Conexão Brasil/Portugal: Bruno Pernadas apresenta “Unlikely, Maybe”, seu novo disco

entrevista por Pedro Salgado, especial de Lisboa

Cinco anos após o lançamento de “Private Reasons”, Bruno Pernadas tem um novo trabalho para apresentar. “Unlikely, Maybe” (2026) é o foco principal da conversa com o músico lisboeta num bar da famosa Rua Nova do Carvalho (também conhecida como Pink Street), onde seguidamente irá decorrer uma festa de audição do disco. Relativamente ao título do álbum, Bruno aceita que reflete o fato de ser um trabalho de transição: “Não é provável (“unlikely”) que ele represente aquilo que imagino para o meu som no futuro, mas talvez (“maybe”) já contenha elementos e ferramentas que apontam nessa direção”.

Unlikely, Maybe” foi gravado no verão de 2025 entre Lisboa, Porto, Funchal e Azeitão e no apartamento de Bruno Pernadas em pleno dia, sem isolamento acústico. É um álbum formado por nove composições para secção rítmica, vozes, metais, madeiras e eletrônica (e conta com diversas cantoras convidadas), no qual as presenças do jazz e da improvisação são muito vincadas e marcam a orientação do disco nos vários caminhos sonoros percorridos.

Os singles “Steady Grace” (uma faixa envolvente inspirada no dance hall jamaicano dos anos 50 e 60) e “Juro Que Vi Túlipas” (um crossover sugestivo de jazz, soul e r&b com a participação da cantora Maya Blandy) destacam-se, bem como a feliz incursão no samba de “Já Não Tem Mais Encanto” (com a presença da brasileira Lívia Nestrovski). O pop dos anos 1980 está bem representado na derradeira “Song In MT-65” e canções como a indie “His World” (com Margarida Campelo) e “Spiritual Spaceman” (com Leonor Arnaut) introduzem, respetivamente, uma ideia de vertigem e de viagem sonora que se inserem bem no contexto do álbum.

No seu todo, “Unlikely, Maybe” define-se por uma aura de introspeção, espiritualidade e um dinamismo vibrante que são complementados por uma verve exploratória em medida razoável. A fusão sonora e a diversidade temática parecem indiciar uma maior ambição e a tentativa de elevar a música para um novo patamar, algo que merece a concordância do seu autor. “Acho que se consegue ver dessa maneira. No álbum “Private Reasons” (2021), a primeira parte escrita para orquestra de câmara, também já era um pouco assim. Se calhar não foi tão radical no sentido em que não tinha uma linguagem com improvisação exploratória. Há momentos neste trabalho e no anterior que vão nesse caminho”, conclui.

De Lisboa para o Brasil, Bruno Pernadas conversou com o Scream & Yell. Confira:

O seu novo disco, “Unlikeky, Maybe” (2026) sucede a “Private Reasons” (2021) que era um trabalho emotivo e fechava uma trilogia pop. Nesse sentido, que premissas estabeleceu e que objetivos tinha em mente para o seu novo álbum?
Este disco surgiu da necessidade de criar um álbum que não fosse tão ao encontro dos recursos harmônicos que caracterizaram os meus trabalhos anteriores. Pretendia que fosse mais exploratório porque, futuramente, vai ser dentro dessa sonoridade. Mas, não deu para ser algo muito contrastante, de repente, ou uma mudança bastante radical. Gosto bastante deste disco, mas ainda não é aquilo que eu idealizava. Provavelmente acontecerá no próximo trabalho. Mas, vejo este álbum como um momento de transição dessa trilogia pop que incluía igualmente os discos “How Can We Be Joyful in a World Full of Knowledge?” (2014) e “Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them” (2016). Há também pelo meio o álbum “Worst Summer Ever” (2016) que não é nada pop. Por isso, o meu novo trabalho faz a ponte para um caminho mais exploratório que irei trilhar daqui para a frente.

