Entrevista e Faixa a faixa: Nei Van Soria revisita a própria obra em espanhol no álbum “Latinoamericano”

entrevista e fotos de Diego Queijo

Em uma tarde escaldante dos últimos dias de janeiro, Nei Van Soria recebeu o Scream & Yell em seu estúdio no centro de Porto (Forno) Alegre. É no terceiro andar de um antigo prédio que ele mantém o escritório e o espaço onde formata ideias, planos e obsessões musicais. Um lugar que parece condensar décadas de história do rock gaúcho e também projetar seus próximos passos.

Foi ali que, ao longo de 2025, Nei gravou “Latinoamericano”, álbum que chegou às plataformas no último dia 23 de janeiro e que marca um movimento simbólico em sua trajetória. O disco reúne dez faixas de sua carreira solo e dos tempos de Cascavelletes, agora recriadas em espanhol, com novos arranjos e uma abordagem que preserva a essência, mas parece deslocar o ponto de vista.

Coproduzido ao lado do baterista Leandro Schirmer e do baixista Juliano Pereira, “Latinoamericano” também nasce como um gesto estratégico: abrir o espectro. “Eu quero tocar para quem nunca me viu tocando”, diz Nei. Depois de um 2024 em que fez menos shows do que de costume, o trabalho surge como plataforma de relançamento artístico e geográfico. De acordo com ele, há conversas em andamento na Argentina, no Uruguai e na Espanha, com uma possível apresentação em Barcelona, em outubro. Paralelamente, ele finaliza um documentário sobre a própria carreira, já gravado e em fase de edição.

Mais do que um simples projeto de versões, “Latinoamericano” parece funcionar como síntese de uma intuição antiga de que sua música sempre dialogou com o rock argentino, com a canção latino-americana e com uma identidade que ultrapassa fronteiras (sentimento, aliás, que também acometeu um antigo parceiro de Cascavelletes, Frank Jorge, que chegou a passar uma temporada em Buenos Aires).

Nesta entrevista, Nei revisita suas primeiras viagens a Buenos Aires, a descoberta de Charly García, as tentativas de conquistar outros mercados, as dificuldades de cantar em outro idioma e o processo de reconstruir sua própria obra sob uma nova luz. Faixa a faixa, ele comenta o disco como quem refaz o próprio mapa — não apenas geográfico, mas estético, afetivo e cultural.

Quando você foi à Argentina pela primeira vez?
Quando eu estava na transição entre o TNT e os Cascavelletes (nota: Nei entrou no TNT em 1984 e deixou a banda, junto com Flavio Basso aka Júpiter Maçã, em 1986 para montar o Cascavelletes). Eu tinha ouvido falar que em Buenos Aires existiam banjos. E eu estava numa fase de ouvir muita música country e estava a fim de comprar. No Brasil não tinha nada. Aí eu peguei um ônibus e fui sozinho. E descobri Buenos Aires. E, em 1886, veio o Charly Garcia tocar em Porto Alegre (19 e 20 de junho de 1986, no finado Teatro da Ospa, que foi demolido e hoje dá lugar a um prédio comercial na Avenida Independência) pela primeira vez. Aí conheci o Fernando Samalea, baterista, e os outros músicos, e começou uma relação de amizade que foi crescendo ao longo dos anos. Eu ia (à Buenos Aires) todos os anos.

E quando você descobriu esse lado “latino-americano” mais forte?
Eu sempre fui. Mas a questão é se dar conta do que se é. A gente vai descobrindo ao longo da vida. No tempo das bandas TNT e Cascavelletes, eu e o Flávio tínhamos uma estratégia, um plano, uma conspiração para conquistar o mundo pela música. Era um plano simples (risos). Então saíamos todas as noites para conspirar, ter ideias, compor músicas, e a nossa referência sempre foi Buenos Aires, que no século 19 teve seu apogeu, junto com Paris e Londres. Mas, com o passar do tempo, amadurecendo musicalmente, entendendo um pouco mais os elementos que estão permeados nas referências, mesmo as de fora e as daqui, do que a gente ouve em volta, eu me dei conta de que essa latinidade, ainda que no rock, tem uma característica muito diferenciada do que a gente conhece como rock tradicional. Quando eu fui mixar o álbum “Jardim Inglês”, em 1998, em Nashville, eu tinha ido antes a Los Angeles visitar uns amigos. Acabamos fazendo um som e tal. E eu achei que estava tocando um rock mais clássico, no tempo mais 4×4 e britânico possível. A gente acabou de tocar e o outro guitarrista, que era norte-americano, veio e disse: “Que legal esse groove que você tem, é muito diferente”. E eu disse: “Como assim?”. Eu achei que eu estava super tradicional. Então essas características são algo que está permeado no tecido. E a ideia de fazer esse álbum em espanhol me aproximou um pouco mais.

