entrevista de Alexandre Lopes
Radicado na capital paulista, o pesquisador, escritor e músico uberlandense Clóvis Cosmo é responsável por um disco bem singular da música brasileira contemporânea. Passeando entre a distopia agroindustrial e o delírio musical, “Vastopasto: …E Os Cerradofuturistas Sequestraram a Relógiocomotiva” (2025) é um álbum que se apresenta como um musical ambientado em um Triângulo Mineiro pós-apocalíptico, onde colapso ambiental e memória histórica se misturam em uma obra conceitual doidona.
“Vastopasto” é uma fábula distópica na qual o progresso brasileiro virou caricatura e o amanhã tem cheiro de pasto queimado. A narrativa do álbum articula uma crítica direta ao agro, ao extrativismo e à lógica de progresso que molda o interior do país. Trata-se de um álbum sobre fascismo cotidiano, colapso ambiental e apagamento cultural, mas atravessado por humor ácido, exagero e sátira. Sonoramente, Clovis rejeita uma produção límpida e aposta em timbres saturados, masterização em fita e uma estética artesanal, em que falhas e imperfeições fazem parte do discurso. O som é áspero, como se tivesse sido registrado em K7s esquecidas enquanto alguém narra o fim do mundo com sotaque do interior.
A música nasce do atrito entre tradição sertaneja, canção popular brasileira e os gestos expansivos do rock progressivo, atravessados por psicodelia setentista e ecos da música barroca mineira. Para dar nome a essa colisão, Cosmo cunhou o termo “prognejo”. Parece piada (e no início Clóvis admite que era), mas até que faz sentido: a viola e a poeira do Triângulo Mineiro são lançadas numa engrenagem prog chapada que range, frita e devolve uma ópera agroapocalíptica sem virtuosismo exibicionista, sertanejo sem romantização brega e psicodelia sem escapismo hippie.
A recusa a formatos atuais também se estende à circulação do disco: “Vastopasto” foi lançado de forma gratuita no site do artista (contendo um extenso material de apoio para estudar seu contexto) e fora das grandes plataformas de streaming, reforçando a ideia de uma escuta que exige atenção, tempo e envolvimento, totalmente distante do fluxo acelerado da economia digital. Tudo aponta para a mesma negação central: a de transformar essa obra em produto rápido e fácil de ser digerido.
Gravado ao longo de cinco anos entre Uberlândia e São Paulo, quase integralmente por Clóvis Cosmo em regime de one man band, o disco reúne uma instrumentação extensa — de guitarras, violões e teclados analógicos a flautas, clarinetes, violas, objetos cotidianos e ruídos processados. O resultado é uma paisagem sonora que dialoga com a ideia de arquivo, ruína e arqueologia cultural, transformando o cancioneiro do interior em matéria de experimentação estrutural.
Nesta entrevista, Clóvis Cosmo detalha o surgimento desse universo distópico, a pesquisa antropológica que sustenta o Prognejo, os dilemas de criar sozinho ao longo de tantos anos e as escolhas éticas que atravessam sua música, como tratar um álbum como linguagem em vez de mercadoria. Uma conversa que revela “Vastopasto” não apenas como disco, mas como um possível registro arqueológico de um Brasil em colapso. Ouça o disco abaixo, leia o papo a seguir e boa viagem.
”Vastopasto” nasce como um Agroapocalipse no Triângulo Mineiro. Em que momento esse cenário distópico começou a se formar na sua cabeça? Qual foi o estopim que deu origem a esse universo para você?
Acho que foi uma construção bastante gradual, através de sentimentos que foram se sedimentando e firmando uns aos outros. O agro é uma constante em Uberlândia, e está em tudo, nos outdoors, nas vestimentas, na poeira, nas boiadas que ficam nos cantos e vácuos da cidade, no tipo de riqueza e no tipo de pobreza. Eu sou uma pessoa bastante pessimista, acabo sempre vendo o mais grotesco em muita coisa. A pandemia, a ascensão do fascismo, as grandes queimadas que deixavam o céu encardido por semanas. Mas o momento em que a palavra “Vastopasto” se firmou (e a partir daí fundamentou um rumo mais definido pro universo) foi numa viagem de ônibus através do estado de Goiás, vizinho do Triângulo. Por horas o ônibus ia andando e eu não via nenhuma árvore, nem nada, só soja e pasto, por horas mesmo. Isso foi um choque grande de perceber assim, geograficamente. Um oceano de pasto, cinza e vago, é isso que estão fazendo do interior do Brasil.
Você tem uma pesquisa em antropologia sobre impactos culturais do Agro. Como esse estudo reverberou diretamente nas músicas? Como foi equilibrar o papel de compositor, escritor e pesquisador dentro de um único projeto?
