texto e faixa a faixa de Dorea
“O Que Mais Você Quer Saber de Mim?” é uma pergunta-resposta a uma amiga. Surgiu de uma vontade dela de me decifrar o meu desejo de também olhar mais para dentro. O meu primeiro disco, “Grande Coisa”, lançado em 2023, é quase que uma compilação de canções aflitas compostas durante a pandemia. Nelas, revelo minhas angústias perante à forma que o mundo se apresentava na época. No conforto de minha casa durante o período de isolamento, apesar do desconforto de estar de fato isolado meses após uma separação, neguei-me a falar de mim mesmo. Praticamente não usei as palavras “eu” ou mesmo “você”, tão presentes em nossa memória afetiva de canções da música popular brasileira.
Em “O Que Mais Você Quer Saber De Mim?”, apresento-me às pessoas como um homem adulto de 40 anos que nunca tinha escancarado de tal forma as próprias portas. Permito-me, simplesmente, dizer: “Eu não me entendo, e nem pretendo”. Ou mesmo celebrar, de forma singela, um amor: “Quer dizer que a gente pode ser mais que dois desencontrados”. Posso ser melancolicamente leve ao anunciar: “Eu me vou a sorrir, cantando aos quatro ventos todo o meu desalento”. Como também me deixo divagar sobre meu próprio ato de me entender artista: “Canto pra subir montanha ou pra desbravar o mar, mas, eu sei, não é pra mim o ar que resta a respirar”.
“O Que Mais Você Quer Saber de Mim?” é o primeiro disco que lanço com todas as músicas (11 faixas) escritas exclusivamente por mim. Em tempos de saudosismo patente, no qual até mesmo artistas de trabalhos autorais consolidados dedicam-se a rever as próprias obras ou prestar tributos a outras referências, considero um ato político lançar um álbum independente com canções inéditas todas compostas por uma só pessoa: eu mesmo. É arriscar ser totalmente ignorado pela frágil irrelevância de ser apenas mais um entre bilhões. Ou assumir o risco de se revelar para que muitos possam se identificar em um só semelhante.
Em “Grande Coisa”, tive a produção musical de Sebastian Notini, com quem assinei, juntamente com a baixista Carla Suzart, a elaboração da maioria dos arranjos, minimalistas, quase que 100% acústicos. Neste disco volto a contar com a experiência de Sebastian Notini na produção, bateria, percussão, teclados e sax e a sensibilidade de Carla Suzart nas linhas de baixo, mas aposto em Joana Queiroz, do grupo experimental Quartabê, para delinear os arranjos de sopro. E deixo também a discrição um pouco de lado ao convocar as maravilhas melódicas e ruidosas de Junix, guitarrista do BaianaSystem. Em uma das faixas, “Sem Ancorar”, reforço o clima íntimo do álbum ao dividir os vocais com minha amiga e parceira Luiza Britto, com quem já apresentei a mesma canção em shows do coletivo do qual fazemos parte, o Outras Vozes.
“O Que Mais Você uer Saber de Mim” – que está sendo lançado pelo selo Ajabu! (Suécia/Alemanha) – pode ser um convite ao autoconhecimento, sem ter a pretensão de o ser, com a flagrante espontaneidade de canções que contam as histórias de quem as escreveu. Neste álbum, manifesto não só o meu desejo de mostrar as minhas criações a quem possa se interessar, como também a vontade de ver outros artistas fazerem o mesmo e lançarem ao mundo suas próprias composições.
FAIXA A FAIXA por DOREA
01) O QUE MAIS VOCÊ QUER SABER DE MIM? – Sem meias-palavras, o disco começa da maneira mais íntima possível, com agridoces confissões embaladas somente por um violão e linhas discretas de sopros. Mesmo a estranha melodia é quase mais falada do que cantada.
02) MARIA MILHÕES – Logo as portas são abertas para um rock, com riff marcante de guitarra e bateria reta. A letra é tão política quanto misteriosa, sem oferecer respostas, mas questionamentos.
03) MAIS QUE DOIS – Ao contrário do que acontece no primeiro disco, aqui se permite ser romântico e falar de um amor livre, descoberto de maneira espontânea e inesperada. Joana Queiroz brilha intensamente nas melodias dos sopros.
04) ESSA PRESSA – Mais um rock, um blues rock em compasso esquisito adornado pelas frases inusitadas da guitarra de Junix. O romantismo segue por aqui, mas sem lirismo nesta declaração de certa forma sensual.
05) ATÉ QUE SEQUE – Rocks em sequência garantem a energia da primeira metade do álbum. Outra vez em compasso irregular e cheia de ruídos de guitarra, esta canção tem até um quê de autoajuda na letra, raridade nesta obra. A voz gritada denuncia o desespero.
06) QUATRO VENTOS – Uma música curta, uma vinheta, que constata a aspereza do amor sem deixar de respirar sua beleza. Mais uma vez brincam juntos apenas o violão e os sopros.
07) SEM ANCORAR – Único dueto do disco, “Sem Ancorar” jamais estaria aqui se não fosse a voz de Luíza Britto, que confere um clima atmosférico a mais uma canção de amor. A melodia de vozes da parte final da música oferece, sem dúvidas, o clímax do álbum.
08) PEQUENAS CRIATURAS – Outra letra metafórica e misteriosa. As guitarras de Junix retornam nesta canção sem o peso que emprestam às demais, mas com a habilidade de se emaranhar aos efeitos de percussão para construir o habitat das pequenas criaturas.
09) MEU LUGAR – Aqui está o trabalho mais elaborado de composição do disco, em uma densa combinação melódica entre violão, clarinete e clarone. A letra é tão confessional, quase constrangedora, quanto a da faixa-título.
10) A CIDADE – É curioso como uma canção de tema flagrantemente urbano, embora também metafórico, possa se encaixar em uma melodia tão bucólica. Quase se ouve os passarinhos, e de fato eles seguem resistindo mesmo nas cidades grandes.
11) A PÉ NO DESERTO – A única música do disco em que voz e violão estão completamente sozinhos não cansa de falar de amor, mas na verdade esta é uma canção de guerra que nem sequer pede paz, recolhe-se a uma genuína e inevitável tristeza.

