Entrevista: “As pessoas precisam parar de ouvir mentiras americanas”, diz Fletcher Dragge, do Pennywise

entrevista de Guilherme Lage

Em 2005 o Pennywise lançou um disco chamado “The Fuse”. Um álbum que marcou um período de leve “cisão” criativa no processo sempre colaborativo em que os músicos compunham. Naquela época, quando o jeito mais fácil de ter acesso à música de grandes bandas era por meio dos famigerados “Shareaza” e “Lime Wire” (lembra deles?), um amigo passou algumas noites em claro, baixando faixa atrás de faixa e decidiu me contar: “cara, consegui! Vem aqui amanhã e traz um CD pra gravar”.

Naquele ano, “The Fuse” se tornou um álbum de cabeceira. Tocando sem parar entre uma ida à escola e outra, se não aos meus ouvidos, aos do meu irmão. Passadas mais de duas décadas do lançamento, decidi contar essa anedota a Fletcher Dragge, guitarrista da banda, que reagiu de forma surpresa. “Que legal! Esse é o seu disco favorito então?”. Este foi apenas um dos grandes momentos divididos neste papo com o Scream & Yell.

O Pennywise é uma daquelas bandas que marcam vidas. Formado em 1988, os músicos logo se tornaram os reis da cena californiana que emergia no fim dos anos 80. Com os lançamentos dos EPs “A Word from the Wise” e “Wildcard”, no ano seguinte à seu nascimento, o grupo começou a ganhar público para muito além das praias e quintais de Hermosa Beach, cidade natal do quarteto.

Por ali os músicos se sacramentaram como deuses entre moicanos e skatistas, que se divertiam em meio a barris de cerveja enxugados por menores de idade. Tudo com a banda de nome de palhaço monstro de Stephen King no palco. A partir de 1991 começaram sua longa história de amor com a Epitaph, talvez a gravadora punk mais importante do fim do século XX, ajudando a lançar nomes como Bad Religion, NOFX e os suecos do Refused ao estrelato mundial.

Da parceria surgiram 12 discos, clássicos como “Unknown Road” (1993), “Full Circle” (1997), “Straight Ahead” (1999) e “From The Ashes” (2003). O último deles, “Never Gonna Die”, veio ao mundo em 2018. Claro que em uma discografia tão robusta, a banda conhecida por riffs rápidos e marcantes, além de refrões memoráveis, contaria com um enorme catálogo de hinos, como “Fight Till You Die”, “Fuck Authority”, “My Own Country”, “6th Avenue Nightmare” e a lindíssima “Bro Hymn Tribute”, em homenagem ao finado baixista Jason Thirsk.

Os fãs poderão cantar estes e outros clássicos a partir do próximo dia 24, quando a banda desembarca no Brasil, ao lado do igualmente incrível Millencolin, para cinco apresentações em quatro cidades da We Are One Tour 2026, que começa em Porto Alegre (24/3 no URB Stage) e ainda passa por Florianópolis (25/03 no Life Stage), Curitiba (27/03 no Tork N’ Roll) e São Paulo (28/3 sold out no Terra SP e dia 31/03, na Audio). O festival ainda passa pelo Rio de Janeiro, dia 29/03, no Sacadura 154.

Na conversa, Fletcher contou como foi encarar o microfone para dar vida a “Ace of Spades”, clássico do Motörhead, regravado pela banda no ano passado. Mais ainda, causos sobre tomar umas com deus em pessoa, quer dizer, Lemmy, bem ali na casa do baixista, o Rainbow, na Sunset Boulevard. Também houve espaço para rememorar sobre como era passar os dias surfando, andando de skate e enchendo o pote de cerveja, todo santo dia, como ele mesmo diz, naquela Califórnia que já não existe mais.

Fletcher também se lembra com um sorriso de porradarias históricas com metaleiros nos anos 80: “eles eram o inimigo!”. Sobrou fôlego? Pois ele tem e muito para mandar Donald Trump para a puta que pariu!! Leia com “Never Gonna Die” no talo!

Eu estava ouvindo o “Never Gonna Die” outro dia e uma música como “American Lies” realmente causa um grande impacto hoje em dia, principalmente por conta de toda a loucura com o ICE nos Estados Unidos, toda a questão dos ataques ao Irã, então gostaria de te perguntar: você acha que as pessoas ainda acreditam em mentiras americanas?
Se elas acreditam? Estão comendo essas mentiras na porra do café da manhã. Eles não só acreditam nele (Trump), eles o tratam como um deus! É uma loucura, cara. Infelizmente eu amo os Estados Unidos, tenho que dizer isso. Eu sou um patriota, porque quero resolver os problemas que temos por aqui.

Essas pessoas que dizem “não, você não é patriota, você tem que ir embora daqui”, porque eu estou reclamando dos problemas que temos aqui, elas são loucas, isso é uma coisa totalmente maluca. Essas pessoas acreditam e apoiam esse filho da puta e engoliram todo aquele papo de quando ele estava disputando a eleição, tudo o que ele falava, tipo “não vamos mais entrar em guerras” ou “vamos divulgar os arquivos do Epstein”, “vamos diminuir o preço dos alimentos”, “vamos dar uma vida ótima aos fazendeiros, trabalhadores do campo”, blá, blá, blá, sabe? Tudo isso era mentira, um monte de merda.

