entrevista de Alexandre Lopes
Mineira de origem e paulistana de formação, a cantora, compositora, instrumentista e produtora Nina Maia lançou seu primeiro álbum solo, “Inteira” (2024), com uma bagagem que foge do comum para alguém na casa dos 20 anos: um ep com a banda Eiras e Beiras, trilhas para o cinema, colaborações com nomes como Liniker, Maria Gadú e Iza (em “I Will Survive”), além de uma trajetória como compositora iniciada ainda na adolescência. Esse começo precoce não é só um detalhe, mas também ajuda a explicar um pouco a densidade emocional que atravessa seu disco de estreia.
Filha do guitarrista Philippe Fargnoli (ex Dead Fish e atual CPM22), seria fácil enquadrar sua história dentro de uma narrativa previsível de herança musical. Mas o que caracteriza seu trabalho é justamente o desvio: Nina construiu um caminho distante do rock e hardcore que marcam a trajetória do pai para se aproximar de uma MPB contemporânea que absorve elementos eletrônicos e uma estética minimalista, em que o silêncio e a textura têm tanta importância quanto a melodia.
Em “Inteira”, tradição e experimentação se tensionam e se mesclam. Sim, há ecos de Marisa Monte, samba e música brasileira na condução das canções, mas eles são atravessados por texturas que aproximam sua sonoridade de artistas como Luiza Lian e Ava Rocha, além da sensibilidade pop global de Billie Eilish e uma intensidade interpretativa a la Beth Gibbons (Portishead). O resultado é uma estética que valoriza os detalhes: vocais baixos e às vezes sussurrados conduzem letras sobre inseguranças, desejos e autodescoberta, formando uma espécie de “MPB pós-analógica”, na qual o orgânico e o sintético se misturam.
Mas outro aspecto significativo de ”Inteira” está em sua dimensão narrativa. O álbum se organiza como uma cartografia de um sujeito em formação em “Caricatura”, que parte da dúvida e da fragmentação para buscar um tipo de identidade. Escritas ao longo de anos da vida de Maia, as canções capturam diferentes estágios desse processo, com respostas nem sempre resolvidas, e é justamente nessa suspensão que o álbum ganha força. Ele registra alguém tentando se montar peça por peça – não por acaso, ele termina originalmente com “Inteira” (a versão deluxe do disco ganhou mais quatro faixas).
Produzido ao lado de Yann Dardenne, do selo Seloki Records, o disco também revela um forte senso de autonomia: Nina assina a produção e toca diversos instrumentos. Ainda assim, o trabalho nasce de um ambiente profundamente colaborativo, refletido tanto na rede criativa da Seloki quanto na banda que a acompanha ao vivo, com nomes como Francisca Barreto, Valentim Frateschi, Thales Hash e Thalin. Segundo a própria Nina, essa dimensão coletiva é central no seu trabalho e reflete um traço mais amplo de sua geração, marcada por redes de troca e criação compartilhada visível também em artistas que se dividem em outros projetos paulistanos, como Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Pelados e Fernê.
É dentro desse contexto que Nina Maia se prepara para um dos momentos mais simbólicos de sua carreira até aqui: a estreia no Lollapalooza Brasil. Só que ao invés de enxergar a apresentação como um marco individual, o palco aparece como uma extensão desse processo coletivo: uma conquista compartilhada com todos que ajudaram a construir o projeto desde o início.
Mas como será que uma música tão íntima, delicada e voltada para dentro se transforma quando projetada diante de um público massivo de um grande festival? É sobre esse momento de transição que Nina falou na entrevista a seguir dada ao Scream & Yell antes da apresentação, abordando a criação de “Inteira”, seus bastidores e a importância de construir em conjunto em um cenário cada vez mais individualizado.
Queria começar perguntando sobre a preparação para o Lollapalooza. Como estão os ensaios?
Cara, está indo bem! Está sendo um processo muito legal e muito coletivo de construção. Eu me sinto muito bem acompanhada pelas pessoas que estão envolvidas no meu projeto. Tem a galera do Seloki [Records], que é basicamente uma turma de amigos que se ajuda e colabora nos projetos uns dos outros. O Yann [Dardenne], que é meu companheiro e co-produtor do álbum, vai tocar guitarra comigo no show. Isso também está sendo uma coisa super legal de fazer. Tem também o Otto Dardenne, que é o outro braço da Seloki Records, que faz toda a parte de design e direção visual. A gente está com o Gabriel Rolinos, que está fazendo a parte de telão com a gente, e estou trabalhando a direção de movimento com a Marília Curtolo. Então está sendo uma grande oportunidade de me aprofundar em vários aspectos do projeto. O show do Lolla também abre portas para desenvolver coisas que vão ficar comigo e que vão fortalecer o projeto. Está sendo massa. Estou bem feliz!
