Entrevista: Chris Ballew fala de seu disco solo e relembra projetos com Beck, Mark Sandman e The Presidents of the USA

entrevista de Heberton Barreira

Deitado no sofá, com a cabeça apoiada em um travesseiro e alegando dores nas costas, de boné, camisa quadriculada e jeito de moleque, Chris Ballew, aos 60 anos, pede desculpas por não estar sentado, mas faz questão de responder a todas as perguntas com fluidez e atenção aos detalhes. O coelhinho já não salta pelo palco como nos anos 90. Mas o menino dos sapatinhos fofinhos continua vivo nas mãos de quem sempre transformou a própria profissão em uma espécie de música de brinquedo.

Ballew parece destinado aos duos. Tocou como músico de rua em Boston ao lado do amigo Phil Franklin, com quem formou o Egg. Mais tarde, criou o Supergroup com Mark Sandman, de quem herdou as ideias minimalistas. Depois de um período acompanhando Beck — com quem chegou a dividir um apartamento em Los Angeles e também a formar um duo por algum tempo —, voltou a Washington e montou o The Presidents of the United States of America com dois amigos: o guitarrista Dave Dederer e o baterista Jason Finn. Em suas palavras, “uma banda de três patetas tentando fazer rock and roll”. O grupo encerrou as atividades em 1997, retornou em 2002 — em parte graças a Krist Novoselic —, mas a reunião durou pouco e se limitou a apresentações esporádicas.

Depois de pendurar a gravata de presidente — posto que rendeu seis álbuns — e de gravar 19 discos vestindo as calças de bebê do Caspar Babypants em um prolífico intervalo de 11 anos, o coelho parece cansado e decidiu armar a rede de flanela para descansar em sua velha e cinzenta Seattle. Permanece, porém, na retina de uma geração sua imagem franzina e empolgante: dançando, com as mãozinhas em gingado, no clipe de “Peaches”; saltando e posando em silhueta com o baixo de duas cordas em “Lump”, síntese do estilo que ele próprio batizou de funge — fusão de fun e grunge —, termo que lamenta não ter lançado à época do Presidents.

Seu último trabalho, “Starting To Get Light” (2026), integra uma sequência de lançamentos semestrais e manifesta seu amor por jams psicodélicas, groovadas e aconchegantes. A delicadeza nas minúcias que relembra, somada à ternura do olhar, revela um Chris Ballew paciente, quase zen, que ainda gosta de evocar as marcas na madeira do piano deixadas pelo menino de dois anos que batia nas teclas com um martelo.

As mãos que se movimentam para completar as próprias palavras são as mesmas que continuam presenteando o público que o acompanha de perto. Os álbuns dessa fase atual — assim como os de projetos como The Giraffes, Sampladelic e Egg — estão disponíveis nas plataformas e também em seu site para quem quiser baixar e ouvir.

Embora tenha alcançado, em certo momento, o topo da montanha com os Presidents nos anos 90, seguiu com seus projetos paralelos, ouvindo sua voz interior para trilhar em vales menores, apenas para aproveitar a estrada, relaxar e assim, ficar. Leia a conversa e ouça o disco abaixo.

Ontem eu estava tirando um cochilo, acordei, coloquei meus “Puffy Little Shoes” (sapatinhos fofinhos) (risos), abri o Instagram — e de repente o The Presidents estava de volta na SiriusXM. Aí percebi que era o Presidents’ Day nos EUA. Foi uma reunião pontual? Vocês chegaram a tocar ao vivo?
(risos) Não. Não exatamente. A gente só assumiu a programação da rádio, tocando algumas músicas dos anos 90 e coisas assim. Mas hoje em dia a gente se reúne mais pra almoçar e falar de dinheiro. Não fazemos música. Então…

Ah, que pena! Mas valeu a tentativa (risos). Só uma coisa antes de começar: Go Hawks?
Claro! A gente foi lá e ganhou tudo. Foi demais. Fui a uma festa de Super Bowl bem divertida com um monte de amigos. E teve uma hora em que o outro time, os Patriots, estava com a bola e antes da jogada começar eu meio que falei: “Intercepção! Intercepção! Intercepção!” Falei em voz alta sete vezes. E o cara dos Patriots lançou uma interceptação. Os Seahawks pegaram a bola naquela jogada. Então eu “previ” a jogada — foi muito legal.

