Oscar 2026: Temos uma Noruega no meio do caminho

texto de Alexandre Inagaki

Está chegando a hora da verdade. Os mais de 11 mil membros da Academia começarão a votar em seus favoritos a partir da quinta-feira, 26 de fevereiro, e terão até 5 de março para decidirem os vencedores do Oscar 2026.

As premiações pré-Oscar, por enquanto, vão dando favoritismo para “Uma Batalha Após a Outra”, de Paul Thomas Anderson. O longa protagonizado por Leonardo Di Caprio já venceu os prêmios de Melhor Filme no Critics’ Choice, BAFTA, Gotham Awards e, claro, o Melhores do Ano Scream & Yell. Por seu trabalho, PTA levou o prêmio principal do Sindicato dos Diretores, e o filme também ganhou o Globo de Ouro de Melhor Comédia ou Musical.

Porém, há um concorrente que ainda impede que palpiteiros do mundo todo assegurem ao menos um acerto nos bolões: “Pecadores”, o filmaço de Ryan Coogler que bateu o recorde histórico de indicações a uma mesma edição do Oscar (16, superando a marca anterior de 14, compartilhada por “A Malvada”, “Titanic” e “La La Land”). “Uma Batalha Após a Outra”, seu maior rival neste ano, disputará “apenas” 13 estatuetas.

O grande termômetro para avaliar se “Pecadores” chegará com força suficiente para reverter o favoritismo atual do filme de Paul Thomas Anderson será a premiação do Sindicato dos Atores, que rolará dia 1 de março. Os atores representam a categoria com maior número de eleitores da Academia; se o longa de Ryan Coogler vencer os prêmios principais, sinalizará a possibilidade de um plot twist similar ao ano de 2020, quando “Parasita” surpreendeu os até então favoritos nas apostas, conquistou o prêmio principal do sindicato e pavimentou o caminho para fazer história no Oscar.

A “colheita” de PTA no Bafta 2026

Os prêmios mais previsíveis do Oscar 2026

Por enquanto, as categorias anti-zebras deste ano são quatro. Uma delas é Melhor Direção, prêmio praticamente garantido para Paul Thomas Anderson. Após 14 indicações anteriores ao Oscar por seus trabalhos como diretor, roteirista e produtor em “Boogie Nights”, “Magnólia”, “Sangue Negro”, “Vício Inerente”, “Trama Fantasma” e “Licorice Pizza”, enfim está chegando a hora de PTA de ser consagrado pela Academia. Deverá, inclusive, levar também o prêmio de Melhor Roteiro Adaptado pela sua recriação do romance “Vineland”, de Thomas Pynchon.

A terceira barbada é a categoria de Melhor Roteiro Original. “Pecadores” não deve nem merece sair de mãos abanando do Oscar 2026, e se tem um prêmio quase assegurado para Ryan Coogler, é pelo seu roteiro engenhoso que recorre a vampiros para falar de racismo, apropriação cultural e indústria musical.

O quarto Oscar previsível é o de Melhor Atriz. Apesar do ótimo trabalho de Rose Byrne em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria”, é quase impossível imaginar que Jessie Buckley não seja merecidamente consagrada pela sua atuação sobrenatural em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”.

Jessie Buckley premiada no Bafta 2026

Um ano histórico para o cinema brasileiro… e o norueguês

Esta edição do Oscar representa um marco histórico para o cinema brasileiro: das 11 chances de indicações que tínhamos, convertemos cinco: quatro para “O Agente Secreto”, que concorre às estatuetas de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco (Gabriel Domingues), e uma para o diretor de fotografia Adolpho Veloso, pelo seu trabalho magistral em “Sonhos de Trem”.

Mas o que as matérias que você andou lendo não te disseram é que, se o Brasil teve um ano incrível no cinema, a Noruega não ficou nem um pouco atrás. Em fevereiro de 2025, no mesmo Festival de Berlim em que “O Último Azul”, de Gabriel Mascaro, venceu o Urso de Prata, sabe quem levou o prêmio principal? “Sonhos (Sexo Amor)”, filme escrito e dirigido pelo norueguês Dag Johan Haugerud.

Meses depois, no Festival de Cannes em que “O Agente Secreto” conquistou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator, o diretor e roteirista Joachim Trier concorreu com “Valor Sentimental” e saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri. Filme que, no Oscar 2026, está concorrendo a nada menos que nove estatuetas.

Pensam que acabou? Pois, além de “Valor Sentimental”, a Noruega também está representada no Oscar por “A Meia-Irmã Feia”, uma releitura da história de Cinderela escrita e dirigida por Emilie Blichfeldt, indicada ao prêmio de Melhor Maquiagem e Penteado.

Já foram realizadas 97 edições do Oscar e a Noruega ainda não ganhou o prêmio de Melhor Filme Internacional que o Brasil só veio a ganhar no ano passado. Para a preocupação da torcida brasileira, tem fortíssimas chances de quebrar esse tabu com “Valor Sentimental”, longa que já venceu o BAFTA e o European Film Awards. Com o detalhe de que, se em 2025 foi fácil torcer por “Ainda Estou Aqui” uma vez que “Emilia Pérez” é uma obra absolutamente execrável, desta vez é preciso deixar patriotadas passionais de lado e reconhecer: “Valor Sentimental” é um filme muitíssimos degraus acima do engodo que representou a França em 2025.