A banda que vai tocar com você no Lolla é o Pedro Lacerda na bateria, a Francisca Barreto no cello, o Thales Hash na viola, o Yann Dardenne na guitarra e o Valentim Frateschi no baixo e synth?
Isso, essa é a banda completa que tem feito os shows comigo. Vai ter também a participação do Thalin, que vai cantar uma música que a gente está lançando. Ela se chama “Ando Vagando”. Basicamente é um remix de “Amargo”, uma música minha que está no meu disco. O Thalin e o Shirts – que é o nome do produtor/DJ que fez a produção da faixa e assina como artista também – fizeram essa versão meio drum ‘n’ bass, com versos do Thalin. É uma faixa super energética. Ele vai entrar no show e cantar essa música com a gente. O Thalin tocou comigo no palco por alguns anos e gravou todas as baterias do álbum. Ele é meu grande amigo, irmão, e a gente se conhece desde moleque. Então não faria sentido ele não estar com a gente nesse momento também.
Você toca no domingo, por volta de 13h40, entre Papisa, Papangu e Mundo Livre S/A e o show do Balu Brigada. Tem algum artista que você quer muito ver no festival?
Sim, muitos! No domingo tem shows super legais que eu definitivamente quero assistir. O show do Oruã, por exemplo, que é logo depois do meu. Eles são um conjunto maravilhoso e uma banda muito importante do Rio. Mas também tem artistas gringos que eu queria muito ver. Eu confesso que para mim, Lorde e Tyler, the Creator são shows incríveis para fechar o domingo. Mas tem shows também na sexta e no sábado que eu queria muito ver, como a Doechii, que eu sou super fã, e Chappell Roan, que me trouxe muita alegria nesses anos de 2023 e 2024, quando ela estourou e foi lindo de acompanhar. Mas vai ser maravilhoso ver o show do Tyler. O que eu já vi da era “Chromakopia” dele é uma aula de tudo: entrega, performance, desenho de palco, fluxo de show, luz, figurino. Estou louca para ver!
O Tyler está naquele filme, “Marty Supreme” né? Eu estava assistindo e não sabia que ele estava no cast, foi uma surpresa pra mim!
É, eu vi que ele tá lá, mas ainda não vi esse filme não!
Voltando para o seu disco: além de compor e cantar, você toca baixo, piano, teclado e guitarra no álbum. Como foi gravar tudo isso? Tem algum outro instrumento que você toca que não entrou no disco?
O processo de produção do disco foi super legal e importante pra mim. Foi feito a quatro mãos, sendo eu e o Yann Dardenne, que co-produziu comigo. Ele foi um parceiro criativo muito especial, porque ele me deu espaço para propor e botar minha própria mão, mesmo sendo a minha primeira vez produzindo. Isso foi muito importante para mim: que minhas ideias fossem contempladas. Eu já tinha minhas demos que gravei sozinha no quarto, produzindo no computador. Mas eu tava muito afim de gravar esse disco, de botá-lo no mundo. Sendo a primeira vez fazendo isso, é claro que existem inseguranças, mas ele foi um parceiro muito maravilhoso de trabalho, porque me deu esse espaço. Então, toda a oportunidade de gravar algum instrumento que a gente tinha, ele falava: “Pega você, faz você”. Porque a maioria das linhas de baixo, piano ou guitarra são coisas que eu escrevi e já tocava, então foi super importante colocar a mão mesmo e fazer. Não sei se posso dizer que toco mais algum instrumento, mas por enquanto são esses (risos).
Além da voz, qual você considera seu instrumento principal?|
O piano. É onde eu mais sinto que consigo explorar coisas e me expressar melhor. Se eu sento no piano para compor ou tocar, sinto que consigo me expressar melhor do que no violão. O violão é mais limitado para mim. Mas eu adoro guitarra também; comecei a compor quando ganhei uma do meu pai. Isso me fez ter vontade de escrever minhas próprias músicas. Depois fui estudar piano mais a fundo e percebi que ele é um instrumento que me dá uma gama enorme de possibilidades: grave, agudo, ritmo, harmonia, melodia, dinâmica. Hoje ele é meu instrumento mais próximo.