Como foi?
Eu explorei, revisitei as referências do rock argentino que conheço a vida inteira. Mas com outros ouvidos. E conversando muito com o Samalea. Essa referência brasileira sempre esteve muito presente para eles também. E a música brasileira tem um outro molejo, uma outra batida, uma outra divisão na composição de intervalos. Ela é mais harmônica e mais complexa. E isso gera uma admiração. Um pouco como a gente olha para os músicos de jazz. É uma outra estirpe. E a música brasileira traz na sua essência isso. É um disco de versões de músicas da minha carreira, mas embebido em uma outra roupagem, uma outra dimensão, inclusive de gravação. Foi gravado ao vivo no meu estúdio e depois levei para o Mario Breuer (Calamaro, Fito, Enanitos Verdes, Charly, etc.) mixar, que é um engenheiro clássico. Mixou todo mundo. E é um amigo meu há décadas. Então eu sempre tive essa sonoridade do rock argentino tendo a brasilidade por natureza, por ter nascido aqui. Por mais que eu seja um roqueiro e não converse diretamente com o que se chama de “música brasileira”, o que eu faço é, sim, música brasileira.

E a gravação?
Gravamos o baixo, guitarra e bateria ao vivo. Depois, alguns overdubs e a voz, por conta da dicção e tal. O espanhol é meu segundo idioma. E o Samalea e a Michelle Bliman (cantora, saxofonista e companheira do Samalea) me ajudaram na tradução e nos detalhes. Ficou com um sotaque argentino, mas eu não queria que soasse perfeito… É um estrangeiro cantando em espanhol, mas isso é bem aceito lá. Lembro que, na primeira ou segunda vez que eu fui à Argentina, vi o álbum do David Lee Roth, o primeiro solo dele (“Eat ‘Em and Smile”, de 1986), e o álbum lá era em espanhol (o título foi lançado como “Sonrisa Salvaje”). Com a voz gravada em espanhol. E isso me chocou. Porque os argentinos e o mundo hispânico aceitam muito bem estrangeiros cantando em espanhol.

Tanto que, em muitos discos produzidos na Argentina e no Uruguai na época, os títulos das músicas impressos estavam em espanhol…
Sim…

Mas o que primeiro chegou pra ti de música argentina?
O Charly mesmo. Essa primeira vinda dele abriu esse universo. Conhecia já, mas de forma difusa. “Canción para mi Muerte”, do Sui Generis, era bem conhecida. Enfim, o nome do Charly era conhecido, mas a música não muito. Então teve uma coisa de descoberta. E o show foi afudê. Ficamos em choque. Ele estava acompanhado do Fricción, que era a banda do Samalea na época, na Argentina, e com o Fito Páez (acompanhando Charly, a formação ficou conhecida como “Las Ligas”). Foi a primeira formação que veio. E o Daniel, o irmão do Charly, era quem fazia a luz, e era só luz branca. Foi muito impactante. Era muito profissional. E, no Brasil, ainda estávamos na fase de bandas de garagem. Todo mundo era muito amador. Depois, nos anos 1990, começou a melhorar um pouco, mas antes era ruim. Soava mal, era mal tocado e a estrutura era pouca. Como ainda é hoje em vários lugares.

O Charly estava tentando passar uma fronteira. E você também se aventurou na época dos Cascavelletes para sair do Rio Grande do Sul e ganhar outras capitais com a mudança para o Rio de Janeiro… Qual era o sentimento?
Peixe fora d’água total. Em uma das idas, eu estava no Morro Santa Marta. E a gente estava fazendo contato com o Lulu Santos, o Frejat, tentando armar entrevistas para aparecer na TV, e aí eu, todo branquelo, com cabelão, de bota, e um guri começou a puxar conversa. Ele perguntou algo, eu respondi, e ele disse: “De que país que tu és?”. Ele achou que eu não era daqui. E aquilo foi um choque de realidade, de certa forma. E, no Rio, a gente queria expandir o nosso universo e fazer shows. O Alemão (Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii) já estava pipocando, fazendo excursões. E a gente queria entrar nessa coisa mais nacional.

Vocês se apresentaram nos dias 9 e 10 de janeiro de 1990 no Rocka-ula, no Teatro Ipanema. E pouco depois você saiu dos Cascavelletes e foi para a Argentina gravar seu primeiro álbum solo. Ou seja, você teve contato com outras barreiras depois…
A barreira cultural é mega importante, a linguística é mais alta ainda. Porque brasileiro não aceita gente de fora cantando em português. Lembre-se do vexame que foi o Sting cantando “Fragile” (“Frágil”, de 1991). Não dá para entender o idioma em que ele está cantando. Foi muito mal assessorado tentando cantar em português. E não é fácil. O que eu fiz para fazer versões desse meu álbum em espanhol: eu domino o idioma, falo fluentemente, tenho vocabulário grande, e ainda assim precisei de bastante ajuda ao longo de todo o processo para soar legal. Não é perfeito e nem tinha a intenção de ser perfeito, mas alguns amigos espanhóis reconheceram como rock argentino pelo sotaque.

