Crítica: “Queens Of The Dead”, de Tina Romero, coloca drag queens e muito brilho no universo dos zumbis

texto de Renan Guerra

A DJ e produtora Dre (Katy O’Brian) prepara uma noite importante em sua boate queer no Bushwick, bairro no distrito novaiorquino do Brooklyn conhecido por seus galpões e pela vibrante cena artística. O plano inicial é uma festa icônica com uma série de drag queens importantes na região, porém aos poucos as coisas começam a dar errado: um banheiro entupido, rixas entre os artistas da noite e a desistência de Yasmine (Dominique Jackson), a estrela principal do show. Mas ainda há algo um pouquinho maior a ser enfrentado nessa noite: um ataque zumbi que assola a cidade de Nova York.

Esse é o ponto de partida de “Queens Of The Dead” (2025), filme de estreia de Tina Romero, filha do mestre George A. Romero, diretor de “A Noite dos Mortos Vivos” (1968) e “Despertar dos Mortos” (1978) e um dos responsáveis pelo imagético contemporâneo do zumbi na cultura pop. Antes de tudo, importante não confundir esta Tina Romero com a atriz Tina Romero, importante nome mexicano famoso no universo do terror pelo clássico “Alucarda” (1977). Tina Romero, a filha de George, estudou cinema nos anos 2000, mas paralelamente a isso, trabalhou durante bons anos como DJ, tocando essencialmente na cena queer. Por isso, para sua estreia em longa-metragem, ela resolve criar uma ponte entre seu universo da noite LGBTQIA+ com os zumbis andarilhos de seu pai.

Pausa para uma trivia: há um imbróglio familiar em torno do espólio e do legado de George A. Romero. O cineasta foi casado 29 anos com Christine Romero, mãe de Tina, até que em 2005 ele viajou para filmar “Terra dos Mortos” e não voltou mais para casa – Tina estava na faculdade nessa época. Morando em Toronto, ele casou-se com Suzanne Desrocher-Romero, oficialmente sua viúva. Christine herdou alguns roteiros e outras coisas mais de George, porém Suzanne é que ficou como a grande responsável pelas obrigações gerais do espólio do diretor. Ela é a responsável pela George A. Romero Foundation e, segundo o The New York Times, está produzindo um filme que explora o fim do conceito zumbi de Romero. Do outro lado, Christine trabalha em um projeto ainda sem título que retorna ao início do conceito de “zumbi Romeriano”, que ocorreria simultaneamente à ação de “A noite dos mortos-vivos”.

Momento “Casos de Família” encerrado, o que temos de concreto agora é o filme de Tina, “Queens Of The Dead”, em cartaz nos cinemas brasileiros. Lançado pela Imovision, este é um trabalho a ser celebrado: eles conseguiram estrear o filme em 17 cidades pelo Brasil, em um movimento importante de nicho que reverbera ações que a distribuidora vem construindo há um tempo – eles são responsáveis pela exibição no Brasil da série “Dragula”, reality show com foco em drag queens de horror e com estéticas desviantes do usual. Tanto a série quanto o filme de Tina Romero conversam com um público que raramente vê esses lançamentos ocorrerem de forma oficial no Brasil. A própria distribuição de filmes de horror independentes e experimentais já é algo raro e que, vira e mexe, acontece com muito atraso nos cinemas brasileiros, por isso é bom ver “Queens Of The Dead” chegando nos nossos cinemas trazendo todo seu humor e exagero.

“Queens Of The Dead” se desenha essencialmente como espetáculo camp, na linhagem de Susan Sontag, que entendia o camp como o “amor pelo não natural: pelo artifício e pelo exagero” – esse é um recorte simplista do termo e dos estudos de Sontag, mas que funciona aqui como esclarecimento. Isso se dá porque o filme de Tina abraça o trash de forma apaixonada, entendendo suas limitações como liberdade para explorar o falso e o lúdico. Num tempo de filmes que emulam excessivamente o real, ela nos convida a embarcar na mentira descarada, no irreal. E pra isso ela se cerca de um elenco que entra na brincadeira; especialmente por que ela traz nomes contemporâneos importantes do cinema independente e da cultura pop LGBTQIA+. Katy O’Brian vem de “Love Lies Bleeding: O Amor Sangra” (2024), o elogiado thriller-lésbico-romântico estrelado ao lado de Kristen Stewart; Jack Haven vem do já cultuado terror “I Saw the TV Glow” (2024); Nina West é a Miss Simpatia da 11ª temporada de “RuPaul’s Drag Race”, e pra coroar tudo, as presenças luxuosas da humorista Margaret Cho e da atriz Dominique Jackson, ícone fashion e estrela da série “Pose”.

Ainda é complexo entender como o filme de Tina Romero pode chegar em diferentes públicos, pois ele é, por essência, um filme de nicho, uma estripulia trash para quem ama filmes de terror, uma divertida viagem para quem gosta de dar play nos filmes com os títulos mais absurdos possíveis. “Queens Of The Dead” é cativante por conseguir conectar um universo LGTBQIA+ com esse mundo de horror, gore e zumbis. Tina consegue conectar zumbis gliterizados com piadas sobre gênero, liberdade sexual e as novas formações familiares. Para quem entende as delícias de não se levar tão a sério, “Queens Of The Dead” é uma excelente experiência cinematográfica: é como vivenciar uma sessão de filme B, porém com injeções de “shade”, plumas e lantejoulas.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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