Você fez aulas ou é autodidata?
Fiz aulas. Me formei recentemente na EMESP Tom Jobim e concluí três anos de estudo em Canto Popular, com uma formação teórica também. Mas tive aulas com grandes mestres, professores como André Hossoi, do Barbatuques, que me ensinou muita coisa de instrumento e teoria; Marcelo Maito, que é meu grande mestre do piano. Tive aula há um tempo também com Yaniel Matos, cellista e pianista cubano. Todos eles para mim são grandes mestres, pessoas que respeito muito.
Eu vi vídeos de shows seus e percebi que você é bem performática no palco, mesmo tocando piano. De onde vem isso? Você acha que tem alguma relação com teatro?
Eu diria que não. Essa relação de atuação ou teatro é um lugar que eu ainda não explorei tanto. Eu acho que talvez essa qualidade “performática”, no sentido de maneira de ser, talvez venha do quanto para mim cantar e tocar música me conecta com um lugar mais profundo e diferente do dia a dia, uma coisa menos racional. É o momento que eu consigo me desprender do que sou no dia a dia e entrar num outro plano. Também acho que minhas grandes referências e artistas que me inspiram se permitem serem atravessados pela música, que a emoção os atravesse. Então, se estou tocando e cantando uma música que requer algum grau de introspecção, falando sobre dor, ou então que precise de confiança, sensualidade ou até mesmo de deboche, tudo isso é como um instrumento daquela canção, para atravessar e deixar esses sentimentos virem. Eu acho que, no geral, talvez eu possa ser vista como uma pessoa tímida, com certeza introspectiva e reservada. Mas para mim, a música é um lugar para externalizar coisas. A composição principalmente, mas o palco também seria, né? E é uma forma de deixar sair os sentimentos que não transparecem no dia a dia, ou um outro jeito de se expressar que não aparece no cotidiano, sabe?
Antes de subir no palco você ainda sente nervosismo?
Sinto sim. Mas acho que depende muito do dia e do show. Tem shows que sinto que tudo passa num piscar de olhos. Tem outros em que às vezes sinto que estou me observando de fora, é muito doido. Tem dias em que estou mais presente, de corpo e alma. Em outros, pode ser algo mais mecânico, quase automático. Mas o nervosismo varia. Acho que não tem como negar isso para mim, mesmo que a música seja esse lugar no qual eu me aterro. Já me ajuda muito, porque se estou me sentindo mal, ansiosa ou desconectada, a música é o lugar onde eu consigo me reconectar, aterrar. Mas tem dias e dias. Acho que por isso que também é especial e por isso requer treino, prática, ensaio, resistência física… Porque tem dias em que você vai receber aquilo, e botar para fora em termos de som. E tem dias que é mais difícil, mas acho que essa é a graça da jornada toda.
Você tem algum ritual antes de entrar no palco?
Cara, eu acho que um ritual muito importante para mim sempre é a concentração com a banda e quem mais vai estar comigo em cima do palco. A gente se abraça, se olha no olho, passo a sequência das músicas e o que cada um vai fazer em geral. Isso sempre é importante para mim. E a gente fala palavras de força e de gratidão por estar junto, por essas pessoas estarem do meu lado, e eu relembro o porquê que a gente ama tanto fazer música. Porque às vezes quando você vai entrar no palco e bate um grande nervosismo, às vezes é bom tentar se reconectar ao máximo à origem do nosso amor pela música e do porquê a gente faz. É aquela coisa: toda a preparação foi feita, todo o ensaio foi feito, agora é se entregar e curtir e se algum erro aparecer a gente vai dar um jeito de passar por ele e fazer isso sem tentar se frustrar, porque não existe certo ou errado. Então esse momento de olhar no olho das pessoas que vão estar comigo e se sentir grato é bem importante, porque se entro no palco desconectada disso é bem mais difícil.
Imagino que esse momento deve dar bem mais segurança, porque vê que não está ali sozinha; mesmo sendo um projeto solo, dessa forma vocês se sentem mais como uma unidade em cima do palco, né?