E agora o que esse cara fez foi nos mandar de volta 100 anos ao passado, ele conseguiu deixar o mundo inteiro puto, bravo com a gente. Ele está fazendo loucuras, matando gente inocente. A merda do ICE está fora de controle. Você vê esses caras mascarados, sem identificação, sequestrando pessoas nas ruas. Cidadãos americanos! Isso é uma loucura! E ainda temos pessoas nesse país apoiando ele, é inacreditável.

Eu conheço muita gente que se identifica como republicana, que votou no Trump e hoje diz “Não foi por isso que eu votei nele, eu cometi um erro”. E é tipo: é, cometeu mesmo. Nós te avisamos que era um erro antes mesmo de tudo isso acontecer, você não lembra da última vez que ele foi presidente? Não lembra o que ele fazia? Que ele arrancava os direitos das pessoas, jogava fora a liberdade das pessoas.

Ele ignorava a constituição, ignorava o congresso, ignorava a Corte Suprema, é uma loucura. Então, sim, as pessoas estão acreditando nas mentiras americanas. E sabe o que é o pior? É que o Trump é um gênio. Odeio dizer isso, porque acho que ele é uma das pessoas mais burras no planeta Terra, mas o lance de gênio dele foi que ele começou a dizer para as pessoas “ah, isso é fake news, aquilo é fake news”. Então, basicamente, se você apoia o Trump, acredita em tudo que ele diz incondicionalmente.

Então quando alguma notícia, a única coisa que ele precisa fazer é dizer “isso é fake news”. Agora a próxima desculpa vai ser “Ah, isso é IA, não é real, não é uma filmagem de verdade, é IA”. Então assim, como uma frasezinha de merda, com duas palavras “fake news”, ele conseguiu fazer uma lavagem cerebral completa nessas pessoas. E essas pessoas não observam a situação com profundidade.

Eu vou a fundo em tudo, eu pesquiso as coisas, descubro se alguma coisa é verdade ou mentira, porque existem sim algumas informações falsas contra essa administração, mas há muita, muita verdade contra eles. Estamos em uma situação perigosa, estamos tornando o mundo um lugar perigoso e, cara, eu mal posso esperar pra ver ele longe do cargo e espero que aconteça logo, sabe? Porque as pessoas precisam parar de ouvir mentiras americanas.

Fico pensando em algumas músicas do Pennywise, como “Fuck Authority”, “My own Country”, é louco olhar como passados 20 anos, 25 anos, continua tudo a mesma merda.
E está sempre relevante, porque o governo nos Estados Unidos é corrupto, controlado por oligarcas ricos, que roubam o dinheiro do povo, dão para os amigos ricos deles. São todos uns filhos da puta, todos no mesmo time, estão dividindo todo mundo, fazendo todo mundo brigar.

E o pior, enquanto fazem isso, eles começam a atirar bombas no Irã, para “libertar o Irã”. Ah, você quer dizer roubar o petróleo deles, né? Em outras palavras: roubar o petróleo para que a China não tenha acesso. A gente sabe muito bem o que está acontecendo, mas a maior parte das pessoas nem se importa. Elas ficam repetindo isso de “nós estamos libertando o Irã”. Claro que estamos. Do mesmo jeito que libertamos o Iraque, né?

Tempos como esse me lembram dessa frase do Henry Rollins, que ele diz “agora é hora de punk rock, foi pra isso que o Joe Strummer te treinou” e é bem isso mesmo que está acontecendo, né?
Sim, com certeza! Eu acho que o punk rock se afastou muito da política com o passar dos anos. Nós sempre nos focamos muito na parte das políticas sociais, por exemplo, o valor das pessoas, a amizade, lealdade. Mas claro, nos focamos na parte de falar do governo também. Acho que muitas das bandas novas não estão se aproximando muito de questões políticas.

Acho que existe também um pouco de “medo”, sabe? Isso porque, olha o que está acontecendo. A polícia pode vir bater na porta da sua casa e te prender, porque você está dizendo “foda-se o Trump” ou porque você está atravessando uma fronteira, há esse risco também. Mas ao mesmo tempo, ir ao Facebook ou Instagram e dizer “foda-se Donald Trump, foda-se essa administração, se você segue o Trump, me exclua, nunca mais fale comigo”, isso não conserta a situação, não tem nenhum tipo de impacto real.

Acho que é preciso tentar algo diferente, tentar conversar com essas pessoas. Porque se você só gritar com elas, elas vão dizer “vá se foder” também e vão construir uma barreira ainda mais alta para qualquer tipo de diálogo. Para mim, acho que tento encontrar algum tipo de interesse em comum. Conversar com essa pessoa e realmente perguntar: e sobre essa questão? Acha que temos algo em comum aqui? Acha que podemos concordar nisso aqui?

Nós não somos realmente inimigos, cara, e acho que seguindo em frente é necessário encontrar algum jeito de coexistir de forma pacífica, onde todo mundo entrega alguma coisa. Não vou dizer que é fácil encontrar qualquer jeito disso acontecer, mas eu diria que isso não está acontecendo só nos Estados Unidos, infelizmente.

