texto de João Paulo Barreto
Escritora precoce em seu brilhantismo, a britânica Mary Shelley tinha apenas 19 anos quando, em 1816, foi desafiada pelo poeta Lord Byron a escrever uma história de terror. Do desafio, surgiu a ideia conceitual e um esboço do que viria a se tornar o clássico livro “Frankenstein ou o Prometeu Moderno”, publicado inicialmente de forma anônima um tempo depois, já em 1818. À época, em um relacionamento proibido com o poeta Percy Bysshe Shelley, que era casado, Mary vivia com ele já há dois anos. Acabariam por se casar eventualmente e tiveram quatro filhos, sendo que três deles morreram ainda crianças.
Na tragicidade de sua vida que parecia refletir sua maior obra escrita poucos anos antes, mais um golpe seria aplicado com o falecimento de Percy, morto por afogamento. Aos 24 anos, a escritora se viu viúva e mãe solteira, tendo que se dedicar às funções domésticas e ao sustento de seus filhos. Focada na escrita de outros romances, também trabalhou no lançamento das obras do seu marido. Mary Shelley morreria de câncer cerebral trinta anos depois de Percy, aos 54 anos, em 1851.
Talvez esse preâmbulo biográfico soe redundante ao se abordar uma adaptação cinematográfica de “A Noiva de Frankenstein”, um dos derivados da obra de Shelley. Porém, é válido pontuar essa trajetória de Shelley por perceber que, ao se propor a escrever a nova adaptação, a diretora Maggie Gyllenhaal trouxe muito da dor de sua autora original para seu próprio roteiro e para a figura de sua personagem-título. E essa dor acaba sendo traduzida pela roteirista para uma amplitude feminina atual como um todo, criando para seu público uma sintonia com essa ideia que se inicia desde seus primeiros momentos. É quando conhecemos a jovem Ida, mas, antes dela, conhecemos a própria Mary Shelley através da figura de Ida.

Ao colocar a autora em paridade com sua protagonista em um monólogo inicial que denota de cara a proposta de seu filme, Gyllenhaal cria uma análise dramática diferenciada em seu estudo de personagem. Aqui, a futura noiva renascida dos mortos possui em sua consciência a própria Shelley que, em tempos diferentes, sofreu os mesmos abusos misóginos que ainda existem mais de 200 anos depois. Jessie Buckley entrega em sua atuação na pele de ambas mulheres um tom bem diferente do visto em sua brilhante construção feminina em “Hamnet” (2025), filme que deve lhe trazer o Oscar. Novamente sob a batuta da diretora de “A Filha Perdida” (2021), no qual também trabalhou, Buckley traz uma atuação não menos brilhante em suas versões de Ida, tanto viva quanto renascida na pele da noiva, bem como na figura de Shelley, que interpela seus pensamentos em falas duras, mas necessárias.
É um filme no qual a liberdade criativa de sua autora permite que personagens como o monstro de Frankenstein e sua noiva se tornem espécies de Bonnie e Clyde oriundos justamente da Chicago da década de 1930. E as referências à obra de Arthur Penn saltam aos olhos como a mesma rajada de balas a fechar o clássico que criou a Nova Hollywood em 1969. Porém, em vez de assaltantes de banco, apenas errantes trazidos de volta à vida que não mais lhes pertencem, mas que causam na sociedade o mesmo furor e influência midiática que a dupla de ladrões. Mas sem qualquer intenção de buscar um espaço nessa mesma sociedade que, simultaneamente, os expurga e idolatra, ambos são só duas trágicas pobres criaturas que parecem ter encontrado no outro a razão para existir.

Maggie Gyllenhaal compreende o poder desse arco dramático e investe fundo no mesmo. O Frankenstein de Christian Bale surge do mesmo modo que outras de suas versões, mas com um aspecto não tão grotesco e inumano, mas apenas em busca de uma parceira. O modo como descreve um único aperto de mão como sendo seu primeiro toque na pele de uma mulher é de partir o coração. E a entrega física do ator, mesmo já não sendo novidade, ainda impressiona em mais um papel.
E sabendo das possibilidades imagéticas e cinematográficas de uma trama que se passa na Chicago de Al Capone e na Nova York da Lei Seca, a diretora utiliza, junto à direção de arte e ao figurino (criação da lendária Sandy Powell), toda a liberdade metalinguística de seu roteiro. Brincando com a ideia de vermos o monstro e a noiva como estrelas do cinema, o filme nos leva a momentos de fuga mental nos quais a dança, a música e o glamour frágil e plástico do período ganham um paralelo e uma rima visual apropriados com a grotesca aparência da criatura de Frankenstein que baila sob holofotes mentais ao lado do seu amor.
Remetendo ao subestimado “Coringa – Delírio a Dois” (2024), “A Noiva!” (“The Bride!”, 2025) traz uma estrutura semelhante de escape imaginário através da catarse oriunda da insanidade e da violência. Com trilha sonora da mesma Hildur Guðnadóttir, que compôs a partitura da dualogia de Todd Phillips, essa referência se torna ainda mais evidente. E se na marca do rosto de Jessie Buckley está justamente um símbolo semelhante ao da influência da maquiagem do personagem de Joaquin Phoenix como uma figura pária da sociedade, em sua protagonista, Gyllenhaal traz uma reflexão mais urgente e necessária. A marca, aqui, é fixa. Não é opcional. Não sai com água. Equivale às cicatrizes emocionas e físicas que ela acumulou em vida e voltou após a morte para expurgar. A marca em seu é rosto, do mesmo modo como lutar contra a repressão e contra a misoginia, é algo constante. Com seu texto, uma denúncia é colocada em prática e encontra na noiva uma representante dessa luta.
Com seus cabelos ondulados a remeter à icônica figura de Elsa Lanchester no papel título do filme de 1935, “A Noiva de Frankenstein”, a noiva de Jessie Buckley cria uma identidade própria e independente de seu referencial masculino de pertencimento contido no seu título. Na versão de Gyllenhaal, ela não é de ninguém. Ela é apenas A Noiva. E sua exclamação se faz necessária como o mesmo grito de basta que sociedade precisa ouvir em relação às brutalidades vistas contra mulheres.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde, de Salvador, e é autor de “Uma Vida Blues”, biografia de Álvaro Assmar.