entrevista de Alexandre Lopes
Durante muito tempo, falar de música foi o centro da vida de Gaía Passarelli. Antes das redes sociais moldarem por meio de timelines e algoritmos a forma como consumimos cultura, ela já estava presente: escrevendo, documentando cenas, descobrindo bandas e sonoridades. Como criadora do rraurl – um dos sites mais importantes da música eletrônica no Brasil entre 1997 e 2016 – e depois como VJ da MTV em seus últimos anos, Gaía ajudou a formar repertório e a despertar curiosidade em diferentes gerações de ouvintes.
Nos últimos anos, porém, sua escrita tomou outro rumo. Vieram os livros “Mas Você Vai Sozinha?” (2016), reunindo textos sobre viagens solitárias, e “Tá Todo Mundo Tentando” (2024), coletânea de crônicas veiculadas e inspiradas por sua newsletter que ganhou força durante a pandemia. A música, embora nunca ausente, parecia ocupar um segundo plano, como se fosse preciso ganhar uma certa distância de algo vivido com muita intensidade.
“Deslumbre – Histórias de obsessão musical” (Editora Terreno Estranho, 2025), sua terceira obra autoral, marca justamente esse retorno. Em vez de um livro de crítica musical ou de reportagem no sentido tradicional, Gaía opta pelo caminho da memória: um mapa afetivo de seu percurso pessoal, em que a música funciona como guia para atravessar sons e ambientes e movimentos que se estendem por mais de quatro décadas. Do contato com o pós-punk e da cena gótica paulistana à explosão da música eletrônica e das raves nos anos 1990, passando pela experiência agridoce de estar na MTV no momento em que a emissora tentava “colocar o M de música de volta no TV” nos anos 2010.
Ao longo do livro, surgem histórias que ajudam a dimensionar esse trajeto: a visita à casa e estúdio do renomado DJ John Peel, figura-chave do rádio britânico e grande referência para quem sempre se interessou por novidades; a criação do rraurl a partir de uma fascinação quase militante com a música eletrônica; o ressentimento e a posterior reconciliação com a experiência televisiva; e a relação direta, franca e sem moralismo com o uso de drogas (especialmente o ecstasy) no passado como parte indissociável da cultura de pista de dança. Essas memórias são cronologicamente contextualizadas na obra por uma seção chamada Backstage, que reúne listas e parágrafos curtos que mapeiam referências, discos e filmes relevantes para o entendimento da narrativa.
Além de revisitar conjunturas e períodos específicos da vida da autora, o livro acompanha o esforço de transformar experiência pessoal em algo compartilhável, sem cair na linguagem de um diário íntimo ou em pura nostalgia. É o retrato de alguém que viveu intensamente certos momentos da música, reviu suas perspectivas com algum distanciamento e hoje entende o que aproveitar dessas experiências.
Nesta longa conversa com o Scream & Yell, Gaía reflete sobre o próprio conceito de “deslumbre” (termo que dá título ao livro e carrega tanto encantamento quanto autocrítica), fala sobre amadurecer dentro da cultura musical e a não obrigatoriedade de opinar o tempo todo, o dia em que Elza Soares ensaiou em sua casa e saiu de lá usando uma sandália emprestada, e a dificuldade de ainda se apaixonar por novidades como no passado. O que vem a seguir não é apenas uma conversa sobre um novo lançamento editorial, mas um mergulho em como a música atravessa uma vida. E que, apesar dos deslumbres, alegrias, percalços e mudanças de rota, a obsessão com a música sempre continua.

Para quem você acha que é o “Deslumbre”? Você imagina esse livro sendo lido mais por quem viveu essas cenas ou por quem só as conhece de ouvir falar?
Ah, o livro é para mim! (risos) Na verdade, para eu poder falar que publiquei mais um livro! (risos) Mas não é só por isso; pelo menos do que estou vendo de feedback até agora, ele pega muitas pessoas que ou viveram esses períodos de alguma forma ou que têm um interesse muito nerd em música. Porque, por exemplo, só vai reconhecer o nome do John Peel gente que está numa certa camada de profundidade. John Peel morreu faz mais de 10 anos, ninguém fala dele hoje em dia. Mas eu vi algumas pessoas fazendo resenha falando algo como “caralho, ela foi na casa do John Peel”, então essa pessoa sabe! “If you know, you know!” (risos) Então, eu acho que pega pessoas que viveram esses momentos de alguma forma e outras que gostam muito de alguns tipos de música, porque ele não é bem um livro muito eclético, né? É rock inglês, música eletrônica europeia e americana. Acho que o momento mais eclético musicalmente do livro é a hora em que falo da MTV, porque ali eu tô falando de bandas que eram muito daquele momento de 2011. E na real eu nem ia incluir a MTV no livro, isso foi uma coisa que fiz por último. “Ah, não quero falar da MTV, é importante para mim me distanciar desse adesivo da ex-VJ”. Mas conforme fui escrevendo os outros capítulos, foi ficando claro para mim de que, bicho, tem que entrar, porque é um momento musical importante. A internet estava mudando muito a forma como as pessoas consumiam, produziam e trocavam música. Estava fazendo com que muitas bandas independentes do mundo todo começassem a ganhar proporção ali na esteira do Strokes. Então, falei: “Putz, seria uma pena deixar isso de fora”. Por isso que acabei incluindo. Dito isso, acho que pessoas que têm carinho e apreço pelo histórico da MTV Brasil também podem ler uma versão de como foi aquele final.
Acho que foi muito válido você dar a sua versão de como a MTV acabou.
É, assim, quando me chamaram [para trabalhar na MTV], foram três DJs com recorte musical que chegaram ao mesmo tempo. As frases eram “a gente precisa colocar o M de volta no TV”, “a MTV precisa voltar a falar sobre música”. Mas é claro que foi uma batalha perdida (risos) e tudo bem, mas eu tomei a decisão de participar disso. Do tipo “cara, vou satisfazer a minha versão adolescente que via VJs na TV”. “Vou passar a oportunidade de ser VJ? Claro que não, bora lá!”. Mas eu tive uma condição na época que foi: “tenho consciência de que não vou entregar o formato de VJ que vocês estão acostumados, que é a gatinha jovem que vai estar de calça de cintura baixa e top mostrando a barriga. Eu não sou isso, sou outra coisa. Para poder mostrar a outra coisa que sou, preciso poder fazer a programação musical do meu programa, senão não vale a pena para mim”. Daí eu fiquei com 100% do controle criativo do Goo, pro bem e pro mal. Pro bem, porque eu pude passar videoclipe do Battles; pro mal porque a MTV não entendeu o que eu estava fazendo e cancelou o programa depois (risos). Mas o programa ia ser cancelado de qualquer forma, isso faz parte da programação de TV; tem programas que vêm e vão. Eu tive muito ressentimento em relação à MTV durante muito tempo e escrever sobre isso também foi uma forma de lidar com o meu próprio sentimento e ficar um pouco mais confortável com isso, eu acho.
