Living Colour em São Paulo: 40 anos condensados em duas horas

texto de Guss de Lucca
fotos de André Tedim / Top Link Music

Imagine descobrir uma banda, se apaixonar por ela e, pouco tempo depois, seus integrantes decidirem encerrar as atividades? Foi o que aconteceu comigo em 1995, quando o Living Colour se separou. A vida seguiu, é claro, mas o dissabor de nunca poder vê-los ao vivo me acompanhou por alguns anos – mais precisamente até 2004, quando o grupo passou pelo Brasil na turnê do álbum que marcou o seu retorno, “Collideøscope” (2003).

Aquela foi a primeira de sete apresentações do grupo que pude assistir – sendo a sétima realizada na última sexta (27/02), em São Paulo, no Tokio Marine Hall. Dessa vez, o que trouxe o grupo formado por Vernon Reid, Corey Glover, Will Calhoun e Doug Wimbish ao país foi a comemoração dos 40 anos de estrada do conjunto, conhecido pela fusão de estilos como funk, heavy metal, jazz e punk rock que resultou em clássicos como “Glamour Boys”, “Love Rears Its Ugly Head”, “Type” e “Cult of Personality” – essa última mais atual do que nunca.

Com tantos shows no currículo, posso afirmar que um dos trunfos do Living Colour está em nunca repetir uma apresentação, seja pela escolha do setlist, seja pela forma como cada canção é apresentada. Improvisos e versões distintas de músicas conhecidas são constantes e ressaltam a sintonia dos músicos, que reagem à energia do público na mesma moeda.

Dois exemplos disso vistos em shows anteriores são uma breve cover do refrão de “Hound Dog” durante o hit “Elvis Is Dead”, num período em que a mídia recolocou o “rei do rock” em alta, e um passeio do baixista Doug Wimbish no meio da plateia enquanto a banda segurava o riff de “Bi” por minutos a fio.

Dessa vez, as surpresas foram a cover de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, após Vernon relembrar o desfecho do caso do assassinato da vereadora Marielle Franco, e um sampler de “Baianá”, do grupo Barbatuques, que o baterista Will Calhoun utilizou durante seu momento solo. Houve também a pausa para um “Parabéns a você” dedicado a uma fã que estava bem em frente ao palco – a sortuda da noite, por assim dizer.

No mais, o quarteto sexagenário esbanjou energia durante duas horas com o que há de melhor em seu repertório. Diferentemente das apresentações anteriores realizadas no Brasil, dessa vez a banda tocou somente canções de seus primeiros álbuns: “Vivid” (1988), “Time’s Up” (1990) e “Stain” (1993), lançados num período em que o Living Colour alcançou maior relevância cultural e espaço na mídia.

Apesar dos três discos conterem, indubitavelmente, seus maiores sucessos, curiosos só têm a ganhar ao ouvirem os trabalhos subsequentes do grupo: “Collideøscope” (2003), “The Chair in the Doorway” (2009) e “Shade” (2017).

Para o fim, após tocar a clássica “Cult of Personality”, seu hit mais emblemático, a banda de Nova York fechou a noite com o swing delicado de “Solace of You”, que há tempos não dava as caras no repertório dos shows feitos por aqui. Após 2004, 2007, 2009, 2010, 2018, 2024 e, agora, 2026, resta torcer para que o próximo show não demore muito para chegar.

Setlist | Living Colour em São Paulo (27/02/26)

Leave It Alone
Middle Man
Memories Can’t Wait
Go Away
Ignorance Is Bliss
Funny Vibe
Bi
Hallelujah
Open Letter (to a Landlord)
solo de bateria
This is the Life
Pride
White Lines (Don’t Don’t Do It) / Apache / The Message
Glamour Boys
Love Rears It’s Ugly Head
Type
Time’s Up
Cult of Personality
Solace of You

– Guss de Lucca (@gussdeluca) é jornalista, historiador e no passado já foi cartunista do Scream & Yell.

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