Ao vivo: Symphony X celebra 30 anos com show curto, mas impecável em São Paulo

texto de Paulo Pontes

Na noite de sexta-feira, 20 de março, o Tokio Marine Hall recebeu um show que se sustentou, acima de tudo, pela consistência. O Symphony X, que celebra três décadas de carreira (ainda que sem um lançamento de inéditas há mais de 10 anos), subiu ao palco com um repertório bem definido e uma execução que, desde os primeiros minutos, deixou claro o nível de controle que a banda mantém sobre a própria música.

A abertura com “Of Sins and Shadows” funciona quase como um ponto de partida natural, rapidamente acompanhada por “Sea of Lies” e “Out of the Ashes”, criando um fluxo contínuo que não depende de grandes interrupções ou mudanças bruscas de ritmo fora da própria estrutura das músicas. O show vai se organizando de forma progressiva, respeitando a dinâmica interna do repertório e mantendo uma linha de intensidade constante.

Em “The Accolade”, junto aos trechos de “The Divine Wings of Tragedy”, a banda amplia essa construção ao trabalhar melhor as variações de atmosfera. É um momento em que o Symphony X evidencia seu domínio técnico e também a capacidade de desenvolver suas composições com um senso narrativo mais evidente, algo que ganha força no contexto ao vivo.

Nesse cenário, Russell Allen se destaca tanto pela execução quanto pela presença. A potência vocal impressiona, mas o que realmente sustenta sua performance é a forma como ele conduz o contato com o público. Há uma troca constante, feita de maneira espontânea, que ajuda a equilibrar a densidade das músicas com uma experiência mais próxima e compartilhada. E o que canta esse homem é brincadeira. Com certeza, um dos melhores vocalistas de metal da sua geração.

Já Michael Romeo segue em uma linha mais contida, com foco absoluto na execução. Seus solos, especialmente em “Smoke and Mirrors” e “Evolution (The Grand Design)”, revelam um nível de precisão e construção que vão além da técnica pela técnica. Existe um cuidado em desenvolver ideias, em dar continuidade às frases, sempre dentro da lógica das composições.

A banda como um todo mantém uma coesão impressionante. Em faixas como “Communion and the Oracle” e “Inferno (Unleash the Fire)”, isso se traduz em uma resposta muito alinhada do público, que acompanha as mudanças de dinâmica com naturalidade. “Nevermore”, fechando o set principal, consolida essa conexão de forma direta, com seu refrão forte e cantado em uníssono pelo público.

No encore, “Without You”, precedida pelas apresentações da banda, cria um momento de respiro antes da retomada do peso com a pedrada “Dehumanized” e do encerramento com a clássica “Set the World on Fire (The Lie of Lies)”, mantendo o mesmo padrão de execução visto ao longo de toda a noite.

Um ponto que atravessa a experiência é o momento atual da banda. O Symphony X não lança um disco de inéditas há mais de dez anos (desde Underworld, de 2015), e isso naturalmente cria uma expectativa entre os fãs por novos caminhos. Ainda assim, o que se percebe ao vivo é que esse intervalo não enfraquece sua presença. Pelo contrário, reforça o peso do repertório já consolidado.

A resposta do público no Tokio Marine Hall mostra que as músicas seguem atuais dentro do próprio universo da banda, funcionando não somente como memória, mas como parte ativa da experiência. Existe uma espera por novidades, mas também um reconhecimento claro de que o Symphony X continua relevante dentro do metal progressivo justamente pela consistência com que construiu sua identidade.

A duração mais enxuta do show se encaixa nesse contexto sem gerar ruptura, ainda que, convenhamos, gere uma leve frustração (especialmente em uma celebração de 30 anos de uma banda que tem música de sobra pra fazer um show mais extenso). A apresentação segue com foco, sem dispersão, mantendo uma linha contínua do início ao fim.

O que a plateia presenciou na capítal paulista foi um show que está menos pra uma retrospectiva e mais pra uma reafirmação. Uma banda que entende o próprio repertório, domina sua execução e mantém uma relação sólida com o público, mesmo em um momento de silêncio discográfico. E isso, ao vivo, faz toda a diferença.

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.



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