No livro você diz que a música funcionou como um mapa ao longo da sua vida. Como foi tentar organizar tudo ao escrever o livro? Houve algo que você teve que cortar e pensou “não vai caber isso aqui, senão o livro vai ficar muito longo”, algo assim?
Putz, eu não tive a preocupação de o livro ficar muito longo, porque eu escrevo muito em formato curto. Eu comecei escrevendo reportagem, depois eu passei por um período meio cronista, sempre trabalhando na concisão, tinha que ser o mais curto possível. Aí eu fui trabalhando esse livro falando “gente, não vai nem dar um livro, vão ser 50 páginas” (risos). Aí eu fui colocando ilustração pro livro ficar mais gordinho (risos). Mas esse processo de voltar nessas memórias muito musicais fez eu naturalmente querer escutar as músicas. Às vezes por precisar lembrar alguma coisa. “Mas de quem que era aquela música mesmo que era assim, assim, assado? De quando é isso?”. Porque afinal de contas, a gente está falando de 40 anos, né? Então tem coisas que também não lembrava direito. “Mas essa música que tô pensando, ela é desse período mesmo ou tô fazendo confusão?”. Precisava checar. Por causa disso, acabei passando quase um ano ouvindo muita música e tendo muita vontade de falar delas de forma mais específica. E daí no texto às vezes não cabia alguma coisa muito pontual que eu queria colocar. Como a primeira vez que ouvi Prodigy, que foi muito impactante para mim. É uma das bandas do período dessa música eletrônica mais pop da virada dos anos 90 pra 2000, das bandas que eu gosto muito até hoje, acho foda e que as pessoas deviam gostar mais. Mas tipo, putz, não estava cabendo no texto exatamente naquele momento. Daí por isso acabei criando aquelas listas que vem depois de cada capítulo, para que eu pudesse falar dessas coisas com mais… Não com mais profundidade, porque são parágrafos breves, mas que eu pudesse falar dessas coisas de forma mais objetiva e misturar um pouco música, videoclipe, álbum, livro e filme, porque são várias referências que formam um universo, né? Então no primeiro capítulo eu falo muito do [Espaço] Retrô, que é muito minha base, e se eu quisesse incluir ali o momento que eu falo do filme “Dogs in Space” (1986), junto com a primeira vez que ouvi Christian Death, vai pegando umas tangentes e vai ficando meio difícil de acompanhar o texto. Pensei: “talvez eu possa tratar isso como lista e todo mundo gosta de listas”. Então funcionou, mas foi um processo de relembrar, voltar em muitas coisas do passado. E por isso que tem um capítulo no final que é sobre hoje, para ele não ficar 100% saudosista também.

Ficou legal essa forma que você achou para falar um pouco mais sobre as músicas e artistas, com essa seção chamada Backstage. Parecem notas de rodapé, mas não exatamente neste formato.
Começou como nota de rodapé na real. Aí eu olhei e falei: “Gente, vai ficar parecendo aqueles livros acadêmicos que cada capítulo tem 60 notas de rodapé. Fica mais simpático colocar numa listinha” (risos). Eu fiz uma playlist no YouTube também que tem tudo que eu cito em todos os capítulos. Eu ia fazer no Spotify, mas peguei meio birra com o Spotify e tem muita coisa que lá não tem e no YouTube tem, então acabei fazendo lá.
No livro você cita que, quando a sua família se mudou para Moema e montou um estúdio de ensaio em casa, lá ensaiavam de Titãs até a banda do Amado Batista. Como funcionava isso? Você não se interessou em ver os ensaios porque não era o tipo de som que você gostava ou havia uma certa proteção por parte dos seus pais para que isso não acontecesse?
Não, não tinha proteção nenhuma por parte dos meus pais. Eu acho que eu não tinha nenhum interesse mesmo. Eu achava legal “ah, os Titãs estão aqui em casa, massa”, mas também não estava nem aí pro Titãs naquela época (risos). Tipo, “foda-se, esses caras são velhos” (risos). Não, não ligava mesmo. A pessoa que sou hoje em dia teria uma relação totalmente diferente com isso. Tipo, “porra, os Titãs estão ensaiando lá, deixa eu ver”. Tem uma coisa importante: aquele era um estúdio de ensaio e não de gravação. Era numa sala muito grande, então ele servia para bandas grandes que às vezes estavam passando por São Paulo e precisavam de um espaço amplo para colocar todo mundo. Eu tenho poucas lembranças de me interessar pelo que estava acontecendo ali, mas tem duas histórias que talvez funcionem como anedota, que não estão no livro. Uma foi a época que a galera do Black Uhuru, uma banda de reggae, veio pro Brasil e a minha mãe me colocou para ser intérprete deles, porque eu falo inglês desde cedo. E foi muito maluco (risos)! Eu sendo intérprete do Black Uhuru que estava na minha casa e eu nem aí pra reggae. Hoje em dia eu acho legal, mas nunca foi um tipo de som que eu gostava assim. Mas o meu padrasto nessa época tinha uma banda de reggae chamada Nômade, que inclusive chegou a tocar na MTV e a concorrer no VMB. E por causa do Nômade o pessoal do Black Uhuru acabou caindo na minha casa. Na época eu levei o guitarrista, que era um cara branco, cabeludo, cujo nome não vou me lembrar agora, para dar um rolê na Galeria do Rock em São Paulo. A troco de quê? (risos) Também não sei, mas ele achou tudo muito interessante. E teve a única visita no estúdio que de fato teve um impacto para mim e que eu lembro com muito carinho, foi um pouco mais para a frente, na minha época de música eletrônica e que eu já estava envolvida com outras coisas. Já estava rolando o Hell’s [Club, casa noturna de música eletrônica em São Paulo]. E a Elza Soares veio do Rio de Janeiro para ensaiar lá em casa. Ainda não tinha rolado essa redescoberta dela que rolou por parte de novas gerações, mas ela nunca parou de se apresentar, né? Ela foi artista a vida inteira. Eu lembro que a minha mãe estava muito emocionada que a Elza iria em casa. Ela estava tipo “vocês não tão entendendo, é a Elza Soares” e eu “ah, não sei quem é” e ela “como assim?” (risos). E minha mãe é muito conversadeira, ela e a Elza acabaram fazendo amizade, porque ela também era essa pessoa muito disponível. E olha a situação, que loucura: a Elza estava sem sapato para fazer o show, porque ela tinha esquecido a sandália dela no Rio de Janeiro. A gente calçava o mesmo número e a minha mãe veio perguntar se eu tinha alguma sandália de salto que eu pudesse emprestar para ela. Por um acaso eu tinha acabado de comprar uma sandália plataforma cor de vinho num brechó dois dias antes, não tinha nem usado. Daí eu levei para ela na cozinha, ela tomando café na mesa. Eu tipo: “Ah, eu tenho essa, você quer?” E ela aceitou, fez o show com a minha sandália e ficou com ela para levar pro Rio. E aí acho que foi uma das primeiras coisas de música brasileira que eu olhei e falei: “Nossa, mas isso é foda, essa mulher é um absurdo” e comecei a seguir a Elza naquela época. Mas isso porque calhou dela estar na minha casa e fazer amizade com a minha mãe. Eu faço parte de uma geração musical que a gente tinha uma coisa de não ouvir música brasileira. Principalmente MPB, samba. Eu só virei essa chavinha muito na maturidade, demorei mesmo.
