Entrevista: “A gente amaria ir à América do Sul”, avisa o Geese em papo sobre estrada, cena de Nova York e “Getting Killed”

entrevista de Guilherme Lage

Surgido em 2016, o Geese se tornou (merecidamente) a banda queridinha de quem procura autenticidade e um rock n’ roll que vive, no mainstream, um processo de reciclagens sem fim entre um sucesso radiofônico e outro.

O grupo liderado por Cameron Winter (que irá se apresentar solo no C6 Fest, em maio, em São Paulo) tem ganhado fãs de peso, como a lendária Patti Smith, que não poupa elogios à banda: “O Geese renovou minha fé no rock n’ roll”, afirmou a madrinha do punk ao se deparar por acidente com o som dos novairoquinos.

Em 2025 os gansos alçaram novo voo com o lançamento de “Getting Killed”, que debutou em primeiro lugar na “UK Independent Albums”, um dos charts mais disputados por quem não tem uma grande gravadora para chamar de sua, e foi eleito disco do ano no Scream & Yell. Em faixas como “Au Pays du Cocaine”, “Trinidad” e “Taxes”, a banda mostra porque se tornou tão interessante a fãs de rock alternativo e por aqueles já cansados do mais do mesmo.

São inspirações que passam do punk ao art rock, de um bem feitíssimo garage rock revival até a um pop sem vergonha que não tem medo de ser grudento. Em conversa com o Scream & Yell, a guitarrista Emilly Green e o baixista Dominic Digesu falaram um pouco sobre o processo de criação do disco, experimentação com diferentes instrumentos e difícil decisão de deixar de ir à faculdade para tentar a doideira de viver de música. Confira!

O disco novo de vocês é ótimo e extremamente diferente do “3D Country” (2023), isso foi uma decisão de vocês? Fazer algo totalmente novo ou o álbum acabou ficando assim durante o processo de composição?
Dominic: Muito obrigado! É, acho que ele acabou saindo diferente por causa do lugar onde gravamos, além de como decidimos abordar o disco, assim como por causa das pessoas com quem estávamos durante o processo. Foram dois anos e meio de distância entre um disco e outro, então acho que realmente era algo que precisava ser diferente mesmo. E há essa diversidade muito grande de gêneros no disco. Algumas músicas são mais levadas para o blues, outras têm bastante de post-punk, até jazz aparece em algumas canções.

Foi isso mesmo que vocês pensaram? “Queremos ter essa mistura de gêneros”? Mostrar o que nos inspira?
Emily: Eu acho que nos inspiramos em muitas coisas diferentes, principalmente coisas diferentes das que nos inspiraram no “3D Country”. E nós meio que temos essa dificuldade, é meio difícil pra gente não tentar fazer tudo ao mesmo tempo (risos). Então acho que esse disco em particular meio que agregou, de uma forma muito boa, tudo que nós gostamos de ouvir quando estamos escutando música.

Vocês estão na maior turnê que já fizeram desde que a banda foi formada. Vocês são muito jovens, então como é pra vocês estar numa banda, principalmente uma banda que excursiona, atualmente? Porque muita gente reclama bastante da indústria da música hoje em dia. É desafiador de alguma forma?
Dominic: Nós somos super gratos de poder fazer turnês com a nossa música, de ter um público que está realmente a fim de ir aos nossos shows, porque nós amamos tocar ao vivo, amamos ver nossos fãs, amamos poder conhecer o país em que estamos tocando. Mas existem assim algumas partes difíceis, porque, por exemplo, nos Estados Unidos, algumas partes do país podem ter visões diferentes, se é que me entende, de outras partes onde já estivemos ou a parte em que nós vivemos. Então podemos atrair alguns olhares esquisitos das pessoas em alguns lugares às vezes. Mas todos os fãs do Geese são muito respeitosos, gente boa.

Emily: Sim, e em relação a fazer turnês agora e antes, na indústria da música, eu não sei se sou a pessoa certa para falar, porque nunca fiz nenhuma turnê em outras décadas. Toda a minha experiência em turnês é nos anos 2020. Mas para falar a verdade, eu curto bastante. Eu acho que a comida nos Estados Unidos é geralmente bem ruim (risos). Se você está na estrada e tem que encontrar algo pra comer em um posto de gasolina, vai ser bem ruim pra você e pras suas papilas gustativas. Normalmente, quando estou em turnê, o que eu fico pensando geralmente é nisso. Na minha próxima refeição ou na próxima cama em que eu vou dormir, então pode ser um pouquinho estranho às vezes, mas na maior parte do tempo é realmente tocar música, me divertir.