Foi demais. Então, vamos começar… Você já lançou dez discos solo — “Starting To Get Light” é o mais recente — e descreveu essa fase como se estivesse sendo movido pelo seu amor por aquelas jams psicodélicas cheias de fuzz, e groovadas. O que essa sequência de discos está te permitindo explorar que nem o The Presidents nem o Caspar Babypants realmente permitiam?
Essa música que estou fazendo agora é, antes de tudo, muito relaxante. Estou fazendo pra mim e pra quem quiser ouvir. Na maioria das vezes faço esses álbuns porque quero escutá-los. Estou pegando músicas antigas que estavam inacabadas. Algumas dos anos 80. Ideias velhas que foram muito mal gravadas, mas a intenção é boa, algumas letras são boas, algumas melodias são boas e alguns timbres também. Então tenho pegado pequenos pedaços dessas músicas antigas e terminado elas, o que é muito divertido. Sem pressão nenhuma, só bons momentos. Sinto que estou no auge da minha capacidade técnica. E eu simplesmente gosto de fazer algo com as mãos. É meio que pra não ficar entediado que estou fazendo isso — que foi muito do motivo pelo qual formamos bandas nos anos 90: só pra não ficar entediados.

E ao mesmo tempo você tem mergulhado mais nas artes visuais — desenhar te dá um tipo de imersão diferente do que a música proporciona?
Faz alguns anos que não desenho. É engraçado, isso vai e volta. De vez em quando fico super inspirado e desenho loucamente, com um estilo totalmente novo e tudo mais — bem, não totalmente novo, mas levo pra direções diferentes. Mas agora estou totalmente focado na música. Mas a arte é divertida. Muita coisa vem quando estou meditando, fazendo yoga ou respirando profundamente, pensando na consciência e no presente de estar vivo. E de alguma forma essas pequenas formas, ideias e personagens entram em foco durante essas sessões. Aí eu desenho pra lembrar daquela sensação ou daquela ideia por trás — ideias sobre consciência, sobre ser humano, estar vivo e eventualmente morrer — todo esse tipo de coisa deliciosamente divertida.

Você já descreveu o Mark Sandman, do Morphine, como um mentor — vocês tocaram juntos no Supergroup — e aquele momento em que ele te enviou a guitarra de duas cordas hoje parece quase simbólico. O que você acha que ele estava te passando com aquilo?
Acho que a ideia de que menos é mais — ou de que menos já é suficiente. Quando eu andava com o Mark meu estilo era cheio de palavras, composição super densa, muita atividade, bing bing bing bing, eu era tipo um coelhinho maluco pulando no palco, e o Mark era muito parado e centrado. Acho que ele estava me dizendo: “calma, fica um pouco mais na sua, mais suave”. Mas não funcionou. Eu saí e formei o Presidents e fiquei pulando como um coelho por anos (risos). Mas ele também me deu o presente do minimalismo, que eu amo.

Então você ainda sente a influência dele quando reduz tudo ao mínimo?
Com certeza. Quando estou gravando, muitas vezes coloco coisa demais — sintetizadores, bateria, violinos, guitarras, baixos, banjos e tudo mais — e depois começo a tirar. Muto as faixas e faço o que chamo de ‘mute party’. E é aí que a música ganha vida. Esse tipo de minimalismo é muito divertido.

Supergroup: Mark Sandman na guitarra e Chris Ballew no baixo

Você saiu em turnê com o Beck bem no começo, quando tudo ainda estava se formando. O que aprendeu observando ele de perto?
Nossa, muita coisa! Eu era o único da banda que não morava em Los Angeles, então ele deixou eu morar com ele. A gente virou meio que um duo por um tempo. Saíamos juntos pra fazer rádio — se ele tinha uma sessão numa rádio eu ia junto com meu banjinho e a gente tocava. Dirigíamos muito conversando sobre por que achamos que a música é importante e o que era bom e ruim no estado da música naquela época, em 1994. Mas principalmente, a criatividade dele era tão intensa e incrível que eu não entendia como ele conseguia acessar tanta inspiração tão rápido. O que ele fazia era puxar de tradições antigas — blues, folk — coisas atemporais — e colocar as colagens líricas modernas e as ideias surrealistas dele em cima de formatos musicais antigos e sólidos. Depois, quando fiz o Caspar Babypants, fiz meio que a mesma coisa. Ouvi folk antigo, cantigas de ninar, cantigas infantis e atualizei com minha própria perspectiva. Aprendi isso com o Beck — só fui entender anos depois.