Temos chances de vitória? Sim. Mas, porém, contudo…

Em 2025, “Emilia Pérez” obteve 13 indicações ao Oscar contra 3 de “Ainda Estou Aqui”, e o filme de Walter Salles conquistou o prêmio de Melhor Filme Internacional.

Em 2026, “Valor Sentimental” está no páreo em 9 categorias, enquanto “O Agente Secreto” disputa 4. Não estamos mal nessa disputa, certo? Certo. Porém, neste ano não teremos tweets lamentáveis de atriz principal nem um concorrente que foi descrito como “zombaria eurocêntrica racista” para apimentar a competição. E, ufa, que bom que será assim.

“O Agente Secreto” conquistou premiações em festivais e círculos de críticos de cidades como Zurique, Hamburgo, Lima, Chicago, Estocolmo, Santiago, Los Angeles, Havana, Londres. Um filme profundamente recifense, que foi abraçado pelo mundo inteiro. Porém, “Valor Sentimental” também ostenta uma bela coleção de prêmios obtidos mundo afora. E também é filmaço, daqueles que acompanham nossos pensamentos dias a fio após o término da sessão. Assim como “Foi Apenas um Acidente”, longa de Jafar Panahi que ganhou, com sobra de méritos, a Palma de Ouro da mesma edição de Cannes da qual participaram os filmes de Kleber Mendonça Filho e Joachim Trier. E, para complementar esta disputa acirrada, outros dois concorrentes de respeito: “Sirât” (Espanha) e “A Voz de Hind Rajab” (Tunísia).

Um dos principais sites que fazem a cobertura desta temporada de premiações, o Gold Derby, aponta que as principais chances dos brasileiros estão nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Ator e Melhor Fotografia. Em todas elas, porém, estamos no segundo lugar nas apostas; respectivamente, atrás de “Valor Sentimental”, Timothée Chamalet (favorito pela sua atuação em “Marty Supreme”) e Autumn Durald Arkapaw (a primeira mulher negra a ser indicada ao Oscar da categoria, pelo seu excelente trabalho em “Pecadores”).

Convém alinhar expectativas: neste ano, estaremos na corrida como zebras (se alguma vitória brasileira acontecer, virá com gosto mais especial ainda).

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Teyana Taylor e Sean Penn em cena de “Uma Batalha Após a Outra”

P.S. 1: As duas categorias em que qualquer resultado pode rolar são as de atuações coadjuvantes. Nas principais premiações televisionadas até agora, as duplas de vencedores foram diferentes: Jacob Elordi (“Frankenstein”) e Amy Madigan (“A Hora do Mal”) no Critics’ Choice Awards, Stellan Skarsgård (“Valor Sentimental”) e Teyana Taylor (“Uma Batalha Após a Outra”) no Globo de Ouro, Sean Penn (“Uma Batalha Após a Outra”) e Wummi Mosaku (“Pecadores”) no BAFTA. Não me surpreenderia nem um pouco caso o Oscar premie outra dupla: se Delroy Lindo (“Pecadores”) e Inga Ibsdotter Lilleaas (“Valor Sentimental”) ganharem, serão vitórias muito justas.

P.S. 2: Olhos atentos à transmissão dos Actor Awards, pois: será no dia 1º de março, a partir das 22 horas, via Netflix. Os resultados dessa premiação, além de indicarem os favoritos às estatuetas de Atriz e Ator Coadjuvante, também apontarão as reais chances de Wagner Moura (que não foi indicado aqui) ser capaz de superar Timothée Chamalet na disputa pelo Oscar de Melhor Ator, e de “Pecadores” surpreender “Uma Batalha Após a Outra” na disputa pela estatueta de Melhor Filme.

P.S. 3: As interações entre os indicados ao Oscar nesta pré-temporada de Oscar costumam ser muito bacanas. Um dos meus momentos favoritos foi quando a norueguesa Inga Ibsdotter Lilleaas revelou que morou algum tempo em Goiânia (!) e aprendeu a falar português (!!) com a ajuda de uma novela protagonizada por Wagner Moura (!!!). Assista!

Pôster de campanha de “O Agente Secreto” com foco nas 4 indicações ao Oscar 2026!

– Alexandre Inagaki é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero, e consultor de mídias sociais. Já escreveu para a Rolling Stone Brasil, Trip e foi responsável pela criação e planejamento de campanhas online para Coca-Cola, Sony Pictures, entre outros. É curador da Campus Party e youPIX Festival. Publica textos na internet desde 1999. Começou em blogs coletivos e em seu próprio e-zine, chamado SpamZine. Além do Pensar Enlouquece, também foi um dos criadores do InterNey Blogs, um portal brasileiro de blogs.  (linktr.ee/alexandreinagaki)

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