho. O Igor, nosso baixista, está ali beirando os 30 anos também. O tio dele foi baterista do Uganga, então ele cresceu indo nos nossos shows. E o nosso batera é o Juninho, que vem de uma outra cena: ele começou tocando na igreja, na Bahia. Apesar de ser natural de Minas, ele morou na Bahia na infância, e quando voltou, já era músico. Aí se ligou em metal, em música extrema, e veio parar no Uganga. Então são vários caminhos que se encontraram nesse momento da banda. E eu acho isso muito rico, cara. Eu realmente não tenho distinção de credo, raça, cor, preferência ou posicionamento; respeito e aprendo com o diferente. Pra mim é muito foda essa troca.

Primeiro de tudo, já rola uma amizade. A gente já pegou horas e horas de estrada juntos pra testar a convivência, e os caras são pessoas legais de conviver. São músicos talentosos e está sendo uma troca muito legal. Principalmente pelas quatro personas musicais que estão compondo a banda nesse momento. O Juninho toca no “Ganeshu” e a gente já compôs junto ali. E os outros dois a gente está começando a compor juntos agora, estamos na pré-produção do novo álbum e está sendo muito foda, cara. E é engraçado porque às vezes nem tudo que os caras gostam eu gosto, e vice-versa. A gente fica meio que zoando um ao outro por causa disso. O nosso guitarrista veio me mostrar The Police esses dias. Eu falei: “Porra, mano… não, isso aí já é muito pra mim”. Aí eu mostro, sei lá, pro batera um D-Beat podrão, mal gravado, dos anos 80, e o cara talvez não se conecte tanto também com isso. Mas é legal. A gente está aprendendo a lidar com essas diferenças de uma maneira muito leve. E eu acredito que o novo disco vai mostrar isso.

Em 2026, o que ainda faz sentido manter no DNA do Uganga e o que vocês já deixaram para trás?
A sonoridade do Uganga foi moldada por duas duplas de irmãos: eu e o Marco, meu irmão, e o Cristian e o Ras. Essas duas duplas estão em todos os álbuns, desde o primeiro até o “Servus”. Então acredito que essa sonoridade foi moldada muito na troca que nós quatro tivemos ali, aprendendo a compor juntos, equacionando as nossas diferenças e criando uma assinatura que ficou mais perceptível do “Volume 3” [2010] pra cá. Eu acho que ali a gente encontrou a nossa sonoridade. Respeito e gosto dos álbuns anteriores, mas eles ainda são discos de busca. Eu tinha acabado de sair do Sarcófago, os caras estavam vindo do hardcore melódico, o nosso guitarrista tinha tocado ska… então cada um vinha de um segmento diferente. Do “Volume 3” pra frente, acho que a gente encontrou o nosso som e ele vem se desenvolvendo desde então.

Pensando em características que vão ser mantidas, eu acho que uma delas é a abordagem das letras. Apesar de ter um viés crítico, nunca é panfletário, nunca é sobre verdades absolutas. Sempre tem uma influência muito grande da espiritualidade, que pode ou não ter a ver com religião. Tem uma inspiração estética tanto no hinduísmo quanto nas religiões de matriz africana. Se você pegar o primeiro álbum, tem uma música chamada “Couro Cru”, que fala de quilombo, de navio negreiro, e ao mesmo tempo tem “Atitude Lótus”, que remete ao hinduísmo e yoga. Então isso tudo sempre permeou o nosso universo. Essa parte lírica eu cuido sozinho desde o começo, mas a parte musical é criada de maneira democrática entre nós. E eu vou muito nesse lado de pensar no mundo, mas falar disso com a linguagem das ruas, com o que está à minha volta. Acredito que isso vá continuar, assim como algumas coisas mais históricas aqui e ali, como referências ao cangaço, à Segunda Guerra Mundial… de vez em quando eu vou nesses temas e vou continuar abordando porque me interessam muito. Mas no geral é mais sobre vivência mesmo: angústias, raivas, alegrias, dúvidas, questionamentos. O “Ganeshu” tem muito essa coisa de celebrar aquilo que a gente não sabe, a não obrigatoriedade de ter respostas pra tudo. Então acredito que essa busca vai continuar na lírica.