Mas é uma bela história essa, não sei se você já escreveu a respeito…
Quando ela morreu, eu cometi aquele aquele pecado de escrever sobre o outro falando de si. Escrevi isso na minha newsletter na época. Mas foi uma lembrança muito querida e contei porque teve essa coisa da minha mãe vir chamar e falar: “Escuta, tem uma pessoa histórica na nossa casa nesse momento”. Ela me fez tirar foto com a Elza e falou: “Um dia você vai me agradecer”. E eu: “Ah, tá bom” (risos). E aconteceu mesmo!

“Deslumbre” mistura memória, jornalismo e crônica cultural. O que que foi mais difícil de equilibrar: a precisão factual ou a fidelidade emocional das suas lembranças?
Tem muita coisa pessoal que não entrou no livro por achar que não é o espaço e o momento para fazer uma análise do passado em público. Muita coisa da minha adolescência, que são assuntos que eu simplesmente não sou afim de tocar no momento. Talvez numa biografia futura, vai saber o que vai acontecer. Mas em relação ao factual, essa foi a primeira vez que trabalhei num livro com uma pessoa de checagem. O Marcelo Viegas, que trabalha com o pessoal da [editora] Terreno Estranho, pegou o texto e foi checando tudo: data de ano de lançamento do disco que menciono, grafia do nome da música, integrantes das bandas, tudo assim. Esse é um processo que eu nunca tinha passado. Foi tão bom porque tinha tanto erro… (risos) Não erros grosseiros, mas tanto detalhe que de fato precisava dessa atenção editorial de um outro olhar. E a gente passou umas semanas trocando e-mail. Ele dizia: “Olha aqui você fala isso, mas eu encontrei não sei o quê. O que exatamente você está falando?”. Então, teve muito desse trabalho. Essas duas coisas não foram difíceis, mas acho que teve essa necessidade de equilibrar o que eu quero contar que é meu e o que eu quero contar que é geracional, porque faz parte da literatura. Você quer falar daquilo que é objetivo e pessoal para falar de algo que é universal, maior. Então acho que acabei escolhendo esse formato meio ensaio para conseguir atingir um pouco esse efeito. Estou falando de coisas que aconteceram comigo, mas pessoas que gostam dessas músicas ou que viveram essa época vão reconhecer alguma coisa também. Assim não cai naquela coisa meio diarinho, né? “Ai, eu era uma adolescente, tadinha de mim. Eu fui morar em Moema”, coitada, né? (risos).
É engraçado você comentar isso, porque tem partes no livro que você reconhece certos privilégios que você tinha. Poderia ter dado essa ideia do tipo “nossa, ela ficou revoltada porque foi morar em Moema?”, mas logo em seguida você explica melhor a situação. E até achei que o título do livro, “Deslumbre”, parece uma autocrítica também. Seria isso?
Sim! E no rolê da noite, principalmente no mais clubber, para onde eu fui parar ali a partir do Hell’s Club, “deslumbre” e “deslumbrado” tem uma conotação negativa. “Ai, fulano tá deslumbrado, fulana tá deslumbrada, que saco. Não para quieta essa deslumbrada”. E também é uma coisa muito comum, porque a pessoa começa a se envolver com aquele universo que é todo novo e super legal e se deslumbra. E esse deslumbre tem essa conotação negativa da pessoa que está ali toda “muito high na própria luz”, né? Mas ele tem um lado positivo também, porque é bonito se deslumbrar com algo que você está conhecendo. Acho que escolhi esse título porque fui essa jovem muito deslumbrada com coisas em vários momentos da vida e provavelmente enchi o saco de algumas pessoas com isso um pouco (risos). Mas o que é ser jovem, né? É isso. Mas são deslumbres que eu hoje, com quase 50 anos, olho para trás até com um certo carinho assim, tipo, “que legal que eu tive uma experiência como o Hell’s”, por exemplo. Uma experiência musical e pessoal muito intensa. Que bom que eu fui capaz de me deslumbrar tanto com aquilo, porque estar no Hell’s promoveu uma mudança total na minha vida. Por causa do Hell’s Club que eu criei o rraurl, comecei a escrever sobre música, fui parar na MTV e etc. Então foi um deslumbre com a música eletrônica que durou uns bons 10 anos. Demorei para superar essa fase (risos). Mas trouxe muitas coisas legais para mim também.
Escrever um livro tão pessoal te trouxe algum tipo de pudor? Ou ao contrário, uma sensação de libertação com o que você viveu?
Então, nem um nem outro; me levou para um outro lugar. Vou explicar. Eu tenho quatro livros publicados; desses, três são livros de memória e eu não tenho nem 50 anos. Não tenho idade para ter três livros de memória publicados! É tipo “que tanto assunto essa mulher tem?” (risos) Mas assim, o meu primeiro livro é um de histórias que vivi no meu período de repórter de viagem. Meu segundo é um livro de crônicas relacionadas à vida em São Paulo, que tem algumas experiências de ficção ali no meio. Mas é bem crônica mesmo, bem focado nesse formato. E o terceiro é um livro de memórias relacionadas à música. Eles fecham um projeto, juntos eles formam uma trilogia de memórias que são um pouco crônicas, um pouco ensaio, e se relaciona muito com o mundo nos últimos 10, 15 anos, etc. Para mim, esse projeto está concluído. O que tem acontecido muito comigo é querer me descolar da minha experiência ou desse texto muito viciado no jornalismo, que é de onde eu venho, para escrever ficção. O “Tá Todo Mundo Tentando” já tem algumas experiências de ficção ali no meio que gosto muito. Acho que isso é o mais importante: que eu gostei muito de fazer. E meu próximo livro, que ainda não tem data, ainda estou trabalhando nele, é um livro só de ficção. Então, acho que o resultado foi esse. É claro que eu faço escolhas, tem um monte de coisa que aconteceu na minha vida que não está lá. Nesse livro, da parte da MTV teve um amigão meu, Ronaldo Bressane, que é escritor, ele fez uma leitura crítica dele e trouxe tipo, “porra mas eu sei de tal coisa que você não colocou, tem isso, tem aquilo”. Mas não, essas coisas eu não quero colocar. São escolhas que a gente faz. Mas não tem a ver com pudores ou moralismos; é que tem coisas da vida que são privadas e tudo bem. São coisas que podem ser exploradas de outras formas na ficção também. Então a beleza da ficção justamente tá aí!
No livro você fala abertamente sobre drogas, de uma forma bem direta, bem franca. Não teve nenhum tipo de receio de se abrir tanto sobre o assunto, por causa do seu filho, sua família?