Em dezembro passado, você lançou previamente os singles “Steady Grace” e “Juro Que Vi Túlipas”. Foi pelo carater sedutor das faixas que as escolheu para apresentar o novo álbum?
Se calhar foi essa a razão, mas vou ser honesto com a escolha dos dois singles. O que aconteceu foi que no início de dezembro de 2025 eu organizei uma ‘listening session’ privada, no Chiado, apenas para jornalistas, programadores de música e membros do grupo. Fizemos uma sessão de escuta integral do disco ainda não masterizado, em que as pessoas estavam deitadas nesse espaço, que é mais uma galeria. Entreguei aos convidados um documento com a lista das músicas e eles tinham de votar nas duas canções que melhor serviam a função de single. Eram cerca de 20 pessoas ou mais e escutamos o álbum muito alto e no final as pessoas entregaram-me os documentos. “Steady Grace” ganhou e em segundo lugar ficou “Juro Que Vi Túlipas” (ouça abaixo). Foi assim a escolha. Fiquei contente com a decisão dos convidados. Também teria preferido “Steady Grace”, porque gosto muito da música. A outra talvez não tivesse escolhido para single, mas respeito a decisão das pessoas.

A faixa “Já Não Tem Mais Encanto” é uma investida no samba abrilhantada pela expressividade e versatilidade da cantora convidada Lívia Nestrovski. Qual foi a inspiração para a composição da música e como surgiu esta participação?
A verdadeira inspiração partiu de um teclado meu da Yamaha que tem uns ritmos de samba. Eu podia ter escrito tudo em pauta e foi o que fiz depois. Mas, antes, usei esse tecladinho que possui um ‘backing’ e se fizermos os acordes na mão esquerda ele reproduz o ritmo. Tratou-se de uma improvisação em toda a melodia para cinco ‘takes’. Ao quinto, escolhi o ‘take’ de improvisação e ajustei, obviamente, um pouco. Depois, eu e a Rita Westwood (a pessoa que fazia as capas dos meus álbuns comigo ou sozinha) fizemos a letra em conjunto. Este samba tem pouco mais de um ano e não era para entrar no disco. Fi-lo só porque quis compor um samba futurista, à minha maneira. Mas, gostei muito da música e fiz um convite à Lívia. Ela é da área do canto lírico, vem frequentemente a Portugal e toca música contemporânea bastantes vezes com a orquestra dirigida pelo maestro Luís Tinoco. Por isso, aproveitei uma das oportunidades em que ela estava cá para gravarmos. Nós combinamos muito bem e a Lívia já conhecia a minha música. Foi tudo muito rápido. Ela gravou no primeiro ‘take’ numa noite e depois voou para o Rio de Janeiro na manhã seguinte.

Em maio de 2024 você fez um tour brasileiro que passou pelo Manouche, no Rio de Janeiro e pelo Sesc Pompeia, em São Paulo. Gostaria de saber quais são as memórias que guarda desses shows e se pretende apresentar o novo álbum no Brasil.
Sim, pretendo regressar. Aliás, nessa tour, havia um terceiro concerto no Rio Grande do Sul que foi cancelado por causa das cheias, da derrocada e da catástrofe ambiental que aconteceu lá. O show no Rio de Janeiro fui eu que insisti em fazer, porque sabia que havia público e no começo esse espetáculo não estava no itinerário. O concerto no Rio estava cheio e no Sesc Pompeia, em São Paulo, também estava muito composto e aquilo era gigante e muito maior do que a Musicbox, de Lisboa. Recordo-me bem do espetáculo no Rio de Janeiro, que foi fantástico. No início, foi um pouco preocupante porque faltou a luz na hora do show começar. Estavam centenas de pessoas na rua e não havia iluminação. Tiveram que ir buscar gasolina para encher o gerador e esse processo demorou 40 minutos. Por isso, as pessoas ficaram 40 minutos às escuras na porta para assistir ao espetáculo. Quando o concerto começou, o público estava muito efusivo e a gritar e foi muito bom. A assistência vibrou, exteriorizou esse contentamento e materializou a vontade que tinha há muito tempo de ouvir aquela música. Lembro-me que as pessoas estavam bastante próximas de nós e tocámos também uma canção (“Jardim de Alah”) de um músico carioca que eu gosto bastante, Piry Reis, que elas não conheciam. Em São Paulo foi diferente, no sentido em que vieram muitas pessoas de outros estados do Brasil e prefeituras. Houve até um casal que fez uma viagem de seis horas e trouxe-me prendas. O espetáculo não foi ao ar livre mas era como se fosse, num armazém no Sesc. Correu muito bem e as pessoas adoraram. Metade da banda era brasileira e esses colegas nossos do Brasil também trouxeram outros amigos brasileiros. Por mim, eu teria ficado lá a tocar noutros sítios. É muito difícil para os músicos portugueses como eu tocarem no Brasil. Se calhar, para pessoas que façam uma música que chegue a um público maior talvez seja mais fácil, porque conseguem encher salas com rapidez. Eu também encho, mas temos menos apoios porque senão faríamos lá muitos concertos.

