Entrevista: “A gente viveu muita coisa junto”, diz Felipe Andreoli sobre reunião do Angra no Bangers Open Air

entrevista de Paulo Pontes

Poucos discos do metal brasileiro carregam o peso simbólico de “Rebirth”. Lançado em 2001, o álbum marcou uma nova fase do Angra, além de ter angariado novos fãs e reforçado a base “antiga”. Mais de duas décadas depois, os músicos responsáveis por aquele capítulo vão voltar a dividir o palco, desta vez em um encontro especial no Bangers Open Air, ao lado da formação atual do grupo.

Ou seja, a apresentação no Bangers reunirá no mesmo palco a formação Nova Era que marcou a fase do renascimento da banda em “Rebirth”, com Edu Falaschi (vocal), Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt (guitarras), Felipe Andreoli (baixo) e Aquiles Priester (bateria) dividindo o palco com os atuais integrantes do grupo, Bruno Valverde (bateria), Marcelo Barbosa (guitarra) e Alírio Netto (vocal) além de Fabio Lione (vocal) como convidado – apenas Rafael e Felipe integram as duas formações.

O anúncio da reunião rapidamente transformou o show em um dos momentos mais aguardados do festival (e do ano, pro headbanger tupiniquim). Afinal, não estamos falando apenas de um show para revisitar um disco clássico, mas de ver novamente juntos músicos que ajudaram a redefinir o rumo da banda (e por que não do metal nacional) no início dos anos 2000.

Tudo isso acontece em um momento curioso da trajetória do Angra. No fim de 2024, o grupo anunciou um hiato por tempo indeterminado depois de anos de atividade intensa. Mas o convite para ser o grande headliner do maior festival de metal do Brasil abriu espaço para uma reaproximação entre integrantes que há tempos não dividem o palco.

No centro dessa movimentação está o baixista Felipe Andreoli. Integrante da banda desde a era “Rebirth”, ele foi uma das peças-chave nas conversas que levaram à reunião. O convite para o Bangers acabou funcionando como catalisador para acertar arestas, retomar contatos e transformar a ideia em realidade.

Nesta entrevista ao Scream & Yell, Andreoli fala sobre os bastidores dessa reconexão, os preparativos para um show com nove músicos no palco, a montagem do setlist e o que realmente significa (ou não) o tal hiato do Angra neste momento.

Cara, pouco mais de um mês pra rolar o Bangers. Como estão os preparativos? Como está o coração pra esse momento histórico?
Ah, os preparativos estão a todo vapor. Porque são muitos e muitos detalhes. São nove músculos no palco e muita coisa pra acertar, sabe? Muitos detalhes técnicos de entradas e saídas, de logística, de afinação, setlist… São muitas decisões a serem tomadas sobre palco, sobre equipes, infinidade de coisas. Então a gente está bastante envolvido nisso pra fazer um super show. E muito ansiosos e felizes por esse momento. Depois de tantos anos, realizar essa reunião e ter em cima do palco aqueles cinco caras que eram a banda quando eu entrei, junto com a formação atual, que também é muito importante pra gente.

Você falou de setlist, e como que define o setlist com nove pessoas?
Basicamente eu vim com uma sugestão, e aí eu fui validando essa sugestão com os diferentes envolvidos, até a gente chegar num setlist que agradava todo mundo.

Bom, primeiro era uma banda em hiato que estava com um show especial no Bangers. Depois era uma banda em hiato confirmada no Porão do Rock. Agora já tem um show marcado em Paris pra celebrar o “Holy Land”. É uma banda em hiato com três shows especiais ou já dá pra cravar que o hiato acabou?
Cara, eu não estou muito preocupado se está em hiato ou não. Eu acho que a nossa intenção é fazer tudo aquilo que a gente acha legal. A gente está em hiato pra várias coisas: a gente não vai pensar em disco, não vai pensar em nada novo, por enquanto. A gente não está planejando um ano normal de trabalho, mas enquanto surgirem coisas bacanas, que a gente tem vontade de fazer, a gente vai fazer. Agora, há também que se dizer que as circunstâncias em que a gente anunciou esse hiato eram muito diferentes, no fim de 2024, do que as circunstâncias são hoje. E eu acho que seria muita tolice se prender a uma decisão de um ano e meio atrás e deixar de fazer coisas este ano porque você falou que estava em hiato, entendeu? Eu não entendo muito quando tem gente que fica: “Mas e o hiato? Mas e o hiato?”. Tá, mas vocês querem que a gente fique parado, é isso? Só pra entender.