Então — “funge” é fun grunge, certo? Eu vi você falando disso numa entrevista no YouTube. Quais bandas você colocaria nesse mesmo estilo?
Eu queria ter pensado em “funge” lá em 1994. Teria sido incrível (risos), porque perguntavam pra gente o tempo todo: “ok, isso foi grunge… então o que vocês são?” E a gente respondia: “Não sei!” (risos). A gente falava bastante sobre como viemos da tradição musical que existia antes do grunge, que era o party rock de Seattle. Tipo The Kingsmen, The Sonics, The Wailers (The Fabulous Wailers), Young Fresh Fellows, Paul Revere and The Raiders… E não me entenda mal: eu amei a explosão do grunge. Amei a música, amei o Nirvana. Nirvana era o nirvana pra mim. Na verdade, eu estava tentando fazer música tipo Nirvana antes de o Nirvana aparecer. Eu tinha uma guitarrinha de quatro cordas, botava distorção e tentava capturar alguma coisa. Aí saiu “Nevermind” e eu só pensei: “Ah, isso aí é muito melhor do que o que eu estava tentando fazer. Vou só ouvir isso.” A gente era diferente, mas o Kim Thayil do Soundgarden era um grande fã do Presidents. Ele ia a todos os shows. Eu tinha a sensação de que ele meio que defendia a gente pra galera do território do grunge, como uma banda que realmente tinha talento e se importava com o que estava fazendo. Ele acabou tocando guitarra no nosso disco de estreia. Então tivemos um grande endosso de um ícone do grunge.

Beck e Chris Ballew no Cafe Troy, em Los Angeles, 1994

Você e o Dave Dederer têm aquela história clássica do ensino médio — você disse que ele era o cara descoado e você o nerd de cabelo tigelinha (risos). Você sentiu que essa dinâmica virou?
É bem verdade. (risos) O Dave era muito mais cool do que eu. Com certeza. Eu era totalmente invisível, ninguém mesmo, até começar a tocar piano nos shows de talentos da escola e tal, e aí as pessoas começaram a pensar: “Peraí… que história é essa desse garoto?” Mas o Dave era tipo: ele tinha um black loiro, cabelo cacheado, era todo sarado, e ia escalar rochas e tocar rock and roll na guitarra e tudo mais. Ele parecia um nível cool absolutamente inalcançável (risos).

Você começou no piano aos quatro anos, né?
Sim, comecei a ter aulas de piano aos quatro. Antes disso eu batia no piano com um martelo, quando tinha uns dois anos. Eu ficava martelando, martelando… e depois, quando tinha quatro, cinco, seis anos e estava praticando, via todas as marcas no piano do martelo que eu tinha usado. Comecei a martelar o piano aos dois, mas a tocar de verdade aos quatro.

Esse garoto ainda está nas suas mãos quando você toca?
Ah, essa é uma ótima forma de colocar. Gostei disso: “nas minhas mãos”. Sim, acho que ele está lá, principalmente hoje em dia, porque estou experimentando, batendo em coisas estranhas e tentando inventar maneiras de fazer a bateria soar como bateria sem ser bateria. Acho que o garoto ainda está nas minhas mãos. Gostei disso. Talvez eu roube pra uma letra (risos).

Tem aquele texto do Ira Robbins na Trouser Press que chama a banda de “instantaneamente pegajosa e massivamente irritante” (risos). Ele chega a citar a banda como um misto do funk visceral do Spin Doctors com a extravagância dadaísta do They Might Be Giants. Hoje você lê isso como elogio?
Tudo bem. Acho que jornalistas de música, especialmente naquela época, tinham um tom meio blasé, tipo: “Já vi de tudo, não te conheço, me impressione”. Sabe? “Aqui estamos agora, nos entretenha.” Eu adoro essa frase do Nirvana porque é meio esse jeito passivo e entediado de interagir com a criatividade dos outros. No fim das contas isso não me incomoda. Recebi um conselho muito bom da Madonna — de todas as pessoas — ela disse: “Não fique esperando aclamação da crítica pelo que você faz, porque sua banda é divertida e engraçada. E apesar de todo o trabalho que você coloca na sua arte, você não vai ser reconhecido por causa da natureza da sua música, que é divertida e pra cima.” Então eu segui esse conselho e coisas como essa não me incomodam nem um pouco.

