Crítica: “A História do Som” traz Paul Mescal e Josh O’Connor em complexa e sinuosa história de amor

texto de Renan Guerra

Lionel e David se conhecem em um conservatório de música, no estado da Nova Inglaterra, e engatam um romance de convivência intensa. Com a chegada da Primeira Guerra Mundial, eles acabam se afastando novamente e só voltam a se reunir a partir de um projeto que busca registrar as vidas e as vozes de diferentes comunidades no interior do Maine, tudo através da preservação de canções populares – as folk songs do interior dos Estados Unidos. Esse é o ponto de partida de “A História do Som” (“The History Of Sound”, 2025), do sul-africano Oliver Hermanus. Produzido entre EUA, Reino Unido e Itália, o filme gerou burburinho desde sua produção por trazer dois dos mais importantes nomes da nova geração, Paul Mescal (como Lion) e Josh O’Connor (como David), em um romance homossexual. De lá pra cá foram mil e uma discussões, desde as acusações de “queerbaiting”, com dois atores heterossexuais dando vida a personagens gays, até as primeiras críticas que diziam que o filme não era “gay” o suficiente.

 

Debates a parte, “A História do Som” é realmente um filme bem mais contido do que muitos podem esperar. Há uma concisão, uma quase secura na forma como a trama é construída, em muito pelos cenários e universos ondem os personagens circulam, mas também pela forma como o diretor escolhe filmar essa narrativa. Há uma ausência de determinadas discussões de forma obvia – o longa não se debruça sobre as questões de ambos com sua sexualidade, mas foca essencialmente em seu relacionamento e nas fissuras e feridas que ele causará. E isso tem um motivo narrativo, já que a história se divide em duas partes: uma primeira, em que os personagens circulam por esse interior dos Estados Unidos, afastados do mundo, em que questões como homofobia e religiosidade parecem estar a parte de seus questionamentos (mesmo que, de forma indireta, mas tarde descobriremos no filme como um desses personagens era atormentado por essas questões); já em sua segunda metade, o filme se debruça sobre o afastamento dos personagens e os desdobramentos disso na vida do protagonista Lionel (Mescal).

Baseado em dois contos de Ben Shattuck de 2018, “The History of Sound” e “Origin Stories”, e roteirizado também por Shattuck, “A História do Som” se alinha a um cinema clássico, com uma elegância que muitas vezes pode ser lida como sisudez – dependendo da perspectiva do espectador. O romance homossexual histórico, em algum medida, nos remete ao universo de “Maurice”, por exemplo, clássico de E.M. Forster, transformado em filme em 1987, por James Ivory; mas podemos ir além, o filme de Oliver Hermanus cria paralelos com o próprio cinema literário de Ivory e também com o cinema histórico de James Gray. Conexões a parte, aqui temos estabelecido um universo estético e temático muito claro, que evoca essas raízes norte-americanas ao mesmo tempo em que as contrapõe com esse amor masculino, no meio da brutalidade desses homens com marcas de guerra e na secura desse ambiente é que brota uma historia inteiramente calcada no afeto, na humanidade e na paixão.

Dentro dessa fotografia minuciosa e envoltos em uma trilha sonora emocionante, o que saltam aos olhos são as presenças magnéticas de Paul Mescal e Josh O’Connor. Mescal cria em Lionel um personagem complexo, que cresce durante a projeção e que vai deglutindo o mundo ao seu redor e se transformando por onde passa, entendendo que é no olhar dos outros e na troca de afetos que ele cresce e se expande – mesmo que nisso ele fira e seja ferido de diferentes maneiras. O’Connor, por sua vez, cria um David cheio de minúcias e mistérios, que nos seduz, mas nem sempre nos revela tudo – construção que faz todo sentido a cada nova descoberta que o roteiro nos traz sobre ele, provando mais uma vez que O’Connor é o queridinho dos diretores atualmente pelo simples motivo de que ele realmente é muito foda! Destaca-se também a presença de Molly Price como a mãe de Lionel, em participação pequena, mas fundamental; Chris Cooper em atuação divina como a versão idosa de Lionel e, como surpresa, a pequena aparição de Hadley Robinson em momento crucial e dilacerante do filme.

Com seus formalismos, “A História do Som” pode ate afastar uma parcela do público, mas pode surpreender e emocionar quem estiver aberto a montar esse quebra-cabeça emocional. Entre a dor e o encantamento, o filme de Oliver Hermanus é uma ode a todos que passam pela nossa vida e, como furacões, nos transformam pra sempre, para aqueles que nos ajudam a ver o mundo com outros olhos e com mais beleza, e, por fim, uma ode ao cinema, a música e a arte como essa maquina dilacerante de emoções.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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