“Private Reasons” (2021) foi o seu trabalho que conseguiu a maior internacionalização. Quais são as suas expectativas relativamente à recetividade do público para “Unlikely, Maybe”?
Acho que quem gosta vai continuar a gostar e a maior parte está nos Estados Unidos da América e no Japão e estou a falar do público em grande escala. É nesses países que compram mais a minha música e mandam mais emails e mensagens. Toda a América do Norte, Canadá, México e Japão. Essas pessoas apreciam mesmo a minha música e é delas que recebo mais feedback. E também há uma vantagem pelo fato de não me conhecerem, ao contrário de Lisboa onde me vêm na rua e têm maior proximidade comigo. Isso cria igualmente algum mistério. Essas pessoas vão continuar a gostar do meu trabalho e no Japão apreciaram o álbum “Private Reasons”. Relativamente a Portugal, o público gostou do primeiro disco (“How Can We Be Joyful In A World Full Of Knowledge?”, de 2014), mas depois não me acompanhou tanto e se calhar tem alguma resistência em gostar de música portuguesa. Acho que irão ouvir o disco daqui a um ano ou por acaso, porque comentam pouco comigo. Mas, também há quem goste muito. Ainda há dias fui ver uma colega a cantar e encontrei lá pessoas da área que disseram que adoraram o meu single “Steady Grace”. Por isso, não faço ideia.

Qual é a mensagem que gostaria de deixar aos leitores do Scream & Yell?
A música que eu fiz com a Lívia Nestrovski (“Já Não Tem Mais Encanto”) e que é cantada em português do Brasil foi feita por questões artísticas e pela paixão pela língua, que é a mesma, mas com outro sotaque. Acho que isso de alguma forma vai ajudar a unir mais a ligação que existia entre o Brasil e a minha música. E não é só nas cidades que estávamos a falar. Não é só no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em muitos outros estados a minha música é ouvida. Como disse anteriormente, gostava de estar lá mais tempo, fazer muitos shows e colaborar com diversos artistas brasileiros. Eu gosto bastante da música da Ana Frango Elétrico. Aliás, no show que fizemos no Rio de Janeiro a Ana tinha um convite, mas depois, infelizmente, acabou por não poder estar presente. Ela não é única com quem eu gostaria de colaborar. Destaco também o Piry Reis. Eu gostava de saber onde ele anda. A canção mais famosa dele é “O Sol Na Janela” e foi assim que eu o conheci, numa coletânea de música eletrônica do Brasil. Gostaria de acrescentar, que na última vez que estivemos no Brasil tocámos com o Fábio Sá, que é um músico que acompanhou a Gal Costa durante oito anos e atuou com outras cantoras famosas, e no saxofone tínhamos o Marcelo Moraes de Abreu Pereira que toca na banda paulista Funk Como Le Gusta. A mensagem que eu deixo é para estarem atentos porque vão acontecer mais parcerias entre mim e artistas brasileiros.

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