E falando um pouco sobre música, eu curti demais a versão de “Ace of Spades” que vocês fizeram. Pode me contar um pouco sobre como o Motörhead se conecta à história do Pennywise?
Crescendo no punk rock, os metaleiros eram seus inimigos, cara. Vocês saem na porrada direto, tipo, uma vez por semana, sempre uma briga grande. E o Motörhead era tipo uma banda de metal, mas um cara uma vez chegou com uma jaqueta do Motörhead e eu já fui falar com ele “por que você está usando essa merda de jaqueta?” e ele disse: porque o Motörhead é uma porra de uma banda de punk rock! E começamos a discutir.

E aí o cara colocou “Ace of Spades” pra tocar e eu nunca vou me esquecer daquilo, foi tipo “que porra é essa? Isso é punk rock”. Mas o Lemmy não estava tentando ser metaleiro ou punk, ele era um verdadeir rock n’ roller. Então, quando o assunto é música, eu não quero saber se é rap, se é country western. Punk rock é um estado mental, então eu sempre considerei o Motörhead como uma banda punk. É tipo o Metallica, com o “Ride The Lightning”, aquilo era punk rock, sabe?

Então nós crescemos indo a shows do Motörhead, que eram simplesmente incríveis, e o Lemmy era tipo um deus, ele é a epítome do rock n’ roll. Ele é meu ídolo número 1 na vida quando o assunto são músicos. O jeito com que ele vivia, se portava, como não havia nenhuma besteira com ego. Ele tratava as pessoas com respeito, ele dizia a verdade, ele não era um personagem, cara. Ele realmente vivia aquilo. A vida dele era aquilo mesmo: estava no bar, bebendo, tocando música, pegando a estrada, sabe?

Eu tive a oportunidade de estar no estúdio com ele quando ele estava regravando “Ace of Spades” para o Guitar Hero, sabe? E eu dei uma carona pra ele até em casa. E aí estavamos dirigindo em meio à Sunset Boulevard, com Lemmy no banco do carona, de chapéu de cowboy, com “Ace of Spades” no volume máximo na caminhonete. E lá estava eu, dirigindo, passando pelo o Whiskey, o The Roxy, pensando “o que? isso é a vida real mesmo? Lemmy aqui agitando ‘Ace of Spades’?” (risos).

Levei ele pra casa, levei o baixo dele ao andar de cima pra ele, aquele Rickenbacker lendário, o “Rickenbastard”, ficamos na casa dele um pouco e logo depois o levei para o Rainbow, e tomei umas com ele por lá. Foi uma experiência muito legal e muito forte, de me conectar com ele. Um produtor com quem trabalhamos muito recentemente, Cameron Webb, produziu os últimos seis discos do Motörhead e era um grande amigo do Lemmy e foi ele que produziu esse cover.

E então eu disse a ele “cara, Ace of Spades, irmão!” e o Jim (Lindberg, vocalista do Pennywise), me disse: você canta! E eu disse: o que? E ele me fala: você soa mais como o Lemmy. E eu falei: é, mas nós devemos soar como Pennywise, não como Motörhead. E ele disse: não, vai nessa! E eu pensei: porra, claro que eu vou nessa! Não sabia se eu ia conseguir fazer algo legal, porque não sou vocalista, nunca cantei uma música inteira do Pennywise ou coisa assim, faço mais backing vocals, mas foi uma honra enorme!

Aí a gravadora gostou, o feedback dos fãs foi muito legal, claro que algumas pessoas ficaram dizendo “aah, isso é uma merda! Lemmy é deus, você não vai substituí-lo!”, esse tipo de coisa. E assim, não, cara, não estou tentando substituir o Lemmy. ninguém nunca conseguiria substituí-lo, eu estou tentando honrá-lo. Foi realmente um privilégio fazer parte disso e, na real, de conseguir fazer isso.

Ah, e o Cameron me deu essa letra aqui (Fletcher se levanta para mostrar uma letra do Motörhead, escrita a punho por Lemmy em uma folha de papel, emoldurada na estante). Essa é uma letra feita a mão por Lemmy, e o que ele fazia, quando escrevia letras para os álbuns, é que quando ele não gostava de algo, simplesmente amassava e jogava no lixo. E aí o Cameron tirou da lata de lixo e me deu de presente no meu aniversário de 50 anos.

Então eu diria que essa é a nossa conexão com o Motörhead, e acho que fizemos um bom trabalho, sabe? O Byron (McMackin, baterista da banda), simplesmente detonou! E além disso, todo o equipamento do Lemmy estava no estúdio, os amplificadores dele, os baixos, então pudemos usar tudo aquilo. O Randy (Bradbury, baixista), pôde tocar o baixo do Lemmy, usar os amplificadores dele. Eu toquei meu solo de guitarra com o amplificador do Lemmy. Foi incrível.

Quando eu tinha uns 13 anos, o “The Fuse” saiu, eu e meu irmão ficamos obcecados com o disco. Tem coisas ali que são marcantes demais. O riff de “Knocked Down”, o solo de guitarra em “6th Avenue Nightmare”. Estava pensando, você pode contar um pouco sobre como foi o processo de composição e gravação daquele álbum? Porque é um disco muito especial pra mim.
Naquele disco o processo de composição e gravação foi bem feio, pra te falar a verdade, cara. Estávamos brigando muito, sempre brigamos muito no estúdio. Nós somos muito intensos e muito apaixonados quando tentamos criar as coisas. “6th Avenue Nightmare”, foi o Randy que compôs, aquela ali é bem legal.