Como foi, de fato, sair da banda naquele momento?
Na verdade, acho que não estávamos no auge quando saí. Foi em 1997. Tínhamos lançado o segundo disco e ele não foi tão bem quanto o primeiro, e ainda estávamos em turnê e tudo mais, mas não era tão intenso quanto antes. Então eu saí num pequeno vale, não num pico (risos). Eu queria sair no auge — pensei que talvez pudéssemos ser tipo os Sex Pistols e fazer um disco incrível e desaparecer — mas foi tentador demais seguir pela Estrada de Tijolos Amarelos (risos).

Quando vocês voltaram em 2002 — como foi reaprender fisicamente aquelas músicas? E o Krist Novoselic teve mesmo culpa nessa reunião?
Teve, sim. Durante os cinco anos em que ficamos separados fizemos um disco do Presidents chamado “Freaked Out and Small”. Fizemos um vídeo com uma performance de cada música com o Duff McKagan, do Guns N’ Roses, no baixo — então ele é tipo o quarto Beatle (risos). O quarto President. E formamos uma banda e fizemos um disco com o rapper Sir Mix-a-Lot. Mas aí as pessoas começaram a perguntar: “Bem, vocês voltariam pra uma reunião?” E a gente respondia: “Não.” Só que quando o Krist pediu pra gente tocar com ele — ele ia receber um prêmio num evento da National Academy of Recording Arts and Sciences pelo ativismo político — ele precisava de uma banda e chamou o Presidents. Tocamos quatro músicas. Foi muito divertido. Foi a primeira vez que dissemos sim, mesmo não sendo exatamente um show do Presidents. Depois pensamos: “Sabe de uma coisa? Está na hora.” E marcamos um show de reunião para o Ano-Novo de 2002. Ensaiar foi incrível, porque eu tinha esquecido onde colocar as mãos, como cantar as músicas… tive que reaprender tudo. E enquanto reaprendia pensava: “Meu Deus, eu amo essas músicas!” (risos). Eu as ouvi sem a pressão associada a elas, sem toda aquela intensidade que a experiência de ser contratado e fazer turnê trazia, que tinha ido embora. E eram só as músicas. E eu amo essas músicas. Foi como estar na melhor banda cover do Presidents do mundo.

Aquele documentário da HBO, “Happy and You Know It”, lançado no final de 2025, tem sua participação destacada ali, como um cara que veio de uma banda alternativa dos anos 90 e se aventurando no mundo de músicas infantis, como o Caspar Babypants. Você fala sobre a capacidade que a música tem em criar um vínculo entre gerações, música para divertir crianças e adultos. Olhando pra trás — o Presidents já fazia isso sem perceber?
Acho que sim. Eu sempre, acho que na composição, eu tendo a buscar a inclusão, incluir todas as pessoas, independentemente da idade. Consigo imaginar crianças pequenas gostando do Presidents. E ouço de adultos que deixam os filhos na escola e continuam ouvindo Caspar Babypants. Sem pensar muito sobre isso, eu simplesmente considero toda a humanidade, todas as idades.

O público infantil te ensinou a enxergar algo em você que antes você não conseguia?
De certa forma, porque, por alguma razão, sempre tive esse impulso de fazer música que fosse transparente no sentido de mostrar honestamente quem realmente sou. Primeiro tive que descobrir quem eu era, e depois fazer música sem nenhuma pretensão. Só entendi isso quando o Caspar surgiu. Eu costumava dizer que o Presidents era um planeta: o núcleo era a inocência, e a camada externa era a insinuação adulta. Funcionava por causa do atrito entre os dois. Com o Caspar eu tirei a camada adulta e ficou só o núcleo inocente. E pensei: “esse sou eu de verdade.” Tocar para crianças me fez sentir que cheguei ao fim de uma jornada de vida em direção à transparência.

Na mesma época do lançamento do primeiro disco do Presidents, aqui no Brasil aconteceu um fenômeno: os Mamonas Assassinas — uma banda totalmente irreverente, pura comédia — e as famílias amavam. A banda foi abraçada por crianças e adultos. A história é trágica — eles morreram num acidente de avião em março de 1996 — mas as músicas ainda carregam essa sensação de brincadeira quando tocam. Era alegria coletiva, humor de quinta série, sem limites (risos). Como você vê o humor funcionando na música que une gerações?
Eu sinto que, se eu não fosse músico, minha profissão dos sonhos seria a de comediante de stand-up, porque é algo extraordinário. O humor e a risada — quando as pessoas recebem algo engraçado — quebram o cérebro delas por um segundo. Dão um instante de iluminação em que elas não estão preocupadas consigo mesmas, com o ego, com dores, com as fricções do mundo. Naquele momento em que você ri de algo engraçado, você é um Buda. Você está iluminado (risos). É só um segundo, mas está lá.