Sinto que o estudo surgiu para dar sentido e repertório a um sentimento mais gutural, anterior e mais intuitivo. Ao mesmo tempo, para entender meu lugar, da minha família e a história da nossa forma de ser, de pensar, tive a necessidade de começar a ler muita coisa neste campo. O Triângulo Mineiro não foi amplamente retratado na literatura histórica/social no Brasil, então fui achando o que consegui. Tem uns poucos bons textos sobre o assunto, muita coisa da própria UFU [Universidade Federal de Uberlândia]. Uma das primeiras coisas que fiz foi a entrevista com meu avô Mário, que está na faixa 10 (“…E os Cerradofuturistas Sequestraram a Relógiocomotiva”), onde ele me contou muito da história – e deu uma atenção enorme para a Ferrovia Mogiana, que marcou muito o Triângulo, por representar um ícone do progresso e o translado com as grandes cidades. Então me baseei na rota da Mogiana para organizar as cidades do universo, A Capital (Brasília), O Complexo Industrial Descascalho (São Paulo) e o Vastopasto (Triângulo Mineiro / Uberlândia), numa relação análoga à do nosso tempo real. Muito do universo vem de releituras do Brasil arcaico (Colônia, Império), combinadas com absurdos internéticos e contemporâneos. No site que nós fizemos, tem uma bibliografia bem legal dos textos mais importantes para a ideia. Acho que para equilibrar tudo foi uma coisa de compressão e descompressão, uma coisa descansa, nutre e impulsiona a outra, dai assim vamos andando.
Você passou cinco anos compondo e gravando o álbum. Houve algum momento em que o projeto te escapou das mãos ou se transformou de forma inesperada?
Quando eu me mudei para São Paulo, em 2023, o disco (que já estava uns 65% gravado) ficou um pouco atribulado e confuso, em partes pela crise de adaptar ao ritmo da metrópole, que me impactou mentalmente, e também por uma comparação que passei a ter com artistas mais “profissionalizados” ou “capacitados”, embebidos no mercado daqui. Ao mesmo tempo, estar longe de Uberlândia me botou em perspectiva a respeito da importância desse trabalho e também daquilo que eu não conseguia observar estando imerso ali. De certa forma, isso realçou as especificidades e consegui ver quais partes de mim sentiam muita falta de lá e quais sentiam algum acolhimento aqui. Desenvolvi um respeito muito maior pelo Triângulo, quanto mais fui me aprofundando, entendendo os problemas e deixando secar o sentimento dolorido dessa coisa toda.

No disco, há violões, guitarras, teclados analógicos, flautas, clarinetes, sintetizadores e até objetos do cotidiano. Qual foi a lógica curatorial para escolher timbres e texturas do universo sonoro do “Vastopasto”?
A lógica foi sempre a de invocar o apocalipse como aconteceu na história – através de um colapso Agro-Digital, com toda a história do colapso de Uberaba 2. Então busquei sempre um som que fosse estragado de forma ligeiramente bonita, em alguns momentos mais industrial, em outros mais pastoril, mas também um som que incomodasse, que não fosse simplesmente agradável – sempre remetendo ao sertão. Acho que timbre mexe muito com uma coisa táctil, no sentido mesmo de toque – de ásperos, lisos, macios, arredondados, ocos, densos, etc. Escutar as coisas na vida é como se elas estivessem nos tocando, e de fato em termos físicos, estão. Vale a leitura do Murray Schaffer e do seu conceito de paisagem sonora, que me impactou demais. Gosto muito dos timbres de gravações antigas e zuadas, esse aspecto de “lost media”, ou de um registro distorcido que de certa forma representa melhor seu lugar no tempo-espaço do que se fosse puro… tipo os sertanejos mais antigos (alguns discos do Tonico e Tinoco, a “Velha Morada” do Pena Branca e Xavantinho, etc) além das gravações mais fritadas mesmo, do “Subreino dos Metazoários” (Marconi Notaro), do “Paêbirú” (Lula Côrtes/Zé Ramalho), do Faust, do “Hisscivilization” (Jupiter Maçã)… Então busquei um pouco aquele tipo de destruição que constrói cenários. Muitos objetos do dia a dia, se você processar digitalmente, conseguem criar uns sons doidassos. Também me vali dos instrumentos que tive acesso ao longo do tempo, e que fui aprendendo a tocar.
Você apresenta o prognejo como uma linguagem musical própria, unindo viola, modas sertanejas e arranjos progressivos. Em que ponto essa combinação deixou de ser experimento e virou um gênero na sua cabeça? Você já enxerga outros artistas além de você e sua banda explorando isso?