“Knocked Down” eu acho que o Jim compôs a música inteira e eu, obviamente, vim com aquela coisa, daquelas palhetadas pra baixo que faço nos riffs, mas foi meio que uma época bem esquisita. Porque normalmente normalmente sou eu mandando música pro Jim e ele escreve as letras, ou rolava algo que eu dizia “aqui está a música e aqui está a minha ideia para a letra e a melodia”, aí ele trabalha a partir disso.

Ou eu já jogo uma música completa pra ele: “Aqui está a música, aqui está a letra, está tudo pronto. Você quer escrever o segundo verso?” e ele diz: “sim, quero escrever o segundo verso”. Então há muita elaboração, mas no “The Fuse”, as coisas ficaram meio que “bom, essa é sua música, vou fazer do jeito que você quer”. Não teve muito essa coisa colaborativa, de um ajudar o outro.

Soa um pouco estranho, mas o Jim dizia “eu compus a música desse jeito e quero ela desse jeito”. E eu tentava falar algo, tipo “sim, mas eu posso fazer algo assim com a guitarra?” e ele dizia: não! Faça do jeito que eu fiz. Foi mais um álbum independente, no sentido que cada um fazia suas próprias coisas, mas é meio estranho. Tem umas músicas ótimas ali, mas há outras que eu fico meio… sei lá. É meio que uma coisa esquisita, meio que irregular.

E eu acho que foi o único álbum que já fizemos que foi daquele jeito. Por exemplo, o Jim escreveu “Fox TV” e aí me disse: é desse jeito, toque assim. E eu dizia: tudo bem, mas e se tentarmos assim? E ele dizia: não! Então foi meo que um trabalho mais direto. Mas esse disco que te fez curtir o Pennywise então?

Sim, sim. Esse disco foi a minha introdução ao Pennywise.
Isso é louco, né? Porque se uma pessoa nos conheceu na época do “About Time”, esse também se torna o álbum favorito dela, sabe? Então eu entendo isso muito bem. Agora, se vamos tocar alguma música daquele disco? (The Fuse), eu não sei, mas podemos dar uma olhadinha no setlist e ver se conseguimos colocar uma pra você.

E já que você falou sobre períodos feios e difíceis, uma coisa que queria perguntar: desde o fim da pandemia muitas bandas têm reclamado que casas de show ficam com parte da grana do merch delas. Sempre considerei isso uma das maiores babaquices que uma casa de shows pode fazer. Como isso afeta vocês? Como uma banda de hardcore punk na estrada e vendendo merch?
É uma loucura, porque para algumas bandas esse é o único jeito de ganhar qualquer dinheiro. Tipo, para uma banda jovem, se você fizer 400 dólares por noite, isso cobre a alimentação, um quarto de hotel, gasolina. Já era. Então se eles vendem 500 dólares ou 1 mil dólares em merch, essa é a vida deles. Aí essas casas pegam 25% dessas vendas. É tipo: que porra é essa que você está fazendo? Alguns festivais estão pegando 45%, o que coloca muita pressão nas bandas.

Já tocamos em festivais que estavam querendo pegar 45% e dissemos: “não, vocês que se fodam, não vamos fazer isso! Chega, ponto final”. Nós boicotamos isso, conseguimos fazer com que todas as bandas boicotassem na Warped Tour, sem vender merch no festival. Levamos todo o merch para um estacionamento depois do show e todos os fãs e vieram e comprar o merch todo.

Se você cobrar uma taxa de 35%, a banda tem que, no mínimo, aumentar uns 10 dólares no preço de uma camisa, é por isso que você vê essas camisetas caríssimas em festivais, é um absurdo enorme. Eu fiquei sabendo que a Live Nation está abrindo mão da porcentagem que eles levam, mas isso de ficar com uma parcela do que a banda vende acontece há muito tempo, não é nada novo.

Então muitas vezes nosso agente dizia diretamente ao contratante: “olha só, se o Pennywise vier tocar no seu espaço, vocês não vão ficar com nenhum dinheiro da venda de merchandise”. Porque, pensa bem, quando nossos fãs vão a alguma casa de shows, eles consomem cerca de 30 mil dólares, 40 mil dólares, só em bebida. Olha isso!

Se tocamos numa casa para mil pessoas, isso rende 30 mil dólares para a casa. Claro, eles têm que pagar uns 10 mil dólares deste total, mas ainda assim têm um lucro de 20 mil dólares, né? Eles não dão esse dinheiro pra gente.

Eles não repassam nenhum dinheiro para as bandas quando as pessoas estão estacionando os carros do lado de fora por 30 dólares ou por alguma besteira tipo um “Metallica Parking”, em que as pessoas pagam a porra de 200 dólares para estacionar um carro, em uma casa aqui de L.A. Eu fiquei muito revoltado com isso, tipo: porra, você está maluco? Você consegue ir a cinco shows do Pennywise só com o dinheiro que está gastando pra estacionar o seu carro.