E eu tenho três comediantes que amo: Mitch Hedberg, Steven Wright e Emo Philips. Os três criam realidades e depois quebram sua mente. É maravilhoso. Então acho que o humor é muito importante porque também é multigeracional, atravessa linguagem, atravessa tudo. É lindo.

No filme tem uma parte em que um cara diz que não queria ser o pai cool — tipo: “Aqui, filho, isso é Captain Beefheart.” Quando você vira pai, se rende a esse universo infantil e de repente percebe que está ouvindo folk o tempo todo. E claro, não tem como escapar da Disney.
Sim (risos).

Um dia eu e minha esposa levamos nossa filha a um desses espetáculos — acho que era Disney on Ice — e de repente apareceu o vocalista de uma banda punk chamada Plebe Rude. Eu cheguei nele e falei: “Philippe Seabra!!” e ele respondeu na hora: “Eu também tenho uma filha…” (risos). Então, se você tem filha, não tem como escapar das músicas da Disney — nem sendo o cantor mais punk do mundo.
Com certeza, cara (risos).

E aquele momento do filme em que você explica que na sua composição, imagina a família exausta dentro do carro — todo mundo com calor, com fome, cansado, irritado, querendo fazer xixi — e pergunta: “Essa música vai ajudar essa família?” Parece ser um teste de composição muito poderoso. Você ainda pensa nas músicas desse jeito?
Penso sim. Penso. Acho que cada arco, sabe, os Presidents foram um arco, o Caspar foi um arco, essa coisa nova que estou fazendo agora é um arco no qual ainda estou. Eles funcionam quando tenho um propósito e uma paleta. O propósito da música dos Presidents pra mim era fazer uma plateia numa casa noturna se elevar e ficar alegre junto, ao vivo. Na minha opinião, nunca descobrimos realmente como fazer discos — éramos uma banda ao vivo. A paleta eram as guitarras de duas e três cordas, a bateria minúscula.

No Caspar, o propósito era unir famílias. A paleta eram violões, pequenas percussões, tecladinhos. E nessa fase nova o propósito é alguém colocar fones de ouvido, se deitar e fazer uma viagem psicodélica pelo pop. A paleta é sintetizadores, guitarras com fuzz, brinquedos quebrados (risos).

Então, quando estou compondo, penso logo de cara: qual é o propósito? Se é alguém relaxando de fone, não posso colocar uma parte que vai do super silencioso pro super alto muito rápido. Isso guia todas as decisões criativas. Senão você fica paralisado com opções demais — a tal da paralisia da escolha. Por isso amo limitações. Foi outra coisa que o Mark Sandman me deu com a guitarra de duas cordas: “aqui está uma limitação — trabalhe com ela”.

Você já veio ao Brasil?
Não, nunca.

A gente tem música infantil muito interessante aqui — Palavra Cantada, “Música de Brinquedo” do Pato Fu, nos anos 90, tinha as trilhas do Rá-Tim-Bum e Castelo Rá-Tim-Bum, nos anos 2000, aliás, até alguns anos atrás, o Pequeno Cidadão… você já explorou música infantil de fora dos EUA?
Não muito. Eu meio que saí da fase do Caspar, mas agora que você falou isso pode ser interessante conferir.

Você poderia conhecer, por exemplo, o “Música de Brinquedo” do Pato Fu. Pato Fu é uma banda de rock alternativo aqui e “Música de Brinquedo” é o projeto paralelo deles. Eles tocam todo tipo de instrumento de brinquedo — guitarras de brinquedo, até uma bateria de brinquedo — e ajustam tudo para obter o melhor som possível no show. Acho sinceramente que você deveria conhecer alguns artistas como Paulo Tatit, John Ulhoa, Fernanda Takai, Arnaldo Antunes, Edgard Scandurra…
Talvez você possa me mandar esses nomes por e-mail que eu dou uma olhada.

