texto de Davi Caro
Relatar a história de um fenômeno intergeracional é uma tarefa mais difícil do que pode parecer. Desde o primeiro momento, a série documental “Andar Na Pedra: A História dos Raimundos” (2026) mostra entender isso melhor do que qualquer outra do tipo já feita. Dirigida por Daniel Ferro e lançada em cinco capítulos de cerca de uma hora cada via Globoplay, a série procura delinear a trajetória de mais de 30 anos de uma das bandas mais importantes de sua geração, e da história recente do Brasil como um todo.
Para além do desafio de representar uma jornada de tal importância, a missão de Daniel Ferro é ainda mais complexa, pois a carreira do quarteto brasiliense é tão instigante quanto repleta de controvérsias, turbulências e dramas. Um dos (vários) trunfos da produção, então, é contar com depoimentos dos quatro personagens principais deste épico musical contemporâneo. Rodolfo Abrantes (vocais), Rodrigo “Digão” Campos (guitarra e vocais), José “Canisso” Pereira (baixo) e Fred Castro (bateria) – bem como muitos de seus contemporâneos, familiares, amigos e comparsas – encontram, aqui, a oportunidade de darem suas próprias versões dos acontecimentos por trás da origem, ascensão, vertiginosa queda e ressurreição de uma banda que simbolizou, para o bem e para o mal, muitas das vitórias e armadilhas que vários de seus co-geracionais também atravessaram, e às quais muitos não sobreviveram.
Outra das tarefas hercúleas assumidas pela série é mais óbvia, porém não menos intimidadora: afinal, foi durante o longo processo de elaboração e realização dos registros utilizados que Canisso veio a falecer, vítima de uma súbita parada cardíaca, em 2023. Contar uma história tão fascinante quanto complexa já seria um trabalho árduo em qualquer circunstância. A ausência de um de seus principais elementos, desta forma, seria o bastante para decretar o fracasso de qualquer outro projeto deste porte. Por meio do uso de gravações de áudio do baixista que remontam ao fim do século passado, e que se estendem até pouco antes de sua morte (uma vez que Canisso chegou a contribuir diretamente para a série), porém, o ponto de vista do músico dos passos dados por ele junto dos ex-companheiros de banda é preservado com cuidado e respeito, e complementa com maestria os relatos de Rodolfo, Digão e Fred de maneira a apresentar uma narrativa coesa e detalhada.

Um dos principais acertos do documentário é entender a importância que a origem familiar e cultural individual dos integrantes exerce sobre a biografia dos Raimundos. Crescendo em Brasília vindo de famílias ao mesmo tempo abastadas e, cada uma a seu modo, bastante disfuncionais, Rodolfo e Digão desenvolveram desde o início uma relação de irmandade que refletia bastante as inseguranças e complexidades de duas personalidades muito diferentes entre si. Os traumas familiares dos dois, no entanto, foram apenas um dos catalisadores da união. O outro, cronologicamente, foi a banda Filhos de Mengele, que contava com o hoje jornalista Paulo Marchetti e o cantor Telo como seus integrantes – e que também incluiu Digão, então baterista. As referências musicais que a dupla (sobretudo Abrantes) carregava por meio do convívio doméstico individual eventualmente se fundiria com a predileção dos jovens por punk rock, e a mitológica junção entre as duas coisas, batizada “forró-core”, é apresentada aqui tão espontaneamente quanto deve ter sido na vida real. A chegada de Canisso, mais velho e menos privilegiado que os dois, acabou sendo um passo fundamental para que o embrião dos Raimundos se desenvolvesse; o outro, claro, foi um suposto risco de perda de audição por parte de Digão, que abandonaria a bateria em favor da guitarra e deixaria que o posto fosse ocupado por Fred – um músico talentoso, embora cronicamente deslocado dos três colegas com quem alcançaria o estrelato (geograficamente, inclusive, pois Rodolfo, Digão e Canisso eram crias da Asa Sul de Brasília, e Fred da Asa Norte).