Minha família, meus pais sabem. Meu filho já tem 21 anos e é totalmente capaz de lidar com isso (risos)! Apesar que teve um dia que a gente estava conversando aqui em casa que eu contei algo na mesa do almoço sobre tomar ácido que ele ficou meio “hã?” e eu “ah…” (risos). Não é como se ele não soubesse o que é ácido, ele tem 21 anos, né? Mas assim, eu acho mesmo que a única forma de falar sobre drogas é com honestidade, sabe? Eu fui usuária de drogas em várias etapas na minha vida, não sou mais. Ainda bem, nunca vou voltar a ser. Hoje em dia eu não quero conviver com gente que usa, porque acho que vi muito de perto o que as drogas são capazes de fazer ao longo do tempo. E o deslumbre tem muito a ver com droga também. Ecstasy em especial. Eu não sei como é o ecstasy que as pessoas estão tomando hoje, mas rapaz, o que a gente estava tomando ali em meados dos anos 90… A primeira vez que tomei, eu acordei no dia seguinte e falei: “Tá, minha vida agora é isso”. Assim, “eu quero tomar de novo todo dia” (risos). Muito impactante, uma coisa muito intensa, muito forte e a sensação inicial é muito positiva. Depois, é claro, ele vai cobrar seus preços. Então, já paguei os meus preços aí, não preciso pagar de novo, já sei como é. Mas é isso. Acho que a única forma de olhar pros momentos da minha vida que usei drogas é com honestidade. E seria meio moralista em especial falar sobre a cena de música eletrônica sem citar drogas. No Retrô não rolava tanto, era muito goró, cachaça mesmo, bebida barata e maconha da pior qualidade (risos). Depois a coisa foi ficando mais sofisticada, mas acho que seria muito hipócrita da minha parte tentar falar sobre o período da música eletrônica que vivi sem falar da importância que o ecstasy teve… O ecstasy está totalmente ligado ao impacto que essa cultura de pista teve. A pessoa não tem que tomar ecstasy para curtir isso, de fato não tem. Mas se ela tomar, a experiência vai ser outra. Então, espero que o livro não tenha passado a ideia de “galera, drogas é bom” (risos)!
Não acho que tem. Até porque depois você fala o preço que te custou, né? Como foi para você e tudo mais…
É, por estar mais velha hoje, ano que vem eu faço 50, né? Eu vi ao longo dos últimos 10 anos, em especial, o preço que isso cobra das pessoas que não pararam de beber e não pararam de usar drogas como coisa diária. Então acho que por isso mesmo é muito importante poder falar de drogas com franqueza, porque é bom, é ótimo, é super gostoso mas o depois também existe, né? Não é só uma coisa ou outra. Então para responder à tua pergunta de forma mais objetiva, essa é uma coisa que eu não tentei censurar. E tem o aspecto sexo também, né? Sexo não é uma coisa muito presente no livro, porque no Retrô e depois nesse começo do Hell’s era muito maluco, porque ecstasy é uma coisa muito tátil, né? Tocar as pessoas, se abraçar, ficar passando a mão no rosto do outro… Mas o que a gente vivia ali, pelo menos no começo, era uma coisa tão afetuosa, carinhosa, de amigo, que tinha pouquíssima conotação sexual. Até tinha, mas ali não era uma coisa de pegação das pessoas nuas na pista de dança trepando em público. Não que isso não tenha acontecido (risos). Mas era uma coisa muito de carinho. E naquele meu começo no Retrô, a gente era todo mundo muito jovem. Então, por um lado tinha aqueles hormônios muito alterados ali. Todo mundo ali no meio encontrando uma familiazinha, se cuidando. Então tinha essa coisa muito cuidadosa também. Daí acho que é por isso que no livro sexo não é uma coisa tão presente. Poderia ser, mas acho que escolhi contar de outro jeito.
Da forma que você conta do ecstasy no livro, realmente não enxerguei como uma forma sexual, erótica ou o que seja. Pensei mais em sensações mesmo, que seria a coisa mais forte que você parecia ter na lembrança. Pelo menos essa foi a minha leitura.
É, que bom! Porque acho que é meio por aí mesmo. Porque sei que hoje em dia, por exemplo, existe um cenário de chemsex, né? As pessoas se drogam para trepar em lugares e usam ecstasy também. Mas o que a gente estava vivendo naquela época era uma coisa, primeiro muito ligada à música, muito musical e segundo muito muito carinhosa mesmo. Carinhosa de um jeito afetuoso. Todo mundo começou a tomar ecstasy e ficou muito fofo. E durante um período foi maravilhoso, porque todo mundo parou de cheirar pó. Acho que durante uns seis meses assim ninguém mais usava cocaína. Depois as pessoas foram voltando para esse barranco. Mas durante seis meses, um ano, foi super legal (risos)!
Reparei que o Espaço Retrô fica na mesma rua do Bar Bolor, onde você fez o primeiro evento de lançamento do “Deslumbre”. Isso foi de propósito ou foi uma coincidência?
Não, foi totalmente de propósito (risos)! O Bolor fica não só na mesma rua como a poucos metros de onde era o Retrô original. Era num imóvel um pouco mais perto do Largo da Santa Cecília, que é uma casa que não existe mais e hoje em dia é um estacionamento. Eu já tinha passado na frente do Bolor algumas vezes e pensado “parece legal aqui”, mas nunca tinha parado para entrar. Daí o Nilson, que é o publisher da Terreno [Estranho], falou: “Pô, o lançamento podia ser no Bolor, que é do lado do Retrô”. E eu “tá, maravilha!” E ele não só é pertinho, como tem uma festa que eles fazem que é de ex-frequentadores do Retrô. Então tem tudo a ver mesmo, achei super adequado fazer lá. Mas também porque esse é um livro que eu não queria fazer o lançamento naquele esquema muito tradicional de livraria, que as pessoas ficam ali na fila no pé da mesa para pegar e autografar. Nada contra esse tipo de lançamento, que também é uma delícia (risos). Mas acho que esse livro pede um outro tipo de lançamento. E o Nilson entendeu isso super bem e acho que funcionou. Quer dizer, quase funcionou porque foi na última semana útil de 2025 e estava tudo super caótico, confuso, um monte de gente não conseguiu ir, mas ainda assim super rolou. Ficou cheio, a gente vendeu muito livro, foi massa!
Quando você começa a relatar suas impressões do Retrô no livro, me lembrou quando comecei a vir para São Paulo. Sou de Santos e comecei a vir para cá para ver shows de bandas de amigos lá pelo início dos anos 2000. Você comenta aquela coisa dos lugares com “estética de falência com a decoração feita de sucata” e me lembrou um pouco um dos primeiros lugares que fui aqui em São Paulo, o Juke Joint. Ou o nome era SubJazz? Eu não lembro ao certo.
Juke Joint. Um era o nome da festa, o outro era o nome do lugar, né? O Juke Joint era o nome do lugar. Eu fui muito.
Ele ficava ali na Frei Caneca, né? Lembro que quando entrei lá, pensei: “Nossa, quero tocar aqui”. Porque era basicamente um porão e eu curtia esse tipo de coisa mais tosca. Mas enfim, uma outra coisa que você escreveu no livro foi “estar numa turma era tudo que eu queria”. Naquela época o pessoal se relacionava muito mais pelo tipo de música que cada um ouvia, mas hoje em dia isso parece um pouco diferente, porque os mais jovens ouvem de tudo. Como você enxerga essas diferenças?