É! Apesar de ser meu projeto solo, de eu bater no peito, bancar meu nome e isso ser o meu sonho e o que me move, né? Sou uma mulher que tem o próprio projeto, que compõe, que canta, que produz e que conta as próprias histórias e se expressa artisticamente de uma maneira, mas não se faz nada disso sozinha. As pessoas que estão junto comigo dão sentido a isso. Seria diferente se eu tivesse construído tudo sozinha, contratado pessoas só para chegar e fazer. Não, tudo tem sido sobre construção, processo, ensaios, encontros, conversas, risadas, choros às vezes (risos)… E porque é uma grande oportunidade da vida poder trabalhar com o que ama. É ao mesmo tempo uma grande loucura e um grande “salto de fé”, como uma das músicas do disco, que representa muito o que é fazer música como artista independente no Brasil. É um momento que faz sentido, quando nos conectamos um com o outro e aí dá força. Então eu mergulhei em muitas coisas novas e isso vai seguir comigo depois desse show. De certa forma é minha primeira vez subindo num palco grande desses. É o meu começo de carreira, o meu primeiro álbum, tenho 22 anos e olha que legal, estar subindo no palco do Lollapalooza, sabe? Não vou ser a artista mais experiente dali, de fato. Talvez o nervosismo me afete de alguma forma, mas tem essa compaixão com esse momento que é de primeira vez, de começo de jornada, mas tudo feito com muita intenção, com muita dedicação, como construção, com responsabilidade. Então, tem sido tudo isso.
Você está em início de carreira em termos, né? É o seu primeiro disco solo, mas você já teve uma certa bagagem com trilhas sonoras e a banda Eiras e Beiras anteriormente. Pelo que ouvi, são sons bem diferentes, mas você chegou a ter músicas suas no grupo?
No Eiras a gente compunha coletivamente. Era muito bom também, era um super grupo. Tinha sete pessoas, inclusive o Thalin no meio. O Eiras foi um projeto de escola que fizemos no colegial, enquanto estudávamos música, afim de experimentar, mergulhar e se impressionar também uns com os outros, do tipo “olha essa minha ideia aqui”. Estava estudando muita música instrumental, jazz, MPB lado B, coisas assim. A gente estava ouvindo muito Hermeto [Pascoal], Coltrane, Herbie Hancock, coisas mais prog também e compondo em conjunto. Então isso também era uma bagagem superinteressante, tanto de palco, por tocar em festivais de bandas, e depois por ter lançado um EP. Inclusive foi por esse primeiro trabalho que conheci o Yann e o Otto e a galera do Seloki Records: tocando na casa que eles tinham e depois produzindo com eles. Tudo isso realmente é uma bagagem que me fortaleceu para estar aqui hoje em dia e pisar num palco grande. Com certeza foi importante.
“Caricatura” foi escrita quando você tinha 14 anos. É minha interpretação e posso estar falando besteira, mas é como se você colocasse na mesa suas inseguranças e procurasse uma imagem para se espelhar. Como é para você cantar essa música hoje?
Cara, eu acho muito bonito e empoderador cantar ela hoje em dia. Muitas músicas do álbum foram escritas a partir de um ponto de dúvida, de procura, de tentar encontrar a mim mesma. Por isso que o disco se chama “Inteira” e também é a última música do disco. Eu acho que existe uma linha narrativa que pode ser feita porque todas essas músicas têm indagações, dúvidas, medos e todos ainda buscando, tentando achar a mim mesma, né? Acho que “Kaô”, a segunda música do disco, também fala disso. É, “eu não gosto de quem eu sou, tenho medo de ficar só. Não que me falte, não que me sobra, não que me reste, mas vou”, né? Eu tô indo, tô procurando algo. “Caricatura” abre o disco e escrevi na época da escola, com 14 anos, começando a se entender como gente, a criar a própria identidade e ao mesmo tempo todas essas camadas, personas, caricaturas, a maneira com que você quer ser vista para que você se sinta mais forte ou mais protegida, a relação com a beleza feminina, essa nossa noção enraizada de validação a partir da aparência… Enfim, todas essas questões. E “Caricatura” para mim parte de tudo isso, mas existe realmente um cerne que é: tô procurando a mim mesma. E para mim é lindo cantar isso hoje em dia, porque ainda são coisas que sinto que eu atravessei e descobri, que consegui deixar para trás também. Mas fico orgulhosa de cantar isso agora e pela menina que escreveu a música aos 14 anos, cheia de dúvidas. E eu ficaria super feliz com 14 anos de saber que eu tô subindo num palco e cantando essa música assim. Então, para mim é massa, ainda curto muito tocar as músicas do disco, ainda não sinto uma sensação de esgotamento ou cansaço, porque tenho orgulho e é algo que eu queria muito fazer e eu fiz e gravei, está no mundo!