A partir daí, os eventos que culminariam com o sucesso mainstream dos Raimundos – e que já fazem parte da rica tapeçaria do imaginário popular – são esmiuçados com precisão e requinte. E com o acréscimo de um impressionante uso de imagens de arquivo, a experiência é ainda mais imersiva e instigante. Dos primeiros ensaios do quarteto, então já com o novo nome, passando por filmagens da apresentação do grupo no lendário festival Juntatribo de 1993, e pelas primeiras entrevistas concedidas à MTV, até fotos e registros de shows pré-debut, a direção se sobressai ao alinhavar não apenas a química entre os quatro músicos, como também suas fundamentais diferenças de personalidade: o carisma relutante de Rodolfo, a naturalidade pragmática de Fred, o magnetismo agregador de Canisso, e a afinidade de Digão com os holofotes – tudo acabaria por contribuir sobremaneira para o êxito construído pelos quatro. Especialmente após travarem contato com Carlos Eduardo Miranda, responsável por fomentar nos Titãs o desejo de criar o selo fonográfico independente Banguela Records, que teve, nos Raimundos, sua primeira (e maior) contratação.
O estouro improvável do repertório escrachado, barulhento e irresistível do álbum “Raimundos” (1994), incluindo detalhes do processo de composição de pérolas memoráveis como “Puteiro em João Pessoa” e “Selim”, é discutido com detalhes, bem como a saída da banda do Banguela para ser incorporada à matriz do selo, a Warner (um evento, aliás, muito bem elucidado no documentário “Sem Dentes: A História do Banguela Records e a Turma de 94”, dirigido por Ricardo Alexandre – que, aliás, também figura como depoente em “Andar Na Pedra: A História dos Raimundos” ). O sucesso nacional, pontuado por excessos (sobretudo por parte de Rodolfo, então um usuário mais do que assíduo de maconha), glórias (aparições em programas de auditório e com clipes premiados pela MTV) e tragédias (no caso de Digão, que perdeu o irmão mais velho ainda nos primeiros anos de estrada, um trauma que o marcaria para sempre), serviu como uma bênção e uma maldição pelo resto da década de 1990.
Se, por um lado, a nova projeção – ancorada na vendagem de mais de 150 mil cópias do disco de estreia – lhes concedeu cacife para gravar “Lavô Tá Novo” (1995) com o carimbado produtor americano Mark Dearnley – resultando em um dos discos mais bem-produzidos da década – o surgimento meteórico dos Mamonas Assassinas acabou fazendo com que muitas bandas procurassem se desvencilhar do rótulo de “grupos engraçados”. Isso terminou levando os parceiros brasilienses da Little Quail & the Mad Birds à dissolução e, no caso dos Raimundos, à uma tentativa de incorporar uma sonoridade e temática mais sérias em “Lapadas do Povo” (1997). Um acidente com eletricidate no show de lançamento do disco em Santos, no mesmo ano (que vitimou oito fãs) acabou encurtando o ciclo de divulgação do disco – plantando as sementes do retorno às analogias pueris do esmagador “Só No Forevis” (1999) (dos sucessos “Aquela” – do amigo Gabriel Thomaz –, “A Mais Pedida” e, claro, da inescapável “Mulher de Fases). A fatalidade, temperada com conflitos pessoais, diferenças criativas e ego, acabou também por acender um pavio que levaria, em 2001, à saída de Rodolfo dos Raimundos.
Não haveria como “Andar Na Pedra” tratar o rompimento entre Abrantes e seus colegas de outra forma senão como o evento pivotal para o legado dos Raimundos como se conhece hoje. E é aí que fica mais claro o grande diferencial da visão de Daniel Ferro da história que procurou contar aqui: mais além de se valer do ponto de vista de comunicadores e colegas da banda – como o já citado Ricardo Alexandre mais Serginho Groisman, Luka Salomão, Marcão Brito, Carlos Marcelo, Tico Santa-Cruz, e muitos outros – e de membros da família de cada um (sobretudo no caso de Alexandra, esposa de Rodolfo), o doc excede as expectativas ao centrar os holofotes no quarteto principal, e, acima de qualquer coisa, ao tratar os músicos como os seres humanos falhos que eles sempre afirmam ser.