Com certeza. Quando você diz que “vê” a música — como é isso? Cor? Forma? Movimento?
Parece com… qual é o nome dele… peraí. Tem um artista… em quem estou pensando… Peraí, vou pesquisar. (Pede para esperar enquanto pesquisa no celular). Quero ter certeza de que vou acertar. Vai valer a pena. Sim, Miró (Joan Miró). É isso que me vem à mente quando vejo, penso sobre música. (Mostra na tela do celular algumas imagens do artista espanhol Joan Miró). É assim que a música se parece para mim. (mostra imagens).

De alguma forma, isso me lembra as pinturas do Porl Thompson.
Porl Thompson?

O cara que era guitarrista do The Cure.
Ah, sério?

Posso estar enganado, mas a arte dele veio à mente.
Incrível. Vou procurar. Eu descobri um livro… Eu estava na casa de um amigo. Eles têm uma grande biblioteca de livros de arte e peguei um livro do Miró e pensei: “Meu Deus!” Quer dizer, eu conhecia da faculdade de arte. Estudei arte, então conhecia o Miró, mas realmente me impactou: “É isso! É assim que eu vejo a música.”

No estúdio você busca a energia do momento e conserta depois ou tenta fazer o take perfeito?
O jeito que trabalho agora depende muito do uso do computador para fazer loops. É ótimo porque posso pegar meu celular. Talvez eu toque guitarra. Tenho uma pequena ideia de que gosto, pego o celular, gravo. E então jogo aquela gravação no Pro Tools, o software de gravação, e faço um loop de uma seção. E a partir daí, vou construindo. Então, é meio que uma combinação, sabe, algo que parece talvez um pouco desleixado, engraçado e estranho, quando você faz o loop, ganha uma vibe de intencionalidade. Com certeza, estou me esforçando para obter a gravação perfeita, mas às vezes não conseguir é mais interessante. Acho que é uma maneira de colocar.

Então equipamento mínimo já basta pra você? Você faz mágica com o que tem ou busca o setup perfeito?
Meu setup é minúsculo e nada profissional (risos). Um microfone, um laptop, uma interface, monitores Focal, um piano Yamaha e um iPad cheio de sintetizadores. Fica no canto de um quarto de hóspedes.

Minimalismo total.
Exato.

No seu site você descreve o The Giraffes como uma banda de mentirinha feita de bonecos e brinquedos — um espaço mais sombrio e solitário. O que isso te permitiu emocionalmente que o Presidents não permitia?
Essa é uma boa pergunta. Acho que ser mais melancólico, ser meio sombrio. Durante todo o tempo em que estive nos Presidents, tinha essa vozinha dentro de mim dizendo: “Parabéns pelo seu sucesso. Mas você precisa continuar empurrando sua criatividade para novas áreas. E continuar crescendo.” A banda, pra mim, era uma paleta limitada. E isso não era ruim. Era apenas o estado das coisas. Eram como cores primárias: vermelho, amarelo, azul, talvez verde e laranja. E só. E eu estava sedento por obter todos os outros sons, outros instrumentos, elementos sinfônicos, sabe, piano, que foi o que aprendi a tocar, e metais, e todos os tipos de baterias eletrônicas e pequenas coisas estranhas. Então, eu estava realmente sedento por mais cores para brincar e simplesmente decidi que essa seria uma boa maneira de experimentar. Foi como um pé na água, em direção à música que estou fazendo atualmente. É como se eu não tivesse chegado exatamente lá com os Giraffes, mas é a coisa mais próxima do que estou fazendo agora.

Aquele vídeo no YouTube, do Egg em 1988 no Middle East Café é o começo de tudo (assista abaixo). Se você e o Phil Franklin assistissem hoje, o que diriam para aqueles dois caras no palco?
(risos) Boa pergunta. Você faz boas perguntas. Gosto das suas perguntas. Não falo com o Phil há muito tempo, mas acho que quando aquela banda acabou, eu tinha a impressão de que o Phil estava meio desanimado com ela. É engraçado, acabei de encontrar, numa caixa grande de memorabilia que tenho, encontrei um cartão postal do Phil e ele dizia o quanto amava a banda. E eu não achava que ele amava, mas ele amava. Aquela era uma banda divertida e dá pra reconhecer algumas músicas dos Presidents ali: “Naked and Famous”, que é a música em que o Kim Thayil acabou tocando no nosso álbum de estreia. Mas dá pra encontrar uma versão de 1988 com o Egg. E o Egg também tocava na rua, no metrô, na Harvard Square, em Boston, e ia pra Nova York de vez em quando. E o Middle East… Estávamos tocando na rua um dia e um cara chamado Billy Ruane, que fazia a programação daquele espaço de shows, passou por lá e nos convidou pra tocar no Middle East. E isso meio que nos conectou com toda aquela cena. Foi uma época muito divertida. Shows super divertidos.