Fito disse certa vez, em entrevista ao Marcelo Fróes, que Porto Alegre foi a porta de entrada do rock argentino no Brasil. Por que Porto Alegre?
Geografia e cultura. O espanhol, para nós, é muito próximo. A gente tem uruguaios e argentinos que vêm passar as férias nas praias. E, para a gente, é a mesma distância de ir a São Paulo. Tem a coisa do gaúcho também: tudo isso aqui era uma região só, que foi politicamente se dividindo ao longo da história. Então existe uma similaridade de vivência que faz sentido. Acho que tudo isso sutilmente fundamenta o comportamento, a cultura.

E a ambição com esse disco é chegar lá ou é ampliar aqui?
Eu queria só gravar, lançar e fazer show. Minha ambição com esse disco é isso. Poder fazer as minhas coisas com uma dedicação quase que total. O que eu não posso hoje. Eu tenho que me desdobrar em vários, como muitos outros artistas brasileiros. Eu tenho uma carreira assim porque eu sempre me desdobrei. Só de carreira solo eu tenho 14 discos lançados e estou ainda produzindo regularmente. Se não está vindo daqui, vai vir de outro lugar, e a banda tem que seguir tocando. Eu acredito nessa tese de construir carreira e construir legado. E a mágica da música pode acontecer a qualquer momento, mesmo depois de o cara morrer. Então tem que ter um desprendimento para agir conscientemente dessa forma, que é o que eu faço.

Mas lançar um álbum hoje em dia faz a gente inevitavelmente cair na pergunta das plataformas digitais, que parecem subjulgar os artistas ao meio de reprodução…
Sim, houve uma despersonificação. O artista deixou de ter importância quando, na verdade, ele é a grande história. É como alguém que faz o design daquela roupa que tu acha que é do caralho. A arte está aí. A roupa não pode ficar descolada do artista. A imagem, as ideias e o conceito do artista precisam estar colados, ser unificados, e as plataformas dividiram. Fudeu. E, com a IA, é o crepúsculo dos deuses.

E como foi o processo de escolha do repertório?
São músicas que já fizeram algum sucesso. Escolhi sozinho, sou muito individualista para essas coisas. Penso em lançar em vinil também em algum momento. Coloquei em uma ordem que fosse convidativa, então “Jardim Inglês” é a primeira.

NEI VAN SORIA APRESENTA “LATINOAMERICANO” FAIXA A FAIXA

Foto de Diego Queijo

01 – Jardín Inglés (Jardim Inglês, 1998)
“A versão original tem uma questão de prosódia. Tive que reaprender para encaixar e ficar bacana. É uma das faixas mais ouvidas. Tem um lance de mão direita no piano, na ponte, que eu fiz e ficou legal. Aí, em vez da orquestra, fiz a melodia na guitarra. Estou aprendendo a cantar melhor, apesar de a voz estar pior. Dá mais trabalho um pouco. Aprendi também ao longo dos anos. E a composição da letra foi bem literal. Eu estava na casa de um amigo em Londres, a princesa tinha morrido, estava esperando para jantar, minha esposa escrevendo uns postais. É só uma observação do entorno. Hoje, com a velocidade, as pessoas parecem mais passivas diante de tudo. A arte tem essa possibilidade de te transportar, de alterar o campo de visão.”

02 – Estamos Vos y Yo (Isso Inclui Você, 1995)
“A primeira que gravei na minha carreira solo, em Buenos Aires, com parte da banda do Charly Garcia na época. Fernando Samalea (bateria), Fabián von Quintiero (teclados), Fernando Lupano (baixo) e o Choly no piano. O Choly vive na Espanha hoje e gravou novamente o piano nesta nova versão quase 40 anos depois. Na parte do meio dessa música, a métrica está bem diferente em um trecho, mas ficou do caralho. Acho que a gente foi muito feliz.”

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03 – El Tiempo (O Tempo, 1998)
“É uma parceria com o Thedy Corrêa (Nenhum de Nós). Música linda. A gente teve sorte de encaixe. Eu tinha a música e ele tinha a letra. E com poucos retoques de ambas as partes, encaixamos de forma perfeita. E virou isso aqui. Parece fácil transpor para o espanhol, mas tem métricas e expressões idiomáticas que no Brasil fazem sentido e que lá não. É uma música conhecida, linda, e o Thedy também ficou contente de ter essa versão. Eu liguei para ele para pedir autorização, já que é uma parceria. Mudou a métrica do refrão.”