E musicalmente, eu diria que o groove nunca vai sair. Eu sou discípulo de Black Sabbath, e acho que metal e hardcore têm que ter groove. Essa coisa do quadril engessado é mais coisa de power metal alemão. Gosto de várias bandas alemãs, mas entendo que ali o groove não é o essencial. No nosso caso, você pensa em “Fairies Wear Boots”, do Sabbath e dá pra rimar em cima daquilo ali. É groove puro, né, mano? Ou “Seek and Destroy”, do Metallica. Pô, groove pra caralho. E no nosso caso tem até mais, porque a gente gosta de Faith No More, de Red Hot Chili Peppers, de Biohazard… então o groove vai estar sempre presente. Mas eu diria que a banda hoje está com um apuro técnico um pouco maior, que é fruto de evolução e dos integrantes atuais. A gente tem dois estudantes de música e isso ajuda a trazer um pouco mais de requinte instrumental. Ao mesmo tempo, acho que a banda soa mais brutal e urgente também. A gente voltou a ter músicas menores, blast beats, enfim. Acho que a referência primal do crossover está mais na cara e o experimental vira o tempero. É o orégano que a gente joga no final: um pouco de dub aqui, um pouco de psicodelia ali, alguma coisa de eletrônica, uma participação de alguém do rap, que é algo que tem em todos os álbuns também. Mas a base é um crossover de 2026 à nossa maneira: sem querer soar retrô ou saudosista, mas que tá bem extremo, bem brutal e bem urgente.

A banda se formou em Uberaba (MG), mas agora você mora em Araguari (MG), certo?
Exato. É na pontinha do “bico da galinha” ali, quase em Goiás. Até por isso que a gente foi gravar no Rock Lab. A cena do Triângulo Mineiro, desde os anos 80, pela proximidade geográfica, sempre teve uma conexão muito forte com a galera de Goiânia (GO). Várias bandas dali: Mortuário, Asgard, Terminator… a galera da cena hardcore também tinha muita banda ali desde o começo. E a galera de lá vinha pra cá, junto com a galera de Brasília. Então a cena do Centro-Oeste, pela proximidade geográfica com a gente, sempre dialogou bastante. E a escolha pelo Rock Lab se justifica por vários fatores. Primeiro que o Gustavo é um contemporâneo: quando ele estava gravando com o CCT pela Cogumelo [Records], eu estava gravando com o Sarcófago. Então a gente vem da mesma cena dali. E ao mesmo tempo, o cara já gravou Macaco Bong, Molho Negro, Violins, várias bandas que vão pra outro lado… Então isso é muito legal pra gente, ter essa visão mais ampla. Às vezes é necessário uma compreensão que vá além do metal e do hardcore pra trabalhar com a banda. E o Gustavão tem muito isso, então a gente divide a produção. Eu cuido mais da parte de pré-gravação, de preparar a banda e as composições, e ele vai na captação e na timbragem, porque o cara sabe os caminhos pra tirar uma sonoridade que nos agrada: uma pegada mais orgânica, mas tudo bem definido. E a gente inclusive vai repetir com ele na próxima.

Vocês estão pensando em gravar material novo quando?
A gente está na pré-produção agora. E o plano é o seguinte: até o “Servus”, todos os nossos álbuns tiveram 13 faixas. Depois dele, a gente mudou um pouco essa lógica: sempre trabalhando com sete faixas, como se fossem as sete espadas da Umbanda. Então vamos repetir esse formato de sete faixas e acredito que vão estar prontas até agosto. A ideia é gravar no segundo semestre e o plano inicial seria lançar no começo de 2027. Mas vamos ver como as coisas se desenrolam.

