faixa a faixa por Gabriel Peregrino
Composto por Gabriel Peregrino (vibrafone), Guilherme Saka (guitarra) e Théo Fraga (contrabaixo), o Retrato Brasileiro propõe em “Divertimento” (2026), ao lado de Marcelo Onofri (piano), uma sonoridade pouco convencional dentro da música instrumental brasileira, sem bateria e com forte diálogo entre timbres, contrapontos e narrativas. “Apesar de a maioria das obras já terem sido gravadas em algum momento da carreira do Marcelo, ele nunca havia trabalhado com essa formação. A guitarra elétrica e o vibrafone trouxeram uma nova cor para músicas que ele já havia gravado em outros contextos, fomos desenvolvendo juntos os arranjos e sentindo quais peças encaixavam melhor no conjunto que queríamos construir”, explica o trio.
Musicalmente, as obras de Onofri são compostas a partir de uma fusão entre referências da música de concerto (Bach, Ravel), da música brasileira (Tom Jobim, Gilberto Gil) e da tradição latino-americana, como em “Tragitango”, homenagem a Astor Piazzolla. O título “Divertimento” sintetiza tanto a estética musical quanto o processo de criação do disco. Além de remeter à ideia de peças camerísticas, o nome traduz o clima de troca, experimentação e prazer coletivo que marcou os ensaios e gravações. “É um disco muito energético, diverso e divertido de ouvir. Uma homenagem que também é um encontro de amizades”, define o trio.
Embora a maioria das faixas já existisse no repertório de Marcelo, “Divertimento” apresenta uma composição totalmente inédita, escrita por Onofri durante os próprios ensaios de gravação: “Amoraefrans”, música dedicada aos sobrinhos de Marcelo, nascidos durante a pandemia do Covid-19, uma canção que foi construída coletivamente em um processo artesanal. “Foi muito interessante, porque pudemos acompanhar de perto o modo como o Marcelo compõe, com a gente participando ativamente, quase como um laboratório. Em alguns momentos, a gente parava de tocar e ele continuava ao piano, improvisando ou já compondo algo novo, como se aquilo já estivesse escrito há muito tempo”, relembra Gabriel.
Outro destaque é “Kabrum”, faixa que incorpora uma poesia do próprio Onofri, originalmente publicada em seu álbum “Temporâneo” (2008). No novo disco, o poema surge recitado, criando um raro momento de palavra dentro de um trabalho majoritariamente instrumental. A peça funciona como um mantra introspectivo, inspirado em dias de chuva e recolhimento. Fortemente influenciado pela música erudita e pelas artes cênicas, Marcelo Onofri concebe suas obras como personagens em movimento. “Ele pensa as melodias como se fossem cenas: diálogos, caminhadas, encontros. Muitas faixas parecem trilhas de filmes que não existem”, explica o grupo.
A arte da capa é assinada pela ilustradora Malu Bragante. A artista acompanhou ensaios do grupo e desenvolveu uma ilustração inspirada nos músicos e em seus instrumentos, evitando a fotografia tradicional e apostando em um retrato lúdico e sensível, também artesanal como a construção do álbum. “Divertimento” também marca um momento especial na trajetória do Retrato Brasileiro, que completou dez anos de carreira em 2025. Ao longo dessa década, o trio realizou turnês internacionais, participou de festivais no Brasil e no exterior e consolidou uma linguagem própria, situada entre a música popular e a música de concerto. O novo álbum simboliza a maturidade artística do grupo e seu encontro com um dos compositores mais singulares da música instrumental brasileira contemporânea.
Abaixo, o vibrafonista Gabriel Peregrino comenta, faixa a faixa, as 13 canções de “Divertimento”.
01) “Lancelot’s Adventures” – É a faixa que abre o disco. Ela já havia sido gravada anteriormente no álbum “Lancelot’s Adventure”, de 2013, e talvez seja a música que mais evidencie esse lado narrativo do Marcelo, essa capacidade de contar histórias através da música. A gente não sabe exatamente de onde vem o nome Lancelot, nem quem é esse personagem, mas é uma música muito imagética. Dá pra imaginar um cavalo, um percurso, talvez um guerreiro em deslocamento. A música atravessa muitas atmosferas: começa mais escura, com um tema que soa como alguém se aproximando; depois surge um motivo muito marcante, que reaparece ao longo da peça e cria memória.