Eu acho que é difícil a gente colocar todos os jovens de hoje num pacote só, sabe? Eu acho que a obsessão musical ainda existe. O tipo de jovem que ainda é muito ligado em música ainda existe. Como aquele que é muito ligado em figuras pop, por exemplo. Tá aí os fandoms de artistas que não me deixam mentir (risos)! Acho que inclusive eles nunca foram tão fortes. Mas de modo geral, a gente vive um momento em que as pessoas escutam de tudo mesmo. Quando eu era adolescente, era assim: você gostava de punk e não podia ouvir metal, senão ia ser expulso da turma. Falando com certo exagero, mas era isso: você levava muito a sério aquele movimento no qual estava imerso. Mas é claro que também sempre teve gente que gostava de tudo, de música pop e que não se ligava tanto assim em música da mesma forma que a gente, né? A gente tem tendência a ser um pouco exagerado. Então acho que é isso: ainda existe, mas por causa da internet a gente percebe tudo de forma muito fragmentada. E essa fragmentação fez com que os nichos também ficassem muito fechados em si mesmos, meio invisíveis para quem é de fora.
Sobre essa questão do deslumbre de descobrir uma coisa nova: às vezes passo músicas e artistas novos para amigos e muitos deles não tem mais interesse, paciência ou tempo para acompanhar lançamentos. Acho que isso acontece porque pessoas da nossa geração não vão se apaixonar mais da mesma forma que aconteceu quando ouviram Nirvana ou The Cure pela primeira vez, por exemplo. Então tento enxergar aquilo com o contexto de hoje em dia. Por exemplo, o King Gizzard and the Lizard Wizard, que é uma banda mais recente e a geração mais nova acha fenomenal. É legal, mas não tem um disco excelente do início ao fim. Se pensar nos tempos de hoje, é louvável que eles soltem tantos discos por ano e se mantenham inventivos e relevantes. Mas se usar a régua do pessoal que gosta de rock clássico, dificilmente uma banda atual vai atingir a importância de Led Zeppelin, Queen ou algo assim. Você acha que os mais velhos tem que baixar um pouco a expectativa para se interessar por algo novo ou ainda consegue descobrir coisas que te deixam “deslumbrada”?
Hum, putz… Eu acho que ainda encontro coisas que me deixam deslumbrada, mas elas não são necessariamente musicais. Tenho muito deslumbre com livros, com literatura. De chegar num autor ou numa autora e pensar “Meu Deus, eu quero ficar mergulhada nisso aqui”. A gente não tá falando de música, mas de arte, de criação artística, né? Então acho que está tudo ali. Eu tenho muito isso com cinema, que às vezes eu dou umas piradas assim. Depois da música, outra coisa muito importante da minha vida são os filmes. Eu quase virei crítica de cinema em algum momento, mas ainda bem que não fui por esse caminho, porque é mais falido que a crítica musical, né? Tem ainda menos espaço, é difícil (risos). É a dura vida do jornalista cultural. Mas no meu livro tem o último capítulo sobre o John Peel; ele tinha essa capacidade muito bonita de continuar se deslumbrando com coisas novas que apareciam. Isso depois de 40 anos de carreira e literalmente milhares de bandas e programas ao vivo que ele gravou. No estúdio dele que visitei, embaixo da mesa dele, tinha uma caixa de madeira onde ele guardava os singles que ele mais ouvia no momento, antes de falecer. Isso até virou um conteúdo, tem no Youtube. E o que tinha ali eram bandas novas daquela época, de 2004. Tinham singles do White Stripes, por exemplo. Pô, ele estava super conectado com o que rolava, pela natureza do trabalho dele. Porque ele era um radialista, mas também podia ter se tornado um cara que parou lá em 1986. Isso aconteceu com um monte de gente, mas ele nunca parou. Eu sempre olhei para ele com certa inveja ou talvez cobiça, querendo um pouco imitar isso, sabe? Tipo, ser uma pessoa que manja de música, talvez mais do que qualquer outra (risos). E porque ele sempre foi muito curioso em relação às coisas que estavam acontecendo. O John Peel passou por música eletrônica, rock, dub, reggae, metal e música celta. Quando você olha o arquivo de coisas que ele gravou, é muito grande. Ele ficou muito ligado com esse universo do indie rock inglês, mas ao mesmo tempo passou por muitas coisas. Me pergunto como ele estaria lidando com música hoje, sabe? Se ele ainda poderia ser um farol pra gente nesse sentido ou se também teria sofrido o que a gente sofreu, de não saber muito para onde ir, porque tem coisa demais. Mas o que você estava falando do King Gizzard and the Lizard Wizard agora há pouco: eu percebi muito isso com o Geese. Não me liguei tanto e vejo as pessoas falando “ah, o Geese é uma puta banda”. Galera, é só uma banda legal, fiquem calmos! Mas pra gente que já carrega muita referência, talvez esteja ficando cada vez mais difícil encontrar alguma coisa de fato nova sem ficar comparando com o passado. Eu ouço o Geese e falo: “Tá, mas o menino canta igual ao moleque do Clap Your Hands And Say Yeah, que já cantava igual ao David Byrne. E o que tem aqui exatamente que vocês estão gostando tanto?” (risos). Mas para alguém que está chegando na música agora, talvez ouvir isso seja foda sim. E que legal, espero que pintem vários Geeses por aí. Mas voltando ao John Peel, eu não consegui me tornar essa pessoa que está sempre acompanhando o que está rolando de novo, porque pós-MTV, foi uma coisa na minha vida que eu quis cortar. É muita coisa, eu não aguento, eu não quero ficar emitindo opinião sobre tudo, eu vou fechar essa portinha e vou ver e ouvir outras coisas. E foi nessa época que eu comecei a ouvir muita MPB, jazz, o que também me abriu muitas portas pro passado também.
Sobre se distanciar um pouco da música… No livro você diz “passei anos sem escrever sobre música, meio que por trauma com a exposição televisiva”. O que aconteceu exatamente? Você teve algum stalker ou só sentiu a necessidade de se resguardar?