04 – Susie (Susie, 1998)
“Essa ficou muito boa. E, no original, a gente pronunciava “Suzy”, e, em espanhol, é “Sussi”. Eu acho que o rock de lá e o rock daqui de alguma forma bebem nas mesmas fontes, que são, claro, o rock inglês, com algumas idiossincrasias de sonoridade fonética. Podem ser coisas imperceptíveis para quem não está cruzando fronteiras, e essas foram algumas reflexões que tive no processo desse disco.”

05 – Me Voy a Quedar (Eu vou ficar, 2001)
“É uma balada. Sempre fui um baladeiro, escrevi muitas, adoro. ‘Sob Um Céu de Blues’ (clássico dos Cascavelletes) é essencialmente minha. A letra é minha e do Flávio, é uma parceria, mas é o tipo de ritmo e harmonia que eu gosto mais. Sou roqueiro, mas a balada, para mim, tem uma diferenciação. Sutileza.”

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06 – Vos y Yo (Você e Eu, 2001)
“Essa eu coloquei um piano Rhodes. Está bem rock and roll. Gravada em um take só. Fizemos várias sessões, claro, mas pegamos um take. O que demorou mais em todo o disco foram os vocais. Levei meses. E o Mario Breuer mixou lá.”

07 – Princesa Pelirroja (2024)
“O nome original dela já era esse em espanhol mesmo, mas a música era em português. Então peguei a gravação original, já que fazia um ou dois anos que a gente tinha gravado, e só coloquei a voz diferente e uma nova mixagem. Eu fui a Buenos Aires para resolver essa e outras letras com o Samalea.”

08 – Los Angeles (Os Anjos, 2001)
“É legal porque tem um groove. Foi difícil achar o ponto dela. Deu trabalho. Fizemos dois takes diferentes e construímos ela. Para mim não soava tão bem, não sei se é a métrica. Então dava um nó. Mas, com o tempo, a gente aprende a se mover melhor com as próprias limitações e méritos. Eu aprendi a entender isso com o fato de cantar. Sempre quis cantar assim ou assado, mas entendi que a minha voz é minha. Não vou parecer com um ou com outro. E as pessoas reconhecem a minha voz, ou reconhecem o jeito que eu toco, e isso é um mérito. É superdifícil ser reconhecido por uma característica física tua. O jeito de caminhar, o jeito de tocar guitarra, como soa, como fala. É único. E, quando envolve a arte que se faz, agrega outra camada. É diferente de outras coisas. No sertanejo, por exemplo, tudo o que chega está com a mesma impostação, não se sabe quem é quem. Tem 10, 20 duplas diferentes, com nuances, mas tudo em um molde só. Todo mundo tenta entrar no molde e não respeita a própria natureza. Então respeito minhas características enquanto me diferencio do resto.”

09 – Lobo Estepário (Lobo da Estepe, 1989)
“É uma música emblemática. Um folk rock. ‘Lobo Estepário’ é o nome do livro (no original, ‘Der Steppenwolf’, de Hermann Hesse, publicado em 1927) em espanhol. Nessa versão, também quis construir outra coisa. Bebi no rock argentino, com mais teclados, um pouco mais viagem, um pouco Peter Gabriel, busquei outras inspirações. Mas, no meio, eu faço uma referência à origem clássica da música, ao violão. E, no fim, a gente enlouquece. Eu toco todos os teclados. Tem elementos clássicos do rock argentino, com camadas. A percussão é do Schirmer também.”

10 – Jessica Rose (Jéssica Rose, 1987)
“Achei que seria interessante para um público que não me conhece ouvir e depois entender que isso faz parte de uma outra fase. Que foi importante, que passou há muito tempo, mas existe. E tratei de fazer versões muito diferentes das originais mesmo. Gostei tanto que fiz versões em português das versões em espanhol e não lancei. Estão guardadas. Estão prontas, mixadas e finalizadas para lançar em algum momento. Fazia sentido trazer essa música para a atualidade, com um olhar fresco e descolar um pouco. Não queria que soasse como Cascavelletes. Tinha que estar inserida no meu spectrum visual desse momento e desse disco. Tinha que estar conversando com essa sonoridade, que é uma coisa de power trio com alguns overdubs, mas poderia ser outra música. Se eu colocasse outra letra, seria outra música, ninguém diria que era ‘Jéssica Rose’. E tem uma homenagem a ‘Candy’ (Iggy Pop) no meio da gravação. Eu lembro que ‘Candy’, lá (na Argentina), era uma música forte, então trouxemos um elemento, uma parte.”

Foto de Diego Queijo

– Diego Queijo é jornalista! Acompanhe: instagram.com/diegoqueijo

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