No que tange o delicado assunto da conversão religiosa de Abrantes – sempre apontada como o catalisador do rompimento – o próprio cantor relata suas experiências de maneira cândida e passando longe do proselitismo cristão, transparecendo eloquência e empatia para com os companheiros musicais. Essa honestidade desconcertante vale também para os três remanescentes, que lutaram para seguir com o grupo após a saída do vocalista: seja com as falas de Digão, que se emociona ao falar do relacionamento conturbado com o pai, seja com as transparentes impressões de Fred, que relata os vários conflitos com o guitarrista (e também mostra arrependimento para com sua reação imediata após a saída de Rodolfo), ou mesmo com as comoventes contribuições de Adriana Toscano, viúva de Canisso (e parte fundamental do ciclo íntimo da banda desde o começo), ao falar sobre uma dolorosa infidelidade do baixista, com quem construiu família, e sobre os conflitos interpessoais com Digão e Fred que levaram o músico a pular do barco e se juntar a Rodolfo, no então recém-construído (e, em 2026, renascido) grupo Rodox.
A série também parece ter acertado ao não se debruçar com profundidade sobre os discos mais recentes do Raimundos, agora completamente sob a batuta de Digão. O último disco a ser esmirilhado nos mínimos detalhes, “Kavookavala” (2002) era, afinal, um álbum recheado de mensagens nem um pouco cifradas ao então recém-desertor, e foi o primeiro a contar com o guitarrista nos vocais. Não que o escopo da produção se limite a isso: grande esforço é dedicado – no último dos quatro capítulos – a cobrir as aventuras e desventuras, brigas e reconciliações dos Raimundos conforme a banda procurou se reerguer. Conforme Fred se distanciou em definitivo da banda, e a relação entre Canisso e Digão se manteve instável – especialmente durante a pandemia, período no qual este último passou a se pronunciar contra o distanciamento social (algo que procurou associar, sagaz como nunca, à práticas comunistas) e acabou levando ao cancelamento online – a banda se estabeleceu como uma mera sombra do que um dia foi. A repentina partida de Canisso, portanto, acabou colocando a pá de cal em uma agora impossível reunião dos Raimundos.
Seja como for, todas as partes envolvidas mostram conseguir olhar para a história do que construiu com maturidade, clareza e admiração mais do que rancor. Rodolfo, que hoje também possui uma carreira consolidada dentro da comunidade religiosa, afirma ter inclusive vendido os direitos das canções que compôs junto da banda. Fred, que se reconciliou com o vocalista, se mostra o mais pragmático de todos, sem reservas e com poucas mágoas. Digão parece haver conseguido o que sempre quis, ao ter para si as rédeas de uma banda na qual ocupa a posição central, tocando para um público que pouco ou nada parece se preocupar com o conservadorismo míope que prega, e vivendo dos louros de um passado do qual é o único remanescente. E Daniel Ferro, com nível de pesquisa invejável e evitando qualquer viés pessoal em prol da imparcialidade e da veracidade ao contar uma das mais irresistíveis histórias que o pop brasileiro já viu, criar um trabalho que deve ser tido como referência no futuro como um dos melhores documentários musicais já produzidos neste país – com coerência, precisão, riqueza de detalhes e uma mensagem clara: os Raimundos como os conhecemos não existem mais, e nem poderiam mais existir. E está tudo bem com isso.
Ouça e baixe o tributo “Raimundos – Eu Quero É Rock!” com Vanguart, The Baggios e mais

– Davi Caro é professor, tradutor, músico, escritor e estudante de Jornalismo. Leia mais textos dele aqui.