Na verdade, acho que os fãs não querem mais esse hiato, então acho que é até pra ter essa certeza de que, “poxa, estamos aí, vamos marcar mais coisas e vai rolar”.
Cara, tudo que a gente tiver vontade de fazer, que forem boas propostas, que forem coisas que todo mundo fala “Vamos!”, a gente vai fazer. Agora, se eu te disser que é vida normal pra banda, não, a gente está realmente preservando um certo descanso, uma certa tranquilidade, até o momento que a gente fala, “Não, vamos lá!”. A gente nunca disse: “Vamos ficar parados cinco anos, vamos ficar parados seis meses”… a gente nunca falou um prazo. Então é assim, quando todo mundo estiver afim, estiver pronto, vamos.

O seu incômodo sobre a situação que rolava ali com os integrantes, com esse afastamento, de certa forma, foi algo fundamental pra essa reaproximação e pra essa reunião também, né?
É, o incômodo é o que te faz se mexer, né, pra transformar essa situação. Ficar incomodado e ficar parado no lugar não resolve nada. Então, eu acho que essa atitude de tipo, “cara, vamos resolver essa parada”. Não faz mais sentido isso. Talvez nunca tenha feito, ou talvez tenha feito por um tempo e esse tempo já ficou no passado. Mas o importante é que é essa insatisfação que faz você se mexer e tomar alguma atitude. Foi o que aconteceu comigo.

Rolou um churrasco recentemente do Bangers, onde vocês puderam, quase todos, na verdade, se encontrar, se reunir. Como foi isso? Foi bom pra já quebrar o gelo?
Bom, a quebra de gelo foi mais pros caras, do que pra mim. Eu já tinha encontrado o Aquiles, já tinha encontrado o Edu, enfim, estava muito bem com isso. O Rafa já tinha encontrado o Edu uns dias antes do churrasco. O Kiko fazia muito tempo que não encontrava o Edu, mas eles já tinham se falado no telefone. Cara, foi uma coisa muito tranquila, muito natural, sabe? É engraçado, você trabalha muito tempo com uma pessoa, parece que você nunca se afastou. Quando volta, parece que, depois de poucos minutos a coisa já está meio que normal. É muito engraçado. A gente fica muito à vontade perto um do outro. A gente viveu muita coisa junto, fez muita coisa junto. Então não sinto essa estranheza, que poderia acontecer, mas não rolou.

E como rolou esse convite pro Bangers? Quando rolou, vocês já tinham se falado, a aproximação entre o Rafael e o Edu já tinha acontecido ou não? Isso foi muito por conta do Bangers também?
Foi uma cadeia de eventos. Primeiro rolou um acerto com o Edu e com o Aquiles, que eu intermediei. Aí rolou aquela foto do Bangers do ano passado, onde eu encontrei com o Edu e com o Aquiles. Depois disso, um mês depois, veio o convite. E esse convite foi o que deu realmente o pontapé pra esses acertos finais. Mas assim, de tudo que vinha acontecendo, quando o Edu e o Aquiles receberam a proposta do Bangers, eles já deram um ok. E isso já mostrou pra gente que existia uma situação favorável pra isso acontecer. Se eles tivessem ficado muito reticentes, a gente ia achar que de repente não era pra ser. Mas como já veio com um aceite deles, isso já deu a tranquilidade de que a gente estava no caminho certo. Depois foi mais acertar a mão entre todos pra definir o aceite total da banda. Claro, a gente conversa com todo mundo, a gente conversou também com os membros atuais da banda, pra ver como todo mundo se sentia com essa situação. Foram muitas conversas. A gente fez isso com cuidado pra não passar o carro na frente dos bois, e tomar uma decisão precipitada. Então a gente consultou todo mundo e fez a coisa de uma forma que todo mundo fique o mais confortável possível.

Bom, quero desejar pra vocês um excelente show. O Scream & Yell vai estar lá nesse momento histórico. Pra mim, que sou cria do “Rebirth”, que comecei a ouvir metal melódico, power metal, prog, por causa desse disco, e eu não tive essa oportunidade de ver essa formação naquele momento, vai ser único. Acho que quem ganha é o fã, é o metal nacional, e é sempre bom a gente ver essa reaproximação. Que mais pessoas tenham essa maturidade de resolver as coisas do passado de lado.
Boa! Obrigado, Paulo! A gente se vê lá, então. Valeu!

– Paulo Pontes é colaborador do Whiplash e escreve de rock, hard rock e metal no Scream & Yell. É autor do livro “A Arte de Narrar Vidas: histórias além dos biografados“.

 



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