Putz, eu tive uma certa exposição televisiva, mas quando a gente pensa que quem é famoso mesmo é tipo Angélica e o Luciano Huck… sabe? (risos). Uma pessoa como eu fala: “Ai, mas a exposição televisiva”, parece que está fazendo um drama, mas de fato eu lidei muito mal com estar na TV, com a expectativa das pessoas em relação ao que eu deveria fazer. Sinto que eu não aproveitei esse momento da forma como poderia, apesar de ter me trazido muitas coisas legais também. Comecei toda uma carreira posterior por causa da época que estava na MTV. Isso foi legal, mas até ir pra MTV, eu era uma pessoa que tinha perfil fechado no Twitter. Eu fazia um site de música eletrônica super alternativo chamado rraurl. Não estava acostumada a estar em um festival de música e alguém vir falar comigo, pedir para tirar uma foto. E eu nunca passei por situações desagradáveis tipo ter um stalker. Ainda bem, não queria ter passado (risos)! Mas passei por muita gente me xingando na internet, por exemplo. Hoje em dia, acho que nem ligaria para isso. Falaria: “Ai, foda-se você, fala aí o que você quiser”. Mas na época essas coisas me machucavam muito, no sentido de me fazer duvidar de mim mesma. Por um lado, achava que estar na TV, falando de música na MTV, era uma coisa muito legal. Por outro lado, depois ia ver os comentários no Facebook e as pessoas estavam lá falando “ai, mas quem ela pensa que é? Ela é metida, mas é gorda, ela é velha”. Porque eu não estava dentro do padrão “gatinha de MTV”: eu já era mãe, eu tinha 30 e tantos anos (risos)! Não acho que ninguém tinha obrigação de ficar me elogiando na internet, mas ver esses comentários de forma muito direta me fez muito mal, no sentido de me deixar muito insegura, duvidando de mim mesma. Eu vejo os episódios da MTV que gravei, tenho alguns arquivados, e o que eu vejo é uma pessoa muito nervosa (risos), não sabendo direito o que está fazendo, apesar de estar falando de coisas muito legais. Eu tenho um puta de orgulho do [programa] Goo, porque a gente trouxe um monte de bandas. Falo “a gente” porque era uma equipe, né? A gente trouxe um monte de bandas ótimas antes de todo mundo. As pessoas gostavam do que a gente estava trazendo. Mas está claro para mim que eu não estava confortável naquele papel. Então, quando a MTV acabou mesmo, teve um encerramento em 2013 e eu fiquei até o final. Ainda tive umas experiências com internet, mas uma hora olhei e falei: “Não é isso que eu quero fazer (risos)! Quero usar a exposição que tive nesse momento para fazer outras coisas”, que de fato foi o que aconteceu. Mas a internet pode ser muito cruel, e a MTV também nem sempre era um espaço muito sadio. Acho que tem várias coisas que hoje eu seria capaz de lidar com mais maturidade, mas na época me abalaram muito. E não sou a única; se você conversar com outras VJs mulheres, você vai ouvir os mesmos relatos de muita depressão, muita ansiedade. E na época a gente não estava nem tendo conversa sobre depressão e ansiedade, né? Dito isso, quando recebi o convite para ir para MTV em 2010 e tomei a decisão consciente de aceitar, o que pensei foi: “Eu vou usar essa experiência para poder me validar como a repórter cultural que quero ser.” E consegui: saí da MTV escrevendo para a Folha [de SP], então beleza. Pena que depois a Folha já não era mais um lugar tão legal para trabalhar. O jornalismo cultural já estava mudando muito.
O jornalismo cultural perdeu o espaço para editorias de entretenimento e famosos. Mas ainda tem gente que gosta de escrever sobre cultura, música, mesmo que não tenha um retorno enorme ou seja na base da colaboração. Por exemplo, o fato de ainda ter o Scream & Yell, o Marcelo Costa manter o site no ar há 25 anos, é bem legal, né?
É super, super! Eu pensei muito nisso quando o Trabalho Sujo fez 30 anos e o Scream & Yell fez 25, né? Em 2027 o rraurl faria 30 anos também, então a gente é tudo contemporâneo. E o momento que eu me desliguei do rraurl, ele acabou. São momentos diferentes, mas quando eu saí de lá me deu um alívio, bicho (risos)! “Não vou mais ter que pensar nisso!” Porque era muita pressão, era muito cansativo. A gente tentava pagar todo mundo, precisava fazer dinheiro e eu não sou boa de fazer dinheiro, nunca fui. Então era muito difícil mesmo. Falo isso porque olho pro Trabalho Sujo, pro Scream & Yell e falo: “Caralho, são guerreiros”. Mas chegar com 25 anos de atividade é muita coisa. Pensa em uma revista de cultura que tem 25 anos hoje em dia? Não existe mais. Tirando os gringos lá fora, não existe mais.
Sobre o rraurl, no livro você fala que ficou desanimada com os descaminhos do site, que sofria tanto com a competição de blogs e redes sociais, quanto da sua inaptidão para o empreendedorismo. Mas o que rolou exatamente?
Não tem nada muito específico para falar; o rraurl tomou três processos que eu não podia falar, mas eles já passaram, só que não sou de falar sobre eles. Mas foi uma coisa que me desanimou muito do tipo, “porra cara, eu fiquei batalhando e fazendo dívidas por causa dessa cena aqui, por mais de 10 anos. Agora vocês vão me processar, vai tomar no cu” (risos)! Tem um monte de coisas que não estariam acontecendo se a gente não tivesse ajudado a movimentar esse cenário. “Então vai se foder” (risos)! Quando saí do rraurl, eu estava muito brava e desanimada com o cenário mesmo, não com pessoas específicas, mas a forma como as coisas foram acontecendo foi deixando claro para mim que não era ali que eu queria estar. Mas falando enquanto veículo, era o momento em que primeiro os blogs e depois o Facebook ficaram muito grandes e o rraurl foi perdendo o motivo de existir, ficando muito difícil e a gente não conseguia ter essa ideia tão clara de “estamos criando um arquivo vivo que vai ser importante e relevante no futuro”. Era só um puta trabalho. “Como é que a gente vai manter isso aqui? Isso custa dinheiro para manter, como é que a gente vai fazer?” Quando o rraurl começou em 97, foi comigo, o Gil Barbara e o Camilo Rocha. O Gil não é a pessoa do texto, nunca foi; o lance dele era mais bastidores de tecnologia mesmo e trabalha com isso até hoje. E o Camilo pegou um emprego na Gazeta Mercantil e não tinha mais tempo de escrever pro site. E eu fiquei muito com a responsabilidade de, se o site for acontecer, vou ter que escrever nele. Então comecei a escrever para poder atualizar o site. E anos depois, quando o rraurl começou a virar um negócio mesmo, fiquei nessa situação de novo. Eu não tinha ninguém que faria um departamento comercial desse site, então eu tive que fazer. Fui capaz de aprender a escrever, mas não era capaz de aprender a ser um departamento comercial, que é uma outra coisa completamente diferente (risos)! E eu nem queria isso. Então foi ficando muito difícil mesmo. Mas hoje em dia, também olho para esse momento com muito carinho e orgulho. Acho que a gente fez um negócio muito legal, uma coisa rara mesmo. Mas que durou o tempo que podia durar.

Você pensa ainda em voltar a escrever sobre música de uma forma mais autônoma?