Desde da concepção do disco eu já tinha esse rumo, de buscar esse som específico, a princípio muito na linguagem da sátira do agronejo, mas a coisa foi se consolidando com o estudo mesmo. Tive que deixar de ser imbecil e ativamente estudar a música da minha região, ao invés de negar aquilo como sempre fiz – este processo me ensinou muito. Quase que caí num ponto assim amargo pra mim quando consegui perceber um “método” sendo formulado. Se você não toma cuidado, fica emburacado no seu próprio padrão. Por sorte, o prognejo é infinito, e fica enjoativo quando se repete igualzinho, então as novas coisas precisam sempre ser mais prog e mais nejo ainda, se não nem desenvolvo. Hoje descobri outras coisas que tem muito a ver com o prognejo, inclusive a Tetê Espíndola, que para mim é uma pioneira do gênero, e muitos outros artistas do passado, que já traziam essa mistura. O Tempero do Nejo está em muita coisa, algumas coisas que até nem se consideram assim. Com o pessoal da banda, principalmente com o José e o João, falo muito nisso quando achamos que algum som que estamos ouvindo tem o nejo. Eles, aliás, no trabalho da Oblomov, desenvolvem um som que tem o sertanejo muito presente, apesar de muitas vezes de forma sutil, na abertura de vozes, nas guitarras violadas e no clima espraiado e “solar”. O Victor José (Antiprisma), violeiro da banda, está trabalhando num disco maluco centrado na viola caipira, com bastante pesquisa neste tema, que pra mim é mais um expoente do prognejo de primeira qualidade.

Você toca praticamente tudo no disco. Foi por escolha estética ou necessidade prática?
Um pouco dos dois. Eu gosto bastante de trabalhar sozinho, é uma forma que encontrei ao longo dos anos de testar minha própria lógica e exercitar isso até o limite, construindo o cenário que der na telha, sem precisar passar pelo atrito e pela perda que a comunicação inevitavelmente impõe aos processos. Esta redoma é um ambiente seguro para dar voz ao pior e ao melhor que eu carrego, pra poder quem sabe deixar de carregar. Quando se trabalha em grupo (coisa que é também imprescindível na vida) os resultados podem espanar um pouco mais do ponto focal, combinando várias perspectivas sobre aquela mesma estética. A depender da obsessão, isso é complicado. Além disso, são poucas as pessoas com quem sinto uma ressonância grande no som, e muitas delas convidei para participar gravando alguma coisa, ou tocando na banda ao vivo. Agora que acabei o disco, fiquei um pouco enjoado de ficar gravando sozinho, então estou fazendo muitas coisas novas com outras pessoas. Isso cria uma circulação, um aprendizado e um respiro muito importante.
Você decidiu não lançar o disco nas grandes plataformas como Spotify, Apple Music e Amazon Music, chamando-as de abusivas. Em que momento essa decisão deixou de ser só conceito e virou uma postura ética concreta? Como você pretende divulgar organicamente o disco e construir público fora dos mecanismos tradicionais?
Cara, isso é uma doidera. Hoje já se sabe bastante sobre o teor doentio do streaming, em especial do “spotfai”, que trabalha incessantemente pela erosão da música e de seus trabalhadores em prol do seu próprio acúmulo, sob um verniz de “democratização do acesso”. Com o fortalecimento de IA’s, muitas destas empresas adicionaram silenciosamente novas clausulas nos seus termos de uso. Nós, ao subir o som lá, estamos licenciando de forma vitalícia qualquer alteração ou cópia deste através de “tecnologias já existentes e que possam ser inventadas no futuro”. Isto sem contar nas “falsas bandas”, promovidas pela plataforma e chupinhadas de criações de artistas reais. Além disso, apoiam a indústria bélica dos massacres do Oriente Médio e do imperialismo como um todo. Eu não compactuo com isso e, apesar da contradição, também não acredito na eficácia política do boicote. Isso tudo é uma questão que me veio mais do estômago do que da cabeça: não acho que o “Vastopasto” vá diferenciar um centavo na renda bilionária desta galera; no entanto, o Spotify tambem nunca fez nada por mim (e nem por quase nenhuma banda/projeto independente, na minha visão), então, se um dia nós formos subir o disco lá, vai ter que valer a pena.
Sobre a segunda parte da pergunta, não faço a menor ideia. Hoje tenho a alegria de ter pessoas ao meu redor que acreditam no projeto e conseguem pensar o que eu não consigo. Neste sentido, acreditamos que a lógica de escuta deste som exige uma “circunspecção” que vá agregar na experiência, sabe? Acredito que a raridade do disco pode intensificar sua existência, criar um artefato. Muito em breve se deus quiser nós vamos conseguir coisas maiores e melhores, também com mídia física e formas de acesso mais diretas e calorosas com as pessoas (shows de muitos formatos, audições, eventos educacionais e criativos, exposições e feiras). Eu compro a ideia de estar fora de moda, acho que isso é um produto vendável.
