entrevista de Elsa Villon
Saindo do interior de Minas Gerais, as constantes viagens de Bemti e todas as suas referências dentro e fora do Brasil cruzaram o oceano para trazer as 10 faixas de seu terceiro álbum, “Adeus Atlântico” (2026), recém-lançado no final de janeiro. O disco é a soma de Brasil, Portugal e Inglaterra, em viagens que vão de Minas, Rio e Bahia até as outras extremidades do oceano.
A tradicional viola de 10 cordas que acompanha Bemti desde sempre novamente ganha contemporaneidade, aqui ao lado de metais, influências intercontinentais, indie pop, rap e até o som da Orla do Rio Tejo, no início (“Nenhum Tempo a Perder”) e no final do álbum (“Intermezzo”), em uma referência a sua passagem por solo lusitano. As experimentações contam com referências dos estilos Amapiano, da África do Sul, e Ziglibithy, da Costa do Marfim.
Bemti assina todas as composições, que contaram com a produção de Luis Calil, veterano dos discos anteriores e traz no currículo Jojô Inácio (Catto, Tagua Tagua e Johnny Hooker), Francisca Barreto (Damien Rice e Nina Maia) e Victor Kroner (Martin), além do argentino Martín Scian na masterização (Rubel e Ana Frango Elétrico).
Os sopros contam com Mauro Oliveira e Felipe Aires, Gabriel Eubank na bateria e Vitor Constantino na flauta. “Adeus Atlântico” também recorre ao uso de samples, na faixa “Melhor de Três”, que traz elementos da música “Ziglibithiens”, de Ernesto DjéDjé. O projeto também conta com participações transcontinentais: os mineiros FBC e Luar em “Euforia”; Marissol Mwaba (Brasil/Congo) em “Lua em Libra”; Alex D’Alva (Portugal/Angola) em “Miragem”; Fyfe Dangerfield (Reino Unido, vocalista da banda Guillemots) e a carioca THU em “Só Pra Ter Você”; e Haroldo Bontempo, conterrâneo de Bemti, em “Quase Sertão”.
Nesse terceiro disco, o tom é mais pop e direto, reflexo das influências dos últimos cinco desde o álbum anterior, “Logo Ali”, de 2021. Em entrevista ao Scream and Yell, Bemti destacou sua preocupação em criar algo na mão oposta das produções feitas com inteligência artificial, fazendo de suas referências e vivências uma “colcha de retalhos que une pessoas e lugares para que o som soasse o mais humano possível. Leia a conversa abaixo e assista ao álbum visual do disco de Bemti logo abaixo.
Como foi essa trajetória artística do interior de Minas Gerais para além do Atlântico?
Nossa, tem uma coisa no meu som, a viola caipira, e ela acaba sendo sempre uma âncora da minha raiz, por eu ter nascido literalmente na roça. Os meus avós tocavam viola em Folia de Reis. Eu só comecei a tocar viola quando já estava aqui em São Paulo, fazendo audiovisual. Mas as minhas principais referências e influências são muito do indie e do alternativo. Sinto que os meus dois primeiros discos, acho que principalmente o “Logo Ali” (2021), eu tinha um esforço de não deixar tão longe a MPB. Para esse disco novo, chutei o balde. Não tenho a menor preocupação se eu estou soando ou não MPB. E pelo contrário, acho que é um disco bem pop.
Essa coisa do som ser mais global tem a ver com a minha trajetória dos últimos anos, Morei um tempo em Portugal, fiquei um tempo na Inglaterra e fiquei muito tempo no Rio e na Bahia. Nesses últimos anos, escrevi mais de 30 músicas e muito desse grosso literário foi escrito no litoral. É meio o clichê mineiro obcecado pelo mar, mas tem essa coisa do som ser um reflexo dos lugares onde eu estava. Comecei a escutar muito Amapiano quando estava em Portugal, conheci uma cantora angolana incrível, a Chelsea Dinorath. Fizemos uma sessão de composição e tudo, e aí comecei a pirar com Amapiano e com outras coisas. Todas as participações do disco são esse quebra-cabeça aí junto.
Foi uma experiência empírica, considerando que você conheceu pessoalmente a artista. De qual parte de Minas Gerais você é?
Eu nasci numa fazenda num lugar chamado Serra da Saudade. É meio Alto Paranaíba, quase triângulo mineiro, mas é bem meio do nada. Está longe de BH, de Uberlândia, longe de Brasília.
O disco é bem onírico e traz esses elementos pop que você comentou, de um jeito bem humano. Como funcionou pra você essa questão de tentar fugir às estéticas de IA, trazendo esse lado humano considerando criações mais sintéticas e plásticas?