Sim. Na real, quando o Massari e o Nilson me convidaram para fazer o livro em 2023, a gente foi tomar um café, e eles “a gente tem essa editora… A gente queria te convidar para fazer um livro assim, assado”. A primeira coisa que eu pensei foi: “Ah, eu não quero escrever sobre música”. Mas o Massari é um cara super legal, todo mundo adora e eu também adoro ele. E os livros que a Terreno faz são muito bonitos, então fiquei tipo “pô, eu não quero [falar sobre música], mas será que eu não consigo ter uma ideia?” E daí acabou rolando o livro nesse formato que é de memórias, mas muito sobre música. Escrever esse livro me fez voltar para vários assuntos com maturidade, uma cabeça totalmente diferente da que eu tinha há 15 anos, 20 anos, com recursos de texto que de fato não tinha quando era uma uma jovem aprendendo a escrever. Eu tenho uma newsletter que chama “Tá Todo Mundo Tentando”, onde escrevo sobre várias coisas. Menos sobre música, mas eu já entendi que música vai ser um assunto muito importante nela esse ano. Inclusive, estou fazendo um ano inteiro de conteúdo sobre o Bowie. Então vai ter aí 12 meses para eu desfiar essa obsessão de vida inteira que eu tenho com Bowie (risos). Esse é um projeto que fiz no site da MTV, chamado “David Bowie do dia” que quase todos os dias eu publicava alguma coisa contando alguma curiosidade sobre a vida do Bowie, porque ele é um poço sem fundo de assunto, bicho! Quanto mais você sabe, mais aparece coisa para você saber. Do tipo, “Bowie teve uma coluna numa revista de arte contemporânea em Nova York nos anos 2000”. Hã? (risos). Pois é, está ele lá falando sobre arte. Apareceu uma coisa para mim esses dias que eu nunca soube que o Bowie fez uma apresentação do álbum de Drum’n’ Bass dele, o “Earthling”, num clube underground em Londres, em 96, e nunca soube disso. Então eu fiz isso, e na época ninguém se importou com o “David Bowie do dia”, eu só fiquei fazendo porque era afim. E como o site da MTV saiu do ar e foi apagado, não tenho esse arquivo, mas estou refazendo nas edições de sexta-feira da minha newsletter. Eu tenho uma lista de temas que fiz à mão e não paro de colocar itens ali. Dá para durar uns 5 anos (risos)!
Sobre coisas que a gente descobre sobre o Bowie até hoje: outro dia apareceu para mim um vídeo com o Henry Rollins falando quando ele conheceu o Bowie. Foi algo como “Oi, Henry, gosto dos seus livros” e ele, “nossa, você conhece meus livros?” e ele: “Sim, eu já li alguns”. E aí ele o chamou para almoçar e eles começam a conversar sobre vários assuntos, e o Bowie pergunta “você já viu tal balé? É muito bom, você deveria ir” e o Rollins “não”, sem saber o que responder direito. Parece que o Bowie se ligava em muitas coisas ao mesmo tempo.
É, eu vi esse vídeo! É parte da beleza dele, né? Esse vídeo faz parte de uma série de vídeos que a BBC fez na primeira semana do ano. Tem o tem um do Neil Tennant também, do Pet Shop Boys, tem um da Kate Moss, um do Brian Molko [Placebo], de várias pessoas contando esse tipo de lembranças e todas elas vão nessa direção do Bowie chegar e falar uma coisa totalmente inesperada. Do tipo, “pô, mas ele gostava disso?” Sim! E acho que tem essa qualidade que é muito parecida com o John Peel, de estar ligado, de ter disponibilidade intelectual e curiosidade suficiente para se ligar em várias coisas ao mesmo tempo, sem ficar preso no nicho do tipo, “eu vou falar com o Henry Rollins sobre balé” (risos)! Muito bom!
Mas sobre essa coisa de escrever sobre música: eu já fiz um ensaio disso no ano passado, fazendo uma série de conteúdos sobre a Lana Del Rey, porque é uma artista que eu gosto muito e que o Goo foi o primeiro programa a passar na TV. Depois ela super estourou, as adolescentes passaram a idolatrar e achei tão curioso acompanhar isso. Tipo, a namorada do meu filho gosta da Lana del Rey! Mas por causa do disco novo dela que em breve sairia, eu comecei a fazer uma série que foi falando de todos os discos dela, mas daí a gata não lançou o disco novo e eu tive que continuar a série, meio que morrendo (risos). Espero que saia esse ano, mas já foi um ensaio de como fazer com a voz de escritora que tenho hoje, do que eu falaria sobre música. Não tendo nenhuma obrigação de falar na TV, de falar com um público X ou Y. O que eu posso falar quando não tenho obrigação de falar isso? Assim é legal.
Eu já assinei a sua newsletter, mas não tive contato com o rraurl, porque demorei para me interessar por música eletrônica. Lendo aqueles parágrafos curtos da seção chamada Backstage no livro pensei “dá vontade de ler mais coisas dela falando sobre música”. Mas me deu uma coisa meio “pô, quando ela escreveu sobre música, eu não aproveitei e o site não está mais no ar”, entende?
As coisas que eu escrevia no rraurl, principalmente no começo, eram muito de agenda. Do tipo: “vai rolar a festa X com o DJ Y” e eram muito militantes. A gente tinha uma militância clubber, raver, muito forte. Falar isso hoje em dia parece tão bobo… mas a gente era muito ingênuo. A gente acreditava muito no poder transformador da música. A gente queria que as pessoas conhecessem aquela música também. Do tipo “jovens que estão indo nas raves, elas são maravilhosas, aproveitem muito isso”. Mas, bicho, ter tido a experiência de ir numa rave com ingresso a R$5 e cada um levava sua bebida no bandejão de química da USP em 1994, era outro rolê. Você chegava, via o que estava acontecendo e falava: “Tá, isso aqui tem uma capacidade de mudar o mundo de alguma forma. Todo mundo tinha que estar aqui vivendo o que a gente tá vivendo”, porque era muito eufórico e muito aberto. E eu acho que isso se relaciona muito com a internet também, porque além de acreditar no poder da música, a gente tinha muito o sonho da “internet livre”. “A internet chegou e está mudando as coisas”, “a internet tá permitindo que todo mundo fale”. E olha só onde a gente veio parar por causa disso! (risos) Enfim, a gente achava que ia dar certo. Então tinha um deslumbre muito forte com essa cena e o rraurl foi motivado por isso. “A gente quer que mais gente tenha acesso a isso que a gente está conhecendo e as festas tenham mais pessoas e a gente quer conhecer os outros DJs que estão por aí, que a gente ainda não conhece”, etc. Então, por isso que os textos do começo do rraurl eram muito de divulgação. Por causa do rraurl, eu comecei a ser convidada a escrever para outros sites e eu tive que aprender como fazia, como falar sobre tal disco. “Como é que eu falo sobre isso? O que eu tenho para falar? O que eu acho desse disco?” (risos). Então eu fui aprendendo na marra e isso acabou dando depois na MTV, né? “Eu vou falar sobre essas bandas, esses artistas, essas cenas que eu gosto, mas o que eu tenho a dizer sobre elas para esse público da MTV?” Acho que o público na época tinha tipo 13 anos e a gente fez esse programa de Math Rock que o diretor do MTV deve ter olhado e falou: “Eu vou cancelar esse programa! Esse programa não vai passar pra grade do ano que vem, porque tipo, que porra essa mulher tá falando?” Sim, mas mesmo assim eu fiz (risos)!
Eu lembro que você comenta no livro que vocês tocaram Battles. Mas nessa época eu já não estava acompanhando mais MTV…
É. Ninguém estava (risos)!