Você já citou artistas como Marisa Monte e Billie Eilish como influências. Que outras referências talvez não apareçam tanto no seu som?
Ah, eu acho que uma grande referência de artista para mim desde nova é a Nina Simone, tanto como pianista quanto intérprete, compositora e artista em geral. Se bobear também pela entrega emocional e pela liberdade, as variações em palco, da música estar sempre viva. Ela sempre foi uma grande artista que tá comigo. Eu acho que posso falar também da Rosália, que sempre cito, mas não sei o quanto está explícito no meu disco, mas ela é uma grande referência para mim de artista, produtora, criadora, ousada, corajosa, inteligente. Eu diria também do Tim Bernardes. É um artista que eu ouço desde muito nova e que me inspira muito. Acho que “Salto de Fé” tem ele ali também. Acho que ele influencia muitas das minhas composições. Tem a galera do trip hop também que me influencia muito: Portishead, Massive Attack que eu curto muito e que foram pontos que eu e o Yann pensamos neles durante a produção do disco. E Lana Del Rey também, que eu cresci ouvindo. Os arranjos vocais, na melancolia que existe, que tá ali em mim também!
Quando você falou da influência da Nina Simone, uma outra coisa que pensei ao ver os vídeos de você cantando e tocando piano me lembrou um pouco o tipo de entrega da Chan Marshall (Cat Power) no palco.
Ai, sim! Eu amo ela também!
Já a vi falando bastante da Nina Simone. Acho que as referências acabam se encontrando por ali também.
Que legal. Sim!
E depois do Lollapalooza, quais são os próximos passos?
Nesse ano meu intuito é rodar com o show o máximo que eu puder. E possivelmente também colaborar com outras pessoas. Por exemplo, esse single que gravei com Thalin e outros que estão engatilhados, mas que ainda não posso falar. Tenho a vontade de iniciar o laboratório do meu próximo álbum, mas não sei se vai dar tempo de entrar no estúdio ainda esse ano, mas com certeza já estou fazendo esse mergulho meio sozinha. Mas quero iniciar com a galera em breve, quem sabe ainda esse ano.
Você já tem shows marcados depois do Lolla?
Sim. Tem Porto Alegre (RS) dia 16 de abril e em São Paulo na Casa Natura Musical, dia 30 de abril.
Tem algo que você acha importante dizer que a gente não cobriu na entrevista?
Acho que eu queria destacar a potência da minha geração. Vejo que somos pessoas muito múltiplas, com muitas referências e uma vontade e fome enorme de fazer acontecer. Tenho vivido um processo muito rico ao lado dessa galera, criando de forma independente, quase feita à mão, e isso é muito especial. Também acredito muito no coletivo. Mas nada se constrói sozinho e, pra mim, o mais bonito desse momento é justamente poder fazer tudo junto, com artistas e pessoas muito potentes, cada um com seus próprios projetos, mas sempre colaborando entre si. Por isso, o Lollapalooza não é uma conquista só minha. É de uma turma inteira que está se dedicando, trabalhando junto, fortalecendo os projetos uns dos outros. E eu acredito muito na gente.
Recentemente entrevistamos a Sophia Chablau e percebi coisas similares ao que ela falou; a geração de vocês tem uma coisa de ter seus projetos individuais, mas ao mesmo tempo prezar muito pela colaboração entre todos. Ela tem a banda dela com o Uma Enorme Perda de Tempo, mas também toca com o Felipe Vaqueiro, tem o Besouro Mulher. O Pelados também tem outros projetos agregados, como Fernê, o Lauiz e tal.
Eu sou muito fã da Sophia Chablau. Pra mim, ela representa muito isso tudo. É uma grande referência, não só como artista, mas pelo movimento que ela constrói ao redor, pela forma como se coloca. E acho que esse é um movimento que a gente também precisa sustentar. Eu até pensei em usar a palavra “resistir”, mas mais no sentido de buscar algo natural, porque a gente vive numa era muito digital, muito individualizada, em que é fácil se isolar e se desconectar. Então, estar junto, colaborar, se encontrar fisicamente, acaba sendo uma forma de resistência sim. Por isso, os shows nas casas independentes de São Paulo são tão importantes. É ali que as coisas ganham vida de verdade: quando a gente está presente, assistindo, tocando, trocando. Esse encontro, essa energia ao vivo, é o que mantém tudo vivo. E acho que o mais importante é a gente continuar acreditando nisso.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.