Então, no fim do dia, todas essas coisas são grandes besteiras. Nós protestamos e algumas casas estão começando a parar com isso, assim como a Live Nation, que parece ter entendido, tipo “ei, isso é o que você faz da vida, então vamos fazer dinheiro com os ingressos, com o estacionamento, no bar. Vamos te dar um adiantamento”. Porque isso é muito tenso, especialmente para bandas pequenas, ter que pagar esses preços no lugar em que estão tocando.

Nos anos 80, quando vocês estavam começando, vocês tocavam em muitas festas nos quintais das pessoas. Pode me contar um pouquinho sobre como eram aqueles shows? Porque eram uma banda independente, tocando literalmente na casa de alguém, como era essa experiência?
Naquela época, a não ser que alguém conhecesse a sua banda, de jeito nenhum você ia conseguir tocar em uma casa de shows, sabe? Em Hollywood começaram com esse lance chamado “pay to play”. Os contratantes te ofereciam algo como: você pode tocar no The Whiskey, mas você tem que vender 200 ingressos por 10 dólares. E aí eles ficavam com a grana toda.

Então, basicamente, o que acontecia, é que você daria a eles 2 mil dólares. Você vai sair de casa, vender os ingressos pros seus amigos e aí, talvez venda mais uns 100 ingressos por fora, que aí sim consegue ficar um dinheiro para a banda, isso era chamado “pay to play”. Então como não tínhamos nenhum lugar pra tocar, fazíamos essas festas com uns amigos, comprávamos uns barris de cerveja e era isso.

Então a forma que eu usava para atrair as pessoas e as bandas para os shows era que eu comprava um barril grande de cerveja, por uns 50 dólares e ligávamos pra todo mundo na cidade e díziamos “vai rolar um festão por aqui, o Pennywise vai tocar”. Daí 50 pessoas apareciam, conforme as coisas aumentavam, 100 pessoas apareciam, daí 200, 300, começou a virar uma loucura (risos).

Então, quando chegava o 4 de julho, em que acontecem essas festas enormes na praia por aqui, o que eu fazia era pegar minha bicicleta e encontrar algum cara por ali, que estava tomando cerveja com os amigos dele. Dava pra ver que aquele cara estava curtindo com os amigos em casa.

O que eu fazia era me aproximar desses caras e perguntar: e aí, o que vai fazer nesse 4 de julho? E ele dizia: vamos tomar umas cervejas. E eu dizia: você quer uma banda pra agitar a festa? Eu toco numa banda. A gente pode tocar bem aqui na sua varanda. Tudo que a gente precisa é de uma extensão, que aí podemos ligar o equipamento e tocamos de graça, sem problema nenhum.

O cara me perguntava: “uau, e que tipo de música vai rolar?” E eu dava uma enrolada: “ah, uns covers”, eu não conto pra eles que é punk rock, sabe? (risos). Então a gente deixava combinado: “Beleza então, nos vemos aqui às 15h! Fechado”. No outro dia eu arrumava todo o equipamento com os meus amigos, o pessoal da banda já estava pela cidade, já bebendo, curtindo, porque todo mundo começa a curtir já a umas 8h da manhã nesses feriados, saindo pra curtir de bicicleta.

A banda chega no local às 15h, e aí do nada aparecem umas 500 pessoas, 800 pessoas, 2 mil pessoas. Conforme a banda ia crescendo, o público também crescia muito, e foi aí que começamos a tocar em clubes e tudo isso, mas ainda tocávamos nessas festas, de graça. E as pessoas começavam a surtar: “que porra éssa? Como toda essa gente veio parar aqui?” E eu só falava: “pois é, cara, é isso, vamo nessa!” E os donos da casa ficavam meio que: “ok, vamo nessa então” (risos).

E aí começávamos a tocar, um mosh enorme começava, aí começavam também umas brigas enormes. A polícia era chamada e ia até o local, e isso acontecia toda vez, em toda festa. Algumas vezes tocávamos quatro músicas, numa próxima festa tocávamos três, às vezes não tocávamos nenhuma música e a polícia já acabava com a festa. E às vezes tocávamos 10 músicas, era totalmente imprevisível.

Fizemos isso por anos e anos, cara. Todo 4 de julho, era uma tradição. Isso meio que nos tornou mais populares, porque quando finalmente começamos a tocar em clubes já colocávamos umas 400 pessoas em uma casa, tranquilamente, em Hollywood. Foi aí também que mais contratantes começaram a perceber “porra, esses caras têm fãs!”. Íamos tocar em Santa Barbara e umas 300 pessoas pegavam a estrada para ir a Santa Barbara.

Tínhamos essa conexão muito grande com amigos, que fomos construindo bem devagar e que culminou em tudo isso que somos hoje, sabe? Assinamos com a Epitaph Records, fomos crescendo como banda. Era muito legal, quer dizer, ainda é. Eu ainda adoro tocar em festas de quintal, tocamos em uma há uns três anos para um amigo que tinha câncer e foi muito legal. Mas todo ano eu faço questão de tocar no 4 de julho.

Falo com os caras da banda: “e aí, bora!” E eles meio que reclamam: “ah, não, é um trabalhão fazer esses shows”. E eu digo a eles: “tudo que você tem que fazer é aparecer e tocar”. Então nunca está fora de questão pra gente tocar em uma festa de quintal.