Em seguida, há uma parte mais lenta e intensa, quase como se uma orquestra inteira estivesse tocando, e depois uma melodia melancólica, mas calma, em modo maior. A sensação é de estar lendo um livro ou assistindo a um filme. O Marcelo constrói personagens dentro da música, e isso fica muito claro nessa faixa. O arranjo também nasceu dessa ideia de revelar quem são esses personagens por meio dos instrumentos. Foi uma das músicas em que o Marcelo pediu mudanças bem específicas: a guitarra precisava de distorção, um timbre diferente, que representasse alguém novo, algo que ainda não tinha aparecido nas outras faixas do disco.
Também incluímos o bongô. O Marcelo sentiu que só o vibrafone não daria conta do pulso rítmico e que era preciso um instrumento de percussão para sustentar esse movimento constante, quase como o som de um cavalo caminhando ou galopando. Esse pulso firme atravessa boa parte da música. Além disso, é uma das faixas que traz momentos claros de improvisação, com uma sessão no meio e outra no final. Como abertura do disco, ela apresenta muito bem esse universo narrativo e imagético que atravessa todo o álbum.
02) “Velho Texas”: É, de certa forma, a música que deu origem ao encontro entre o Retrato Brasileiro e o Marcelo Onofri. No meu recital de formatura na Unicamp, convidei o Marcelo para tocar comigo e também chamei os meninos do trio. Já que estaríamos todos juntos, pensei: “por que a gente não faz uma música junto?”. Foi em 2019, a primeira vez que o Retrato tocou com o Marcelo, e a peça que escolhemos foi justamente “No Velho Texas”.
Eu lembro que as pessoas acharam muito bonita, o resultado foi realmente especial. A sonoridade, a composição e esses instrumentos combinaram de um jeito muito natural. Acho que essa música é importante no repertório justamente por isso: foi a partir dela que surgiu a vontade de juntar esses dois universos e desenvolver esse trabalho em torno da música do Marcelo. É uma música que, olhando de fora, parece simples, mas tem uma melodia muito inteligível, muito acessível. É uma canção que toca as pessoas, e isso fica claro depois dos shows: muita gente vem comentar que é a preferida.
O título remete a um lugar que, na verdade, nunca existiu de fato. O Marcelo conta que escreveu essa música na Áustria, e que na cabeça dele havia uma referência a um hino. Esse “hino imaginário” acabou se transformando nesse tema. Ele chama de “No Velho Texas” porque o Texas vira quase um símbolo de um lugar genérico, um território imaginado, algo que existia antes de ser o que é hoje. Quando perguntam por que Texas, ele mesmo diz que não sabe exatamente, que é mais uma ideia de espaço, de memória, de transformação.
A música também traz vozes no meio do arranjo: gritos, falas, sons que não dizem nada de forma literal, mas criam uma camada sonora muito comovente. Essa, inclusive, é uma das minhas preferidas do disco. Acho que o arranjo reúne tudo: os timbres dos instrumentos, que já dialogam muito bem entre si, e, de repente, essas vozes ao fundo, trazendo outras melodias, outras presenças, gritos e falas que não explicam, mas evocam.
É como se a música abrisse um espaço de imaginação: você não sabe exatamente o que está sendo dito, mas sente que aquilo quer dizer alguma coisa.
04) “Segundo Motivo da Rosa” – É uma valsa inédita que o Marcelo apresentou pra gente durante os ensaios. A gente estava resgatando algumas músicas e decidindo o que entraria ou não no disco, quando ele disse: “tem uma coisa nova aqui que eu fiz”, e tocou essa valsa, cantando pra gente.
A música foi composta a partir do poema “O Segundo Motivo da Rosa”, da Cecília Meireles. O Marcelo musicou o poema, então a letra da canção é a própria poesia da Cecília. Quando ele mostrou, a gente sentiu que poderia funcionar muito bem também como uma peça instrumental, porque tinha tudo a ver com o clima e com a cor dos instrumentos. É uma música bem solta, construída a partir da melodia e da relação direta com o texto.
Isso é algo muito forte no trabalho do Marcelo: a melodia nasce do sentido da palavra, do movimento do texto. Ele já musicou poemas de João Cabral de Melo Neto, Mário Quintana e Olga Savary, sempre partindo dessa escuta atenta do que o texto pede.
No arranjo de “Segundo Motivo da Rosa”, a melodia é o ponto central. Mesmo sem a letra estar presente, a gente se guiava o tempo todo pelo que o texto diz, lembrando em que momento da poesia estamos, o que está sendo dito ali, e deixando que isso conduzisse a forma de tocar. É uma música que revela esse lado do Marcelo ligado à canção e à palavra, algo que também vem muito da influência do trabalho dele com as artes cênicas, onde o texto e o gesto têm um papel fundamental.