Você descreve o disco como “registro arqueológico” das lutas dos Cerradofuturistas e apenas o “primeiro ato” da saga. O que já existe sobre os próximos capítulos desse universo?
A sequência deste primeiro disco vai sair em 2026, e já está em andamento. Desta vez, ao invés de um arco narrativo enorme, envolvendo começo-meio-e-fim, as músicas vão focar mais em episódios, localidades, criaturas e personagens específicos de todo o “Vastopasto”, sendo uma coisa mais despretensiosa, afim de ilustrar melhor muitos dos elementos que existem ali e acabaram não tendo destaque na saga dos Cerradofuturistas. Tudo ainda dentro do escopo do prognejo, acho até que mais bem polido. Não se tratando somente de música, teremos também o livro-jogo para RPG de mesa, que já está bastante desenvolvido e aí sim o público vai ter acesso ao mundo completo e tudo que tem por alí.

Em algum momento você teme que o universo distópico do disco se aproxime demais da realidade… ou isso já está acontecendo?
Quando eu pensei no colapso dos Agroreatores de Uberaba 2 – que deu origem ao “Vastopasto” – foi por volta de 2022, e era algo que já dava pra sentir o cheiro. Em Uberaba 2, eles deram um jeito de converter a energia vital do solo diretamente em informação digital, para armazenar nos HD’s que sustentavam o Simulacro, onde era mantida sedada a população. Hoje, o latifúndio não é mais só de gado e soja, com a cessão de terras enormes no Brasil para os DataCenters de IA, já em construção. Quanto ao Agro propriamente dito, ele segue ativo e grande, muito maior do que nós conseguimos imaginar estando no contexto urbano. Acho que infelizmente a tendência do Brasil é cada vez mais o “Vastopasto”, espalhado pelo sertão inteiro, com conglomerados urbanos megalopolescos e prensados aqui e ali. Sinto que hoje o próprio apocalipse já se tornou clichê, e o desespero vai se futilizando enquanto produto. Nesse sentido, talvez surja até uma brecha pra gente olhar pra outras coisas.
Ouvindo o disco e checando o vídeo da apresentação do show “Do Prognejo ao Vasto Pasto”, identifiquei sonoridades que me remeteram a algo de Cidadão Instigado, Mutantes, Tom Zé, Flaviola e o Bando do Sol, Lula Côrtes, Quintal de Clorofila. Esses artistas chegaram a te influenciar? Quais seriam suas outras influências?
Desses aí, sou maníaco por Flaviola, Lula Côrtes, Quintal de Clorofila. Mutantes e Tom Zé curto bastante também, e Cidadão Instigado nunca escutei (vou escutar depois dessa). Para mim alguns discos imprescindíveis para minha formação e formulação do “Vastopasto” são “No Subreino dos Metazoários” (Marconi Notaro), “Olias of Sunhillow” (Jon Anderson), os dois primeiros do Oswaldo Montenegro, “São Piauí” (Clodo Climério e Clésio), o “Estrada da Vida” (Milionário e José Rico) o “La Leyenda del Tiempo” (Camaron de La Isla), “Cantoria 1” (Elomar, Geraldo Azevedo, Xangai, Vital Farias), o “Revolver” (Walter Franco) o disco homônimo do Rodger Rogério e Teti, além de quase tudo da Barca do Sol, do Syd Barrett, do Gokçen Kaynatan, do Jupiter Maçã. Poderia falar muito mais, mas acho que o essencial mesmo é
por aí.
A banda que o acompanhou na apresentação é formada por Victor José (viola caipira), Marco Benvegnu (clarinete e percussão), John Di Lallo (sintetizador), José Eduardo (bateria) e João Queiroz (baixo). Você pretende manter a mesma formação nos próximos shows? Existem outras datas agendadas?
Pretendo sim. Em alguns casos, faremos só com partes do grupo, quando as circunstâncias pedirem um formato mais acústico ou enxuto por exemplo, mas em geral, essa formação consegue transpor ao vivo a sonoridade do disco de forma muito fiel, e todo mundo toca muito, conseguindo também trocar de instrumentos quando necessário, com o bônus de serem todos grandes amigos e pessoas que eu admiro. Estamos organizando já muitas empreitadas para 2026, e tenho fé que vamos conseguir circular bastante.
– Alexandre Lopes (@ociocretino) é jornalista e assina o www.ociocretino.blogspot.com.br.