Eu estou tentando organizar uma coisa em que tocamos em umas 6 ou 7 festas em Los Angeles. Vamos fazer um concurso, se você ganhar o concurso, a gente aparece na sua casa, você chama seus amigos e a gente toca no seu quintal por uma hora e logo depois vamos pra outra cidade. Vai ser muito legal!

E nos anos 80 o punk rock era gigante na Califórnia. Por que você acha que isso aconteceu? Por que acha que o gênero se tornou tão popular por aí?
Então, Hermosa Beach, onde vivemos, é meio que um lugar muito importante. É uma cidade litorânea pequena, e o surfe meio que começou ali. Assim, começou no Havaí, mas os verdadeiros surfistas da Califórnia começaram aqui. Havia essas lojas de surfe, que faziam pranchas.

E aí o skate apareceu, todo mundo estava na praia, surfando de manhã, andando de skate, aí surgiram pistas. Aí começamos a andar de skate em piscinas vazias nos quintais das pessoas. Eu cresci, literalmente, andando de skate com Tony Alva, Christian Hosoi e o Tony Hawk, quando ele ainda era bem novinho. O Hosoi mesmo ainda era bem moleque quando o conheci.

Eu era muito amigo do Tony Alva e o Jim Muir, da Dogtown. Mike Muir e Mike Smith eram meus melhores amigos, continuam alguns dos meus melhores amigos até hoje. Então, sabe, caras como Rodney Mullen. Nós andávamos de skate nessas piscinas todo santo dia. Ficávamos por aí dirigindo pela cidade, fumando um baseado, tomando cerveja e andando de skate nas piscinas. Era legal demais!

Então isso meio que se desenvolveu em direção ao punk rock, sabe? Porque de repente tínhamos o Black Flag. Era algo tipo “isso é música agressiva, e nós somos skatistas, somos agressivos”. Jay Adams (outro skatista lendário, fazia parte do time da Zephyr nos anos 70, ao lado de Tony Alva e Stacy Peralta, integrava os “Z Boys”, três atletas apontados como responsáveis por popularizar o skate como é hoje), foi um dos primeiros caras a ficar realmente ligado no punk rock.

Ele começou a andar com o Black Flag, ir a shows. Ele e o Duane Peters (vocalista do fantástico U.S Bombs), então o punk rock e o skate andavam de mãos dadas. Eu, literalmente, ia surfar de manhã, andar de skate a tarde, ensaiar com a banda a noite e tomar cerveja e compor músicas de punk rock em 1981, sabe? E aí começamos a tocar nessas festas em quintais, com a minha primeira banda punk.

Então isso continuou por anos, talvez mudando alguns horários aqui e ali, talvez surfando a noite, tomar cerveja, ir pra uma festa, ficar doidão. A polícia aparece, aí a gente atira umas garrafas nos policiais, queimar coisas, loucura mesmo. E depois, com o Pennywise, quando começamos a fazer vídeos e essas coisas, eles começaram a pegar nossas músicas, principalmente o Rodney Mullen, um grande amigo, eles pegavam nossas músicas e usavam de trilha sonora para os vídeos deles.

E eu ficava: porra, isso é incrível, todas essas lendas do skate estão pegando nossas músicas para usar de trilha sonora nos filmes deles. E depois veio a galera do snowboarding, depois da BMX. O Taylor Steele (cineasta) fez um filme chamado “Momentum”, em que surfistas como Kelly Slater, Kalani Robb, Shane Dorian, que estavam mudando o surfe, apareciam. E aí, de repente, éramos a trilha sonora para esse tipo de coisa, e fez tudo crescer no mundo inteiro, como no Brasil, em que o surfe é enorme.

Então as pessoas lançavam esses vídeos de surfe, com o Pennywise tocando e todo mundo ficava “porra, que som legal, adoro isso, me dá adrenalina”. Então crescer em Hermosa foi uma experiência única, porque tínhamos todas essas coisas incríveis acontecendo. Black Flag, Descendents, Redd Kross, Circle Jerks, tivemos acesso a todas essas bandas na adolescência.

Imagina, íamos a festas em quintais com o Black Flag tocando, Descendents tocando em uma escola, foi uma Meca cultural de influências tão enorme por aqui e nós todos só “boom!”, levamos para o mundo, o que foi muito incrível.

E vocês estão vindo ao Brasil com o Millencolin, que é uma grande combinação, na minha opinião. Vocês se conhecem há muito tempo, certo? Eu vejo similaridades entre as duas bandas, ainda que sejam bandas bem diferentes e originais. Como essa amizade com a cena sueca começou?
Então, nós assinamos com a Epitaph e o Bad Religion lançou o “Suffer” pelo selo, logo havia várias bandas assinadas. NOFX, Rancid, Pennywise, L7, e essas bandas começaram a ganhar muita visibilidade pelo mundo, e excursionar pela Europa. Quando você começa a fazer turnês pela Europa, obviamente, acaba indo à Suécia. Então você vê essas bandas de lá e pensa “porra, isso é muito bom!”