05, 03 e 11) “DBB 1”, “DBB 2” e “DBB 3” formam uma espécie de trilogia dentro do disco e são obras que têm muito a cara do Marcelo. A sigla DBB significa Divertimento Barroco Brasileiro, um nome que ele mesmo criou para definir essas peças, que brincam com o sotaque barroco da música contrapontística misturado com elementos da música brasileira.
São músicas muito bem escritas e bastante elaboradas. As ideias são cheias de contrapontos, as harmonias caminham juntas, as vozes se entrelaçam o tempo todo. Uma das grandes referências do Marcelo, que ele mesmo diz ser um livro de cabeceira, é Bach, especialmente “O Cravo Bem Temperado”, que é uma obra totalmente construída a partir do contraponto. E a música brasileira também tem muito dessa lógica: baixos caminhando, melodias dialogando com outras vozes, linhas que se cruzam o tempo todo.
Quando você ouve os DBBs, dá essa sensação de estar escutando algo muito barroco, algo que lembra Bach, mas com um sotaque brasileiro muito forte. É tudo muito sincopado, animado, com um caráter quase lúdico. Essa mistura entre o rigor do contraponto e a leveza da música brasileira é o que dá identidade aos DBB 1, 2 e 3, e cada um deles ainda tem sua própria atmosfera.
Essas foram também as primeiras gravações feitas com a formação de guitarra, baixo, vibrafone e piano. Os arranjos foram nascendo nos ensaios, porque são músicas com muitas vozes acontecendo ao mesmo tempo, quase como um quebra-cabeça entre os instrumentos: quem faz o quê, quem acompanha, quem dobra, quem sai, quem entra. O baixo muda de função, o piano às vezes tira a mão, depois volta, alguém inventa uma frase, outro responde.
Acho que, dentro de todo o disco, os DBBs são as faixas que melhor mostram como esses instrumentos funcionam juntos. E, pra mim, são também as que mais revelam a essência do Marcelo como compositor: esse equilíbrio entre sofisticação, humor, rigor técnico e espírito brasileiro.
06) “Rumbaba” – Também é uma música relativamente recente, composta pelo Marcelo, e traz influências de ritmos da América Latina, como o bolero e a salsa, mas trabalhados de forma mais contemporânea — o que já aparece no próprio nome da faixa. Ela foi a outra música do disco em que optamos por incluir o bongô, justamente para trazer esse sabor percussivo.
Por ser uma faixa relativamente curta em comparação às outras, e por ter um ar muito diferente, quase como uma quebra de expectativa, sentimos que fazia todo sentido incluí-la no álbum. Para reforçar essa diferença, colocamos um solo de bongô: é a única música do disco que traz, nos arranjos, um solo de um instrumento de percussão que não faz parte do trio base.
Além disso, há a cadência de piano do Bild, que traz um momento de improvisação mais livre, com outra cor sonora, funcionando como um respiro para os ouvidos e criando mais uma quebra de expectativa. “Rumbaba” mistura um caráter dançante com uma melodia menos intuitiva, que foge do óbvio e surpreende o ouvinte. É justamente essa combinação que dá o sabor especial da música.”
07) “Herbsttag” – É um nome em alemão que significa ‘dia de outono’. Essa é uma das músicas que o Marcelo escreveu em Viena, na época em que morava, estudava e trabalhava lá.
Em comparação com as outras faixas do disco, é uma música mais simples. Ela tem uma estrutura bastante ligada ao jazz: um tema curto, a partir do qual se desenvolvem os improvisos. Quando o Marcelo apresentou essa música pra gente, ele disse que achava que ficaria linda com o trio, que combinava muito com as sonoridades do vibrafone, da guitarra e do baixo. Ele já deixou claro que não tocaria piano nessa faixa, queria ouvir o trio.
Durante os ensaios, o Marcelo ficava ouvindo, fazendo apontamentos e instigando a gente com imagens. Ele dizia: “imaginem que isso é um dia de outono, mas não um outono brasileiro, um outono em Viena”. E começava a descrever as árvores, as cores mais avermelhadas, o clima ameno, as pessoas mais introspectivas, aquele ar nostálgico da cidade. Falava também de um céu diferente, com outra luz.
Como nenhum de nós tinha vivido isso de perto, a gente precisava imaginar tudo enquanto tocava, tentando traduzir em som o que ele queria dizer com aquelas imagens. A cada vez que tocávamos, ele reforçava: “conta uma história”. O arranjo de “Herbsttag” acabou nascendo exatamente dessa ideia: o que é um dia de outono em Viena vivido pelo Marcelo, e como o trio poderia recriar essa atmosfera musicalmente.
