texto de Marcelo Costa
faixa a faixa por Poty
A praia de Cidreira fica localizada no litoral norte do Rio Grande do Sul, sendo a praia mais antiga da região e a mais próxima da capital do estado, Porto Alegre. Com paisagens compostas por lagoas, dunas e plataforma de pesca, Cidreira é subestimada por muitos gaúchos por ser considerada simples e popular, mas o cantor jaguarense Poty vai na contramão compondo, no álbum “CIDRERÊ” (2026), uma declaração de amor ao local onde veraneou na infância.
“CIDRERÊ” – um jogo de palavras que contrapõe essa praia popular do Rio Grande do Sul com a rica Jurerê, de Santa Catarina – foi influenciado pelo fato de Agatha, filha de três anos de Poty, estar começando a passar seus primeiros verões na praia, local que o artista também vem frequentando nos últimos 25 anos. Não a toa, todas as canções do álbum foram compostas em Cidreira durante esse período, e duas delas com amigos que Poty fez lá (“Noites de Cidreira”, com Francesco Barletta, e “Canção Pra Ela”, com Leandro Heck).
Produzido por Poty e Fu_k The Zeitgeist (Ian Ramil, Flu, Carlinhos Carneiro ) e com diversas participações especiais – Renato Borghetti, Carlinhos Carneiro (Bidê ou Balde), Márcio Petracco (TNT), Andrio Barbosa (Superguidis) – “CIDRERÊ” exibe influências de Beatles, Bob Seger, Rita Lee, Elliott Smith, Paul Simon e Arnaldo Baptista num disco que traz uma nostalgia da infância e da adolescência e reverencia a simplicidade do cotidiano à beira-mar. Lançamento da 1Selo, “CIDRERÊ” está disponível em todas as plataformas. Ouça abaixo e leia o faixa a faixa especial escrito por Poty.
01) Chegando – É um áudio que gravei quando a gente estava chegando na praia, naquele ritual de chegar, abrir a casa… Foi o segundo verão da Agatha, minha filha, em Cidreira, mas foi o primeiro que ela já estava caminhando, correndo, falando, então ela já aproveitou bastante. E foi quando eu tive a epifania, como diz o Rick Rubin, o “relâmpago criativo” de compor. Então ali nos dias seguintes eu passei compondo, não só essa como outras do disco.
02) Guarda-chuvas – Foi uma música que eu sonhei com ela, eu acordei com o refrão na cabeça – palavras, harmonia, melodia. Aí acordei e fui correndo pegar o violão para memorizar e depois fiz o resto da música ao redor dela. “Guarda-chuvas” tem um tom nostálgico, fiquei observando e pensando de quando eu era pequeno, agora olhando para minha filha pequena na praia, também aproveitando.
03) Verde limão – Eu a fiz inspirada num calção meu, um calção novo. Eu sempre tive muitas roupas pretas, essas coisas mais básicas, e estava com muita vontade, não sei porque, eu queria mais cores vibrantes. Comecei a brincar sobre ter um calção verde limão e acabei encontrando um lá nas lojinhas da praia e comprei um baratinho que tenho até hoje. Essa coisa de ser uma cor viva, vi um monte de gente usando, tu vê pessoas famosas usando essas cores, mas tu vê as pessoas mais simples também, então isso também foi uma inspiração, ser uma coisa pra todos. Mais ou menos como eu vejo a praia de Cidreira, que é uma praia que tem casa grande, tem casa pequena, tem gente que aluga, mas todos frequentam a mesma praia, não é um lugar que tem um espaço gentrificado. O cara que tem o casarão e o que tem a casinha comem nas mesmas sorveterias, nos mesmos restaurantes, frequentam a mesma praia, veem o show no mesmo lugar na Concha Acústica, todo mundo no mesmo lugar. Então o calção gerou toda essa reflexão.
04) Marisqueiro – Marisqueiro é um termo que muitas vezes é usado de forma pejorativa, e muita gente se refere às pessoas que moram em Cidreira. Pensando nisso, eu quis fazer uma música sobre o marisqueiro mesmo, a profissão. Então, fui ler sobre, e foi bem interessante aprender um pouco sobre como é essa profissão, de como é uma profissão que passa de geração em geração e, claro, como tudo que é bom e genuíno, está acabando, com o avanço do capitalismo. Quis falar sobre isso.
05) Até a Plataforma – Também veio da leva daquele período que eu estava compondo várias músicas, gravando ideias, então naquela hora eu tive essa ideia de ligar o gravador do celular e acabou pegando a ambiência ali. Resolvi incluir esse áudio até porque acabei não fazendo nenhuma música que menciona a plataforma, que é uma coisa que a gente usa como referência de localização. A gente acabou escolhendo usar esse áudio como uma faixa para representá-la.

06) Nordestão – Nordestão é um nome que popularmente se dá lá para o vento do litoral norte (do Rio Grande do Sul), o vento forte que vem mais na direção nordeste, na direção de Cidreira e de outras praias próximas, como Pinhal e Quintão. Geralmente é um vento que incomoda bastante na beira da praia, ele dificulta você ficar lá na beira. Mas eu queria falar dele como uma coisa boa, como o mensageiro de algo bom. Então criei uma história fictícia de alguém que está no centro da cidade e enxerga alguém que vai embora em direção a Pinhal e Quintão, aí faz uma música que alcança essa pessoa. É uma história fictícia, mas pode ter acontecido.
07) Canção pra Ela – É uma música bem antiga, que fiz há uns 20 anos, em parceria com um amigo que eu conheci lá na praia, que é o Leandro Heck, amigão meu até hoje. Quando estávamos compondo, a gente estava pensando em situações de amores, de praia, mas hoje, quando olhei pra ela de novo e dei uma mexida na letra, transformou-se em uma música pra praia de Cidreira.
08) Morena! – É uma música que também fiz nessa época. Com uma atmosfera bem praiana, voz e violão, fala sobre amores da praia, amores de verão.
09) Blue Ice – Blue Ice é um sabor de sorvete que tem lá em uma sorveteria de Cidreira chamada Erechim. Era um sabor que a gente via e pegava de brincadeira por ser um sorvete azul. De uma piada virou uma tradição: sempre que a gente ia lá tomar sorvete, a gente pegava o blue ice. Tradição essa que eu mantenho até hoje.
10) Pausa – “Pausa” é uma música mais antiga também, sobre esse momento de ir pra Cidreira como um descanso, um descanso diferente, que faz muita diferença. Essa faixa fala um pouco sobre Cidreira como uma praia sem prédios, shoppings — pelo menos ainda. Então, é uma praia de todos. No fim das contas, esse disco também é para falar dessa praia de uma forma mais legal, porque geralmente Cidreira é citada de forma pejorativa, como praia de pobre e etc, mas eu tenho uma perspectiva diferente e esse disco também serve pra mostrar uma perspectiva boa, diferente.
11) Noites de Cidreira – E aí o disco acaba com “Noites de Cidreira”, que é uma composição do meu amigo Francesco Barletta, que eu dei uma mexida. É uma música bem simples, falando das coisas que a gente costumava fazer, dos lugares que a gente costumava ir… Bem, fala de várias coisas que faziam parte do nosso dia a dia de estar na praia.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