As pessoas na Suécia e no Japão são muito inteligentes e eles fazem tudo bem. Fazem bons carros, comida ótima, música boa. Eles pegam influências de outros países e eles quase que aperfeiçoam tudo isso. Então eu comecei a ter contato com as bandas da Burning Heart Records (selo sueco que lançou discos de bandas como Millencolin, Refused, The Hives, No Fun At All, Bombshell Rocks e muito mais!), com o No Fun At All.

Eles me deram um CD quando eu estava na Europa, que eu levei pra casa e quando ouvi fiquei de cara. Fiquei pensando “que porra é essa? Quão boa é essa banda? Eles soam como o Pennywise, como o Bad Religion, com um pouquinho de sotaque sueco”. Então consegui colocá-los junto à Theologian Records, que foi nosso primeiro selo nos Estados Unidos, com que desse uma atenção ao No Fun At All e isso resultou na Epitaph lançando o disco por aqui.

A Burning Hearts, com o Peter (Ahlqvist, fundador do selo), que simplesmente teve essa ideia, ele simplesmente tirou o selo do chão, sabe? E aí essas bandas suecas incríveis começaram a aparecer. Millencolin, Satanic Surfers, No Fun At All, toda essa música incríveis. Todas elas são bem diferentes. Algumas são mais melódicas, o Satanic Surfers é uma banda muito rápida, O Millencolin faz uma música um pouco mais direcionada, com um pouco mais de influências pop.

Mas, cara, os suecos sabem muito bem o que estão fazendo, eles são foda! Então, claro, quando estávamos todos na mesma gravadora, começamos a tocar shows com eles, vendo eles tocando por aqui, tocando juntos em festivais aqui nos Estados Unidos, provavelmente a Warped Tour ou algo assim, e ficamos muito amigos deles.

E é uma boa combinação, porque o Pennywise é mais de um hardcore rápido e agressivo, e o Millencolin é um pouco mais “tranquilo”, mas eles continuam sendo uma banda agressiva, fazendo um punk rock com um pouco mais de melodia. Eles são caras muito legais, e estar na estrada com pessoas com quem você se dá bem é muito importante. Eles curtem, gostam de festejar, não são de loucuras, mas nós curtimos todos juntos, ficamos juntos no backstage.

Nós adoramos ver eles tocando, eles adoram nos ver tocando, eles são caras incríveis, não tenho elogios o suficiente para fazer a eles. As pessoas da Suécia são tão gente boa, cara, não tem drama, não tem tempo ruim com eles. E essa vai ser, provavelmente, a melhor turnê brasileira que nós já fizemos. Entre as duas bandas, o público daí é incrível, todo mundo vai pirar! Vai ser uma explosão, vai ser muito, muito bom!

E vocês já vieram ao Brasil várias vezes, como você mesmo disse, sabem como o público é maluco. O que está esperando dos shows? Você gosta de alguma banda brasileira? Se sim, qual sua favorita? Vou chutar uma: o Dead Fish, talvez?
Vou ser o primeiro a admitir que não conheço o suficiente sobre bandas ao redor do mundo, estava até conversando sobre isso em uma entrevista recente, que disse “porra, cara, tem tanta coisa rolando na minha vida por aqui, que fica difícil prestar tanta atenção”, sabe? (risos).

Eu produzo muitas bandas, ajudo nas coisas do Pennywise, então a vida fica tão movimentada e cheia, mas de vez em quando eu recebo algum CD de alguma banda como o No Fun At All, o Cigar, alguém me manda um CD. Eu queria muito ter mais oportunidades, porque preciso ir a uma loja de discos no Brasil e comprar as coisas das bandas locais, porque claro que há bandas brasileiras fantásticas.

Eu queria conhecer mais música brasileira, porque conheço algumas coisas, eu poderia até dizer que adoro o Sepultura, sabe? Mas aí não vale, porque todo mundo conhece o Sepultura (risos). Eu quero ouvir as coisas do underground. E essa é uma boa ideia, acho que nessa viagem vou me lembrar e me cobrar de comprar alguns discos, encorajar as bandas: por favor, me tragam coisas, me tragam CDs, sei lá, me manda uma mensagem tipo “me chama no Instagram pra você poder conhecer a minha banda”.

Mas sim, claro, sei que há grandes bandas no Brasil e no mundo todo. E é uma coisa tão legal poder ser parte de uma cena em que podemos conhecer e influenciar pessoas, porque estamos por aí já há 40 anos. E direto alguma banda se aproxima da gente e diz “cara, aqui está o meu CD, eu cresci ouvindo o Pennywise”.

Você ficaria surpreso de ver quantas bandas, às vezes bandas que nem são de punk rock, dizendo que fomos uma grande influência, então fico feliz demais de ser parte da cena e eu adoraria um dia fazer uma turnê por aí e tocar só com bandas brasileiras, umas três bandas brasileiras. Em alguns festivais que tocamos há muitas bandas brasileiras de hardcore, e sei que há um festival em que vamos tocar aí em Brasília, em maio (Porão do Rock), que vai ter muitas bandas brasileiras. Então estou ansioso para ir aí, curtir essas bandas, conversar com elas, e fazer novos amigos.