08) “Tragitango” – É um tango que o Marcelo compôs em homenagem a Astor Piazzolla, talvez o maior compositor do novo tango argentino, um músico consagrado mundialmente e referência fundamental para quem estuda música instrumental. A obra do Piazzolla tem essa característica de transitar entre o popular e o erudito, algo que também é uma influência muito forte tanto na música do Marcelo quanto no trabalho do trio.
Essa é uma das minhas músicas preferidas do repertório. Dá pra perceber o quanto o Marcelo estuda a fundo os compositores que o influenciam: ele consegue criar uma homenagem que carrega claramente a linguagem do Piazzolla, o jeito dele de escrever, mas sem perder a própria identidade. Você escuta e pensa: “tem a cara do Piazzolla, mas também tem a cara do Marcelo”.
O Marcelo conta que, quando foi estudar em Viena, tocava principalmente obras de compositores europeus. Em uma das provas, ele resolveu tocar uma peça do Piazzolla, que já estava em ascensão no cenário internacional, mas ainda era pouco executado naquele contexto. Como latino-americano tocando Piazzolla na Europa, ele acabou chamando muita atenção.
Com o tempo, essa relação se aprofundou ainda mais: o Marcelo chegou a formar um grupo dedicado exclusivamente à obra do Piazzolla, com o qual fez turnês pela Áustria e por outros países da região. Isso mostra o quanto a música latino-americana, especialmente o tango e a escrita do Piazzolla, é uma influência central no repertório dele.
“Tragitango” é, portanto, uma homenagem muito bem construída. Dá pra sentir que é o trabalho de alguém que estudou profundamente outro compositor, entendeu sua linguagem e soube trazer isso para si, incorporando personalidade e criando algo próprio.
09) “Kabrum” – É uma música que o Marcelo já havia gravado no álbum “Temporâneo”, de 2008. Ele conta que a compôs em um momento muito introspectivo e sempre descreve essa música quase como um mantra. É bem calma, daquelas que remetem a dias de chuva, quando você está sentado no quarto ouvindo a água bater na janela. Acho que, se você escutar essa música de olhos fechados, ela evoca exatamente essa sensação.
No arranjo, a gente quis interferir o mínimo possível. Foi uma daquelas músicas em que ninguém teve vontade de “mexer”, de inventar algo a mais. A ideia era preservar justamente esse caráter repetitivo, calmo, sem excesso de informação. Ela tem praticamente duas vozes na melodia e o baixo, que se repetem continuamente, reforçando essa ideia de mantra.
A gente também pensou que era importante ter uma música assim no meio do show: um momento de pausa, de descanso, uma quebra na dinâmica do repertório. Depois que a faixa já estava gravada, surgiu a ideia de incluir o texto. Apesar de o disco ser instrumental, eu lembrei dessa poesia, e o Marcelo topou gravar, porque somente em vozes não tem problema. A palavra entra apenas no final da música, quase de surpresa, dizendo algo delicado e bonito. É uma poesia linda, também de autoria do Marcelo, que completa a atmosfera da faixa.
10) “Amoraefrans” – É uma das duas músicas inéditas do disco. O Marcelo a compôs em homenagem aos sobrinhos dele, Amora e Francisco, que nasceram durante a pandemia.
A música começou a surgir em um dos ensaios, quando o Marcelo apareceu com apenas oito compassos escritos. Ele trouxe um papel todo manuscrito, com cerca de vinte segundos de ideias musicais, e propôs: “vamos experimentar?”. Cada um de nós leu uma voz da partitura, eu, o Guilherme e o Théo, enquanto o Marcelo acompanhava e pedia para ouvir. A partir daí, a música começou a nascer de verdade.
Ensaio após ensaio, a gente foi construindo a faixa coletivamente. A cada encontro, surgia um pedaço novo: testávamos ideias, gravávamos no celular, voltávamos na semana seguinte, escrevíamos mais um trecho, trocávamos partes, experimentávamos outros caminhos. O Marcelo ia propondo, ajustando, mudando instrumentos, dizendo “isso funciona”, “isso não”, “vamos tentar de outro jeito”.
Foi um processo muito interessante, porque pudemos acompanhar de perto o modo como o Marcelo compõe, com a gente participando ativamente, quase como um laboratório. Em alguns momentos, a gente parava de tocar e ele continuava ao piano, improvisando ou já compondo algo novo, como se aquilo já estivesse escrito há muito tempo. Ele sempre dizia: “se eu não lembrar depois, é porque não era pra ficar”.