O Caspar está mesmo aposentado?
Sim, por enquanto. Sou muito fã do “nunca diga nunca”. Porque nunca se sabe, mas… Fiz 19 álbuns, 362 músicas e fiz 1300 shows. Acho que já tem material suficiente pra acompanhar a infância inteira de alguém. Se as músicas começarem a cair do céu de novo, eu volto.

Para a alegria das crianças… e dos adultos. (risos) Ok… mais duas, as clássicas obrigatórias. Preciso perguntar… por razões de esperança. Existe algum cenário — show beneficente, seus filhos pedindo — que faria você subir ao palco com o Presidents mais uma vez? Mesmo num formato acústico?
É, pensei nessa coisa do acústico reduzido. A questão é: quando sinto nostalgia e volto a assistir vídeos no YouTube da gente em grandes festivais europeus ou em shows em casas noturnas, o nível de energia, a invencibilidade juvenil que a gente simplesmente projetava, esse lado físico, de pular, correr, cantar e tocar… eu sou uma pessoa diferente agora. O Dave bateu num cervo de bicicleta e machucou o ombro. O Jason não toca bateria há anos. Problemas no ombro. Eu tenho neuropatia nos pés. Tenho problemas nos cotovelos, de tocar guitarra e usar o mouse no estúdio. Então, estamos todos quebrados, sabe. Estamos todos avariados. Então, pensei: “Ok, e se a gente tocasse acústico? E se a gente tivesse um alpendre no palco como cenário?” E fizéssemos meio que uma encenação ou algo assim.

Mas isso não é real… sabe, as músicas foram feitas para serem tocadas alto, ao vivo e com distorção, e não foram feitas para serem tocadas daquele jeito, e acho que seria frustrante para todo mundo. Prefiro deixar a gente como está. É a versão de longo prazo de sair no primeiro disco e virar os Sex Pistols. O jogo de longo prazo ainda é: gostaria de manter a gente congelado como éramos. Porque já fui a shows de reunião em que todo mundo está velho, de outras bandas, e não é bom. Não é bom. (risos)

Então vamos ter que correr atrás do Krist Novoselic de novo…
(risos) Se ele pedir, talvez mude de ideia. Visitei ele recentemente na casa dele na floresta. Ele é um bom homem.

E se você pudesse conversar por um minuto com você mesmo em 1995 — no auge de “Lump” — o que diria?
(Fecha os olhos, respira fundo.) Eu diria: aproveite cada minuto do que está acontecendo, pegue mais leve, tenha paciência e continue com o que funciona. Eu realmente queria que no nosso segundo disco — número um, tivéssemos tirado um tempo para nos recompor, e número dois, queria que tivéssemos continuado com o Conrad Uno no Egg Studios, onde fizemos nosso primeiro disco. Simplesmente continuar com aquilo. Em vez disso, fomos para um estúdio grande, com equipamento grande e tudo grande, grande, grande. (risos) E não tinha a mesma vibe charmosa e compacta. Então, eu diria àquela pessoa que o que funciona para essa banda é o atrito entre quem você é e o que está tentando fazer. Você está tentando fazer rock. Vocês são três nerds tentando fazer rock. E esse “tentar” faz com que a plateia torça por vocês e sinta empatia, tipo: “Ah, olha aquela bandinha ali tentando fazer rock. Eu amo eles. Quero colocar eles no meu bolso.” Em vez do que nos tornamos, que era apenas uma banda de rock comum que tinha que entregar num grande show de festival, e isso meio que infectou tudo o que fazíamos e nos fez sentir que éramos, sei lá, mais importantes do que éramos. Então, essas são todas as coisas que eu diria. Eu simplesmente diria: relaxa, aproveita o passeio, continue pequeno e pegue mais leve.

– Heberton Barreira é estudante de jornalismo, bandolinista lo-fi. 





One thought on “Entrevista: Chris Ballew fala de seu disco solo e relembra projetos com Beck, Mark Sandman e The Presidents of the USA

  1. Linda entrevista. Adoro “Presidents…”. E realmente, boas perguntas.
    Fiquei tocado… Até com vontade de desengavetar velhas músicas…

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