texto de Leandro Luz
Se a franquia “Pânico” conseguiu sobreviver à morte de seu lendário diretor, o “Master of Horror” Wes Craven, tendo sido tocada, ainda que de forma inconsistente, por artesãos menos talentosos como Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, responsáveis pelas decepcionantes – ainda que minimamente divertidas – quinta e sexta sequências, é compreensível (e até digno de nota) que o coautor de toda esta empreitada também se auto elegesse habilitado para a tarefa.
Kevin Williamson é um ator frustrado que se consagrou roteirista após escrever o que se tornaria o primeiro “Pânico” (“Scream”, 1996), inspirado em um crime real ocorrido na Flórida, em 1994. Também são dele os roteiros do hit das locadoras “Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado” (“I Know What You Did Last Summer”, 1997) e da celebrada série “Dawson’s Creek” (1998-2003), apenas para citar outros dois de seus trabalhos mais conhecidos. Após uma tímida tentativa na direção ainda na década de 1990 com “Tentação Fatal” (“Teaching Mrs. Tingle”, 1999), Williamson retorna à função, 27 anos depois, com “Pânico 7” (“Scream 7”, 2026), assumindo para si a árdua tarefa de fazer render uma mina de ouro já mais do que carcomida, embora, como é da natureza do slasher, com possibilidades criativas tipicamente infinitas.

Natural de Cleveland, Ohio, e responsável por décadas e mais décadas de contribuições lendárias ao cinema de terror – “Aniversário Macabro” (“The Last House on the Left, 1972), “Quadrilha de Sádicos” (“The Hills Have Eyes”, 1977) e “A Hora do Pesadelo” (“A Nightmare on Elm Street”, 1984, um dos filmes mais marcantes para o imaginário do horror oitentista e que também se tornou uma franquia de muito sucesso) -, Wes Craven soube encontrar, diversas vezes, o tom ideal para dar vida aos personagens e às situações autoconscientes escritas por Williamson. O brilho de “Pânico” reside justamente nesse equilíbrio fino entre a habilidade de orquestrar as convenções de seu gênero – a violência perpetrada pelo assassino, o puzzle inerente à revelação de sua identidade, o trauma originário, a “final girl” – e a maneira como a narrativa se organiza via metacomentário revisionista e bem-humorado, sem que se esvazie o peso dos acontecimentos brutais e dramáticos.
Desde o clássico de 1996, Craven e Williamson pareciam beber muito conscientemente de um trabalho em específico feito dois anos antes: “O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger” (“Wes Craven’s New Nightmare”), dirigido e roteirizado pelo próprio Craven em 1994, no qual uma reflexão profunda sobre trauma e legado já estavam postas. Aliás, a ideia de “play the part” prescrita pelo filme que marcou o retorno de Craven à sua franquia mais celebrada (antes da existência de “Pânico”) e encerrou o seu ciclo “original”, dialoga diretamente com o que se tenta fazer aqui em “Pânico 7”: operar esse “desempenhar o papel” como o principal combustível dramático e narrativo. Williamson, agora (e pela primeira vez) rei e juiz de seu próprio universo cinematográfico, escolhe se concentrar na filha de Sidney (antes Prescott, agora Evans, adotando o sobrenome do marido por uma questão de sobrevivência), que negará o legado de sua mãe até às últimas consequências.
“Pânico 7” estabelece novamente Sidney como protagonista, trazendo de volta personagens importantes que nos apegamos em filmes passados, estejam eles vivos ou mortos – e é justamente nesse ponto que ficam garantidos algum respiro e, ao mesmo tempo, um retorno ao que funcionou tão bem nas primeiras quatro obras da franquia. Williamson convoca para o jogo elementos da ordem do dia, tais como o deep fake e a inteligência artificial, claramente um aceno para o espectador contemporâneo que é constantemente massacrado com os seus desdobramentos éticos e políticos, e com as suas aplicações cotidianas. Não que a reflexão seja lá muito aguda – se parece até, em termos de profundidade, com a maneira como filmes recentes da franquia “Missão Impossível” também o fez -, mas garante um sacolejo em águas que estavam demasiadamente paradas.
Uma estratégia marcante de Williamson é escalar a coreografia das mortes e a quantidade de sangue. Puro choque e apelação, ou faz sentido, em se tratando do objeto que é? Há uma cena particularmente gráfica envolvendo um teatro e uma garota pendurada por cabos de suspensão de aço. Sinceramente, é impressionante o que o cineasta faz com a combinação “maquinaria cênica e adolescentes indefesos” diante do Ghostface da vez. Nessa lógica de excessos – geralmente bem-vindos no contexto de “filmes de matança” como esse, aliás – ressalta-se personagens coadjuvantes amalucados, sendo uma delas, inclusive, ponto chave para toda a discussão sobre maternidade e legado que norteia “Pânico 7”.
Outro momento emblemático é o prólogo, situação obrigatória na franquia, e aqui a diversão rola solta, servindo como um petisco para o que vem a seguir e eficiente ao apresentar de cara ao espectador que ele está diante de um parque de diversões, mais exatamente em seu trem fantasma favorito. Nesta sequência, vemos um Jimmy Tatro hilário (ator da ótima comédia “Theater Camp”, protagonizado e dirigido pela dupla Molly Gordon e Nick Lieberman, em 2023) fazendo a vez do inveterado fã de filmes de terror que leva a namorada para uma viagem romântica – só que, ao invés de uma casa aconchegante no campo, aluga um airbnb em Woodsboro (cidade fictícia na qual boa parte da franquia se passa). Se os eventos, as personagens e o legado de “Pânico” já se tornaram filme dentro do filme (“Stab”), e já inspiraram paródias como toda a franquia “Todo Mundo em Pânico” (“Scary Movie”), o que resta agora senão transformar tudo em um grande parque de diversões?
Algumas pessoas podem se irritar com os recursos repetitivos, com a apelação da direção – tanto do ponto de vista gráfico quanto temático – e com as reviravoltas particularmente óbvias do novo filme, mas uma coisa é inegável: em geral, os filmes da franquia “Pânico” até quando são ruins, divertem. Não é exatamente o caso desta vez. E não que fosse muito difícil, mas a verdade é que Kevin Williamson conseguiu engendrar o melhor filme da franquia não dirigido por Wes Craven.

– Leandro Luz (@leandro_luz) pesquisa e escreve sobre cinema. Coordena a área de audiovisual do Sesc RJ, atuando na curadoria, programação e gestão de projetos em todo o estado do Rio de Janeiro. Exerce atividades de crítica no Scream & Yell e nos podcasts Tudo É Brasil, Plano-Sequência e 1 disco, 1 filme.

