texto de Fabio Machado
fotos de Douglas Mosh
“Procedemos à avaliação da letra musical intitulada ‘Bichos Escrotos’, objeto de recurso — documento protocolado sob nº 003206/BT-DCDP — e constatamos que a expressão ‘vão se foder” foi suprimida parcialmente, retirando-se apenas o termo “foder”, conforme consta da gravação apresentada para exame. Nesse caso, percebe-se uma divergência entre o texto e a gravação. A versão analisada deixa transparecer, em seu discurso, um sentimento de pessimismo, ao mesmo tempo em que projeta uma imagem escatológica da realidade. Com referência ao termo ‘escroto’, entendemos que o mesmo está empregado no sentido de ‘ordinário’, ‘reles’ e ‘desprezível’, não chegando a assumir conotação grosseira. Pelas razões expostas, julgamos viável a liberação irrestrita da letra, uma vez suprimida, in totum, a expressão ‘vão se foder’, conforme pleiteia o interessado.”

É com o texto acima – retirado diretamente de um documento do Departamento de Censura de Diversões Públicas (DCDP) da Polícia Federal, também mostrado em um telão – que os Titãs optaram por abrir o primeiro show da turnê comemorativa de “Cabeça Dinossauro”, trabalho emblemático do conjunto que completa 40 anos em 2026. O documento apareceu recentemente em uma reportagem do Estadão, e pouco depois foi incorporado pela banda a tempo do show inaugural no Espaço Unimed (SP). Talvez seja desnecessário dizer que foi uma decisão certeira, servindo para lembrar ao público – entusiasmado, porém algo apolítico – os contornos obviamente políticos de “Cabeça Dinossauro”.

Para além da já citada “Bichos Escrotos”, cujo motivo de censura visto aos olhos de hoje é risível, o que dizer da trinca punk formada por “Igreja”, “Polícia” e “Estado Violência”, cada uma botando um alvo em instituições que poucos ousavam contestar em 1986? Que, por sua vez, desaguam na breve e urgentíssima “A Face do Destruidor”, seguida pela mais acessível (mas não menos cáustica liricamente falando) “Porrada” – cujo refrão foi celebrado como grito de torcida pela platéia do Espaço Unimed.

O fato é que “Cabeça Dinossauro” ainda carrega os traumas de uma geração que, mesmo olhando para um horizonte de possibilidades, ainda via a mão da ditadura presente no dia a dia. E a banda conseguiu traduzir o peso e a retórica do disco para os dias de hoje, com a presença de Branco Mello (baixo e voz), Tony Bellotto (guitarra e Voz) e Sérgio Britto (voz e teclados), trio remanescente da formação original celebrada recentemente em turnê anterior, e que aqui é reforçado por Beto Lee (guitarras), Alexandre de Orio (guitarras) e Mario Fabre (bateria).

O line-up se mostra um bom acerto ao vivo, com execução irrepreensível não apenas dos temas que compõem “Cabeça Dinossauro”, mas também de outros clássicos que pintaram no setlist. Dessa forma, após a execução do disco – que ainda contou com “Dívidas”, canção que não era tocada desde 2013 -, emendaram uma pesada versão de “Será que É Isso que Eu Necessito”, de “Titanomaquia” (1993), seguida por “Anjo Exterminador” (uma das três músicas inéditas presente no “MTV ao Vivo Titãs“, de 2005) e sua letra sobre o fim dos tempos em ritmo power pop. Mas o disco que mais deu as caras além de “Cabeça Dinossauro” foi “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”, de 1987, com “Armas Para Lutar” (que não aparecia no repertório desde os anos 1990), “Diversão” (numa bela versão rock de arena) e “Lugar Nenhum”, que encerrou essa segunda parte do set.

O destaque vai para Sérgio Britto, cada vez mais à vontade como frontman na voz e no gestual comandando o público. Mas vale dizer que Branco Mello e Tony Bellotto estão firmes e fortes em suas respectivas funções, e aparentam estar curtindo a vibe mais roqueira – embalada por três guitarras – desta encarnação dos Titãs. O bis teve mais uma de “Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas”: “Desordem”, com aprovação total do público que ainda estava animado após quase 2h de show. E para fechar os trabalhos, outra das antigas – mais precisamente, de “Õ Blesq Blom” (1989): “Flores”. Um final para todo mundo cantar junto, digo de uma apresentação que mostra Belotto, Mello, Britto e os Titãs ainda com muita história para contar nos palcos.
SET LIST
Parte 1: Cabeça Dinossauro 40th Anniversary
Cabeça dinossauro
AA UU
Igreja
Polícia
Estado violência
A face do destruidor
Porrada
Tô cansado
Bichos escrotos
Família
Homem primata
Dívidas
O quê
Parte 2:
Será que é isso o que eu necessito?
Anjo exterminador
Armas para lutar
Canção da vingança
Vou duvidar
Eu não sei fazer música
Diversão
Nem sempre se pode ser Deus
Eu não aguento
Lugar nenhum
BIS
Desordem
Flores

– Fabio Machado é músico e jornalista (não necessariamente nessa ordem). Baixista na Falsos Conejos, Mevoi, Thrills & the Chase e outros projetos.
– Douglas Mosh é fotógrafo de shows e produtor. Conheça seu trabalho em instagram.com/dougmosh.prod