O metal sempre flertou com uma estética de poder de um macho invencível. Me parece que o Uganga se afasta disso. É uma escolha política ou instintiva?
Você vê, eu venho do Sarcófago, que é talvez uma das bandas mais profanas da história. Mas ao mesmo tempo venho num caminho de busca espiritual desde essa época. Tive a sorte de não ser doutrinado em nada e isso me deu espaço pra estudar, experimentar, descobrir. E uma coisa com a qual eu realmente não compactuo é com imposição. E muitas vezes o hardcore e o metal são muito impositivos. Eu cresci assim. Os caras mais velhos te intimando pra fazer questionário… nos anos 80 tinha uma babaquice disso. E desde aquela época eu não me deixei dobrar por isso, não. No nosso discurso, a gente tem essa ideia de fortalecer aquilo que você é, se sentir apoiado em ser quem você é e acolhido no nosso ambiente. Porque a gente não quer impor nada, nenhum tipo de ideologia. É claro que eu me posiciono politicamente nas letras, apesar de não defender partido. Cada um faz o que quer. Tenho uma orientação à esquerda; sempre votei na esquerda desde 1989, quando votei pela primeira vez. Mas isso não quer dizer que eu não tenha críticas à esquerda também. Eu sou contra todos que tentam apontar o dedo na nossa cara e falar o que a gente tem que fazer. A gente se posiciona: o Uganga é uma banda libertária na essência e por isso que a gente simpatiza muito com o hinduísmo. No hinduísmo você estuda justamente pra aprender a respeitar e aceitar o diferente como seu irmão ou irmã. Então a gente está muito nessa vibe de não querer impor nada. No show também; a gente não fica tentando comandar a plateia. Eu prefiro muito mais uma coisa de catarse, de todo mundo entrar numa conexão com a gente ali e fazer um ritual e cada um se manifestar da maneira que quiser. Essa coisa impositiva, agressiva, opressora… inclusive a gente tem um álbum chamado “Opressor” [2014], que fala muito disso e tem uma entidade na capa que simboliza esses elementos. É algo que me interessa pra escrever, mas não faz parte da minha conduta ou do que acredito, ou do caminho que eu quero seguir trilhando. Eu também já errei, tive postura impositiva, já tive aquela desinformação adolescente cheia de testosterona. Você acaba indo por caminhos que hoje você olha e fala: “É… não devia ter ido por ali”. Mas que bom que tirei um aprendizado de saber que aquilo não era legal. Desde o começo do Uganga, lá em 1993, eu já tinha deixado vários hábitos pra trás; tinha pegado outro caminho, mudado de turma. Busquei uma vida mais saudável, comecei a me questionar, a me interessar pelo que pode existir no mundo que eu não enxergo. Isso acho que é mais latente no Uganga. O Angel Butcher era política por política; o Sarcófago era “quanto mais blasfemo, melhor”. E o Uganga já é outra coisa: é um momento meio “uau, que viagem louca” e “o que eu tô concluindo disso tudo até agora?”. É meio por aí.

Como você lida com radicalismo e gente escrota na cena?
Eu acho que a nossa cena é muito embalada, sabe? Ao mesmo tempo em que surfa num hype, fala que é genial, depois já começa a querer arrancar a cabeça dos caras. Então a minha crítica, o meu cinismo punk, ele vai até mais longe. Ele se volta também pra quem está à minha volta em muitos casos, porque parece que certas pessoas são obrigadas a falar bem ou a falar mal de bandas específicas. Mas o quanto disso vem realmente de uma conclusão própria? É fácil você ser raso e ser tratado como genial. E grande parte disso vem da própria cena. Em muitos casos, a galera quer ver a banda antiga tocar o material dos anos 80, porque o novo já não interessa pra elas. Tudo isso é uma rede de preguiça, modismo, comodismo e carência afetiva na qual a gente está chafurdando já faz um bom tempo, tentando sair. Radicalismo sempre teve. Aquela coisa de: “Porra, o cara tocou no Sarcófago e agora tem música com rap”, esse papo raso. O cara não sabe que Public Enemy já fazia parte da minha essência há tempos. O cara consome o que eu fiz, valoriza a sonoridade que a gente criou, mas não respeita nem as influências que vieram desse processo. Não é porque no “Rotting”, do Sarcófago, não tem rap que eu não escutasse naquela época. E mesmo que eu tivesse começado a escutar ontem, também seria um direito meu. Então assim, a gente sempre foi muito julgado: pela galera do rap, pelos radicais do metal e do hardcore. E a nossa postura sempre foi duas coisas: primeiro desdém, e segundo dedo do meio em riste. Cara, é sempre isso pra todo esse radicalismo. E antes de tudo tem que ter verdade, né? A sua verdade você sabe qual é. A minha eu sei. E esses caras muitas vezes querem falar da verdade dos outros. Gostar ou não gostar é direito de cada um. Agora, a maneira como isso é colocado… a gente volta naquela postura impositiva, agressora, atrasada. Espiritualmente velha, eu diria.

O que mais te incomoda no Brasil de hoje e o que ainda dá respiro?
Cara, o que mais me incomoda… eu não vou sair do clichê, não: é a extrema direita cafona e extremamente radical. Eu acho que não tem nada que sufoque mais o planeta hoje em dia do que esse pensamento. Esse bando de fanatizados religiosos, cara. Todo mundo quer ser guia espiritual, cientista político, mercenário… E no fim das contas não passam de um bando de covardes, desesperados e corporativistas. Tenho repulsa pela extrema direita brasileira. Isso é uma coisa minha. Iisso não quer dizer que eu morra de amores por tudo que a esquerda faz ou que eu ache que uma extrema esquerda radical seja a solução. Pra mim, muitas vezes o caminho do diálogo é o melhor. Mas o que a extrema direita tem feito com o Brasil, juntamente com o fanatismo neopentecostal, eu acho que é uma das coisas mais podres, nojentas e irritantes que existem hoje em dia, na minha visão.