Diferente das outras músicas do disco, que já chegaram prontas e foram sendo estudadas e ensaiadas, “Amora e France” foi se formando aos poucos, diante da gente. Talvez por isso, e também por ser uma homenagem aos sobrinhos, ela tenha uma atmosfera muito infantil, brincalhona e afetuosa.
A música dialoga bastante com a ideia do contraponto barroco: parte de um tema que vai se desenvolvendo ao longo da peça, apresenta outros temas e se transforma. A gente sempre dizia nos ensaios: “pensa nas crianças, vamos brincar”. E acho que é exatamente isso que essa música evoca.

11) “Bild 2 (zwei)” – Outro nome difícil de pronunciar, em alemão, significa algo como ‘imagem dois’, ‘quadro dois’ ou ‘paisagem dois’. Essa é uma música muito especial, porque o Marcelo conta que foi com ela que ele se descobriu compositor de fato.
Ele estava em Viena, na Áustria, andando de trem, quando olhou pela janela e viu uma paisagem totalmente diferente do Brasil: um campo aberto, quase deserto, e um rolo de feno passando. Aquela imagem, algo que ele nunca tinha visto antes, despertou imediatamente uma melodia na cabeça dele. Foi uma inspiração muito forte. Quando chegou em casa, sentou ao piano e começou a escrever a música a partir dessa ideia. É ali que ele entende que precisa compor, que precisa dar forma às melodias e harmonias que surgem pra ele.
É uma música bastante complexa e acabou sendo uma das mais difíceis do repertório. Não encontramos nenhuma gravação anterior dela, pelo que sabemos, não está em nenhum disco do Marcelo, então essa acabou sendo uma gravação inédita. O próprio Marcelo conta que fazia muito tempo que não tocava essa música, e que ela foi a primeira que ele compôs.
Eu tinha o manuscrito da peça, uma partitura antiga que o Marcelo havia me dado, e sugeri que a gente fizesse a música mesmo assim. Eu nunca tinha ouvido, mas queria experimentar. Depois dos ensaios, o Marcelo comentou que a música tinha tudo a ver com esses instrumentos e que o resultado tinha ficado lindo.
O arranjo foi também um trabalho de resgate: revisitar a partitura, conferir o que estava escrito, corrigir algumas coisas. A gente tocava o que estava no papel e o Marcelo ia lembrando, apontando ajustes, até chegar a um momento em que ele percebeu que já não lembrava mais exatamente o que o piano fazia. A partir daí, ele foi reconstruindo a música aos poucos, tocando, testando, relembrando até reencontrar aquela versão de muitos anos atrás.
Uma das coisas que a gente mais gosta nessa música é o final, quando todos os instrumentos param e fica só o piano, numa cadência solo. No show, a gente até brinca com isso, porque muita gente acha que aquela parte está escrita, mas o Marcelo está improvisando. É um momento que sempre emociona, tanto ao vivo quanto no estúdio: cada vez surge uma ideia diferente, quase como se nascesse uma música nova ali na hora.
No estúdio, lembro que gravamos cerca de três takes justamente por causa dessas cadências finais. Ficamos um tempo escolhendo qual delas ficaria no disco. No fim, é uma música que a gente gostou muito de fazer, um resgate importante de uma obra muito antiga do Marcelo, que se encaixou perfeitamente na atmosfera do álbum.
13) “Tio Juba” – Entrou no repertório porque sentimos falta de algo mais explicitamente brasileiro no disco. A gente pensou: “poxa, vamos colocar esse samba”. É uma música curtinha, muito boa, animada, pra cima, e que eu sempre gostei de ouvir.
Já toquei essa música com o Marcelo em outras formações, inclusive com percussão, e achamos que fazia todo sentido incluí-la. O Guilherme toca cavaquinho e violão de sete cordas, vem muito desse universo do samba e do choro. Eu também toco percussão e já toquei essa música com pandeiro e tamborim, então pensamos: “vamos fazer isso de um jeito diferente”.
Acabamos criando um arranjo com vibrafone, baixo e guitarra, tentando trazer um caráter mais percussivo para esses instrumentos, e funcionou muito bem. É uma das faixas que também tem vozes: gravamos alguns coros no estúdio e, nos shows, a gente canta, grita, se diverte bastante.
Ela entrou no disco por ser uma música curta, animada e que tem tudo a ver com o Marcelo e com esse jeito dele, bem divertido, de fazer música de forma coletiva.