Pode me falar quão importante a Epitaph foi para vocês e para as bandas punk nos anos 80 quando vocês começaram?
Nos anos 80 a Epitaph, pra mim, não era uma coisa tão grande, porque eu era mais por dentro da SST (Records), ouvia mais o Black Flag, Hüsker Dü e Minutemen, porque eu estava morando em Hermosa Beach. Obviamente eu conhecia a Epitaph, o Bad Religion, sabe? Aquele álbum “How Can Hell Be Any Worse?” é um dos melhores álbuns já escritos, e aí também havia coisas rolando como Dead Kennedys com a Alternative Tentacles (selo fundado por Jello Biafra).

A coisa mais importante da Epitaph é porque eles nunca desistiram, eles sempre continuaram seguindo em frente. O punk rock em 1983 meio que começou a dar uma caída, em 84 as bandas estavam mudando o som delas. E com isso também, muitos selos começaram a fechar, casas de show não autorizavam o punk rock, porque “era muito perigoso” e toda essa merda, sabe?

E aí o Bad Religion lançou o “Suffer” em 1988. Eu estava numa loja de discos e perguntei “o que é isso?” e o cara da loja disse: “é o disco novo do Bad Religion”. E eu disse: “porra nenhuma! Bad Religion não lançou um disco novo, eles não estão nem tocando mais”. E o cara disse: “não, cara, estão sim! Saca só essa porra”. Eu comprei, levei pra casa, coloquei pra tocar. Acho que devo ter sido a primeira pessoa na cidade a conseguir aquele disco e fiquei de cara, tipo “ caralho! que porra é essa?”

Eu liguei para o Jason (Thirsk, baixista original da banda) e disse pra ele “vem pra cá agora!”. Coloquei o disco de novo e piramos com o disco. A gente viajava e ficava dirigindo por Hollywood com a fita cassete daquele álbum no carro e ele tinha só 22 minutos de duração, então podíamos tocá-lo duas vezes. Pegávamos umas cervejas, um goró, dirigindo por Hollywood, bebendo e cantando cada porra de letra naquele disco.

Aí depois veio o “No Control” (outro álbum do Bad Religion, lançado em 1989), e aí ficamos no mesmo rolê: era o “Suffer” e depois o “No Control”, enquanto dirigíamos por Hollywood tomando umas. Foi aí que a Epitaph começou a deixar uma marca nova, levando a coisa toda para um outro nível. E a gente no Pennywise estava “ei, cara, queremos ser produzidos pelo Legendary Starbolt. Nós não sabíamos que era o Brett Gurewitz (guitarrista do Bad Religion), não fazíamos ideia” (risos).

Falamos isso para um cara de uma rádio, que queríamos ser produzidos pelo Legendary Starbolt e ele disse: “ah, esse é o Brett, vou ligar pra ele e marcar uma reunião”. Demos nosso single ao Brett, e ele disse: “é bom”. Mas uma semana depois ele nos disse: “não vou assinar vocês, não é muito a cara do que eu tenho procurado”. E eu disse: “ah, qual é, cara”! E ele só me respondeu: “me desculpe mesmo”. Eu fiquei muito frustrado, aí começamos a trabalhar em novas músicas e já tínhamos umas 12 músicas novas que não estavam naquele single, porque ele já era bem velho, já tinha uns seis meses.

Então eu liguei pra ele e disse: “Ei, Brett, posso te mostrar algumas músicas novas que nós temos?” E ele ficou meio que: “ah, tô legal, cara, não precisa, obrigado, gosto muito de vocês, mas vou passar”. E eu disse: “Deixa eu ir aí na Epitaph e te mostrar três músicas. Vai levar só 15 minutos, se você não gostar eu vou embora, não vai te machucar, vai?” (risos) E ele finalmente cedeu: “tá bom, chega aí”!

Eu levei uma fita com 13 músicas e mostrei duas músicas pra ele. Ele então vira pra mim e diz: “O resto das músicas é nessa pegada?” Quando eu disse que sim, ele só conseguiu responder: “porra, vocês estão assinados”! As músicas que mostrei para ele foram “Wouldn’t it Be Nice” e “Living For Today”, e ele ficou de cara. E eu disse pra ele: “Pois é, cara, o single que te mostrei, tinha uma música rápida, uma música em tempo médio, uma outra faixa mais “funky”.

Era a primeira coisa que tínhamos gravado, então nós meio que fomos com tudo, mas todas as novas músicas era um “boom!” eram as faixas do “disco azul”, sabe? (Disco de estreia e auto-intitulado do Pennywise, lançado em 1991, carinhosamente chamado pelos fãs de “blue album” ou “disco azul”). Ali naquele CD que levei para ele estavam todas aquelas músicas e ele ficou: puta merda, vocês estão assinados, considerem-se assinados!

Cara, isso foi tão importante pra nós, perguntamos a ele quantos álbuns poderíamos vender ele disse que talvez 2 mil cópias, e nós ficamos: porra!! Isso seria incrível! E aí vendemos 10 mil cópias, sabe? Quando chegamos ao “Unknown Road” (segundo álbum da banda, lançado em 1993), tínhamos vendido 100 mil discos. E o “Unknown Road” vendeu umas 400 mil, 450 mil cópias. Foi uma loucura, é muito, muito incrível ser parte da história da Epitaph!

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!



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