Acho que isso veio muito de uma angústia minha nos últimos dois anos, principalmente quando começou a aparecer cada vez mais a questão da IA na música. Parei e me perguntei: “Qual é a minha função agora?”. Acho que a experiência humana é sempre muito essencial à música, ao teatro, ao trabalho manual. Quando o disco estava se materializando, de 2024 para 2025, veio isso de levar as parcerias para um lugar de realmente cada música ser um caldeirão de pecinhas que refletem a minha jornada.
Conceitualmente tem muita coisa da memória, do deslocamento, de você se sentir estrangeiro. Eu queria que o disco tivesse meio que uma sensação de uma viagem que você está fazendo e você começa a sentir saudade enquanto expatriado. Essa subjetividade é uma coisa que a IA não te dá. A pessoa vai ouvir uma música minha e pode não ter ideia do que é uma viola caipira, ou de qual artista eu conheci em Portugal, como o Alex D’Alva em “Miragem”, ou o Fyfe Dangerfield e a Tuan em outras faixas. A resistência é buscar essa humanidade e tentar driblar a inteligência artificial com o que ainda nos faz humanos.
Gosto muito de viajar e senti que seu disco é para botar numa viagem de ônibus, assim, que você vai atravessando o estado e vai olhando as paisagens, com os cavalos, bois e cupinzeiros na estrada…
Super. É um disco muito road trip para mim. Ele me traz um feeling dos deslocamentos que eu tive nesses últimos anos. Eu escutei ele pronto pela primeira vez na frente do mar, no ano novo, descendo a Tamoios, às 5:30 da manhã. Era exatamente essa vibe. Tanto que a capa, a sessão de fotos e o clipe de “Melhor de Três” foram filmados em Ilhabela. Tem muito desse visual marítimo. O som que começa e termina o disco é gravado na Orla do Rio Tejo, em Lisboa.
Há inspirações pontuais para o “Adeus Atlântico”, algum cantor, álbum?
É uma mistura de muita coisa. Escutei muito a Maro, que é uma artista portuguesa incrível. Vi muito a Caroline Polachek. Mas tem os extremos: a faixa “Metal”, por exemplo, tem inspirações em bandas indie como Wild Nothing e bandas de metal gótico que eu ainda escuto, como The Gathering e Within Temptation. Eu sou formado em mineração e trabalhei seis meses na mina de nióbio do Walter Salles, lá em Araxá. “Metal” fala sobre a experiência de ser mineiro e o que você leva disso quando sai do seu lugar. Ao mesmo tempo, o refrão cita Milton Nascimento e a letra cita Ariano Suassuna.
Muitas referências, muitas camadas. Então você é um mineiro mineiro.
É mineiro. Até brinco que queria encontrar o Walter Salles e falar: “Cara, você não vai acreditar, mas eu já trabalhei na sua mina de nióbio”.
Um trecho que eu destaquei do release é sobre a “colcha de retalhos que une pessoas e lugares pelos quais eu passei desde 2022”. Que lugares foram esses?
Aqui no Brasil, fiquei muito tempo no Rio e na Bahia. Consegui concretizar o sonho de morar em Portugal em 2022. Na Inglaterra, fiquei em Londres e em Lincoln, e também na Escócia. Esse disco tem muito de uma história de amor que eu vivi e que conheci em Lisboa. O título “Adeus Atlântico” eu já tinha desde 2021, mas os significados foram mudando e ganhando camadas.

Vendo o detalhamento de canção por canção, há inúmeras possibilidades com sopro, metais, pianos somados também à viola caipira. Como se dá a coesão entre tantas sonoridades em uma obra única?
Confio muito no timbre da viola caipira como uma coluna cervical. Ela funciona como um fio condutor mesmo quando as músicas vão para o rap, disco, house ou soul. Mas o mérito é muito do Luiz Calil, meu produtor geral desde o primeiro disco. Ele é genial, tem uma banda chamada Cambriana. Trabalhar com ele é a sensação de que está sendo feito um download da minha cabeça. Neste disco, também trabalhei pela primeira vez com o Martin Scian, um argentino que fez a masterização.
Há algo que eu não perguntei que você gostaria de complementar?
Agora que o disco saiu, minha ansiedade é como fazer ele chegar nas pessoas. Ele soa moderno e abrangente, mas é um processo de convencimento explicar que tem um mineiro que toca viola caipira com referências africanas e um cantor gringo. Eu recebi a notícia hoje que o Instagram selecionou a música “Só Para Ter Você” para um destaque dentro da plataforma, o que é muito importante para um lançamento independente. Em uma era de excesso, a curadoria e o jornalismo musical tornam-se cada vez mais importantes. Nos shows, vou tocar a Viola Guitarra, que é um instrumento novo, um híbrido de viola caipira e guitarra Les Paul. Foi um luthier de BH que fez, o Sérgio, que faz instrumentos para o Pato Fu e Jota Quest. É um instrumento muito único no pop brasileiro.
– Elsa Villon é jornalista de dados, especialista em Mídia, Informação e Cultura e colecionadora de vinis que está sempre no garimpo nas horas vagas.