Mas lembro que quando eu passava pelo canal e aparecia a propaganda do Goo, anunciando as coisas que tocariam, eu pensava “deve ser legal esse programa”. Mas infelizmente nunca vi porque não acompanhava os horários.
E nem tem na internet. Eu brigava muito por isso, tipo “a gente precisa colocar o programa no ar, precisa colocar o programa no Facebook”, e ouvia de volta “mas não pode por causa da Abril, da Viacom”. Era uma batalha meio perdida. E durante um tempo teve no YouTube, mas depois foi meio que sumindo… Aproveitando o que a gente está falando, mas indo para um outro lugar: eu acho que tem uma coisa importante desse e de outros livros que estão sendo publicados agora, tipo o livro do Scream & Yell, o livro do Sounds Like Us, o livro “Bate Estaca” do Camilo Rocha, a nova edição do “Babado Forte” da Erika Palomino, o “Jardim Quitaúna” do Rodrigo Carneiro. Estou falando de alguns que eu lembro agora, mas tem outros. Eles estão ajudando a registrar movimentos artísticos, coisas que aconteceram, que a gente acha que vão ficar registradas para sempre na internet, mas elas não vão. Tem muita coisa que já precisei pesquisar pro “Deslumbre” que não encontrei. Se quiser saber sobre o Retrô, não tem. Tem umas fotos ruins perdidas nos grupos de Facebook que daqui a pouco também não vão existir mais e uns relatos e uma matéria ou outra de TV, mas é pouca coisa. Então esses livros são memória, mas também são reportagem, são importantes para deixar registrado algo que aconteceu. O livro do Camilo em especial, acho super importante porque essa cena da música eletrônica brasileira movimentou muita gente. Gerou empregos e dinheiro, artistas brasileiros que foram para a gringa e depois voltaram gigantes. Essas coisas são importantes para o mercado, sabe? Tem um impacto cultural aí. Mas pela internet ser muito fragmentada e baseada no urgente, no agora, sem o livro do Camilo talvez a gente não soubesse de onde veio o [DJ] Marky, que ainda hoje é um dos maiores DJs do mundo, sabe? O “Todo DJ Já Sambou” da Cláudia Assef também, que já teve duas edições. São registros de algo que parece bobagem porque é “ah é pista, é balada”, mas não; isso é música e é comportamento, né? É importante.
E de certa forma, parte do seu livro também faz um pouco disso ao falar sobre o Hells e como você descobriu essa cena eletrônica aqui em São Paulo, né?
Faz! Eu tentei fazer isso também no capítulo sobre o Retrô, porque eu queria dar uma explicação do que eram as tribos urbanas pros jovens de hoje, sabe? Que era um conceito muito forte naquele período e que hoje em dia eu sei que ainda existe, mas eu acho que é uma coisa muito de cultura da internet, porque as pessoas não precisam estar fisicamente num lugar. Os metaleiros em São Paulo, eles não precisam estar reunidos na porta da Woodstock Discos igual eles ficavam nos anos 90. Hoje em dia eles estão online, mas se você passasse na porta da Woodstock Discos ali na Praça da Bandeira em 1996, tinha centenas de metaleiros aos finais de semana. E estavam ali por quê? Porque queriam encontrar pessoas com gostos em comum. Estavam ali vivendo em bando, em turma, em tribos, né? E fazendo a pesquisa pro livro, achei muitas reportagens sobre tribos urbanas nesse período. Tem do Estadão, tem uma ótima da Globo, do Caco Barcellos na pista do Retrô. Então esse registro faz a gente lembrar que isso foi importante, que de fato aconteceu e impactou várias pessoas. E se não fosse o Caco Barcellos ter ido fazer uma reportagem muito doida na madrugada do Retrô, talvez a gente nem tivesse essas cenas que me lembraram que o Retrô tinha uma decoração toda feita de sucata com os manequins desconjuntados. Eu olhei e falei: “Nossa, era muito mais feio do que eu imaginava”. Eu lembrava que era feio, mas é muito pior” (risos)! Então, esse registro é válido. E a gente está falando de coisas muito pessoais, por isso que sempre vai esbarrar nessa coisa da memória.
Gaía, pra gente finalizar aqui, queria te perguntar: quais são seus próximos projetos?
Obrigado por perguntar, porque isso para mim é super importante! O primeiro é mais imediato, que na real é a fase nova da newsletter. A “Tá Todo Mundo Tentando” é um projeto super pessoal que existe desde 2021 e que foi tomando proporções que eu não imaginava que ia fazer 5 anos de vida, mas aí estamos. Que bom! É um projeto que eu gosto muito de fazer porque levou minha escrita para outros lugares. E tudo que eu fiz na minha vida, sempre fui meio fazendo e meio descobrindo. E a newsletter é assim também, mas eu tenho um planejamento de conteúdo muito legal para 2026 e em especial falando de música, falando do Bowie e falando de outras coisas. Então, para quem leu e gostou do “Deslumbre”, vai encontrar mais sobre isso ali, principalmente nas de sexta-feira. E o segundo projeto é o meu livro de ficção, que é um livro de contos que ainda não terminei, então não sei o que vai acontecer, mas é um projeto que eu já estou desenvolvendo há 3 anos, que são histórias meio de crime, porque olha, estou contando porque eu quero contar isso, né? O meu namorado Fábio, que é funcionário público, é de júri popular, então ele é chamado para ser júri popular em casos absolutamente escabrosos que acontecem em São Paulo. Toda vez que ele vai, ele volta contando uma história horrível, sempre coisas muito ruins. E eu me baseei nessas histórias. Não estou contando a história de ninguém, é ficção, mas eu me baseei nessas histórias para escrever um livro de histórias passadas em regiões diversas de São Paulo, que são totalmente ficcionais. E é isso, é um um trabalho novo que estou gostando muito de fazer, que eu não vou publicar na newsletter, mas que acho que estreia um novo momento de carreira, porque eu acho que esse livro “Deslumbre” de fato fecha um conjunto e agora posso fazer outra coisa.
Você está pensando em fazer outros eventos literários para divulgar o livro? Vocês pretendem fazer outros eventos assim?
Sim. Agora no primeiro semestre, a gente quer fazer pelo menos alguma ação de lançamento por mês para públicos diferentes. Teve um que rolou no Ponta de Lança, bem diferente do que rolou no Bolor. Teve uma mesa de conversa com o Camilo Rocha e o Rodrigo Carneiro, mediado pela Camila Yahn. Daí é uma forma de mostrar como o livro conversa muito com o livro deles. Tem uma temática comum do jornalismo cultural e dá para atrair também um outro público que não pôde ir no final do ano. Então temos ideias do que fazer para fevereiro, março e abril. A gente tem um lançamento em Santos (SP) em 6 de março, um lançamento no Rio e mais um evento em São Paulo, em 12 de março no Bar Alto, junto com debate com outras pessoas. Mas tem várias ideias de coisas que a gente ainda vai fazer em fevereiro, março, abril, então quem não foi nesses vai ter chance de ir nos outros.

– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br. A foto que abre o texto é de Hernandes / Divulgação