Pode ser uma pergunta um pouco boba, mas eu fiquei bem fascinado com a capa do disco. Vocês podem falar um pouco sobre isso? A garota com o trompete e a arma, como vocês acham que a arte traduz o álbum?
Emily: Sim, na verdade tentamos fazer algo até bem literal, porque o disco se chama “Getting Killed” e então tem mesmo essa foto em uma perspectiva de estar “sendo morto”, por alguém com uma arma de fogo. E então tem essa dinâmica com o instrumento musical e com o sol bem brilhante, então eu acho que trouxe realmente essa representação física do próprio título do álbum.

E realmente, o título já é muito chamativo. “Getting Killed”, como vocês tiveram a ideia para esse título?
Dominic: Nós amamos o jeito que “Getting Killed” chamava atenção e a sensação que dava quando olhávamos para a capa do disco, mas o nome surgiu de uma música que tínhamos escrito já há uns dois anos, que estava meio que na gaveta, sabe? Então o que sentimos mesmo é que a música representava todo o som do disco conforme íamos compondo o resto das músicas, sabe?

Vocês usam instrumentos muito diferentes nesse álbum, e acho que é uma coisa bem punk rock de se fazer, de não se limitar a instrumentos mais “comuns” durante o processo de gravação. Como foi pra vocês experimentar nesse sentido? Tentar coisas novas em termos de instrumentos?
Dominic: Foi bem divertido! Na verdade, essas coisas surgem muito do lugar onde estamos gravando. Eu não troco tanto de instrumentos, mas eu realmente gosto de tocar com, sei lá, alguma porra de uma guitarra super esquisita, experimentar com um banjo no estúdio e tirar algo muito diferente e criar algo legal e muito diferente com aquilo.

Emily: Acho que o som desse álbum traz meio que o som de uma banda, que, eu diria que… não está necessariamente tocando as músicas bem, que está desmoronando. As músicas estão ativamente desmoronando enquanto você está ouvindo a aquelas músicas, a aqueles efeitos, principalmente porque as pessoas estão tocando não sabem necessariamente tocar aqueles instrumentos diferentes muito bem. Eu sei tocar guitarra, mas não sei necessariamente, ou muito bem, usar instrumentos de percussão muito bem, então eu tive que me assegurar que sim, eu usasse bastante percussão durante a gravação do disco, para ajudar nesses sons. Pra mim, esse é o jeito certo.]

Logo quando vocês assinaram o primeiro contrato para uma gravadora, vocês estavam pensando em desfazer a banda, certo? Porque estavam todos pensando em entrar pra faculdade. Como foi tomar essa decisão? “Quer saber? Nós vamos tentar viver de música, não vamos para a faculdade.” Foi difícil?
Emily: Sim, bastante. Tipo, não que exista alguma regra na minha família sobre isso, mas é sempre esperado que você receba mais alguns anos de educação formal, principalmente em uma faculdade, então estar numa banda de rock não é geralmente o mesmo investimento na vida de entrar numa faculdade, né? (risos). Não é a decisão mais comum a se tomar depois de sair da escola. Mas meu pais apoiaram na medida do possível, eu estou feliz que tomamos essa decisão, que tudo está indo bem agora, mas eu com certeza tinha minhas dúvidas se estava tomando a decisão certa.

Vocês são de Nova York, que tem uma das cenas musicais mais ricas do mundo. A cena punk, a cena indie do início dos anos 2000. Ser daí inspirou vocês de alguma forma?
Dominic: Sabe que acho que não é uma coisa tão direta, da forma que nós consigamos sentir ou ver, acho que essa arte é um produto de outras coisas da vida aqui. Por exemplo, acordar e pegar o metrô, evitar entrar em locais lotados demais por acidente, acho que são as pequenas coisas que criam os tipos mais diferentes de pessoas. E é interessante, porque numa cidade assim, não tem como ver tudo, saber como são as pessoas. Mas tenho certeza que essas coisas são muito aparentes para outras pessoas.

Emily: Eu cresci com a internet, então não necessariamente cresci indo a muitos shows locais, então minha educação musical veio do Youtube (risos), conhecendo os gostos musicais de todo mundo que está na banda. Eu passava horas e horas na internet, então não dá pra dizer que eu estava totalmente antenada ao que acontecia em Nova York. Acaba só sendo o lugar que nós vivemos mesmo.

E com essa turnê enorme, está nos planos de vocês dar uma parada no Brasil? Vocês já vieram para a América do Sul?
Dominic: A gente amaria, quando for possível para todos nós irmos até aí, com certeza nós iremos. Mas ainda não fomos à América do Sul.

Emily: Não, para a América do Sul ainda não, o mais longe que já fomos é o México, mas eu adoraria.

Dominic: Com certeza! Todos nós queremos muito.

– Guilherme Lage (fb.com/lage.guilherme66) é jornalista e mora em Vila Velha, ES. Leia outras entrevistas dele!

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