Três filmes: “Arco”, “A Pequena Amelie”, “Eu e Meu Avô Nihonjin”

textos de Marcelo Costa

“Arco”, de Ugo Bienvenu (2025)
Terra, ano 2932. A humanidade abandonou a superfície do planeta, devastada por tempestades, incêndios e desastres climáticos, e vive em casas elevadas acima das nuvens, numa espécie de “condomínio” aéreo sustentado por estruturas de concreto. O jovem Arco, de 10 anos, está ansioso para viajar no tempo com seus pais e estudar o passado da humanidade, mas a regra é clara: por segurança, voos são permitidos apenas para maiores de 12 anos. Em certa noite, Arco espera a família dormir (em sua casa futurista com cápsulas antigravitacionais para descanso) e “empresta” a vestimenta de voo da irmã para fazer, sozinho, a sua primeira viagem no tempo. Ele tem certeza que domina a técnica, mas um erro de cálculo faz com que ele caia em uma floresta em 2075. Para sua sorte, Arco é encontrado por Iris, uma garota que também tem 10 anos, e abriga o jovem do futuro em sua casa planejando com ele uma maneira de devolve-lo ao seu tempo real. Esse é o ponto de partida da belíssima animação de estreia do francês Ugo Bienvenu, um filme que utiliza a ficção científica para falar sobre a poder da amizade e como ela transforma vidas tendo, como pano de fundo sutil, a destruição do mundo – tal qual “Flow”, aliás. No ano 2075 de “Arco”, os robôs – que remetem ao maravilhoso “Robô Selvagem” – estão inseridos na vida em sociedade, dando aulas para seres-humanos, assumindo postos de trabalho e auxiliando no serviço de casa, entre outras coisas. As casas, aliás, são protegidas por cúpulas contra tempestades e incêndios, como se cada moradia fosse um pequeno mundo particular. E é nesse cenário que Arco e Iris irão viver uma aventura emocionante que irá influenciar o modo como a humanidade viverá no futuro. Os nomes dos personagens não foram escolhidos a toa: o cartaz original do filme estampa a frase “E se os arco-íris fossem pessoas do futuro viajando no tempo?” Em seu primeiro filme, Bienvenu constrói uma animação delicada, sem grandes ousadias, mas cujo roteiro não subestima a inteligência do espectador (seja ele criança ou adulto). Entre as referências, “Arco” lembra tanto a obra do cartunista francês Moebius quanto os primeiros filmes do Studio Ghibli, mas, ainda que não esteja pisando em um território totalmente novo, Ugo Bienvenu conseguiu criar uma fábula de muita personalidade e uma das animações mais belas e tocantes da temporada – merecidamente indicada ao Oscar. Para ver, se emocionar e se manter atento ao presente.

Nota: 9


“A Pequena Amelie”, de Maïlys Vallade e Liane-Cho Han (2025)
A escritora Amélie Nothomb nasceu em Bruxelas, na Bélgica, em 1966, mas afirma, de maneira metafórica, ter nascido em Kobe, no Japão em 1967, local em que viveu com seus pais dos dois aos cinco anos de idade. Não a toa, na autobiografia ficcional “A Metafisica dos Tubos”, de 2003, ela narra que nasceu de maneira vegetativa e só “acordou do coma” aos dois anos, após um terremoto no Japão, como se sua vida só tivesse começando realmente no Oriente. É esse best-seller que as diretoras Maïlys Vallade e Liane-Cho Han adaptam em “A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva” (“Amélie et la métaphysique des tubes”, 2025), animação também indicada ao Oscar 2025 – vencido pelo imperdível hit “Guerreiras do K-Pop”. De um prólogo meio truncado focado na sensação de ser Deus da pequena Amelie vegetativa (algo que pode tanto ilustrar uma ideia mágica de força quanto uma sensação de centro do mundo típica da primeira infância), o roteiro mergulha nas experiências – que nortearão o filme – de uma pequena criança europeia, do Ocidente, construindo seu repertório de mundo no Oriente. Entram em cena, então, a avó, que consegue domar a criança com chocolate branco belga (sua primeira conexão com a terra natal), a governanta japonesa que cuida da casa (e com a qual Amelie criará um forte laço emocional) e a senhora dona do imóvel alugado pelos pais da garotinha, uma mulher sofrida marcada pela perda do filho na guerra, e para qual os estrangeiros são os culpados por sua dor (e não se deve confiar neles). Tanto cenas de cotidiano entre irmãos como também experiências de quase-morte, que irão marcar para sempre a vida da pequena garotinha, ajudam a construir as memórias de Amelie. O visual do filme. como não poderia deixar de ser numa representação japonesa do pós-guerra, remete (assim como “Arco”) ao trabalho do Studio Ghibli, mas o tom levemente dramático adotado pelo roteiro, que cria certo suspense em algumas passagens tanto quanto representa uma Amelie intensa em sua noção infantil de importância e sabedoria, faz com que “A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva” soe mais denso do que ele realmente é, deixando uma sensação dolorida mesmo diante de um final feliz. É um filme curioso e bonito sobre a beleza das diferenças de culturas visto pelos olhos de uma criança.

Nota: 7


“Eu e Meu Avô Nihonjin”, de Celia Catunda (2025)
Do porto de Kobe, no Japão (cidade que também abriga “A Pequena Amelie”), começa a história (de parte da imigração japonesa e) de “Eu e Meu Avô Nihonjin”, bela animação brasileira disponível na Prime Video (após uma temporada nos cinemas) inspirada no romance “Nihonjin” (2011), primeiro livro do brasileiro de ascendência japonesa Oscar Nakasato, vencedor do Prêmio Jabuti na categoria Romance Literário em 2012. Com roteiro de Rita Catunda e direção de Celia Catunda (também responsável pelo ótimo “Tarsilinha”, de 2022, além de “Peixonauta” e “O Show da Luna”), “Eu e Meu Avô Nihonjin” (nihonjin significa japonês – de nacionalidade – em japonês) se passa nos anos 1980 em São Paulo e apresenta Noburu, um garoto de 10 anos que tem um trabalho de escola para fazer: descobrir as raízes e origens de sua família. Para tanto, sua mãe recomenda que ele converse com seu avô, Hideo, o que torna a tarefa ainda mais desafiadora, pois o avó ranzinza de Noburu não apenas não gosta de falar do passado como insiste que o neto siga as tradições nipônicas dentro de sua casa – para desespero do jovem rapaz. Temos, então, um choque de culturas em curso, que, na verdade, começou muitas décadas antes, quando Hideo aportou no Brasil com sua primeira esposa sonhando em ficar rico plantando café para voltar para sua amada terra natal. O que ele encontrou, no entanto, foi exploração de mão de obra barata, preconceito e xenofobia, entre outros problemas, e tudo isso aparece de maneira sutil na trama de “Eu e Meu Avô Nihonjin”. Em sua adaptação, Rita transforma o romance adulto de Nakasato em uma história infanto-juvenil, mas não deixa de pontuar os temas sérios do livro em um roteiro que segue um padrão clássico de formato, e só peca pela desenrolar acelerado do final. Animação desenhada a mão inspirada na obra de Oscar Oiwa (com alguns de seus quadros emoldurando cenas do filme) com trilha sonora assinada por Marcio Nigro e André Abujamra, “Eu e Meu Avô Nihonjin” é um filme bonito sobre memória, família e culturas.

Nota: 7

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.



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