Três filmes: “Blue Moon”, “Sonhos de Trem”, “A Voz de Hind Rajab”

textos de Marcelo Costa

“Blue Moon”, de Richard Linklater (2025)
É 31 de março de 1943, noite de estreia de “Oklahoma!”, musical teatral que Richard Rodgers criou com Oscar Hammerstein II. Em um bar clássico novaiorquino, o ex-colaborador de Rodgers, Lorenz Hart, está prestes a mergulhar em uma noite naufraga em pleno território inimigo. Com 48 anos, alcoólatra, boêmio e notadamente gay – ainda que se assuma ambissexual –, Hartz escreveu, ao lado de Rodgers, clássicos eternos do quilate de “My Funny Valentine” e “Blue Moon”, mas foi deixado de lado pelo ex-parceiro, cansado de lidar com sua falta de compromisso e seus excessos. No bar Sardi’s, uma espécie de Rick’s Café da Big Apple (com Bobby Cannavale, de “Boardwalk Empire”, perfeito como barman), local que receberá a trupe teatral para comemorar a estreia da peça, Lorenz Hart espera se reaproximar de Rodgers (Andrew Scott, o padre de “Fleabag”), mas não só: ele também marcou um encontro com uma paixonite platônica com quem se corresponde, a jovem de 20 anos Elizabeth Weiland (Margaret Qualley), e espera confirmar o romance nesta noite inglória. Fãs de cinema vão reconhecer a mão de Richard Linklater (“Boyhood“, “Antes do Amanhecer”, “Antes do Por-do-Sol”, “Antes da Meia-Noite“) com dois minutos de projeção, afinal a verborragia deliciosamente poética que sai da boca de Hartz, numa atuação absolutamente merecedora da indicação Oscar de Ethan Hawke (quase irreconhecível na caricatura), é tão característica do diretor que encanta. Por cerca de 100 minutos, com roteiro assinado por Robert Kaplow, inspirado na correspondência trocada entre Hartz e Elizabeth, nosso anti-herói irá desfilar frases mordazes, sábias e apaixonadamente impagáveis sobre música, teatro, cinema, amor e vida, milésimos de segundo antes do declínio, em um filme totalmente teatral, e maravilhoso. Belo (baixinho, quase careca, genial, solitário) e maldito, Lorenz Hart ganha um retrato melancólico e encantador em “Blue Moon”, um dos dois filmes que Linklater lançou em 2025 (o outro é o também altamente recomendável “Nouvelle Vague”), ambos esnobados pelo Oscar, num daqueles pecados históricos da Academia, afinal é inaceitável uma bobagem (de bom som) como “F1” estar na categoria principal e “Blue Moon” não. Não cometa o mesmo erro e de toda a atenção que essa pequena joia chamada “Blue Moon” merece, pois estamos diante de um dos filmes mais especiais dessa temporada.


“Sonhos de Trem”, de Clint Bentley (2025)
Robert Grainier (Joel Edgerton) é um homem comum. Órfão, abandonou os estudos e, para sobreviver, se entregou ao trabalho braçal atuando como lenhador e operário ferroviário, derrubando árvores, fixando trilhos e construindo pontes para que trens possam cortar a imensidão dos Estados Unidos no início dos anos 1900. É um trabalho solitário, de pouca conversa e muitas viagens, algo que se conecta com o cotidiano estoico do personagem até que ele conhece Gladys (Felicity Jones) e se apaixona. Eles constroem uma casa de madeira às margens de um rio e de uma floresta em Idaho, têm uma filha e a vida ganha significado. Robert, no entanto, precisa passar longos períodos longe de suas garotas, indo atrás do trabalho aonde o trabalho está para conseguir dinheiro para cuidar delas, e essa ausência já cria um drama na cabeça do espectador, que espera (sempre) o pior. A relação familiar, ainda que marcante, não é o que norteia “Train Dreams”, pois o diretor Clint Bentley (que assina o roteiro ao lado de Greg Kwedar, inspirado no livro homônimo de Denis Johnson lançado em 2011) parece mais interessado em fazer um delicado estudo de personagem, acompanhando-o de sua adolescência até sua morte enquanto medita sobre as belezas e tristezas da vida. Bentley conduz com delicadeza essa pequena joia bruta chamada “Sonhos de Trem”, ancorado em uma fotografia fabulosa do brasileiro (e corintiano) Adolpho Veloso, merecidamente indicado ao Oscar. Em um filme nitidamente inspirado em Terence Mallick, Adolpho Veloso constrói fotos belas, poéticas e surpreendentes que emolduram a saga de Robert – assombrado por pesadelos e culpa – por um mundo que pode ser maravilhoso num momento e violentamente cruel no seguinte, transformando o purgatório em poema. Com quatro indicações ao Oscar (Melhor Filme, Melhor Fotografia, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção para “Train Dreams”, de Nick Cave – outro homem que caminha entre fé, esperança e carnificina – e Bryce Dessner, do The National, responsável pela trilha sonora), “Sonhos de Trem” é uma agradabilíssima surpresa. Como a vida, como a vida.


“A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania (2025)
Presente na categoria Melhor Filme Internacional do Oscar 2025 ao lado de “Agente Secreto”, “Valor Sentimental”, “Sirat” e “Foi Apenas Um Acidente” (outro que, assim como “Blue Moon”, merecia ocupar o posto do blockbuster “F1” na categoria principal) “Ṣawt Hind Rajab” pode ser analisado por dois prismas completamente antagônicos. No primeiro, o da mensagem, o filme de Kaouther Ben Hania que recria as horas dolorosas em que uma garotinha de seis anos presa por horas num carro alvejado – entre os corpos de primos e tios mortos – por centenas de tiros do exército israelense em Gaza conversa com funcionários da equipe do Crescente Vermelho Palestino, organização que tenta negociar seu resgate, é tão perturbador quanto necessário. Tendo como fio condutor a voz original da pequena menina indefesa clamando por socorro enquanto se ouve tiros ao fundo, “A Voz de Hind Rajab” é daquelas obras que revoltam o espectador pelo nível de crueldade da história, em particular, e da guerra, como um todo. Trata-se de um filme que precisa ser ouvido, pois o horror do mundo em pleno século 21 necessita ser encarado de frente. Por outro lado, “A Voz de Hind Rajab” não pode deixar de ser avaliado como obra cinematográfica, em que o caráter documental da narrativa e sua questão moral surgem emoldurados num drama que se ancora, mais do que na voz de Hind, na carga de frustração e desespero crescente induzida aos personagens, impotentes diante da burocracia e, por conseguinte, da tragédia iminente, enquanto reforçam verbalmente aquilo que a voz da garota exterioriza, numa busca por aumentar a tensão e o suspense da narrativa. Dessa forma, “A Voz de Hind Rajab” é um documento importante, mas um filme que se desgasta conforme os minutos passam afundando personagens e público em frustrações e questões que tomam a frente do roteiro enquanto a garotinha… agoniza. Ao contrário dos outros quatro concorrentes, que tiveram, cada um, seu momento de (maior ou menor) favoritismo na categoria, o filme de Kaouther Ben Hania têm na exposição de sua indicação sua maior vitória (como também é uma ferramenta que permite a Academia se posicionar diante de temas politicamente complexos). Entre um e outro, a imagem de Hind Rajab, de tiara e sorriso, é gravada na memória. Impossível esquece-la…

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.





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