Você conversa sobre política com quem entra na banda?
Cara, assim… obviamente, eu gostaria que não tivesse que lidar com certas questões, com pessoas com esse outro tipo de visão, né? Acho que quando o cara vem tocar no Uganga é meio impossível ele ser bolsonarista, por exemplo. Mas dentro do nosso espectro sempre vão existir diferenças. A gente conversa muito sobre diferenças de visão de mundo, até porque a gente tem diferenças de idade, de influências, de tudo. Então uma visão um pouco diferente sempre vai existir. Mas tem algumas coisas que são intoleráveis, né? Tanto numa amizade quanto numa parceria profissional. E no caso do Uganga, muitas vezes as duas coisas se misturam. Não necessariamente você precisa virar amigo da pessoa, mas o ambiente tem que ser amigável. Então eu procuro conversar e prestar muita atenção nas pessoas com quem estou lidando. Muitos integrantes do Uganga eu já conhecia desde a infância, então o briefing já vinha meio pronto. Mas nos casos mais recentes, a gente conversa bastante. E todo mundo tem uma visão mais progressista, mais libertária e de respeito. Do ponto de vista espiritual, cada um enxerga a vida de uma maneira. Você não é obrigado a ter ou não ter fé, isso vai de cada um. Mas gosto de ter pessoas com valores interessantes do meu lado. Não que eu seja exemplo de porra nenhuma, tá? Muito pelo contrário. Mas justamente porque estou buscando evoluir, quero estar ao lado de pessoas que também estão nessa busca. Não quero gente que me puxe pro meu pior. Então procuro criar um ambiente saudável e respeitoso. Outra coisa também são os excessos; cada um faz o que quer da vida. Gosto de um verde de vez em quando, tomo uma cerveja, os caras também e está tudo certo. Mas quando o cara perde o senso do entorno, principalmente com bebida, cocaína, esse tipo de coisa, isso vira um problema. Já tive experiências com pessoas que levavam isso muito forte pro ambiente da banda e não era positivo. Hoje em dia cada um tem sua balada, seus hábitos, mas precisa segurar a cabeça na hora de tocar. Isso é muito importante também, até pro ambiente ficar leve, porque a gente convive muito tempo junto. O underground é assim: às vezes são quatro caras dentro de um carro ou num quarto de hotel. Você não tem tanta individualidade quanto bandas que estão num patamar maior. A gente já tem um certo conforto hoje, mas mesmo assim… cabeça no lugar e respeito são fundamentais. E dentro disso, respeito total à individualidade de cada um. Até porque eu também não sou exemplo de boa conduta pra ninguém.

Pelo que você está falando, daria para ser um bom exemplo sim. Se todo metaleiro fosse mais cabeça aberta para diversos sons, talvez não tivesse um estereótipo de pensamento retrógrado que geralmente é associado a eles, né?
Pode ser, cara. Eu comecei a ouvir música muito por coletâneas. Então o primeiro disco que comprei tinha de tudo: Oi!, punk, hard rock, synth pop, pop punk… Então desde a gênese eu já estava ouvindo várias coisas diferentes que me emocionavam. Sempre fui aquele cara que estava tocando numa banda blasfema de death/black metal brasileiro e, ao mesmo tempo, escutando o “Dois” da Legião Urbana, entendeu? Sempre consumi muita coisa extrema e pesada, mas também sempre ouvi muita coisa diferente. Hoje mesmo eu estava ouvindo Discharge mais cedo. Mas ontem eu estava em Vinicius de Moraes. Amanhã eu posso estar em hip hop, por exemplo. E está tudo certo.

Você sente diferença entre o público antigo e quem chega agora no Uganga?
Eu penso que quem acompanha a gente desde o início já está acostumado a ser pego de surpresa. Porque é inevitável, né? Você pega um álbum como “Servus”, que é pesado pra caramba, e lá no meio tem uma música com batida eletrônica, com uma cantora de frevo [Flaira Ferro] e um violeiro do interior mineiro [Luiz Salgado]. Então quem está acostumado com a banda já sabe que essas coisas podem acontecer. E eu acho que a galera que está chegando agora, conhecendo a banda pelo “Ganeshu”, pode ter a percepção de que a gente faz esse tipo de som desde o início. Mas na verdade a gente foi moldando essa sonoridade com o tempo, como eu te falei. Agora, o cara que escuta o “Ganeshu” inteiro também vai ser pego de surpresa em alguns momentos. No meio do disco, tem um dub fundido com drum’n’bass, tocado de forma orgânica. Então não é convencional pra um disco de crossover ter coisas assim. Acho que tanto quem chega agora quanto quem já conhece a banda há mais tempo acaba acostumado a ser pego de surpresa. Quem vai aos shows talvez pense que a gente é um pouco mais fechado na fórmula, porque ao vivo às vezes você não vai tocar “Psicoraio Dub” ou “Pressentimento”, por exemplo, quando é um show mais curto. Ao vivo a gente soa até mais pesado, eu diria. Tem uma urgência maior, um punk mais latente. Mas, via de regra, acho que todo mundo já está meio acostumado. A galera que está chegando agora está conhecendo um Uganga mais brutal. A gente meio que fez o contrário de várias bandas, que vão amaciando o som com o tempo. A gente foi ficando mais casca-grossa, mais pesado.

Você acha que fazer música pesada por tanto tempo no Brasil é teimosia, resistência ou necessidade?
Eu fico com a terceira opção: necessidade. Eu já trabalhei com outros estilos musicais também, tanto como baterista quanto como vocalista. Já toquei cover, já fiz baile de carnaval, já acompanhei MC como percussionista, toquei em projeto de dub… Teve momentos na minha trajetória em que eu tesava mais afim de tocar outras coisas, estudar, experimentar. Hoje em dia nem tanto, mas durante muito tempo fui explorando várias possibilidades. E hoje prefiro misturar essas referências dentro do Uganga. Mas, voltando à sua pergunta… se fazer música pesada por tanto tempo no Brasil é necessidade… pra mim é. Passei por outros estilos, experimentei, mas o meu grito primal vem muito dessa coisa pesada. Por isso que há pouco tempo voltei a tocar o repertório do Sarcófago também. A gente fez um show em São Paulo com o Angel Butcher tocando só Sarcófago. De vez em quando aquele moleque de 18 anos que eu fui me inspira. Muito da minha formação está ali: Suicidal Tendencies, Celtic Frost, Bathory, Black Sabbath, Exodus, Anthrax… e também Public Enemy. Isso tudo é muito forte na minha gênese musical. Bob Marley também, claro, e muitas outras coisas. Mas falando da música pesada, é isso que moldou muito quem eu sou. Então acho que é onde está a minha essência musical. Pode ser que em algum momento eu tenha um projeto de samba rock ou de trip hop. Pode acontecer, inclusive já pensei nisso. Quando o Uganga estava meio parado, pensei em lançar um trabalho só de rap mesmo, sem pretensão de reinventar a roda, mas porque é uma coisa que exercito há mais de três décadas. Então é algo que me sinto confortável pra experimentar, entendendo o meu lugar, sem querer “sentar na janela” nem nada disso. Mas a minha essência ainda segue sendo a música pesada com groove, que mistura metal, hardcore e com muito rap na base. Até na parte pesada o rap acaba estando presente na nossa sonoridade.

Pra terminar: você acha que o Uganga é parte de alguma cena específica?
Eu acho que a gente é meio que um corpo estranho circulando por várias cenas. Comparando não por relevância, nem por estilo, mas por esquisitice mesmo: eu diria que a gente faz parte daquele rol de bandas dos anos 90, tipo Rage Against the Machine, Faith No More… que vem dos 80, mas explodiu nos 90… tipo Helmet ou Morphine: cada uma no seu quadrado, mas todas meio tortas, sabe? Eu acho que o Uganga é isso também: uma banda meio torta. A gente é muito bem recebido na cena crossover, thrash, metal… até por causa da minha ligação com o Sarcófago, então até a galera mais radical acaba ouvindo e dialogando com a banda. Mas ao mesmo tempo, a gente já tocou em eventos de indie rock, já abriu show dos Racionais, tocamos com Krisiun, com o Matanza, no mesmo festival que a Elza Soares, abrimos show do Exodus… então o Uganga acaba transitando bastante. Conseguimos navegar um pouco além da bolha do crossover e do thrash metal. Dentro disso, sempre vai ter alguém que acha legal e outros que falam: “Pô, isso não é pra mim”. Então acho que a gente tá nessa categoria das bandas “mais esquisitas”. E eu gosto disso.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br



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